O transtorno de personalidade esquizotípica ( - StPD ou TPET) é um transtorno de personalidade do cluster A e parte do espectro da esquizofrenia. É caracterizado por desordens do pensamento, ansiedade social, despersonalização e episódios breves de psicose. Os portadores deste transtorno apresentam dificuldades em criar e manter laços sociais, comportamentos tido como excêntricos, ideias de referência e dificuldades em manter a concentração.

Origens Históricas

Em 1908 Eugen Bleuler cunhou o termo "esquizóide" para descrever indivíduos que tendiam ao isolamento, tinham expressões emocionais limitadas e falhavam em estabelecer contato com o mundo externo. Embora algum grau de esquizoidia fosse considerado comum entre a população, indivíduos altamente esquizóides eram propensos à desenvolverem esquizofrenia. Ernst Kretschmer enfatizava que estes indivíduos frequentemente relatavam a sensação de que uma parede de vidro os separava da humanidade, sentindo a entrada de novas pessoas em sua vida como um estímulo doloroso. Décadas depois, o conceito de temperamento esquizóide se ampliaria e se dividiria em três perturbações de personalidade distintas, dando origem ao transtorno de personalidade esquizotípica, transtorno de personalidade esquizóide e o transtorno de personalidade esquiva. O próprio Kretschmer, no entanto, não pregava essa divisão, acreditando que o indivíduo esquizóide incorporava em si a ambivalênciaKretschmer E (1931

Eugen Bleuler também considerava a ambivalência, isto é, a presença de ideias e sentimentos contraditórios, como um traço essencial da predisposição à esquizofrenia e a categorizou como um dos três sintomas básicos do transtorno, ao lado de associações frouxas e do embotamento afetivo.

Em 1953, Eliot Slater realizou estudos com gêmeos e percebeu que indivíduos que possuíam parentesco com pacientes com esquizofrenia demonstravam mais traços de paranoia, excentricidade e falta de demonstrações emocionais. No mesmo ano, Sandor Rado propôs o nome ’esquizotípico’ como uma junção de ’esquizofrenia’ e ’genótipo’ para definir esse grupo de indivíduos, marcados pela ausência da capacidade de sentir prazer. Desta déficit surgiriam o medo excessivo e a desorganização que mais tarde poderiam evoluir para sintomas mais severos de esquizofrenia. Seymour S. Kety e alguns psiquiatras associados demonstraram que a esquizofrenia era mais de cinco vezes mais comum nas famílias biológicas de pacientes esquizofrênicos do que nas adotivas. Ao mesmo tempo, as famílias biológicas de pacientes com esquizofrenia exibiam mais traços esquizotípicos do que esquizofrenia em si. Isto também era favorável à ideia de que a esquizofrenia é um espectro.

Até 1979, pacientes com traços esquizotípicos eram categorizados dentro do conceito de esquizofrenia borderline ou pseudoneurótica, incluindo sintomas como ansiedade excessiva, fobias, volatilidade emocional, compulsões e episódios breves de psicose. No entanto, o conceito de esquizofrenia borderline possuía critérios diagnósticos demasiadamente amplos e estudos indicaram que essa condição era na verdade subdividida em dois domínios distintos de perturbações de personalidade, e em 1980, com a publicação da terceira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM-III) o diagnóstico de esquizofrenia borderline foi substituído pelos diagnósticos de transtorno de personalidade esquizotípica e transtorno de personalidade borderline. Os pacientes com personalidade borderline tendiam a ter flutuações de humor, pouca tolerância à solidão, irritabilidade e problemas de auto-imagem, por outro lado, os pacientes esquizotípicos tendiam à solidão, distanciamento emocional, ansiedade social e desordens do pensamento. Os sintomas do transtorno esquizotípico se assemelhariam àqueles do transtorno de personalidade esquizóide, mas com a adição de comportamentos excêntricos semelhantes aos da esquizofrenia, embora de intensidade moderada. O paciente poderia apresentar episódios de psicose, mas estes se diferenciavam de um quadro de esquizofrenia pois deveriam ser transitórios, durando apenas horas ou dias. O Manual reconhecia que a diferenciação entre um caso severo de transtorno de personalidade esquizotípica e esquizofrenia era difícil de ser feita. Alguns desses problemas moravam em diferenciar uma ideação paranoide intensa de um delírio. Também poderia ser difícil diferenciar um caso de transtorno esquizotípico dos sintomas prodromicos da esquizofrenia.

Embora a conceitualização do transtorno esquizotípico tenha sido influenciada por observações feitas a respeito de pacientes com esquizofrenia e de seus familiares, atualmente existem sugestões de que o transtorno pode estar relacionado à um genótipo intermediário entre esquizofrenia e transtorno afetivo bipolar, embora apenas nos casos onde o transtorno bipolar apresenta sintomas psicóticos.

Estrutura do Transtorno

Os sintomas do transtorno esquizotípico são usualmente organizados em três domínios diferentes: Disfunções cognitivo-perceptuais, déficits interpessoais e sintomas desorganizados. Há também sugestões de que o transtorno apresenta uma estrutura dividida em dois ou mesmo quatro domínios. O método de três domínios continua sendo, no entanto, o mais aceito, especialmente pois coincide com a organização feita com os sintomas de esquizofrenia.

Disfunções cognitivo-perceptuais Pacientes com transtorno esquizotípico vivenciam uma severa despersonalização que afeta sua percepção corporal e identitária. Alguns pacientes sentem partes do seu corpo se tornando completamente dormentes, como se deixassem de existir, ou vivenciam partes corporais tão alheios à seu ser quanto um objeto. Há relatos de pacientes que sentem como se partes de seu corpo tivessem sido amputadas sem explicação, ou mesmo adquirem a convicção de que seus órgãos internos estão em processo de decomposição. Essas experiências não são meras metáforas, mas ilusões somáticas que desafiam a noção básica de integridade física. Assim como pacientes com esquizofrenia, indivíduos esquizotípicos apresentam dificuldade em processar informações relacionadas à si mesmos, demonstrando maior agilidade para reconhecer rostos alheios do que os próprios, por exemplo.

Pacientes esquizotípicos apresentam ideias de referência, ou seja, creem que eventos aparentemente aleatórios estão direcionados a ele e possuem significado importante em suas vidas, positivo ou negativo. Exemplos incluem sentir que um radialista está lhe enviando ameaças codificadas ou que frases ditas por um desconhecido possuem mensagens pessoais para ele. Além das ideias de referência, o paciente pode apresentar crenças incomuns, como crer que possui poderes extrassensoriais e pode prever eventos futuros.

Indivíduos com traços esquizotípicos tendem à atribuir capacidades mentais à seres que normalmente não são vistos como dotados de raciocínio, por exemplo, estes indivíduos podem interpretar objetos inanimados como entes possuidores de vontades e desejos, enxergando a presença de consciência mesmo onde não há. Essas distorções na percepção podem justificar a presença de suas ideias excêntricas.

Outro sintoma característico é a presença de pensamentos mágicos, levando pacientes a interpretar que ações simples podem alterar a realidade, desafiando as leis de causa e efeito. Exemplos de pensamento mágico incluem crer que lavar as mãos três vezes livrará sua família de problemas financeiros ou que repetir determinada palavra diversas vezes o livrará de situações perigosas. É importante destacar, no entanto, que pensamentos mágicos não são exclusivos do transtorno esquizotípico, ocorrendo frequentemente em desordens como o transtorno obsessivo compulsivo.

Além de diversos sintomas que prejudicam seu desempenho social, esses indivíduos apresentam um quadro severo de ansiedade social que é agradavada pela presença de suas distorções cognitivas. O paciente esquizotípico se angustiará não só ao enfrentar situações socialmente constrangedores ou ambíguas, mas também em situações aparentemente inócuas, pois sua ansiedade é agravada pela presença de ideias de referencia. O paciente poderá sentir, por exemplo, que pessoa bocejando ao seu lado realizou este ato para hostilizá-lo, ou que pessoas desconhecidas podem ler seus pensamentos e estão o julgando baseadas nisso. Estas percepções tenderão a se tornar ideações mais elaboradas e evoluirem para ideações paranóides complexas. O quadro poderá se mostrar particularmente severo, dificultando que o paciente se integre à comunidade A presença de ansiedade social com ideias de referência pode ocorrer com pessoas que possuam transtornos fora do espectro da esquizofrenia, mas é raro e mais moderado.

Déficits interpessoais A anedonia social constitui um dos aspectos centrais desse quadro, representando a incapacidade de experimentar prazer através de vínculos sociais. Muitas vezes esses pacientes desconfiam excessivamente dos outros e desenvolvem sentimentos de aversão social que poderão fazê-los adotar um comportamento defensivo.

A antagonomia se refere à tendência a se distanciar radicalmente do senso comum, inclinando o indivíduo a assumir espontaneamente pontos de vista considerados excêntricos, e a idionomia representa a fidelidade inexorável à própria excentricidade. Como destacou o psiquiatra suiço Ludwig Binswanger, as peculiaridades comportamentais destes pacientes não provem de uma escolha e nem de um mero desejo em ser diferente: Estes indivíduos não 'tentam' ser excêntricos, eles de fato o são. A excentricidade é, para esses indivíduos, tão natural quanto a conformidade o é para outros.

O psiquiatra francês Eugène Minkowski descreveu a tendencia ao isolamento mental destes indivíduos, que interpretam as relações sociais como uma forma de invadi-los, levando-os a rejeitar diversas formas de diálogo ou intercambio intelectual. Por exemplo, um de seus pacientes era particulamente interessado em filosofia, mas se recusava a ler ideias filosóficas de outros para evitar que elas deformassem seu pensamento. Para o esquizotipico, o mundo externo pode ser sentido como uma fonte de destruição psiquica e encerrar-se em si mesmo é uma defesa natural. Minkowski E. La Schizophrenie. Psychopatologie des schizoides et des Schizophrenes. Paris, France: Payot; 1927.

Pacientes esquizotípicos têm maiores dificuldades em terminar o ensino superior, menores probabilidades de se integrar de forma independente à sociedade e frequentemente ocupam profissões marginalizadas e que oferecem pouca remuneração financeira. Estes indivíduos apresentam baixa autoestima e sentimentos frequentes de inferioridade. Estima-se que 48% dos pacientes esquizotípos preencham os critérios do diagnóstico de personalidade esquiva e 66% preencham os critérios para depressão maior. Há maior prevalência de uso de substancias e tentativas de suicídio. Por serem vistos como estranhos, esquizotípicos estão propensos a vivenciar situações sociais onde são ignorados ou hostilizados e em razão disto estes indivíduos podem passar a encarar o contato social como um evento que apenas serve para puni-los.