Maria do Céu Águeda Camacho de Sena Faria de Vasconcelos ComIH (Lisboa, — Cascais, ) foi uma distinguida bailarina e coreógrafa portuguesa.
Biografia Maria do Céu Águeda Camacho de Sena Faria de Vasconcelos nasceu em 16 de Junho de 1927 em Lisboa.
Filha de mãe boliviana, Nazária Celsa Camacho Quiroga de Vasconcelos (conhecida como Celsa Camacho), e de António d'Azevedo Sena Belo Faria de Vasconcelos, pedagogo, escritor, e professor catedrático de Português na Faculdade de Letras de Lisboa e na Universidade Jean-Jacques Rousseau de Genebra, entre outras. Bem como o fundador do Instituto de Orientação Profissional Maria Luisa Barbosa de Carvalho, em Lisboa.
Começou, aos quatro anos, por aprender dança rítmica com a professora grega radicada em Portugal, Madame (Sosso Dukas) Schau, com quem estudou até aos oito anos, pisando o palco, pela primeira vez, num recital da sua professora no Teatro Nacional D. Maria II, em 1932. Por volta dos 12 anos começou a estudar dança clássica com Margarida de Abreu, no Liceu D. Filipa de Lencastre, tendo, em 1942, ingressado (com 15 anos) no seu estúdio, o qual, em 1944, viria a servir de base ao Círculo de Iniciação Coreográficahttp://www.citi.pt/cultura/bailado/bailarinos/olga_roriz/circulo.html (CIC) onde se manteve cerca de uma década. Participou, como intérprete – inicialmente com o nome de Maria do Céu Vasconcelos – em diversos espectáculos da escola e do CIC, designadamente nas "Tardes Literárias" (no Teatro S. Luiz, em 1947) e em espectáculos de ópera no Teatro Nacional de S. Carlos e no Coliseu dos Recreios. Foi assistente da sua professora no estúdio particular desta, entre 1947 e 1948. Seguiu, em simultâneo, os cursos de Dança e de Teatro no Conservatório Nacional. Aí estudou dança, especialmente com Margarida de Abreu, teatro com Alves da Cunha e Maria Matos e, em simultâneo, teve lições particulares de violino do professor Gonçalves Pereira.
Terminou o curso no Conservatório em 1948 – com provas de Dança Clássica, Carácter, Plástica e Composição Individual – com média final de 17 valores. Prestou exame no Teatro Nacional D. Maria II com um solo de sua autoria na prova de composição ("Prelúdio", para a música de piano de Rachmaninov), tendo-lhe sido, seguidamente, concedida a Carteira Profissional de Actriz/Bailarina.
Águeda Sena desde logo se revelou um dos nomes mais promissores do CIC começando por integrar o corpo de baile e, de seguida, dançando alguns papéis solísticos, designadamente em "Chopiniana", "Arraial na Ribeira", "Polaca Heróica" e, sobretudo, em "Tito e Berenice". Para se aperfeiçoar fez repetidas viagens a Paris na qualidade de bolseira do Instituto de Alta Cultura (entre 1948 e 1953), tendo estudado dança clássica com os famosos mestres :en:Olga Preobrajenska, Mme Rousanne e, sobretudo, com :en:Lubov Egorova. Naquela cidade teve os primeiros contactos com a dança moderna ao estudar com Leonard Lenwood, bailarino principal e professor da companhia da bailarina antropóloga e coreógrafa norte-americana Katherine Dunham, então em digressão pela Europa. Juntamente com a colega portuguesa Luisa Vitorino – também uma antiga aluna de Margarida de Abreu – integrando, durante alguns meses, o elenco da citada companhia. Em Paris, também frequentou o Curso de Pedagogia da Sorbonne (1948-1950) e um curso nocturno de História de Arte no Museu do Louvre, durante o ano de 1949, e estabeleceu contactos com artistas famosos do teatro francês, designadamente Jean-Louis Barrault e Jean Villar. Dançou a "Valsa" e o "Prelúdio" de Les Sylphides em 1950, no :fr:Teatro Alhambra, em Paris, num espectáculo dirigido por :fr:Jean Guélis, e em 1952 dançou o solo "Les Mains", da sua autoria, como solista na companhia Galas de Danse, da "estrela" francesa :fr:Lycette Darsonval. Juntamente com Fernando Lima e Anna Mascolo participou, no ano de 1952, nos supracitados espectáculos intitulados "Recital", "Tarde de Ballet" e "Noite de Arte", sob a direcção conjunta de Margarida de Abreu e Fernando Lima, em criações da professora e dos colegas. Depois de várias estadas em França toma contacto com a "escola inglesa" tendo frequentado, em 1953, um Curso de Verão para Professores de Ballet na escola no :en:Sadler's Wells Theatre Ballet, em Londres. Cidade onde também trabalhou com alguns professores particulares, mormente Cleo Nordi e Anna Northcote. Seguidamente entrou para aquele conhecido estabelecimento de ensino onde frequentou as classes de nível “profissionalizante”. No início do ano de 1954, adoeceu gravemente com tuberculose tendo permanecido internada quase ano e meio em hospitais londrinos (mormente o Royal Brompton Hospital, um conhecido sanatório), só tendo regressado a Lisboa em Maio de 1955.
Após um rápido período de convalescença, Águeda Sena casou-se com Fernando Lima, e recomeça a dançar a seu lado na "super-fantasia musical" de Vasco Morgado, "Melodias de Lisboa" (de Agosto a Dezembro de 55) e, posteriormente, no "Ballet-Concerto". Grupo que se estreou em 29 de Novembro no Cinema Império, patrocinado pelo Instituto de Alta Cultura, e em cujo reportório constavam, além de peças de Fernando Lima e da veterana Margarida de Abreu também uma obra sua: "Em Nossas Torres de Marfim" (com música de Stravinsky). Seguidamente, com o grupo Danças e Cantares de Portugal - Bailados Portugueses de Fernando Lima, Águeda Sena dança, como primeira figura, diversas obras entre as quais "A Severa" (com coreografia de Lima e música de Fernando de Carvalho, 1956), no Teatro Monumental, no Casino do Estoril e depois participou numa digressão europeia que durou vários meses. No teatro de Annecy, na Alta Sabóia, em França, durante mais de uma semana, o grupo fez a primeira parte de uma série de espectáculos com a famosa Edith Piaf.http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06525.063.14689#!4
Juntamente com Fernando Lima, após o regresso do estrangeiro, participou na revista "Melodias de Sempre" no Teatro Monumental, em 1956, e em duas peças de teatro, protagonizadas por Laura Alves e Artur Semedo. Pode-se afirmar que, entre 1955 e 1958, o casal Sena-Lima colaborou regularmente com empresário teatral Vasco Morgado dançando e coreografando para o teatro ligeiro. Tendo Águeda, nessa época, ficado bastante popular, sobretudo, por interpretar o papel de Severa, em "O Fado", com uma certa regularidade. Um dos elencos desse "número" avulso contou, mesmo, com Águeda como “Severa”, Fernando como “Marialva”, e a conhecida actriz Laura Alves (em travesti) como “Custódia”.
Ainda num período de implantação do importante meio de comunicação social no país, a Radiotelevisão Portuguesa (RTP), que começara a emitir (esporadicamente) em 4 de Setembro de 1956, Águeda e Fernando participam na sua primeira emissão oficial, a 7 de Março de 1957. A mesma realizou-se no antigo parque de Santa Gertrudes, em Palhavã (onde posteriormente se viria a construir a sede da Fundação Calouste Gulbenkian), e onde se situava a Feira Popular de Lisboa, local onde a RTP produziu os seus primeiros trabalhos televisivos. Participam no bailado "Os Enganos do Amor”, com música de Tchaikovsky, enredo de Tomaz Ribas, realização de Artur Ramos e coreografia de Fernando Lima.
A partir de então, Sena e Lima começam a trabalhar em televisão com uma certa regularidade – mais ou menos de três em três semanas, segundo a coreógrafa – dançando diversos bailados coreografados por Fernando e mesmo uma suite de "As Sílfides". Ambos intervêm também no primeiro teleteatro apresentado pela RTP, "Monólogo do Vaqueiro" do realizador Álvaro Benamor em 11 de Março de 1957. Em Setembro do mesmo ano dançam numa nova revista do Teatro Monumental "Música, Mulheres e..." na qual, como já era costumeiro, assinaram também as coreografias.
No ano de 1960, Águeda Sena participou no programa "Pássaro Azul", movimento de iniciação às artes para crianças de condição humilde de alguns dos bairros de Lisboa. Nesta espécie de "academia de artes infanto-juvenil", sob a orientação da poetisa Fernanda de Castro, directora dos Parques Infantis (de Lisboa), Águeda, encarregou-se durante dois anos e meio do ensino da dança.
Ao formar-se o Grupo Experimental de Ballet (GEB), participou, como coreógrafa, no seu primeiro espectáculo - em 11 de Maio de 1961 no Porto - e nos seguintes com a peça "Pastoral" (mús. Stravinsky; cen. e fig. Inês Guerreiro), dançada 13 vezes seguidamente, em cidades como Porto, Aveiro, Lisboa, Guimarães e Viseu. Em Dezembro de 1961 aparece como bailarina principal no "Verde-Gaio", integrada no elenco da temporada de 1961-62, sob a direcção de Margarida de Abreu e Fernando Lima, na qual, uma vez mais, dançou o papel de Severa no bailado homónimo (um remake do "Fado" de Fernando Lima, agora com música do compositor Jaime da Silva, filho), e com o GEB, em Agosto de 1962, sob a direcção de Norman Dixon. Nesses programas Águeda “coreografou” obras de 19 poetas portugueses, uns já falecidos e outros vivos, sues contemporâneos, tais como Fernando Pessoa, Cesário Verde, Herberto Helder, Mário Beirão, Mário de Sá-Carneiro, Bernardim Ribeiro, Camilo Pessanha, Sebastião da Gama, Augusto Santa Rita e Carlos Queiroz, entre outros. Os citados programas televisivos estendem-se, com a abordagem de alguns dos poetas portugueses perseguidos pela Censura, até Julho de 1967. Numa altura em que os poucos coreógrafos portugueses, praticamente, se preocupavam em desfiar temas históricos, Águeda Sena foi a única a entrar por caminhos mais controversos abordando mesmo, alguns temas fracturantes, como foi o controverso caso em que se baseou “O Crime da Aldeia Velha”. Obra marcante teve estreia em 24 de Maio de 1963 pelo Grupo Experimental de Ballet com música de Dmitri Shostakovitch – o compositor favorito da coreógrafa e cenografia e figurinos de Inês Guerreiro, inserida no VII Festival Gulbenkian de Música. Começou por ser exibida no Paço dos Duques em Guimarães e teve outras apresentações em Coimbra (no Jardim Botânico e no Teatro Avenida), em Leiria, no Porto (no Jardim do Museu Soares dos Reis), e ainda nas Caldas da Rainha e Aveiro. O então director da companhia, Norman Dixon, afirmou que "o seu trabalho de coreógrafa era particularmente interessante […] e a sua peça ["O Crime..."] sobre uma aldeia em chamas era especialmente dramática e cheia de momentos visualmente poderosos". A própria Águeda, mais tarde, haveria de se integrar no elenco do GEB para dançar o papel de Joana em substituição de Elisa Worm, a sua criadora.
Ainda no fim de 1963, Águeda Sena participou no projecto "Teatro de Câmara António Ferro", fundado pela viúva do escritor, a poetisa Fernanda de Castro, que se apresentou no Teatro Tivoli (em 30 de Janeiro de 1964) com o espectáculo "3 Modos de Poesia", como bailarina e coreógrafa, ao lado de alguns nomes importantes da poesia nacional (Ary dos Santos, Maria do Céu Guerra, Norberto Barroca e João Paulo Guerra) que recitaram mais de dezena e meia de portas. O grupo apresentou-se também na Estufa Fria, em Lisboa, a 20 e 21 de Junho do mesmo ano. Seguidamente Águeda embarca noutro projecto, ao lado de Norman Dixon, antigo mestre de bailado e coreógrafo do GEB, baptizando-o de Ballet-Teatro; aparece como directora associada e bailarina de um grupo constituído por alguns dissidentes do GEB numa noite intitulada "Homenagem a William Shakespeare", em 2 de Junho de 1964, no cinema Império (Lisboa), sendo que a sua peça "Macbeth" recebe excelentes críticas. Assim se fechou o curriculum de Águeda Sena como bailarina que, no mesmo ano casou com o médico Josias Ferreira Gil, com quem viveu alguns anos.