Manuel António Gomes (Cendufe, Arcos de Valdevez, – Santa Maria Maior, Viana do Castelo, ), mais conhecido como Padre Himalaia, foi um sacerdote católico, cientista e inventor, pioneiro do aproveitamento da energia solar e introdutor em Portugal do interesse pelas energias renováveis. Foi vegetarianoOs Grandes Portugueses - Padre Himalaia , RPT. Acesso em 10 de agosto de 2009. e defensor da naturopatia, em particular da fitoterapia e da hidroterapia.

Biografia Manuel António Gomes nasceu em Cendufe, concelho de Arcos de Valdevez, um dos sete filhos de uma família de lavradores pobres de Arcos de Valdevez, Gomes António Fernandes, natural da freguesia de Souto, e Maria Joaquina, também natural da freguesia de Cendufe.Ciência em Portugal - Personagens e episódios: Manuel Himalaya (1868-1933). Terminou em 1880, com 11 anos de idade, os estudos elementares na escola primária do Souto, uma aldeia próxima da sua terra natal onde ao tempo vivia com os avós. Depois de uma interrupção nos estudos, período durante o qual trabalhou na lavoura familiar, ingressou em 1882, com 15 anos de idade, no Seminário de Braga,Padre Himalaya - Homem de ciência, pioneiro da ecologia em Portugal. ficando integrado no Colégio do Espírito Santo, um instituto criado para acolher estudantes pobres. Tal como o seu irmão Gaspar, que também seria sacerdote, a família tinha-o destinado à vida clerical, ao tempo o destino dos jovens rurais que no ensino primário se revelavam bons alunos, mas cujas famílias não podiam suportar os custos do ensino liceal e superior.

As suas origens rurais, com forte ligação à agricultura e às crenças e tradições populares minhotas, influenciaram de forma marcada o seu pensamento: manteve ao longo de toda a sua vida um grande interesse pelas culturas agrícolas, em especial nas questões relativas à fertilização dos solos e da produção de adubos e da escolha de plantas e cultivares a empregar em função do solo e do clima. Outra vertente que o influenciaria profundamente foi o pendor para o curandeirismo e para a medicina popular, matéria a que dedicaria grande atenção. A estes interesses associava uma apaixonada curiosidade pelas ciências naturais, pelo contacto com a terra e pela observação empírica dos fenómenos."Himalaia, Manuel António Gomes" in Joaquim Fernandes, O Grande Livro dos Portugueses Esquecidos, pp. 177-180. Círculo de Leitores/Temas e Debates, Lisboa, 2008 (ISBN 978-989-644-023-7).

A sua elevada estatura levou a que os colegas de seminário lhe dessem a alcunha de Himalaia, que adoptou informalmente, passando a utilizá-la como se fora parte do seu nome. Por essa razão, Manuel António Gomes passaria à posteridade como o «Padre Himalaia», ou «Padre Himalaya» na grafia da época.

Durante os seus estudos no Seminário de Braga, aprofundou o gosto pelo acompanhamento do progresso tecnológico, a que associava uma paixão pelo experimentalismo e pela inovação técnica, nomeadamente nos campos da agricultura e das ciências físicas. Recorrendo à biblioteca do Seminário, que por iniciativa do arcebispo João Crisóstomo de Amorim Pessoa tinha recebido cerca de 7000 volumes, dedicou-se à leitura das obras disponíveis sobre as ciências naturais, aprofundando os seus conhecimentos muito para além dos ensinamentos ministrados aos seminaristas. A sua irrequietude, pensamento irreverente e ideias filosóficas próprias, a que associava a ocasional oposição ao discurso dogmático dos professores, não fizeram dele um seminarista modelar, mas ainda assim, feitas em 1886 as regulamentares inquirições à sua idoneidade pessoal e familiar, completou o seminário preparatório a 21 de Junho de 1887 e iniciou no ano letivo seguinte o curso teológico conducente à ordenação sacerdotal.

Ainda aluno do Seminário de Braga, sabendo da associação que os pastores faziam entre a abundância de trovoadas no ano e a fertilidade do solo na primavera seguinte,Terá ouvido entre habitantes do Soajo o comentário «este ano havemos de ter muito feno na serra porque o ano foi de muitas trovoadas». Cf. "Himalaia, Manuel António Gomes" in Joaquim Fernandes, O Grande Livro dos Portugueses Esquecidos. Círculo de Leitores/Temas e Debates, Lisboa, 2008, p. 177. relacionou esse aumento da fertilidade com a fixação de azoto atmosférico por efeito dos raios, o que julgou poder reproduzir utilizando a energia solar concentrada por espelhos ou lentes.

Com aquele intento, a partir de 1889 iniciou a sua busca de um método que permitisse aumentar naturalmente a fertilidade dos solos através da captação do azoto atmosférico. Para tal procurou desenvolver um aparelho capaz de transformar o azoto livre em «azotatos de amoníaco», ou seja em sais azotados derivados da amónia. A questão da síntese do amoníaco era ao tempo uma das mais promissoras áreas de investigação química, despertando enorme interesse pelas suas implicações na agricultura e na produção de explosivos. Nesse contexto, o interesse de Manuel António Gomes por esta temática coloca-o numa das áreas de ponta da investigação em engenharia química do seu tempo, associando-o a um percurso que teria o seu desfecho em 1910 com a concessão da patente da síntese de Haber-Bosch. Por outro lado, o seu interesse na separação dos componentes do ar atmosférico como forma de extrair o azoto também se interliga com a investigação de ponta daquela época, em particular com os trabalhos do professor alemão Carl von Linde, que a partir de 1895 começou a desenvolver o processo de liquefazer o ar por arrefecimento em contracorrente que está na base do ciclo Hampson-Linde.

Consciente da importância dos compostos azotados na fertilização, e conhecedor das dificuldades práticas que impediam a síntese de compostos azotados a partir do azoto molecular abundante na atmosfera, Manuel António Gomes optou por tentar utilizar a energia solar, concentrada com recurso a um aparelho óptico adequado, como forma de conseguir criar as condições de muito elevada temperatura que se verificam em torno dos raios das descargas eléctricas das trovoadas, a fonte que conhecia de compostos azotados utilizáveis pelas plantas. A ideia de utilizar a energia solar provavelmente resultou da leitura de um artigo publicado pelo periódico A Província, de Janeiro de 1888, em que eram descritas as experiências realizadas por Augustin Mouchot, o inventor que criara um forno solar onde um cadinho era aquecido a muito elevadas temperaturas. Foi a partir dessa busca por uma solução para o problema da fertilidade dos solos que iniciou a sua investigação em torno da criação de uma máquina solar, a que daria mais tarde o nome de pirelióforo (na grafia coeva pyrheliophoro, do grego: pyros, "fogo" + helios, "sol" + pheros, "que traz"), interesse que ocuparia a maior parte da sua vida.

Entretanto, em 2 de Junho de 1890 terminou o seu curso teológico, e no outono desse ano começou a leccionar no Colégio da Formiga, em Ermesinde, onde trabalhou durante todo aquele ano letivo, iniciando ali a fase prática das suas investigações solares. A 26 de Julho de 1891 foi ordenado presbítero, iniciando funções sacerdotais. Entretanto amadurecera a ideia da extração de compostos azotados do ar e assumiu o propósito de desencadear o ciclo completo da extracção do azoto da atmosfera, usando o calor do Sol para benefício das colheitas.

No ano seguinte decidiu matricular-se no curso de Matemática da Universidade de Coimbra, razão pela qual procurou emprego em Coimbra. Foi nomeado em 1891 capelão no Colégio dos Órfãos, sendo pouco depois nomeado vice-reitor da instituição. Contudo, em 1892 demitiu-se solidariamente com o reitor, que fora acusado de violência nos castigos aplicados a alguns órfãos. Gorado o intento de encontrar ocupação em Coimbra, e abandonada a ideia de frequentar a Universidade, mudou-se para Vila Real e depois para Fânzeres, onde recebeu o apoio de Manuel de Clamouse Brown van Zeller e de sua esposa Camila de Araújo Rangel, então residentes na Quinta de Montezelo, que o contratam como preceptor dos seus filhos.

Nos cinco anos seguintes, entre 1892 e 1897, mantém uma ligação intermitente com a família Araújo Rangel, de Fânzeres, para quem nominalmente trabalha, mas dedica-se aos seus estudos sobre a energia solar e inicia as suas viagens de estudo. Terá visitado a África, onde contraiu malária, e realizado viagens pela Europa. Sabe-se que esteve nas termas de Bad Wörishofen, na Alemanha, onde conheceu Sebastian Kneipp, o diretor da estação hidrotermal, também sacerdote e adepto da hidroterapia (na qual desenvolveu a Terapia Kneipp ainda em uso) e da fitoterapia. Deste encontro resultou um acrescido interesse do Padre Himalaia pelas terapias populares baseadas em plantas medicinais e o estabelecimento de contactos com os principais investigadores e defensores do naturismo. Também datará desta época a opção pela alimentação vegetariana e por um estilo de vida que procurava manter a saúde através de preceitos dietéticos e de exercício físico.

Também neste período, especialmente a partir de 1893, iniciou um conjunto de excursões pelo centro e sul de Portugal visando a recolha de espécimes da flora, em particular de plantas consideradas medicinais ou com usos agronómicos tradicionais. Nestas viagens de herborização colaborou com o Júlio Henriques, então diretor do Jardim Botânico de Coimbra e principal autoridade em matéria de botânica e flora em Portugal. Colaborou com este cientista na organização da tradução do manual de Ferdinand von Mueller sobre as plantas úteis para cultura em regiões extratropicais (que apareceu em 1905 com o título de Dicionário de Plantas Úteis) e na formação de um conjunto de colaboradores espalhados pelo território português no intuito de organizar a pesquisa da flora portuguesa, nomeadamente a sistematização das plantas medicinais. Também anotou uma reimpressão da 3.ª edição em língua portuguesa da obra de Sebastian Kneipp intitulada Tratamento pela Água,Sebastião Kneipp, Tratamento pela agua ou higiene e medicação: para a cura das moléstias e conservação da saúde; trad. J. J. Alves d'Araujo. 3.ª edição. Braga: Livraria Escolar de Cruz & Ca., 1893. A reimpressão apareceu em 1896. A obra original intitulava-se Meine Wasserkur e fora inicialmente publicada em 1886, conhecendo ao longo das décadas seguintes mais de meia centena de edições em alemão. que fora traduzida por Alves de Araújo, professor do Liceu de Braga. Esta ligação a Sebastian Kneipp fez do Padre Himalaia um dos mais reputados defensores do kneippismo em Portugal e das suas concepções terapêuticas inspiradas no naturismo, em particular na defesa da hidroterapia e da fitoterapia associadas a opções dietéticas de base vegetariana.

Neste período também colaborou com o periódico A Palavra, publicando artigos de opinião em defesa da doutrina social da Igreja, como exposta pelo papa Leão XIII, numa das poucas facetas da sua vida pública em que mantém ligação ao sacerdócio e à ação pastoral da Igreja Católica.

No ano de 1898 conseguiu o lugar de docente no Colégio da Visitação, na cidade do Porto. Para além das suas funções como educador, continuou os seus estudos das ciências naturais, em particular da botânica médica. Como aplicação prática, prepara elixires, pomadas e tisanas que distribuía pelos familiares e amigos e que fornecia aos doentes menos abonados. Também participou nos trabalhos de ampliação das instalações do Colégio, durante as quais resolveu explorar as técnicas da radiestesia, conseguindo descobrir água no reduto da instituição. Terá sido o autor do projeto de uma parte da estrutura metálica da ala norte do novo edifício anexo ao Colégio e da estrutura da capela.