O Ramal de Mora, conhecido originalmente como Linha de Ponte de Sor e Linha de Mora, foi um caminho de ferro português extinto em 1990, com cerca de 60 km de extensão, que ligava a cidade de Évora à vila de Mora, servindo várias povoações dos concelhos de Évora, Arraiolos e Mora. O primeiro troço, até Estação de Arraiolos, entrou ao serviço em 1907,MATOS et al, 2010:106 tendo a linha sido concluída até Mora em 1908.SERRÃO, 1980:203
Caracterização thumb|left|Antiga Estação de Arraiolos, atualmente desativada. Traçado O Ramal de Mora tinha cerca de 60 Km de extensão.
Troço entre Évora e Arraiolos Segundo os planos de 1903, a linha iniciava-se na via de resguardo da Estação de Évora, ao quilómetro 116,570 da Linha de Évora, circulando em via dupla, com a Linha de Évora, até ao quilómetro 117,300; ainda se ponderou em fazer o ponto de início em plena via, no troço entre Évora e Estremoz, mas dessa forma seria indispensável a instalação de um equipamento de mudança de via, com um guarda agulha e um posto telegráfico, pelo que se decidiu fazer a linha sair da via de resguardo da Estação de Évora, embora este traçado obrigasse à realização de mais terraplanagens e de expropriações. Após deixar a Linha de Évora, a via deveria curvar para a esquerda, de forma a cruzar a Estrada Nacional 69 e uma estrada municipal adjacente, a pouco mais de 2 km de percurso. Junto a este local, seria instalado um apeadeiro, de forma a servir os viajantes entre a cidade e a zona das quintas. Entre os quilómetros 2,0 e 3,4, a linha segue em recta, curvando, a partir daquele ponto, para a direita, seguindo a estrada para as quintas até junto do quilómetro 6,0. Separa-se da estrada naquele local, e circula, num troço de pequenos alinhamentos e curvas de raio superior a 400 metros, até chegar, no quilómetro 11,6, à portela de divisão das bacias hidrográficas do Tejo e do Sado. A seguir, começa a descer para o vale do Divor, que tem de transpor, chegando pouco depois a Arraiolos.
thumb|A proposta de Rumball para a Linha do Leste seguia o vale do Sorraia, passando por Mora. História Antecedentes Linha do Leste Na década de 1850, iniciaram-se os estudos para a Linha do Leste, que teria como objectivo ligar Lisboa a Badajoz, o primeiro dos 3 traçados apresentados postulava a passagem do Tejo no Carregado, e a passagem pelas proximidades de Benavente, Coruche, Mora, Estremoz e Elvas. Esta solução foi inicialmente preferida pelo engenheiro Thomaz Rumball, que tinha sido encarregado dos trabalhos de campo pela Companhia Central e Peninsular dos Caminhos de Ferro em Portugal; tendo sido, no entanto, posteriormente preterida em relação ao traçado que apresentava um tronco comum com futura linha para a cidade do Porto, permitindo, desta forma, uma considerável redução nas despesas de construção.
thumb|left|Publicidade de 1881 para diligências entre Arraiolos e Évora, onde se ligava aos comboios. Linha de Évora O Ramal de Évora do Caminho de Ferro do Sul (posteriormente denominado de Linha do Sul e Linha do Alentejo) foi concluído em 14 de Setembro de 1863, com a chegada a Évora; em 21 de Abril do ano seguinte, o governo contratou a Companhia dos Caminhos de Ferro do Sueste, que tinha construído esta ligação, para continuar a Linha de Évora até ao Crato, na Linha do Leste, uma vez que esta linha tinha acesso directo à rede ferroviária espanhola, em Badajoz.
No entanto, o projecto original para a continuação da Linha de Évora passava por Estremoz, traçado que apresentava dois graves problemas: passaria muito próxima da fronteira, situação que foi criticada pelas autoridades militares por a considerarem prejudicial à defesa do país, e ficaria em grande parte dentro da zona tributária da Linha do Leste. Devido a problemas financeiros, a Companhia do Sueste não pôde continuar os projectos ferroviários contratados, pelo que o governo assumiu, após vários concursos sem resultados, as obras naqueles troços.
Em 5 de Agosto de 1877, a ideia de ligar Estremoz à Linha do Leste foi retomada, como parte dos estudos sobre os caminhos de ferro, realizados por uma comissão da Associação dos Engenheiros Civis Portugueses; estes resultados foram largamente debatidos, tendo-se chegado à conclusão que seria necessário ligar Casa Branca à Linha do Leste, passando por Estremoz. Em Setembro de 1878, o engenheiro e inspector de obras públicas João Crisóstomo de Abreu e Sousa publicou um relatório, no qual se apresentava uma linha entre Bragança e Beja, passando pela foz do Rio Sabor, Guarda, Castelo Branco, Vila Velha de Ródão, Ponte de Sor ou Crato, Estremoz, e Évora.
thumb|Plano Geral da Rede Ferroviária ao Sul do Tejo, incluindo uma linha de Évora a Ponte de Sor. Planeamento Em 16 de Janeiro de 1899, a Gazeta dos Caminhos de Ferro noticiou que já tinha sido aberto um inquérito administrativo, para a apreciação do público sobre os projectos ferroviários dos Planos das Redes Complementares ao Norte do Mondego e Sul do Tejo; entre os projectos listados, estava a Linha de Evora a Ponte de Sor, de via larga, que ligaria a rede do Sul e Sueste com a Linha do Leste, e daí com as linhas do Norte e da Beira Baixa, e o Ramal de Cáceres. Também estava planeada a Linha do Valle do Sorraia, de via estreita, de Coruche por Mora a Estremoz.
Devido às objecções à passagem do caminho de ferro por Estremoz, tornou-se necessário criar um traçado alternativo, que ligasse as duas linhas, mas que se situasse mais no interior do país; assim, no Plano da Rede Ferroviária ao Sul do Tejo, documento que demarcava oficialmente os projectos ferroviários da região a Sul do Rio Tejo, publicado em 1902, figurava um caminho de ferro, de via larga, denominado de Linha de Ponte de Sor, unindo Ponte de Sor, na Linha do Leste, à Estação de Évora. Esta cidade foi escolhida porque era já, naquela altura, o centro geográfico e económico do Alentejo, e iria ser o ponto de concentração das linhas do Alto Alentejo, estando muito próxima de Casa Branca. Este caminho de ferro, de construção muito mais fácil do que por Estremoz, seria complementar à Linha de Vendas Novas, e supriria a falta de boas vias de comunicação na região do Vale do Sorraia. A construção da Linha foi aprovada pelas corporações, que foram convidadas a estudar o Plano da Rede. No relatório da comissão responsável pelo Plano da Rede, afigurava-se como indispensável a construção de pelo menos uma ligação entre as redes ferroviárias do Sul e do Centro, tendo a Linha de Ponte de Sor sido apontada como a melhor e mais útil das hipóteses apresentadas, embora sem dispensar a construção da Linha de Vendas Novas.
Em 28 de Novembro de 1902, o Estado ordenou que a Direcção dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste principiasse a estudar as linhas que tivessem sido classificadas pelo Plano da Rede, mas que ainda não possuíssem os correspondentes projectos e orçamentos, devendo as Linhas do Sado e de Ponte de Sor ter prioridade na realização dos estudos.
Nos inícios de 1903, uma comissão de agricultores e proprietários de Mora, Évora, Pavia, Cabeção e Arraiolos divulgou uma circular em todas as localidades pela Linha de Ponte de Sor, pedindo que fizessem o possível junto do Estado, para que fosse decretada a construção da Linha; o propósito era criar uma grande associação dos habitantes da região, de forma a obter concessões para os terrenos e outras facilidades, e assim acelerar o processo para o início da construção. Nessa altura, a autarquia de Mora entregou uma representação ao Ministro das Obras Públicas, pedindo a construção da Linha. Em 16 de Março, uma portaria aprovou a realização de obras na Estação de Évora, de forma a ficar ampliada, e também ficar desde logo preparada para a ligação às Linhas do Guadiana e de Ponte de Sor, que nessa altura se previa que entrariam pelo lado Sul da estação. Nesse ano, o Ministro das Obras Públicas, o Conde de Paçô Vieira, apresentou uma proposta de lei para a construção de várias ligações ferroviárias, incluindo a Linha de Ponte de Sor, por troços sucessivos, e com o apoio financeiro do Fundo Especial de Caminhos de Ferro. Em Maio, os estudos desta linha já tinham sido confiados a J. Cecílio da Costa e Napumoceno de Lacerda. Inicialmente, só deveriam ser contempladas as secções de Évora a Arraiolos, desta localidade a Pavia, e de Pavia até à Ribeira da Raia; o troço restante, da Ribeira até Ponte de Sor, só deveria ser analisado após terem sido terminados os estudos das primeiras secções. Em 7 de Maio, foi classificada a Linha do Sorraia, de bitola métrica, que teria um troço em comum com a Linha de Ponte de Sor. Em 1 de Junho, a directriz do traçado entre Évora e Arraiolos já tinha sido produzida pelo engenheiro Justino Teixeira, tendo-se previsto o início dos estudos para poucos dias depois.
thumb|left|Mapa da rede ferroviária em meados do século XX, incluindo o Ramal de Mora. Construção e inauguração A construção, financiada pelo Fundo Especial de Caminhos de Ferro, foi autorizada por uma lei de 1 de Julho de 1903 Em Setembro, o troço até Arraiolos já tinha sido estudado, e feitas as expropriações e obras de arte do troço junto à Linha de Évora. Nesse mês, também já tinha sido aprovado o ante-projecto para o primeiro lanço deste caminho de ferro, correspondente ao troço entre Évora e Nossa Senhora da Graça do Divor, com dois apeadeiros e uma estação, totalizando 13.789,70 metros de comprimento; já estava, igualmente, concluído o ante-projecto para o segundo lanço, até um ponto pouco acima de Arraiolos. Em 17 de Setembro, o Governo ordenou a construção de uma ponte sobre o Rio Raia, junto à cidade de Mora, com dois tabuleiros, sendo um para a via ferroviária, e outra para a circulação rodoviária. Nesta altura, previa-se que o comprimento total da Linha, até Ponte de Sor, seria de cerca de 100 km. A construção da linha contou com o apoio das populações locais, caso por exemplo de Arraiolos, onde os habitantes de Arraiolos foram reunidos para estudar os traçados, e escolherem o que mais lhes agradava; o projecto do engenheiro José Cecílio da Costa foi o mais popular, tendo oferecido os terrenos necessários para a construção de cerca de 15 km de via, em Pavia e Cabeção.
O parecer do Conselho Superior de Obras Públicas e Minas sobre o ante-projecto para o primeiro lanço foi publicado em 20 de Agosto, e aprovado pelo Governo em 18 de Agosto, que ordenou a elaboração do projecto definitivo para aquele troço. Em Outubro, o ante-projecto para o segundo lanço também já estava concluído, prevendo-se para breve a publicação dos projectos definitivos para ambos os troços; para os estudos e construção da linha, foi reservado o valor de 80:000$000 réis. No mês seguinte, já tinha sido aprovado o ante-projecto para o primeiro lanço da segunda secção, compreendida entre Arraiolos e um local junto a Pavia; previa-se, igualmente, que as obras começariam logo após a apresentação do projecto definitivo do troço entre Évora e Divor. A construção dos vários troços foi aprovada por portarias de 29 de Março e 22 de Agosto de 1904.
Em 10 de Abril de 1905, os Caminhos de Ferro do Estado marcaram para o dia 1 de Maio o concurso para a execução de terraplanagens e construção de obras de arte, no segundo lanço da primeira secção e no primeiro lanço da segunda secção, correspondentes ao troço entre Nossa Senhora da Graça do Divor e o Vale do Poço. O primeiro troço, até à localidade de Arraiolos, já estava concluído no dia 1 de Abril de 1907, tendo sido inaugurado no dia 21 desse mês. O troço entre Évora e Arraiolos, com cerca de 15 km de comprimento, foi considerado fácil de construir, com terraplanagens pequenas, e poucas obras de arte. Em Agosto desse ano, previa-se que o traçado da linha seria alterado. Em Junho de 1908, a linha já chegava a Pavia, tendo o troço até Mora sido aberto à exploração em 11 de Julho de 1908,MARTINS et al, 1996:252 evento que foi festivamente comemorado.