Amor de Perdição: Memórias de uma Família (também conhecido apenas como Amor de Perdição) é um filme épico histórico português de 1979, realizado por Manoel de Oliveira a partir de uma adaptação literal sua do romance homónimo de Camilo Castelo Branco.Amor(es) de Perdição – artigo de Ricardo Vieira em À Pala de Walsh, 21/10/12, Lisboa A longa-metragem é protagonizada por António Sequeira Lopes e Cristina Hauser, respetivamente Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, jovens amantes tragicamente separados por um amargo feudo entre as suas famílias aristocráticas. Filme invulgarmente longo, é o terceiro da «Tetralogia dos amores frustrados», designação atribuída pelo autor a O Passado e o Presente, Benilde ou a Virgem Mãe, Amor de Perdição e Francisca. A produção, estreada a 16 de setembro de 1979 (no Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz) e a 24 de novembro do mesmo ano (comercialmente, em Portugal), resultou, numa versão minissérie de mesmo nome, a preto e branco, exibida pela RTP1 entre novembro e dezembro de 1978.

Amor de Perdição é concebido numa sucessão de «quadros vivos» filmados com a câmara imóvel, em planos fixos, maioritariamente em décors de estúdio, com poucas tomadas de vista em exterior. A composição da imagem é bastante cuidada, em conformidade com tal deliberado artificialismo, por vezes com traços expressionistas.

Sinopse Primeiros anos do século XIX. Com nascimento em famílias rivais, desfiando os seus cânones e tradições, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, que muito se amam, resistem às pressões de quem os contraria: ela fora prometida a um primo, Baltazar Coutinho. Para evitar o casamento, entra num convento.

Desesperado, Simão mata Baltazar e vai para à prisão. Fiel aos seus rígidos princípios e furioso com os devaneios do filho que se apaixonara pela filha do seu pior inimigo, o pai de Simão, embora magistrado, nada faz para o ajudar. Embora em clausura, Simão e Teresa mantêm-se em contacto por escrito, graças à conivência de Mariana, jovem e fiel criada que entretanto se deixa levar por intenso e secreto amor por Simão.

Simão é condenado à morte, mas indultado e enviado para um exílio de dez anos de degredo na Índia. Embarca para o país. Antes, despede-se da figura tísica de Teresa que, depois de lhe acenar um derradeiro adeus pelas grades da janela da sua cela, no alto da torre do convento, cai morta nos braços da camareira. Simão morre na viagem e seu cadáver é lançado ao mar. Mariana, que para saciar sua secreta paixão o acompanha na viagem para o desterro, atira-se ao mar, agarra-se a ele e com ele se afunda. Amor de Perdição em CITI

Equipa artística

António Sequeira Lopes, como Simão Botelho. Cristina Hauser, como Teresa de Albuquerque. Elsa Wellenkamp, como Mariana. António J. Costa, como João da Cruz. Henrique Viana, como Tadeu de Albuquerque. Maria Dulce, como Rita Caldeirão. Ruy Furtado, como Domingos Botelho. Ricardo Pais, como Baltasar Coutinho. Maria Barroso, como Abadessa de Monchique. Adelaide João, como Madre Prioresa. João Bénard da Costa, como Comandante do Navio. Lia Gama, como Freira. Manuela de Freitas, como Freira. Vanda França, como Irmã de Baltasar. Henrique Espírito Santo, como Bispo. João César Monteiro, como Degredado.

Elenco adicional Teresa Colares Pereira Laura Soveral Pedro Pinheiro, como Voz do Delator Manuela de Melo, como Voz da Providência

Equipa técnica

Adaptação: Manoel de Oliveira Realização: Manoel de Oliveira Assistentes de realização: Jorge Martinho, Jaime Mourão Ferreira, Carlos Santana Diretores de produção: Henrique Espírito Santo (IPC), Marcílio Krieger, António Lagrifa Chefe de produção: Anabela Gonçalves Fotografia: Manuel Costa e Silva Eletricistas: Emílio Castro, José Mourao Decoração e figurinos: António Casimiro Aderecista: João Luís Pintor: José Luciano Caracterização: Luís de Matos Fotografia de cena: Albano Pereira, Carlos Santana Diretor de som: Carlos Alberto Lopes, João Diogo Operador de som: José de Carvalho Sonoplastia/misturas: Luís Barão Música: João Paes, Sonata Opus 5 de Georg Friedrich HaendelCruz, F., & Carvalho, B. (2016). “A incestuosa relação entre o romance e o cinema”: o caso de Amor de Perdição. s.p. Abstract from III Encuentro Iberoamericano de Jóvenes Musicólogos, Sevilha, Spain. Execução musical: Ricardo Ramalho, Joao Nogueira, Adolf Thorn Coreografia: Margarida de Abreu Montagem: Solveig Nordlund Laboratório de imagem: Tobis Portuguesa, Éclalr (Paris) Laboratório de som: Valentim de Carvalho, Nacional Filmes

Produção miniaturadaimagem|Amor de Perdição é uma adaptação literal do romance homónimo de Camilo Castelo Branco. Amor de Perdição: Memórias de uma Família é uma produção portuguesa entre o Instituto Português de Cinema, Centro Português de Cinema, Radiotelevisão Portuguesa, Tobis Portuguesa e Cinequipa, com a participação financeira da Fundação Calouste Gulbenkian. A obra terá tido um custo de cerca de 24.000 contos, tornando-a, à época, a mais cara do cinema português. É uma adaptação literal do romance homónimo de Camilo Castelo Branco e a terceira adaptação cinematográfica depois de Amor de Perdição (1921) de Georges Pallu e Amor de Perdição (1943) de António Lopes Ribeiro.

Com uma duração total de 252 minutos, o negativo original de 16 mm (2860 metros) foi restaurado pela Cinemateca Portuguesa em ampliação para 35 mm, ainda durante a vigência de João Bénard da Costa, então seu diretor.

Desenvolvimento No rescaldo do 25 de abril de 1974, a RTP pretendia consolidar os novos ares pós-revolucionários com um ambicioso projeto de prestígio cultural que retribuísse o orgulho de ser português. Para tal depositou a sua confiança em Manoel de Oliveira no seu projeto de adaptação de Amor de perdição. Na sua abordagem ao argumento, Oliveira opta pela leitura de um romance cinematográfico numa transcrição quase completa na íntegra do texto de Camilo Castelo Branco. Oliveira elege este romance por sugestão do amigo e tutor intelectual José Régio, depois de apostar na realização de filmes em cujas histórias convergem elementos sentimentais e que acabam por se agrupar no que se denomina a Tetralogia dos Amores Frustrados: O Passado e o Presente (1968), Benilde ou A Virgem Mãe (1974), Amor de Perdição (1978) e, posteriormente, Francisca (1981).

Rodagem O filme foi rodado entre novembro de 1976 e novembro de 1977 nos estúdios da Tobis Portuguesa. Na altura, representou um verdadeiro desafio técnico, rodado inteiramente em 16mm, com dois actores desconhecidos como protagonistas e um grande constrangimento crítico. As cenas exteriores foram gravadas no Porto, em Coimbra e na Quinta de S. Miguel em Viseu.

Minissérie

Para além da versão para cinema, Amor de Perdição: Memórias de uma Família conta com uma outra versão mais longa para televisão, no formato de minissérie com seis episódios, que foi exibida na RTP1 a partir de 12 de novembro de 1978, na faixa horária das 22h. Não estando ainda a RTP equipada para difundir a cor, o filme foi exibido a preto e branco.Amor de Perdição na base de dados Amor de Perdição A versão televisiva é constituída por mais algumas filmagens além das planeadas para a versão de cinema, englobando prólogos aos diferentes episódios.José de Matos-Cruz, Cais do Olhar, ed. Cinemateca-Portuguesa-Museu do Cinema, 1999

Lista de episódios EpisódiosTransmissão originalDia da semanaEstreiaFinal6+1 Documentário12 de novembro de 197824 de dezembro de 1978Domingo

Abaixo, estão listados os episódios da minissérie Amor de Perdição: Memórias de uma Família. #TítuloArgumentoRealizaçãoTransmissão Original1Episódio n.º 1Manoel de OliveiraManoel de Oliveira12 de novembro de 1978No início do século XIX, Simão e Teresa são filhos de famílias rivais de Viseu, os Botelhos e os Albuquerques. Entre ambos, inicia-se uma paixão proibida, que faz lembrar a de Romeu e Julieta.2Episódio n.º 2Manoel de OliveiraManoel de Oliveira19 de novembro de 1978Teresa deveria casar com um primo, Baltasar Coutinho, mas o seu amor por Simão leva-a a rejeitar o pretendente. Magoado, Baltasar Coutinho convence o pai da amada, Tadeu de Albuquerque, a enviá-la para o Convento de Monchique, no Porto.3Episódio n.º 3Manoel de OliveiraManoel de Oliveira26 de novembro de 1978Simão não está pelos ajustes e, sob a proteção do ferreiro João da Cruz, pretende tentar que Teresa seja sua. Mal sabe João da Cruz que a sua própria filha, Mariana, rapariga boa e abnegada, sente por Simão um amor absoluto e sem esperança. Aceita servir de intermediária entre Simão e Teresa.4Episódio n.º 4Manoel de OliveiraManoel de Oliveira3 de dezembro de 1978Desesperado, Simão espera o rival, Baltasar Coutinho, à saída da cidade de Viseu. Trava-se de razões com Baltasar e mata-o a tiro. Simão entrega-se logo à justiça.5Episódio n.º 5Manoel de OliveiraManoel de Oliveira10 de dezembro de 1978Preso na Cadeia da Relação do Porto, Simão é condenado ao degredo na Índia. O pai, magistrado, recusa-se ajudá-lo por não lhe perdoar que ame a filha do seu pior inimigo. Das respetivas celas, Simão e Teresa correspondem-se por escrito, com a ajuda de Mariana.6Episódio n.º 6Manoel de OliveiraManoel de Oliveira17 de dezembro de 1978Simão embarca para a Índia e Mariana decide acompanhá-lo no exílio. No caminho, ao passar de barco junto ao Convento, Simão consegue avistar o vulto da sua amada, que se despede dele, já moribunda. Esgotada pela desgraça e tristeza, Teresa morre instantes depois. Horas depois, Simão toma conhecimento da morte de Teresa e morre também. Mariana suicida-se após a morte dele, abraçando-se ao cadáver de Simão quando é atirado ao mar.7Episódio zeroJaime CamposJaime Campos24 de dezembro de 1978A minissérie termina com um documentário-extra, a preto e branco, sobre as rodagens do filme.

Estética e temas Sem nunca perder de vista a obra de Camilo, a adaptação de Oliveira discute os mesmos temas do romance: a transgressão das leis e normas sociais e a sua substituição por novos padrões de comportamento criados pelos personagens centrais e que são obedecidas até a morte ou a loucura.

Com a sua reconstituição histórica do início do século XIX, Amor de Perdição tem afinidades com filmes épicos de orçamento reduzido como Park Row de Sam Fuller e Hitler, ein Film aus Deutschland de Hans-Jürgen Syberberg. Elliot Stein comparou os princípios de economia do filme aos de Robert Bresson. Obedecendo a uma estética de economia, que reduz o espetáculo a uma abstração de amor em vez de uma solução hollywoodiana, os longos takes de Oliveira são colocados em frente de fundos pintados e intermitentemente orquestrados de acordo com uma partitura de percussão de João Paes. Desde a fotografia à narração "off ", ao dramatismo da ação, o filme apresenta uma inconstante evolução de planos. De facto, é concebido numa sucessão de «quadros vivos» filmados com a câmara imóvel, em planos fixos, maioritariamente em "décors" de estúdio, com poucas tomadas de vista em exterior. A composição da imagem é bastante cuidada, em conformidade com tal deliberado artificialismo, por vezes com traços expressionistas. Os planos estáticos, conjugados com atores sem emoção, provocam um efeito anti-naturalista, que enaltecem o valor da palavra original, representada aqui pelo narrador. À medida que personagens e situações se intensificam, a câmara aproxima-se durante certos takes longos, obedecendo ao princípio de que a intimidade e as emoções têm que ser ganhas antes de serem mostradas.