Auto-hemoterapia é uma prática terapêutica isoterápicaOLNEY, Leite. Farmácia Homeopática - Teoria e prática. São Paulo: Editora Manole, 2001. que consiste na extração de sangue venoso de uma pessoa e a sua injeção na mesma pessoa por via intramuscular. A auto-hemoterapia, também conhecida como injeção de sangue autólogo, compreende certos tipos de hemoterapia usando o próprio sangue da pessoa (do grego autos — próprio, haima — sangue, e therapeia — tratamento). Existem vários tipos: os originais pertencem apenas à medicina tradicional, à medicina alternativa ou ao charlatanismo, e alguns tipos mais recentes estão sob investigação. A forma original e não científica é a imediata injeção intramuscular ou subcutânea do próprio sangue recém-coletado. Foi usada no início do século XX, quando alguns médicos acreditavam que tinha eficácia e mecanismo lógico de ação, todavia foi abandonada mais tarde. O avanço da ciência deixou claro que faltavam evidências seguras.

As outras formas envolvem alguma mudança no sangue antes de ser novamente injetado, tipicamente oxigenação, ozonização (auto-hemoterapia ozonizada), exposição à luz ultravioleta ou centrifugação. As formas incluem plasma rico em plaquetas (PRP) e soro autólogo condicionado (ACS).

É possível que a auto-hemoterapia ozonizada ou UV possa ter eficácia e efetividade real em doenças autoimunes, uma vez que são imunomoduladores de alguma forma (por exemplo, interferindo com os desarranjados autoanticorpos); mas esse mecanismo de ação, se existe, ainda não é bem entendido, e também é improvável que quaisquer mudanças moleculares que o ozônio e o UV causem atuem especificamente apenas nas moléculas-alvo desejadas, o que significa que os riscos envolvidos são elevados.

A técnica é condenada oficialmente pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) do Brasil desde 2007, e pelo Conselho Federal de Enfermagem do Brasil desde 2009, que alertam ainda para os possíveis riscos à saúde dos pacientes. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) também considera que a técnica é potencialmente perigosa e que não existem pesquisas que comprovem sua eficácia. Em fevereiro de 2015, o CFM emitiu nota reforçando que a auto-hemoterapia não tem eficácia comprovada e que os médicos são proibidos de praticá-la.

História O uso de auto-hemoterapia em dermatologia foi popular no início do século XX, mas foi abandonado por dermatologistas convencionais devido à falta de evidência da sua eficácia. Um ressurgimento de interesse na década de 2000 levou a diversas investigações avaliando o uso de auto-hemoterapia como um tratamento para condições dermatológicas específicas, tais como urticária e eczema. Uma revisão desses estudos concluiu que a auto-hemoterapia segura é apenas um pouco mais eficaz do que a injeção de solução salina (terapia intravenosa).

Sociedade e cultura Uma aplicação dermatológica de auto-hemoterapia, coloquialmente chamada de "vampiro facial", chamou a atenção do público em 2013, quando uma publicação no Instagram da celebridade Kim Kardashian West a retratou durante a administração do procedimento. Kardashian West mais tarde afirmou que se arrependeu de passar pelo procedimento doloroso. O procedimento envolve uma combinação de terapia com indução de colágeno e microagulhamento, seguido de aplicação tópica de plasma rico em plaquetas derivado da centrifugação do próprio sangue do indivíduo em vários hemoderivados autólogos. Os defensores alegam que o plasma rico em plaquetas autólogo aplicado subcutaneamente na pele do rosto pode melhorar sua saúde, estimulando o crescimento de células da pele e a produção de colágeno. Entretanto, o tratamento não está incluído na medicina convencional, pois não existem evidências científicas para os benefícios alegados, de acordo com estudos clínicos.

Os efeitos colaterais do tratamento podem incluir: vermelhidão, inchaço, hematomas, sensibilidade, formigueiro, dormência ou sensação de pressão nos locais de injeção. Segundo os fornecedores, a recuperação ocorre em dois dias, embora haja relatos de pacientes cuja recuperação levou uma semana ou mais, com apresentação de outros problemas. Preocupações de segurança mais sérias foram levantadas quando esses tratamentos são realizados em ambientes não médicos, sem boas condições de higiene, ou por pessoas sem treinamento em controle de infecção. O Departamento de Saúde do Novo México emitiu um comunicado em que consta que pelo menos uma dessas ofertas poderia disseminar infecções transmitidas pelo sangue, como HIV, hepatite B e hepatite C. Em contraste, o chamado "enchimento de vampiro" é realizado por meio de plaquetas autólogas usadas como preenchimento dérmico no método da matriz de fibrina rica em plaquetas para cirurgia cosmética; geralmente não é descrita como auto-hemoterapia, e as máquinas aprovadas pela FDA são aprovadas apenas para uso por cirurgiões licenciados.

A técnica A técnica consiste na prévia extração de sangue venoso do paciente com o alegado propósito terapêutico, seguida da sua injeção intramuscular (que pode ser no músculo do glúteo, coxa ou deltoide) na mesma pessoa, o que — segundo advertem oficialmente as autoridades sanitárias e a comunidade médico-científica — pode ocasionar abscessos na pele, dores, edemas, hematomas e infecções, além de evoluir para quadros clínicos mais severos, como a coagulação intravascular disseminada e sangramento generalizado, entre outros efeitos.

O Parecer do Conselho Federal de Medicina (CFM) relativamente à auto-hemoterapia afirma que, de acordo com a literatura, esta técnica compreende vários procedimentos distintos, dentre os quais a readministração do sangue estocado do próprio paciente. Outras modalidades descritas na literatura são: Auto-hemoterapia "clássica" — Sangue retirado da veia e administrado no músculo, sem qualquer adição de substâncias ou tratamento com radiação. Auto-hemoterapia ocular (subconjuntival) — Administração subconjuntival de sangue retirado da veia do próprio paciente para tratamento de queimaduras, manchas e doenças com implicações dermatológicas. Tampão sanguíneo peridural — Sangue retirado da veia e administrado por via peridural. Auto-hemoterapia com sangue submetido à ação de certos agentes — Sangue retirado da veia e submetido à ozonização ou à irradiação UV, administrado por via intramuscular, intravenosa ou por infiltração.

O Parecer do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) cita que nenhuma diretriz nacional ou internacional inclui a auto-hemoterapia como recurso terapêutico e, por conseguinte, não há estudos confiáveis e com força de evidência científica elevada que indiquem a auto-hemoterapia como um procedimento efetivo e seguro, conforme já havia sido apontado no Parecer Técnico da Câmara Técnica de Pesquisa do Cofen em 2009. Esta Câmara Técnica reforça que, em decorrência da persistência de escassez de evidências científicas, reitera o posicionamento do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) exposto na Resolução Cofen 346/2009. Assim, de acordo com a Resolução Cofen 346/2009, os profissionais de enfermagem são proibidos de realizar a auto-hemoterapia.

Perigos, críticas e ilegalidade

Os defensores da auto-hemoterapia afirmam que a técnica aumenta a produção de macrófagos, potencializando o funcionamento do sistema imunitário e a eliminação de bactérias, vírus, células neoplásicas e fibrina. Segundo essa argumentação, o sangue injetado no músculo atuaria como corpo estranho, ativando o Sistema Reticuloendotelial (SRE) durante aproximadamente cinco dias, com retorno gradual aos níveis basais até o sétimo dia. Tais afirmações, contudo, não foram corroboradas por estudos controlados e independentes.

A auto-hemoterapia é um assunto controverso. O argumento utilizado por vários defensores da prática baseia-se em relatos de pessoas que afirmam ter se beneficiado do método, enquanto os críticos apontam para a inexistência de estudos que demonstrem sua eficácia e segurança. Até os próprios defensores do método reconhecem a falta de respaldo científico para a prática.

Segundo a legislação brasileira, apenas o médico especialista em hematologia ou hemoterapia (ou o profissional devidamente reconhecido para este fim pelo Sistema de Saúde) pode responsabilizar-se por procedimentos hemoterapêuticos. O Conselho Federal de Medicina proíbe aos médicos brasileiros a utilização de práticas terapêuticas não reconhecidas pela comunidade científica, como é o caso da auto-hemoterapia — descrita no Parecer CFM 12/07 como prática que não foi "submetida a testes genuínos, não foi corroborada, e nada há, além de indícios e casos isolados narrados com dramaticidade, que pouco se prestam a provar coisa alguma perante a ciência", sendo "seu uso atual em seres humanos uma aventura irresponsável". Assim, a auto-hemoterapia não pode ser considerada um tratamento médico no Brasil.

A ANVISA, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo e a Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) consideram que a auto-hemoterapia apresenta riscos à saúde. Outras autoridades de saúde também proíbem a prática, como o Conselho Federal de Enfermagem, o Conselho Federal de Biomedicina, o Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo e a ANVISA.

Considera-se que a auto-hemoterapia é um tipo de transfusão sanguínea autóloga e, como qualquer outra transfusão, traz riscos imediatos ou tardios, devendo ser criteriosamente indicada. A ausência de indicações comprovadas é parte do motivo pelo qual a ANVISA considera o uso da auto-hemoterapia uma infração sanitária, sujeitando os envolvidos às penalidades previstas em lei. Ressalte-se que algumas formas derivadas, como o plasma rico em plaquetas (PRP), são práticas distintas com regulamentação própria.

Alguns defensores da auto-hemoterapia alegam que o não reconhecimento da prática seria motivado por interesses da indústria farmacêutica. Tal argumento é considerado pelas autoridades e especialistas como uma teoria da conspiração, sobretudo diante da convergência de múltiplos conselhos profissionais independentes — de medicina, enfermagem, farmácia e biomedicina — contrários à prática.

O Jornal do Conselho Federal de Medicina nº 168 publicou nota de esclarecimento afirmando que o procedimento denominado "tampão sanguíneo peridural" é cientificamente respaldado por relevante literatura médica, sendo seu uso pelos anestesiologistas permitido. Da mesma forma, a auto-hemoterapia na forma de plasma rico em plaquetas é atualmente utilizada e permitida em contextos específicos.

Em vista da proibição, alguns usuários da auto-hemoterapia invocam a Declaração de Helsinque, que, em seus princípios sobre intervenções não comprovadas na prática clínica, estabelece que o médico pode, em determinadas circunstâncias, usar uma intervenção não comprovada se em seu julgamento ela oferece esperança de salvar a vida, restabelecer a saúde ou aliviar o sofrimento, devendo essa intervenção tornar-se objeto de pesquisa avaliativa posterior.

Investigação A auto-hemoterapia passou a ser defendida mais fortemente em 2004, quando o Dr. Luiz Moura publicou um artigo intitulado "Auto-hemoterapia", no qual explica o funcionamento da técnica, faz um histórico e apresenta informações sobre sua ação terapêutica. O artigo cita a pesquisa científica do médico Jessé Teixeira sobre complicações pulmonares pós-operatórias e texto do médico Ricardo Veronese sobre imunoterapia. É mencionado também que a auto-hemoterapia foi tema de tese de doutorado em 1924, intitulada "A auto-hemoterapia nas dermatoses", defendida pelo Dr. Alberto Carlos David na Universidade do Porto.