António Teixeira Rebelo (Santa Marta de Penaguião, Cumieira, 17 de dezembro de 1750 — Lisboa, 6 de outubro de 1825), foi um Fidalgo da Casa Real, Conselheiro, Comendador da Ordem de Avis, marechal de campo, ministro e secretário de Estado, fundador e primeiro director do Real Colégio Militar, em 3 de março de 1803 (dia este que é comemorado anualmente com um desfile na Avenida da Liberdade, em Lisboa), então ainda designado por Colégio de Educação do Regimento de Artilharia da Corte e que era conhecido por Colégio da Feitoria.
Biografia Nascimento e infância (1750-1764) António Teixeira Rebello nasceu a 17 de dezembro de 1750 no lugar do Silhão na Cumieira, uma pequena aldeia do concelho de Santa Marta de Penaguião, no distrito de Vila Real. Era o segundo de quatro filhos de Luís Teixeira e de sua mulher Emerenciana Rebelo, trabalhadores agrícolas, possivelmente ligados à vinicultura,Existem duas referências a uma Emerenciana Rebello, num conjunto de documentos intitulados "Devassa Aque Mandou Proceder Sua Majestade No Territorio Do Alto Douro Pelo Desembargador António de Mesquita e Moura (1771-1775)" editado pela Biblioteca Nacional em 1983, pág.203 e 749 sendo o primeiro José Luis Teixeira Rebelo,O irmão de António Teixeira Rebelo, José Luis Teixeira Rebelo, teve um filho com o mesmo nome (1778-1858), sobrinho do Marechal, o qual seguiu a carreira militar tendo sido destacado para Madeira, como comandante do batalhão de artilharia de milícias do Porto. Chega a ser Governador do Forte de São Filipe e Comendador e General (Comando da Ilha de Porto Santo). É eleito Deputado pela Divisão Eleitoral da Madeira em 1836. Casou com Gerarda Rita de Vasconcelos a 02.11.1807 e tiveram 5 filhos. Após a morte da sua mulher, em 1816 , casa-se em 1817, na freguesia da Sé no Funchal, com uma sobrinha de nome Maria Melânia de Alberto Moniz de Bettencourt e Menezes, de quem tem um filho. Um dos seus filhos com Gerarda Rita de Vasconcelos - José Teixeira Rebelo Junior segue igualmente as pisadas na carreira militar, Tendo nascido na ilha da madeira em 1815, aos 9 anos parte para Lisboa para dar entrada no Colégio Militar, na altura sob a direcção do seu tio-avô, o Marechal Teixeira Rebelo. Torna-se soldado voluntário no dia 13 de Maio de 1833, no regimento de Infantaria n.º10, dando início à sua carreira militar. Chega a General de Divisão, ajudante de campo dos Reis D. Luis I e D. Carlos I. a terceira Isabel Teixeira Rebelo e a quarta Luísa Teixeira Rebelo.
Seus pais, trabalhadores agrícolas, confiaram desde cedo a sua educação aos cuidados do sacerdote da paróquia de Louredo que, para além das primeiras letras e da gramática portuguesa, o iniciou no estudo da gramática latina e da filosofia.
O Regimento de Artilharia do Porto (1764-1780) Em Portugal, pode dizer-se que a organização da artilharia portuguesa, como "arma", deu os seus primeiros passos desde a Restauração em 1640, até à criação dos "troços" em 1765, mas praticamente só teve início nos princípios do século XVIII, com o decreto de 20 de Fevereiro de 1708, que transformou o "Troço de Artilheiros da Província do Alentejo" no "Regimento de Artilharia da Província do Alentejo" ou, como ainda era designado, "Regimento de Artilharia de Estremoz". Seguiu-se a criação de novas Unidades: em 22 de Dezembro de 1718, o "Regimento de Artilharia e Marinha do Reino do Algarve", também conhecido pelo nome de "Regimento de Artilharia de Lagos"; alguns anos mais tarde, em Abril de 1762, o "Regimento de Artilharia da Corte e Província da Estremadura" ou "Regimento de São Julião" e, em Setembro de 1763, o "Regimento de Artilharia do Porto".
Pelo Alvará de 15 de julho de 1763 foram organizados os novos Regimentos de Artilharia de Portugal, segundo o plano a ele junto, no âmbito das reformas do Conde de Lippe, consolidando-se a artilharia como uma arma distinta do Exército Português.Mais tarde ampliado pelo Alvará de 4 de junho de 1766 Paralelamente a esta evolução orgânica, segue-se o desenvolvimento técnico da Artilharia e o aparecimento de numerosas obras didáticas, algumas de autores portugueses, contendo a indicação de todos os processos e teorias científicos da época.
Considerando a sua proveniência social e a sua vontade e necessidade de prosseguir com os seus estudos, não restava outra opção a António Teixeira Rebelo que o ingresso na carreira eclesiástica ou militar. António Teixeira Rebelo decidiu-se pela última, talvez motivado pela ação de recrutamento efetuada por Luís de Alincourt na região de Trás-os-Montes, tendo-se alistado como soldado voluntário, em 27 de setembro de 1764, no recém-fundado Regimento de Artilharia de Valença, como era conhecido na altura o Regimento de Artilharia do Porto.
A Artilharia era entendia na altura como o serviço militar encarregue de todos os preparativos de guerra, em que se compreendem as munições de que os Exércitos se servem nas batalhas, bem como nos ataques e defesas de Praças. Tratava também da arte de manejar canhões, bombas, obuses, e outros instrumentos de disparar tiros por meio de pólvora.
No ano anterior ao seu alistamento, com o fim da Guerra Fantástica, havia sido criada pelo Conde de Lippe uma "Aula Real de Artilharia" naquele Regimento, onde um ilustrado oficial suíço, chamado João Vitória Miron de Sabione, ensinava as cadeiras de "Matemática", "Fortificação", "Tática", "Artilharia" e "Desenho", obrigatórias para oficiais e praças do Regimento. O plano do Conde de Lippe para aquele tipo de aulas regimentais era tão detalhado, que ia até à obrigatoriedade dos livros a utilizar e à interdição de quaisquer outros; e sobre as matérias ensinadas eram prestadas provas, indispensáveis nas promoções.
À altura o Regimento De Artilharia de Valença, comandado por James Ferrier, refletia substancialmente o êxodo estrangeiro que ocorria nos corpos do exército, sendo composto por um terço de oficiais estrangeiros e tornando-se num epicentro das ideias maçónicas que chegavam a Portugal. António Teixeira Rebelo garantidamente teve acesso à discussão de muitas delas, bem como ao estudo da extensa biblioteca do comandante do regimento, profícua em bibliografia então proibida e que permitia aos oficiais daquela força lerem e recitarem escritores como Pope, Voltaire e Holbach, cujas obras estavam classificadas pela Santa Sé como heréticas e subversivas.
Como observou Ana Cristina Araújo, o meio militar, com os seus postos-chave preenchidos por oficiais estrangeiros com boa formação em quartéis e lojas maçónicas, desempenhou um papel importante no processo de desarticulação dos tradicionais mecanismos de reconhecimento cultural e socialARAÚJO, Ana Cristina. A cultura das Luzes em Portugal. Temas e problemas. Lisboa : Livros Horizonte, 2003, p. 63.. Tais práticas tornaram Valença do Minho um dos principais núcleos de divulgação das ideias ilustradas em Portugal.RAMOS, Luís A. de Oliveira, “A irreligião filosófica na província vista no Santo Ofício pelos fins do século XVIII”, in: Revista da Faculdade de Letras: História. Universidade do Porto, n. 5, 1988, pp. 173-188.
O comandante do regimento - James Ferrier - tendo sido obrigado a abandonar Portugal, foi o autor, sob o pseudónimo de Arthur William Costigan, duns importantes Sketches of Society and Manners in Portugal (2 vols., London, T. Vernor, 1788), onde criticou causticamente a situação portuguesa e onde advogou os princípios racionalistas e maçónicos.
Em 29 de janeiro de 1766, na Praça de Valença, há indicações de que aquele Regimento contava com um terço do seu efetivo constituído por estrangeiros, entre os quais: Ricardo Muller (capitão inglês), Ricardo Okennedy (alemão), Frederico Von Heymenthal (barão de origem alemã), Octávio Mehus (irlandês), Agostinho Carretti (italiano). Francisco Ferreri (italiano), Guilherme Campbell (escocês), Guilherme Grant (escocês), João Tapier de La Croix (francês), Luís de La Serrandière (francês), Samuel Archool (inglês), Frederico H. Luduco (espanhol) ou Luís Araul (espanhol), a título de exemplo.
Conseguiu quatro anos depois do seu alistamento como soldado, em Julho de 1768, ascender ao posto de Furriel (desconhecendo-se se passou pelo posto de cabo de esquadra).RAMOS, Luís A. de Oliveira, A Fortaleza de Valença do Minho, Foco de Irradiação Cultural e Ilustrada no século XVIII — (Observações sobre uma minoria de pensamento), Lisboa, 1992.
O Regimento de Artilharia do Reino do Algarve (1774-1780) Em setembro de 1774, James Ferrier é incumbido da organização do Regimento de Artilharia do Reino do Algarve, deixando o Regimento de Artilharia do Porto, em Valença, e atravessando todo o país em direção a Sul, onde ficara encarregado de instalar tal força, junto do Castelo de Faro - tarefa que viria a concluir nos inícios do ano de 1775.
O Regimento de Artilharia do Reino do Algarve, como os outros de artilharia, de acordo com o alvará de 1766, viria a ser constituído por 12 companhias: 9 companhias de artilheiros; 1 companhia de bombeiros (constituída pelos soldados de engenharia que combatiam à superfície, realizando trabalhos de implementação no terreno e escavação de trincheiras); 1 companhia de mineiros (constituída pelos soldados que combatiam debaixo de terra, construindo minas ou contra-minas, as quais consistiam em túneis destinados, respetivamente, ao ataque subterrâneo a fortificações e à defesa contra esses tipos de ataques); e 1 companhia de artífices e pontoneiros (estes últimos, soldados especializados em operações de transposição de cursos de água, mediante recurso à construção de pontes e barcas). Como nos regimentos de infantaria, a 1.ª, 2.ª e 3.ª companhias eram respetivamente comandadas pelo Coronel, Tenente-Coronel e pelo Sargento-Mor (isto até 1796).
António Teixeira Rebelo, enquanto furriel, acompanha nesta altura o seu comandante James Ferrier rumo a Sul, tendo obtido o posto de sargento em 1 de janeiro de 1775.
Durante o seu serviço naquele Regimento, para além do comandante James Ferrier, o comando é sucedido por: Simon Fraser, tenente-coronel, comandante de abril de 1775 a maio de 1776; por José Nunes da Costa Cardoso, major e tenente-coronel comandante, de maio de 1776 a janeiro de 1783; por Christian Frederich von Weinholz (de origem alemã e filho de Frederich Jacob von Weinholz), brigadeiro, de 23 de Janeiro a Junho de 1783; e por Teodósio da Silva Rebocho, coronel e brigadeiro, de 4 de maio de 1784 até à sua morte em 13 de abril de 1793.
A Academia Real de Marinha (1780-1783)
Obtém licença, em 1780, para vir a Lisboa ingressar nas lições do Curso de Matemática da Academia Real de Marinha fundada um ano antes, pela Rainha D. Maria I, e que funcionava no antigo Noviciado da Cotovia, onde também funcionava o Real Colégio dos Nobres. A Academia Real de Marinha tinha como objetivo ministrar um curso de matemática, destinado à formação dos oficiais e pilotos da Marinha Real e da marinha mercante, bem como à preparação científica para o acesso ao curso de engenharia militar.
O curso de matemática incluía as cadeiras de aritmética, de álgebra e de navegação, realizadas respetivamente, no primeiro, segundo e terceiro anos. Na primeira era ensinada aritmética, geometria, trigonometria plana e os princípios elementares da álgebra. Na segunda era ensinada a continuação da álgebra, o cálculo diferencial, o cálculo integral, a estática, a dinâmica, a hidrostática, a hidráulica e a ótica. Na terceira, era ensinada a trigonometria esférica e a arte da navegação teórica e prática. No que se refere aos compêndios usados no curso de matemática, existia uma tendência inicial para seguir o matemático francês Étiene BézoutMartins, Ana Patrícia, Curso Mathematico da Academia Real de Marinha, de 1779 a 1837, in Suplemento do Boletim da SPM 69, pp. 14-17, 2013.