A expulsão dos jesuítas foi um evento do Império Português em 1759 durante o reinado de D. José I, sob a orientação do Secretário de Estado dos Negócios Interiores do Reino, o futuro Marquês de Pombal. Portugal foi o primeiro país europeu a expulsar os jesuítas.A supressão da Companhia de Jesus: episódio-chave de sua ação nas fronteiras da fé, acesso em 03 de abril de 2014.
História Antecedentes miniaturadaimagem|Marquês de Pombal, aponta para Lisboa reconstruída pós Terremoto de 1755. Pintura de van Loo e Vernet. (1767) O quadro político da Europa neste período foi marcado por regimes monárquicos absolutistas, cujas práticas eram contestadas pelas ideias do iluminismo. Nesse cenário tinha lugar o chamado despotismo esclarecido, personificado em Portugal pela figura do Marquês de Pombal.
Como exemplo dessas práticas, eram correntes no país o Regalismo e o Beneplácito Régio. O primeiro manifestava-se na intervenção direta do Estado em matéria religiosa e na diminuição dos poderes do Papa. A influência das ideias jansenistas e anglicanas era notória, trazidas pela influência do absolutismo francês e das tendências anti-romanas manifestadas por alguns setores do clero. O Beneplácito Régio, enquanto demonstração do Regalismo, está relacionado, em Portugal, com a supremacia da Secretaria de Estado em relação aos tribunais e instituições papais, cujos documentos (bulas, breves) necessitavam ser submetidos à apreciação do poder régio para a respectiva execução.
É à luz destas duas manifestações iluministas reinantes na política religiosa portuguesa, num ambiente de rivalidade entre jesuítas e oratorianos no interior da Igreja Católica ao tempo do Marquês de Pombal, que se registra a perseguição e expulsão da Companhia de Jesus do país, congregação religiosa com grande ascendência, a todos os níveis, principalmente após a Restauração da Independência (1640). Com claro domínio das esferas da Corte, das Missões na América e no Oriente, do ensino, da cultura intelectual, a Companhia despertou a desconfiança dos governantes e rivalidades de outras ordens religiosas e do clero secular. Estavam, assim, criadas as condições para a antipatia pombalina para com os religiosos desta Ordem.
A sociedade portuguesa, com todos os ideais iluministas, procurava uma nova cultura, que fosse moderna e protegida por um Estado secular. Não se tratava da supressão completa da Companhia de Jesus, mas de uma abertura para novas formas de pensamento, que fossem boas e positivas. Além disso, havia também a mudança social em relação ao crescimento industrial a partir da segunda metade do século XVIII. Com a proteção aos indígenas e o acúmulo de bens territoriais nos domínios portugueses, os jesuítas passaram a ser vistos com hostilidade pelo Estado, que os encarava como elementos desfavoráveis à economia mercantil.
Em 1741, foram publicadas duas bulas papais que proibiam os missionários do exercício de qualquer comércio e de autoridade secular, e cuja aplicação foi posteriormente cobrada pelo Marquês de Pombal na tentativa de minimizar o poderio dos jesuítas.Os Jesuítas no Brasil, acesso em 1º de novembro de 2016.
Para Pombal, a Companhia constituía-se num obstáculo à condução da sua política de reformas. Subjugada a nobreza com o Processo dos Távoras e setores do povo com a repressão ao motim do Porto (Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro), adivinhava-se uma perseguição ao clero.
As questões Jesuítas no Brasil
Na América Portuguesa, o trabalho de campo dos missionários da Companhia de Jesus foi responsável pela expansão dos limites do território colonizado. Contudo, existiam conflitos entre esses missionários e os colonos,Um dos primeiros registros desse conflito é de uma carta de 1592, enviada por Gabriel Soares de Sousa, um senhor de engenho no Recôncavo Baiano, que continha reclamações contra os jesuítas, relacionadas à proteção conferida por esses aos nativos (cf. Os Jesuítas no Maranhão e Grão-Pará Seiscentista: Uma Análise Sobre os Escritos dos Protagonistas da Missão, acesso em 11 de novembro de 2016.) conflitos esses mais acirrados no Estado do Maranhão. Esse desentendimento entre os Jesuítas e os colonos resultou em vários episódios de conflito dentre os quais se destacam a oposição às manifestações do Padre António Vieira (1608-1697) e a Revolta de Beckman (1684). No século seguinte, outros episódios de conflito ocorreram só que desta vez no sul do Estado do Brasil: a questão dos Sete Povos das Missões e a Guerra Guaranítica (1753-1756).
No norte do Brasil
Na época, a Companhia de Jesus: Na região correspondente aos atuais estados do Pará e do Maranhão, 155 jesuítas, espalhados por 17 aldeias, dois colégios e um seminário, administravam: mais de 100 mil cabeças de gado na Ilha de Marajó, 25 fazendas de cultivo agrícola e criação de gado, 3 engenhos produtores de açúcar, uma olaria, além da atividade de extração das selvas as "drogas do sertão" (cacau, cravo, canela etc.);GLIELMO, Gustavo Ferreira; Ocaso do poder jesuítico na Amazônia, Univ. FACE, Brasília, v. 4, n. 1/2, p. 187-203, jan./dez. 2007, PDFGLIELMO, Gustavo Ferreira; O projeto português para a Amazônia e a Companhia de Jesus (1751-1559), Repositório Institucional da UnB, Brasília, 2010, PDFFé na floresta , acesso em 06 de novembro de 2016.Ou 39 fazendas, 50 sítios, 489 escravos, 1.010 cavalos, 1.860 bestas e 50.670 cabeças de gado distribuídos em 1.206.612 hectares, cf. JESUÍTAS NO PIAUÍ: NEGÓCIOS E EDUCAÇÃO , acesso em 10 de novembro de 2016. No sul do Piauí e proximidades, administravam a herança deixada, em 1711, por Domingos Afonso Mafrense, que englobava 31 fazendas de gado, três residências com suas roças e 49 sítios arrendados a particulares.OLIVEIRA, Ana Stela de Negreiros; ASSIS, Nívia Paula Dias de; Padres e Fazendeiros no Piauí Colonial – Século XVIII ; Associação Nacional dos Professores Universitários de História - ANPUH; XXV Simpósio Nacional de História, Fortaleza, 2009; PDF Como resultado da expulsão, todos os bens da Companhia de Jesus foram confiscados pelo Império Português.
Na raiz dos conflitos entre as autoridades civis e eclesiásticas com os missionários jesuítas no norte do Brasil (atuais estados do Pará e do Maranhão), estavam reformas político-econômicas propostas pelo Marquês de Pombal, implementadas naquela região por seu meio-irmão Francisco Xavier de Mendonça Furtado, governador entre 1751 e 1759, que tinham cinco pilares: a Lei da Liberdade dos Índios; a Lei da Abolição do Governo Temporal das aldeias administradas pelos religiosos; a instituição da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão (que cerceou o comércio dos missionários);OS PRIMEIROS MISSIONÁRIOS E DESCOBRIDORES DO MARANHÃO, acesso em 04 de novembro de 2016. o Diretório dos Índios; e o redimensionamento da presença dos religiosos na região.
Tais medidas serviriam como base de sustentação para criar na Amazônia brasileira um novo quadro socioeconômico nos moldes do iluminismo, sob o argumento de ensaiar um governo dos índios por eles mesmos, no entanto, o resultado foi a autorização para o colonizador exterminar os povos indígenas, através do alvará de 7 de junho de 1755, que tirou a jurisdição dos jesuítas sobre os povos indígenas no Pará e no Maranhão, e em 8 de maio de 1758, a determinação foi estendida para todo o Brasil.
Boa parte desses conflitos tinham sua raiz no modo como os jesuítas administraram as aldeias sob seu controle, pois esses apartavam os povos nativos da sociedade colonial; sendo, desse modo, um obstáculo aos interesses dos colonos de explorar, sem restrições, o trabalho escravo dos povos nativos, portanto, pode-se concluir que as leis decretadas pelo Marquês de Pombal, atendiam os interesses dos colonizadores e bandeirantes. Tais conflitos estão entre as causas da expulsão dos Jesuítas do Grão-Pará e Maranhão, em 1759.RODRIGUES, Luiz Fernando Medeiros; As reformas político-econômicas pombalinas para a Amazônia e a expulsão dos jesuítas do Grão-Pará e Maranhão; Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS, Cadernos IHU ideias, ano 9, nº 151, 2011, ISSN 1679-0316, PDFRODRIGUES, Luiz Fernando Medeiros; A expulsão dos Jesuítas do Grão-Pará e Maranhão; Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS, entrevista em IHU On-Line, Edição 333, 14 Junho 2010, consulta em 2017-12-13
Como antecedentes próximos da referida expulsão, pode-se citar a expulsão de dez jesuítas no ano de 1757, com destaque para: o padre João Daniel, que apresentou reclamações ao governador contra uma lei de 1757, que retirou dos missionários a administração temporal das aldeias e, por isso, foi acusado de insubordinação; e os Padres André Meisterburg e Anselmo Eckart, acusados de terem armado os índios, de modo similar a fatos que teriam ocorrido na Guerra Guaranítica.
O Embaixador português no Vaticano, a pedido do Marquês de Pombal, denunciou a Companhia de Jesus pela prática de comércio no Estado do Grão-Pará e Maranhão, o que resultou na investigação dirigida pelo Cardeal Saldanha da Gama, indicado pelo Papa para o cargo de Reformador e Visitador da Companhia de Jesus no Estado do Grão-Pará e Maranhão. Em 1758, as investigações foram encerradas, e permitiram que o Cardeal confirmasse as denúncias, retirasse as faculdades de confessar dos jesuítas e condenou Lorenzo Ricci, então Superior-geral da Companhia de Jesus, por permitir a comercialização das "drogas do sertão".Os Jesuítas no Brasil, acesso em 03 de novembro de 2016.
Sobre esse tema, ver também: Missões religiosas na Amazônia Portuguesa.
A expulsão dos Jesuítas Após o Sismo de Lisboa de 1755, percebendo, no episódio, uma oportunidade para a reforma dos costumes e da moral, o padre jesuíta Gabriel Malagrida escreveu um opúsculo sobre moral"Juízo da verdadeira causa do terramoto" (1756). Nesta obra Malagrida reputava a catástrofe do ano anterior de castigo divino e defendia que o infortúnio dos desalojados se consolava com procissões e exercícios espirituais. do qual ofereceu exemplares a José I de Portugal e ao Marquês de Pombal. Este último, entretanto, entendeu a oferta e as exortações moralistas do religioso como uma insinuação acusatória, pelo que desterrou o religioso para Setúbal. thumb|right|180px|Retrato de Gabriel Malagrida na Biblioteca Nacional de Portugal. Pouco tempo depois, Pombal acusou os jesuítas de instigarem os motins contra si, nomeadamente contra a sua criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (Porto, 1757), o que lhe permitiu entre outras coisas o de extinguir as missões no Brasil e passar as suas enormes propriedades imobiliárias e empresariais para o Estado.
Os jesuítas, a tentar explicar a situação em que ficavam no Brasil, foram também expulsos da Corte em 1757. Nesta mesma data, Pombal inicia a sua campanha antijesuítica em Roma, acusando os padres da Companhia de praticarem comércio ilegal no Brasil e de incitarem as populações contra o governo. Averiguando a situação relatada pelo Ministro Português, a Santa Sé recebeu informações — manipuladas por aquele — sobre a veracidade das acusações feitas à Companhia de Jesus. Como resultado, os jesuítas foram suspensos de confessar e pregar em Lisboa, e o informador, o Cardeal Saldanha, foi recompensado com a cadeira patriarcal no ano seguinte (1758).
Em 3 de setembro de 1758, a carruagem do rei foi alvejada quando esse voltava da casa de sua amante, a esposa do Marquês de Távora. O monarca foi ferido e a rainha assumiu como regente. As investigações, durante o mês de dezembro, acusaram membros da alta nobreza, os quais foram imediatamente presos; entre eles integrantes da família dos Távoras (o número total de prisioneiros chegou a mais de mil, a maioria dos quais jamais foi julgada formalmente). Em 12 de janeiro de 1759, o José de Mascarenhas da Silva e Lencastre, então Duque de Aveiro, e diversos membros da família dos Távoras foram condenados à morte.