McCartney é o álbum de estreia do músico britânico de rock Paul McCartney, lançado em 17 de abril de 1970 pela Apple Records. Foi gravado em segredo, usando principalmente equipamentos de gravação básicos, em sua casa em St. John's Wood. A mixagem e alguns overdubs aconteceram em estúdios profissionais de Londres. Paul deixou de lado o polimento dos discos anteriores dos Beatles em favor de um estilo lo-fi. Exceto por contribuições ocasionais de sua esposa, Linda, Paul executou o álbum inteiro sozinho.

McCartney gravou o álbum durante um período de depressão e confusão, após a saída de John Lennon dos Beatles em setembro de 1969. Conflitos sobre o lançamento do álbum de Paul o afastaram ainda mais de seus ex-companheiros de banda, pois ele se recusou a atrasar o lançamento de seu álbum em benefício dos previamente agendados, como o álbum Let It Be, pedido por meio de um carta entregue por Ringo Starr. Paul relembra "Todos, para mim, estavam me tratando como lixo. Era algo do tipo "Somos os grandes, somos os adultos". Um comunicado à imprensa na forma de entrevista, fornecida com algumas cópias promocionais de McCartney, tornou pública a separação dos Beatles.

McCartney recebeu principalmente críticas negativas, enquanto Paul foi culpado pela separação do grupo. O álbum foi amplamente criticado por sua produção e por suas canções inacabadas, embora a canção "Maybe I'm Amazed" tenha sido constantemente elogiada. Comercialmente, McCartney se beneficiou da publicidade em torno da separação; ocupou a primeira posição por três semanas na parada de LPs da Billboard antes de ceder essa posição para Let It Be. Atingiu a 2ª posição na Grã-Bretanha.

Nos anos posteriores, o álbum foi reconhecido por ter tido um impacto sobre músicos do gênero lo-fi. Paul McCartney também gravou dois álbuns sucessores: McCartney II (1980) e McCartney III (2020). Em 2011, o álbum foi remasterizado e relançado com faixas bônus como parte da Paul McCartney Archive Collection. Contexto Depois que John Lennon pediu o "divórcio" dos Beatles em uma reunião da banda em 20 de setembro de 1969, Paul McCartney retirou-se para sua fazenda em Campbeltown, na Escócia.Bruce Spizer Em seu livro, Solo in the 70s: John, Paul, George, Ringo 1970 - 1980, o autor Robert Rodriguez descreve seu estado de espírito como "com o coração partido, chocado e desanimado com a perda do único emprego que ele conheceu". Embora a saída de Lennon não tenha sido oficializada, em parte por motivos de negócios, o período de reclusão de McCartney com sua família coincidiu com rumores generalizados nos Estados Unidos de que ele havia morrido. O boato foi dissipado por jornalistas da rádio BBC e da revista Life, que o localizaram em sua fazenda, High Park.

Os dois meses de McCartney na Escócia criaram um distanciamento entre ele e seus ex-colegas de banda, além da divisão causada pela nomeação de Allen Klein como gerente de negócios em maio daquele ano. McCartney mais tarde citou a nomeação de Klein como a primeira "diferença irreconciliável" dentro dos Beatles, já que ele continuava a favorecer os advogados Lee e John Eastman – pai e irmão, respectivamente, de sua esposa Linda. Para Paul, o período após a saída de Lennon também foi marcado por um surto de depressão severa, durante o qual, segundo ele mesmo, esteve perto de sofrer um colapso nervoso.

Em seu livro, Fab: An Intimate Life of Paul McCartney, o escritor Howard Sounes escreve sobre o exílio de Paul e sua família em High Park: "Isso foi desagradável para Linda. Ela tinha uma filha de sete anos e um bebê para cuidar, com um marido que estava deprimido e bêbado. Mais tarde, ela disse a amigos que foi um dos momentos mais difíceis de sua vida, enquanto Paul refletia que ele poderia ter se tornado uma 'vítima' do rock 'n' roll neste ponto de sua carreira." Com o incentivo de Linda, Paul começou a considerar um futuro fora dos Beatles, escrevendo ou terminando canções para o seu primeiro álbum solo, McCartney.

Canções e produção

Dezembro de 1969 – janeiro de 1970: gravações caseiras

McCartney e sua família retornaram a Londres pouco antes do Natal de 1969, e ele começou a trabalhar no álbum em sua casa em Cavendish Avenue, em St John's Wood. As gravações foram realizadas em um gravador de fita da marca Studer, sem mesa de som, e, portanto, sem compressor como guia para os níveis de gravação. Paul descreveu seus equipamentos de gravação como "Studer, um microfone e nervos". Ele tocou todos os instrumentos musicais do álbum – guitarras, baixo, teclados, bateria e outros instrumentos de percussão – com Linda fornecendo os vocais de apoio em algumas faixas.

As gravações do álbum ignoraram a sofisticação musical presente nos trabalhos anteriores dos Beatles com o produtor George Martin, em particular presentes no álbum Abbey Road, lançado no ano anterior. De acordo com The New Rolling Stone Encyclopedia of Rock & Roll, McCartney é "um disco de uma banda de estúdio" com "uma qualidade caseira pronunciada; era escasso e parecia quase inacabado". O crítico musical Robert Rodriguez escreve que, ao evitar a "estética de estúdio", "à sua própria maneira, (Paul) estava retomando o tema 'como pretendido pela natureza' (espontâneo) das sessões abortadas de Get Back, embora como uma banda de um homem só."

A primeira faixa gravada foi uma porção de 45 segundos de uma canção que compôs em Campbeltown, "The Lovely Linda". Como aconteceu com grande parte do álbum, McCartney cantou acompanhado de seu violão antes de preencher os restantes canais de áudio com uma parte de guitarra, baixo e um acompanhamento percussivo. Embora esta performance de "The Lovely Linda" fosse apenas um teste do novo equipamento, ela seria incluída no lançamento oficial, como faixa de abertura, com risadas de Paul e Linda no final da gravação. Refletida na sequência do álbum, a segunda e a terceira canções gravadas por McCartney foram "That Would Be Something", também escrita na Escócia, e a faixa instrumental "Valentine Day". Essa última foi uma das três canções de McCartney que Paul improvisou, junto com as canções "Momma Miss America" e "Oo You".

Em 3 de janeiro de 1970, ele interrompeu o trabalho em McCartney para participar da última sessão de gravação dos Beatles, quando ele, George Harrison e Ringo Starr gravaram "I Me Mine" em EMI Studios. No dia seguinte, os três músicos revisitaram a canção "Let It Be", gravada pela banda em janeiro de 1969 para o seu próximo projeto cinematográfico, Get Back.

Fevereiro de 1970: Morgan Studios Em 12 de fevereiro, McCartney levou suas fitas para o Morgan Studios, no subúrbio de Willesden, para converter todas as gravações de quatro canais em fitas de oito canais, permitindo assim mais overdubs. Para manter o sigilo sobre o projeto, Paul trabalhou sob o pseudônimo de "Billy Martin". A essa altura, ele também havia gravado as canções "Junk" e "Teddy Boy" em sua casa, essas duas que ele começou a escrever durante a visita dos Beatles à Índia em 1968 e havia ensaiado com a banda em janeiro de 1969. As outras gravações transferidas para os oito canais incluem "Glasses" – uma colagem de efeitos sonoros e "Singalong Junk", uma versão instrumental de "Junk" para a qual ele adicionou um mellotron. Entre outras gravações feitas por cima dessas mixagens de oito faixas, McCartney forneceu um vocal para "Oo You", anteriormente instrumental.

Enquanto estava no Morgan, ele também gravou as faixas "Hot As Sun" e "Kreen-Akrore", que Howard Sounes descreve como uma "canção (de percussão) experimental". Iniciada em 12 de fevereiro, "Kreen-Akrore" foi a tentativa de Paul de descrever sonoramente uma caçada por comunidades indígenas panarás na Amazônia, após ter assistido a um documentário sobre o modo de vida deles. Em meio a interlúdios com guitarra elétrica, órgão e piano, Paul utilizou um arco e flecha que comprou em uma loja de departamentos, de acordo com o engenheiro Robin Black. Este último estava entre as poucas pessoas que sabiam que Paul estava fazendo um álbum solo. Linda contribuiu com a respiração e os sons de animais, com Paul, em "Kreen-Akrore".

Fevereiro – março de 1970: EMI Studios Em 21 de fevereiro de 1970, Paul mudou-se para EMI Studios (atual Abbey Road Studios) com o qual tinha mais afinidade, novamente sob o nome de "Billy Martin". Lá, ele fez mais mixagens no material gravado anteriormente, bem como gravou novas faixas. Em 22 de fevereiro, Paul gravou "Every Night" – outra composição ensaiada durante as sessões de Get Back. No mesmo dia, Paul gravou "Maybe I'm Amazed", uma balada dedicada a Linda, e em descrição, "a faixa (instrumental) mais elaborada do disco". A última gravação para o álbum foi "Man We Was Lonely", que ele gravou em 25 de fevereiro, tendo-a composta no início daquele dia. É a única faixa do álbum em que os vocais de Linda são mais perceptíveis.

As mixagens finais de canções como "Junk" e "Teddy Boy" foram concluídas no Morgan Studios junto às faixas restantes do álbum. Durante esse processo, "Hot as Sun" e "Glasses" foram transformadas em um medley, terminando com um trecho de Paul tocando a canção "Suicide" no piano. "Suicide" era uma composição que ele pretendia que Frank Sinatra gravasse. Ele também juntou duas faixas instrumentais em uma para "Momma Miss America"; Paul pode ser ouvido gritando o título original da primeira parte, "Rock 'n' Roll Springtime", na gravação.

Em 23 de março, enquanto o produtor Phil Spector começava a mixar as fitas do projeto Get Back, que viria a ser o álbum Let It Be, no Estúdio 4 do EMI, Paul concluía seu álbum no Estúdio 2. Embora Paul tenha afirmado frequentemente que ignorava o envolvimento de Spector até receber um acetato do álbum para aprovação, o autor de A Batalha Pela Alma dos Beatles, Peter Doggett, escreve que após várias semanas, Paul finalmente "respondeu à série de mensagens que ele recebeu sobre Spector" e concordou em deixá-lo preparar o Let It Be para lançamento.

Arte da capa Para a capa do álbum, o artista Gordon House e o designer Roger Huggett trabalharam em algo pensado por Paul. Fotos tiradas por Linda são incluídas em uma colagem de 21 fotos na parte interna do álbum. As imagens mostram Paul, Linda, Heather, a recém-nascida Mary e a sheepdog Martha. A arte em McCartney seria a primeira dos álbuns de Paul a apresentar fotografias de Linda.

Ambientado em um fundo preto, a capa consiste em uma tigela com um líquido vermelho claro, em cima de um muro cor creme, cercada de várias cerejas vermelhas, como se elas tivessem sido retiradas da tigela. Na contracapa, uma foto tirada por Linda, na Escócia, mostra Paul com Mary dentro da sua jaqueta de couro e pele. Os autores Madinger e Easter comentam que, ao contrário de Lennon, McCartney não sentiu a necessidade de incluir sua esposa na capa, e a foto na contracapa foi uma contribuição "impressionante" da fotógrafa.

Lançamento

Conflito de agendamento

Paul disse que "boicotou" os escritórios da Apple Records após a chegada do empresário Allen Klein em 1969. Seu isolamento contínuo levou John, George e Ringo a tomar decisões de negócios sem a contribuição de McCartney. Uma decisão dizia a respeito ao lançamento do filme documentário Let It Be, uma necessidade a fim de cumprir as obrigações contratuais dos Beatles com a produtora United Artists. Paul concordou, em particular, uma data de lançamento de McCartney em meados de abril com o executivo Neil Aspinall, uma das poucas pessoas associadas aos Beatles que conhecia o projeto. Sua adição tardia entrou em conflito com o lançamento iminente do álbum Let It Be, e do álbum de estreia de Starr, Sentimental Journey, que deveria ser lançado em 27 de março. Em 25 de março, depois de descobrir que Klein providenciou o adiamento do lançamento de McCartney, Paul recebeu uma garantia de Harrison, como diretor da gravadora Apple, de que seu álbum seria lançado em 17 de abril, conforme planejado.