A Batalha do Ticino, travada em novembro de , foi uma batalha da Segunda Guerra Púnica, na qual Aníbal derrotou os Romanos sob Públio Cornélio Cipião numa luta de cavalaria.

O avanço de Aníbal pelos Alpes

Públio Cornélio Cipião, o cônsul que havia falhado em deter o avanço de Aníbal no rio Ródano e que havia retornado à península Itálica após enviar seu exército, sob o comando de seu irmão, para a Hispânia, ficou horrorizado quando soube que o exército de Cartago estava agora acampado no sopé dos Alpes. Quando Aníbal esquivou-se dele, marchando para o norte ao longo da margem do Ródano, Cipião não imaginava que ele enfrentaria os desfiladeiros dos Alpes tão tardiamente no ano (já com a chegada do inverno) — e muito menos que ele conseguiria transpô-los.

O cônsul Tibério Semprônio Longo ainda estava na Sicília com o exército que fora preparado para o ataque a Cartago. Ele havia tomado as ilhas Eólias, bem como o posto de trocas cartaginês de Malta quando chegaram a ele as notícias de que o inimigo estava na península Itálica, e ele deveria retornar o mais rápido possível para se juntar a Cipião. Este último, tendo assumido o comando das legiões do norte, havia marchado para a planície do rio Pó, onde acampou, pronto para combater no instante em que Aníbal se movesse para o sul. Suas tropas haviam sido severamente maltratadas durante a revolta gaulesa nas mãos dos boios, e seu moral decaíra muito em consequência disso. Cipião animou-os, trazendo-lhes à memória que os romanos já haviam derrotado os cartagineses antes, que o exército de Aníbal deveria estar em condições lamentáveis após a travessia dos Alpes, e que eles eram a última esperança de defesa de sua cidade e sua terra.

O exército romano O exército romano estava destinado, no espaço de três séculos (a partir de ), a conquistar primeiro a península Itálica e depois todas as civilizações em torno do Mediterrâneo. "Este exército venceu sucessivamente os vigorosos soldados nativos da Itália e os montanheses da Espanha, e derrubou a treinada falange macedônica", escreveu F. J. Haverfield. "Somente uma vez fracassou — contra Aníbal. Mas nem mesmo Aníbal seria capaz de tirá-los de seu entrincheiramento, e nem as vitórias do cartaginês poderiam enfraquecer permanentemente seu moral". E era de suas legiões — a principal unidade de seu exército — que Roma mais dependia. Aníbal não demorou a perceber as vantagens de tais unidades táticas e, em consequência, modificou suas próprias disposições.

Além das legiões, o exército romano reunia contingentes extraídos dos "aliados" da península Itálica, súditos de Roma, que eram armados e treinados como legionários e frequentemente pareciam igualar estes últimos em quantidade. Naqueles dias, a cavalaria, ligada a cada legião, parece ter sido de pequena conta — um fato do qual Aníbal e seus bem-organizados númidas e iberos tiraram uma grande vantagem — isso até que Cipião, o Africano, filho do Cipião que ora avançava para enfrentar Aníbal, aprendesse com seu inimigo como utilizar a cavalaria, restabelecendo assim o equilíbrio entre as forças. Os centuriões eram a espinha dorsal das legiões, soldados profissionais há muito tempo em serviço que levaram o nome de Roma da Índia à Escócia. Acima deles havia seis tribunos para cada legião, tanto oficiais veteranos quanto jovens nobres no início de suas carreiras.

Era prática normal que, quando um cônsul fosse para campo, ele tivesse consigo um exército de duas legiões, junto com um número apropriado de "aliados". Quando dois cônsules fossem para campo juntos eles teriam, conseqüentemente, quatro legiões, uma infantaria aliada, uma cavalaria legionária e uma cavalaria aliada. De acordo com Políbio, no primeiro grande embate entre os cartagineses e os romanos em , junto ao rio Trébia, os dois cônsules com suas forças combinadas possuíam um exército de dezesseis mil legionários e vinte mil soldados de infantaria aliados.

A grande desvantagem contra a qual os romanos lutavam — a qualquer custo nas primeiras fases da guerra — era a de os cônsules serem mudados a cada ano e, quando os dois estavam juntos, comandavam a força combinada em turnos. Um procedimento republicano tão "democrático" certamente viria a fracassar quando em conflito com a inteligência, o comando e a força de vontade de um homem — particularmente quando esse homem era um gênio da guerra.

As táticas romanas em batalha eram relativamente simples e, uma vez que se haviam provado tão vitoriosas em guerras anteriores, foram utilizadas contra os cartagineses até que estes demonstrassem aos inimigos, com uma flexibilidade desenvolvida para enfrentar qualquer situação nova, que aquilo que tinha triunfado sobre latinos, gregos e tribos gaulesas necessitava de adaptação. Primeiramente, a linha de frente romana abria fogo com suas lanças de arremessar, investindo em seguida com suas espadas — algo semelhante à saraivada de mosquete e à carga de baioneta de guerras posteriores. Se isso não funcionasse para destruir a vanguarda inimiga, a segunda linha, passando através da primeira, de acordo com o princípio do tabuleiro de xadrez, repetiria o procedimento. Os veteranos mantidos na reserva poderiam, então, ser utilizados se necessário, enquanto todo o tempo a infantaria de armas leves atacava nos flancos do inimigo, auxiliada pela cavalaria.

Essas táticas haviam servido bem aos romanos no passado — também o fariam no futuro, mostrando-se porém inadequadas diante de um general que modificava suas próprias táticas para se adaptarem a cada novo campo de batalhas, e que utilizava elementos de surpresa e armadilhas cuidadosamente preparadas, nas quais os romanos quase sempre estavam destinados a cair. Algumas das acusações de perfídia e má-fé púnica feitas posteriormente contra Aníbal por escritores romanos sem dúvida se originaram do fato de que ele não fazia guerra de acordo com regras estabelecidas. Ele não era convencional. Seria com um caráter de algum modo similarmente não-convencional que Napoleão iria destruir os exércitos da Europa do , que marchavam em ordem meticulosa para o campo de batalhas, e ficavam consternados ao descobrir que seu inimigo não estava "jogando o jogo" de acordo com as bem conhecidas regras, e sim lutando para vencer a guerra por quaisquer meios disponíveis.

Aníbal chega à península Itálica A revolta dos boios contra os romanos, que, sem dúvida, Aníbal esperava que fosse mais ou menos coincidente com sua própria chegada ao norte da península Itálica, havia sido prematura. Possivelmente isso fornece mais evidências de que Aníbal estava uns dois meses atrasado em sua campanha. A revolta, não obstante tenha prejudicado seriamente o moral romano, fez na verdade com que legiões romanas se concentrassem no norte numa época do ano em que, sob circunstâncias normais, as únicas tropas teriam sido limitadas guarnições em lugares como Cremona, Placência e Arímino. Cipião iria, assim, encontrar um exército preparado em campo que, embora necessitasse de sua presença e exortação, já estava a postos, não muito longe do campo de batalhas escolhido.

A primeira tarefa de Aníbal, quando seu exército e os animais estivessem suficientemente recuperados para entrarem em ação, seria certificar-se de que os gauleses do norte da península Itálica reconheceriam os cartagineses como seus libertadores da opressão romana. Infelizmente, a mesma tribo por cujas terras ele havia chegado, os taurinos, não estavam dispostos a aceitar sua oferta de amizade e foram à guerra contra os ínsubres, outra tribo gaulesa — mas que estava disposta a aceitar o cartaginês como seu líder. Aníbal havia aprendido há muito, em suas experiências no trato com as tribos da Espanha, que nada funcionava tão bem contra elas como a ação rápida e determinada.

Ele se movimentou rapidamente contra os taurinos e atacou sua principal cidade — mais tarde conhecida como Augusta dos Taurinos (atual Turim). Em três dias, ele a havia tomado e passado pela espada todos os que se opunham a ele, enquanto acolhia os que eram dóceis ao seu estandarte. Esta medida simples teve o efeito desejado, e daí em diante todos os gauleses nas regiões vizinhas se apressaram em unir-se às suas fileiras contra o inimigo comum. Cipião, contudo, agira igualmente rápido e cruzara o rio Pó — nessa época do ano, uma torrente gelada e veloz — trazendo suas tropas até o rio Ticino. Fazendo isso, ele havia isolado muitos dos gauleses na região do Pó, e estes gauleses simpatizavam com Aníbal, mas a presença romana os impedia de se unirem a ele. As ações seguintes dos dois líderes — neste momento crucial antes que o choque das armas ressoasse por toda a Itália — podem parecer estranhas para o leitor atual, mas devem ser vistas à luz de uma época onde a comunicação individual entre um general e suas tropas possuía uma importância imensa. Como não havia "Ordens do Dia" impressas, não existia outra forma de exortação possível a não ser esta: o comandante se posicionava de modo a atingir o maior número possível de homens reunidos em um local para ouvi-lo. O discurso formal antes da batalha (tão frequentemente bem debruado pelos historiadores antigos, porém fiéis ao espírito da época) podia ter um formidável efeito sobre o moral dos soldados, em sua maioria analfabetos, muitos dos quais ignoravam até mesmo as razões de terem sido convocados para a batalha.

thumb|upright=1.0|esquerda|Traversette, provavelmente o ponto mais alto da travessia de Aníbal pelos Alpes

Públio Cornélio Cipião, por exemplo, parece ter se preocupado em enfatizar que ia se travar uma guerra porque os cartagineses haviam traiçoeiramente atacado Sagunto — rompendo, assim, a paz acertada entre Roma e Cartago após a Primeira Guerra Púnica. Ele lembrou que, como havia sido demonstrado na guerra anterior, os romanos eram superiores ao melhor que os cartagineses pudessem apresentar em campo; agora só o que tinham pela frente eram os semi-definhados remanescentes do exército de Aníbal, ainda não recuperados de sua travessia dos Alpes. Advertiu ainda a seus soldados que não havia mais os Alpes para proteger sua terra ou a própria Roma — e nenhum outro exército, salvo eles próprios.

O contato entre Aníbal e seus homens foi ligeiramente diferente, e é fácil perceber por quê. Ele tinha que se comunicar com um exército que conjugava homens provenientes de várias raças e, sem dúvida, falando muitos dialetos. Escolheu, por isso, reduzir as palavras ao mínimo, provendo a sua audiência de uma imagem visual para fácil compreensão de sua presente situação e para demonstrar de que maneira, se lutassem bem, poderiam tirar proveito disso. O exército estava formado em um grande círculo no centro do qual foram colocados alguns prisioneiros feitos entre os gauleses que os haviam atacado durante sua marcha. A estes foram dadas duas opções: permanecerem prisioneiros e escravos ou, se estivessem dispostos a lutar um contra o outro em combate individual, a liberdade ao vencedor, além de armas, armadura e um cavalo. Quanto aos perdedores, a morte pelo menos poderia livrá-los de seus sofrimentos presentes. Unanimemente, todos os prisioneiros gauleses votaram pelo combate. Depois que essas lutas à maneira dos gladiadores terminaram, os mortos foram retirados e os prisioneiros que não tinham tido sorte suficiente para estar entre os participantes selecionados por sorteio haviam sido levados acorrentados, mal havia necessidade para palavras. Ali, disse Aníbal, estava o fiel retrato da situação de seus homens: se eles lutassem bem e triunfassem, Roma e todas as riquezas daquele país seriam deles; se perecessem em batalha, estariam livres de mais sofrimento; mas se eles lutassem e perdessem, então nada mais do que a miséria da escravidão os aguardava.

A batalha