Categoria:Ciências sociais miniaturadaimagem|465x465px|Mapa da etnia predominante em cada distrito administrativo de Londres, com base nos dados do Censo de 2021. Mapas censitários urbanos são amplamente utilizados para descrever padrões contemporâneos de segregação espacial em grandes metrópoles. Segregação espacial remete, em sentido estrito, à distribuição física ou geográfica de grupos no território urbano, sendo definida a partir de padrões observáveis de separação territorial.
Enquanto a segregação socioespacial concebe a separação territorial como inseparável das relações sociais, econômicas, institucionais e políticas que a produzem, tratando o espaço como expressão material de desigualdades estruturais, a segregação espacial descreve a configuração territorial da separação entre grupos, ao passo que as explicações sobre seus determinantes, como o racismo, a etnia e os processos históricos específicos, são mobilizadas analiticamente para interpretar esses padrões, e não incorporadas como elementos constitutivos de sua definição. Origem e desenvolvimento do conceito Historicamente, sobretudo entre os séculos XVIII e XIX, práticas de separação espacial passaram a ser utilizadas em cidades europeias como mecanismos de controle social e ordenamento urbano, associadas a preocupações com higiene, ordem pública, controle da pobreza e administração populacional. Isso resultou na concentração territorial de determinados grupos sociais, ainda que o conceito de segregação espacial, tal como formulado posteriormente, não estivesse existisse.Foucault, M. (2008). Segurança, território, população. São Paulo: Martins Fontes.Mumford, L. (1961). The City in History, Its Transformations, and Its Prospects. New York: Harcourt, Brace & World. ISBN 0-15-618035-9 miniaturadaimagem|565x565px|Áreas comunitárias de Chicago conforme adotadas pelo U.S. Census Bureau em 1930, com taxas de delinquência juvenil. O mapa ilustra a distribuição espacial da delinquência juvenil entre as community areas, evidenciando a associação entre padrões territoriais, condições socioeconômicas e processos de segregação espacial analisados pela Escola de Chicago. A Escola de Chicago desempenhou papel central na consolidação inicial do conceito. Seus autores analisaram a cidade como um “organismo social”, no qual diferentes grupos competiriam por localizações no espaço urbano, resultando em zonas relativamente homogêneas segundo critérios étnicos, raciais ou socioeconômicos.Park, R. E. (1936). Human ecology. American Journal of Sociology, 42(1), 1–15.Park, R. E.; Burgess, E. W. (1925). ''The City''. Chicago: University of Chicago Press. Nessa formulação, a segregação espacial era tratada predominantemente como um fenômeno descritivo e ecológico, associado a processos de mobilidade, sucessão e adaptação, com ênfase na observação empírica dos padrões espaciais.
A uso da ideia de segregação espacial ocorreu também em estudos da geografia humanaGuy Di Méo (2001) Géographie sociale et territoire, Nathan Université., da demografia e da ecologia urbana desenvolvidos no início do século XX, especialmente nos Estados Unidos. A segregação era observada empiricamente a partir de padrões de residência, trabalho ou uso do território, sem que necessariamente se atribuísse centralidade às relações sociais, políticas ou econômicas que produziam tais padrões.
Nas décadas seguintes, o conceito de segregação espacial foi amplamente incorporado a uma diversidade de estudos, entre eles os urbanos, regionais e educacionais, mantendo, contudo, um caráter analítico centrado na configuração territorial da separação entre grupos, mais do que em suas causas estruturais. Foram sistematizadas diferentes dimensões da segregação, como concentração, isolamento, exposição e centralização, reforçando sua utilidade como instrumento analítico para descrever padrões espaciais complexos.Cowgill, D. O.; Cowgill, M. S. (1951). An Index of Segregation Based on Block Statistics. American Sociological Review, 16(6), 825–831. https://doi.org/10.2307/2087511Jahn, J. A. (1950). "The Measurement of Ecological Segregation: Derivation of an Index Based on the Criterion of Reproducibility". American Sociological Review, 15(1), 100–104. https://doi.org/10.2307/2086407
Em autores como Talcott Parsons, representante da sociologia funcionalista, a separação de grupos no espaço aparece associada à diferenciação de papeis e posições sociais característicos das sociedades modernas, sendo entendida como um mecanismo de organização do sistema social, e não necessariamente como resultado de conflito ou coerção.Parsons, T. (1968). O sistema social. Petrópolis: Editora Vozes.
Outras análises enfatizaram formas institucionalizadas e legalmente impostas de separação espacial, como no caso do apartheid na África do Sul, um regime formal de segregação racial, sustentado por um arcabouço jurídico que determinava de maneira coercitiva a separação residencial, o controle da mobilidade e o acesso desigual ao território conforme critérios raciais.Christopher, A. J. (1994). The Atlas of Apartheid. London: Routledge. Nesse contexto, a segregação espacial não era apenas um padrão observável de distribuição territorial, mas um instrumento explícito de dominação política e racial. O apartheid representa uma forma extrema de segregação legalmente imposta, baseada em coerção estatal direta.Smith, D. M. (1992). The Apartheid City and Beyond. Urbanization and social change in South Africa. London: Witwatersrand University Press. Porém, embora todo apartheid produza segregação espacial, nem toda segregação espacial decorre de regimes de separação formal ou legislação discriminatória, já que ela pode resultar de múltiplos processos, incluindo escolhas residenciais, dinâmicas de mercado, diferenciação funcional ou padrões históricos de ocupação.Marques, E.; Torres, H. G. (2005). Segregação residencial e políticas públicas: São Paulo na década de 1990. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 20(57), 29–47.Torres, H. G.; Bichir, R. M.; Gomes, S.; Carpim, T. R. P. (2008). Educação na periferia de São Paulo: ou como pensar as desigualdades educacionais. In: Ribeiro, L. C. de Q.; Kaztman, R. (orgs.). A cidade contra a escola? Segregação urbana e desigualdades educacionais em grandes cidades da América Latina. Rio de Janeiro: Letra Capital; Faperj; Montevidéu: IPPES, pp. 59–90.
Contemporaneamente, o conceito de segregação espacial é aplicado a diferentes contextos históricos e nacionais, sem ser reduzido a situações específicas de segregação racial legalizada, residencial ou escolar, mas como uma abordagem descritiva, centrada nos padrões espaciais observáveis. De forma diferente, a segregação socioespacial é um conceito utilizado em análises que incorporam explicitamente os mecanismos sociais, políticos e institucionais responsáveis por sua produção.Marques, E.; Torres, H. G. (orgs.). São Paulo: segregação, pobreza e desigualdades sociais. São Paulo: Editora SENAC.
O estudo de Araujo e Barros, que compara a segregação residencial étnico-racial nas regiões metropolitanas de Londres e São Paulo por meio de índices espaciais globais e locais, exemplifica o uso do conceito de segregação espacial. Ao descrever e comparar padrões territoriais de dissimilaridade e isolamento/exposição em diferentes escalas geográficas, o trabalho privilegia a mensuração e a configuração espacial da separação entre grupos. As explicações relativas a contextos históricos, políticas urbanas e relações sociais são mobilizadas posteriormente, como interpretação dos padrões observados, distinguindo esse enfoque daquele da segregação socioespacial, no qual tais mecanismos integram a própria definição do fenômeno.Barros, J.; Feitosa, F. da F. (2024) A segregação étnico-racial nas regiões metropolitanas de São Paulo e Londres: reflexões sobre um estudo comparativo. Revista Brasileira De Estudos De População, 41, 1–28. https://doi.org/10.20947/S0102-3098a0262
Tipos de segregação espacial A segregação espacial pode assumir diferentes formas, a depender dos grupos envolvidos, das esferas da vida social afetadas e da escala territorial considerada. A literatura especializada costuma distinguir alguns tipos recorrentes de segregação espacial, que, embora analiticamente diferenciáveis, frequentemente se sobrepõem na realidade empírica.
A segregação residencial se refere à separação espacial de grupos populacionais no espaço urbano a partir de seus locais de moradia. Esse tipo de segregação tem sido amplamente estudado em contextos urbanos e pode estar associado a critérios como renda, raça, etnia, religião ou origem nacional.Johnston, R.; Poulsen, M.; Forrest, J. (2007). The geography of ethnic residential segregation. Urban Studies, 44(5–6), 919–947.Johnston, R.; Poulsen, M.; Forrest, J. (2007). The geography of ethnic residential segregation. Urban Studies, 44(5–6), 919–947. Trata-se da forma mais difundida e mensurada de segregação espacial, frequentemente analisada por meio de índices quantitativos e dados censitários.Feitosa, F. F.; Câmara, G.; Monteiro, A. M. V.; Koschitzki, T.; Silva, M. P. S. (2004). Spatial Measurement of Residential Segregation. Repositório da Divisão de Processamento de Imagens, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Disponível em: <http://www.dpi.inpe.br/gilberto/papers/segregation_geoinfo2004.pdf>. Acesso em: 27 jan. 2026.
A segregação escolar diz respeito à distribuição desigual de estudantes de diferentes grupos sociais entre instituições de ensino ou redes escolares. Ela pode decorrer tanto da segregação residencial quanto de mecanismos institucionais específicos, como políticas de zoneamento escolar, critérios de matrícula ou diferenciação entre redes públicas e privadas.Reardon, S. F.; Owens, A. (2014). 60 years after Brown: Trends and consequences of school segregation. Annual Review of Sociology, 40, 199–218. Embora frequentemente relacionada à segregação residencial, a segregação escolar constitui um fenômeno analiticamente distinto.
A segregação ocupacional refere-se à concentração desigual de grupos sociais em determinados setores do mercado de trabalho ou tipos de ocupação. Quando analisada espacialmente, ela se manifesta na separação territorial entre áreas de trabalho, zonas industriais, distritos comerciais ou espaços informais de atividade econômica.Jargowsky, P. A. (1996). Take the money and run: Economic segregation in U.S. metropolitan areas. Institute for Research on Poverty Discussion Paper no. 1056-95.
A segregação funcional diz respeito à separação espacial entre diferentes usos do solo urbano, como áreas residenciais, comerciais, industriais e institucionais. Embora nem sempre envolva diretamente a separação de grupos sociais, esse tipo de organização espacial pode produzir efeitos indiretos de segregação, ao influenciar padrões de mobilidade, acesso a serviços e interação social.Hall, P. (2002). Cities of Tomorrow. Oxford: Blackwell.
Segregação espacial em diferentes contextos A segregação espacial assume configurações distintas conforme o contexto histórico e territorial, podendo ser observada em cidades industriais, metrópoles contemporâneas, espaços regionais e em diferentes países.
Nas cidades industriais do século XIX e início do século XX, a segregação espacial esteve associada à separação entre áreas operárias e bairros residenciais das elites, frequentemente organizada em função da proximidade às fábricas e à infraestrutura urbana. Estudos clássicos sobre cidades como Chicago e Manchester documentaram a formação de zonas socialmente homogêneas vinculadas à estrutura produtiva industrial.Park, R. E.; Burgess, E. W. (1925). The City. Chicago: University of Chicago Press.