O Santuário do Bom Jesus de Matosinhos é um conjunto arquitetônico e paisagístico formado por uma igreja, um adro e seis capelas anexas, localizado no município brasileiro de Congonhas, estado de Minas Gerais.

A igreja é um importante exemplar da arquitetura colonial brasileira, com uma rica decoração interna em talha dourada e pinturas. O adro é ornado com doze estátuas de profetas em pedra-sabão e as capelas contêm grupos escultóricos em madeira policromada que representam passos da Paixão de Cristo, estátuas criadas pelo Aleijadinho e seus assistentes. Outros artistas de gabarito participaram nas obras de construção e decoração, entre eles Francisco de Lima Cerqueira, João Nepomuceno Correia e Castro e Mestre Ataíde. O conjunto foi construído em várias etapas entre 1757 e 1875.

Sua implantação cenográfica e monumental, seguindo o modelo dos "sacro montes" europeus, não tem paralelos no Brasil à sua altura, e as capelas e o adro abrigam a parte mais relevante do legado escultórico do Aleijadinho. O Santuário é também o centro de uma das mais populares devoções do país, recebendo milhares de peregrinos todos os anos e recolhendo enorme coleção de ex-votos. Tornou-se um ícone do barroco brasileiro e do estado de Minas Gerais, e uma grande atração turística. Devido à sua superior importância histórica, social e artística, o conjunto foi tombado em 1939 como patrimônio histórico nacional pelo SPHAN, atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e foi declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1985. Em 26 de julho de 1957 o elevou a igreja à dignidade de basílica menor.

A devoção ao Bom Jesus de Matosinhos

miniaturadaimagem|upright|Planta do santuário Esta devoção tem origens antiquíssimas. Segundo uma lenda, ela nasceu quando uma imagem de Jesus crucificado arribou às praias de Matosinhos, em Portugal, no ano de 124. Veio a se acreditar que esta imagem teria sido esculpida por Nicodemos, que segundo a narrativa bíblica assistira à crucificação de Jesus, e a lançara ao mar para evitar a perseguição religiosa. A dita imagem foi abrigada no mosteiro local, criando-se em seu redor forte devoção, considerada milagrosa. Em 1559 decidiu-se construir uma igreja especial para a imagem, a que hoje ainda existe em Matosinhos. A devoção se tornou a mais importante do norte de Portugal, sendo introduzida no Brasil pelos colonizadores e ganhando rápida difusão, tanto que 23 cidades brasileiras foram fundadas sob a invocação do Bom Jesus. No período colonial, segundo Marcia Toscan, a mais popular peregrinação do Brasil era dirigida à Igreja de Congonhas, ocorrendo com grandes festejos.

A igreja

A história do Santuário inicia com o minerador português Feliciano Mendes. Diz o Esboço histórico sobre o Santuário de Senhor Bom Jesus de Mattosinhos de Congonhas do Campo, escrito em 1895 e preservado nos arquivos da Arquidiocese de Mariana:

"Corria o anno de 1756. Achava se occupado no trabalho da mineração o português Feliciano Mendes. Nesse penoso trabalho, tendo contraído molestias graves, que o impediram de continuar nelle, resolveo voltar para Portugal a ver se obtinha melhoras para entrar em alguma ordem religiosa, onde pudesse entregar-se todo ao cuidado da salvação de sua alma. Estando firme neste propósito e achando se neste arraial de Congonhas do Campo da antiga comarca do Rio das Mortes, e hoje da comarca de […], lembrou-se ou Deus o inspirou, de levantar uma crus no alto do Morro Maranhão, na beira da estrada do Redondo, e pôs também ali uma Imagem do Senhor para que os passageiros a venerassem e se lembrassem das almas do purgatório e rezassem ou cantassem o terço de Nossa Senhora, tendo elle também em missa ter alguma parte nas orações que alguma alma mais devota do que a sua ali rezasse, com este intuitos collocou uma crus com a Imagem do Senhor no referido logar, que me parece ser aqui onde se acha construída a capella do Senhor Bom Jesus". thumb|left|Fachada da igreja thumb|left|Detalhe do frontispício da portada

Feliciano levantou a dita cruz em 8 de abril de 1757, fundando um pequeno oratório no alto do morro, onde passou a viver como ermitão, e doou toda a sua fortuna em ouro para a construção de uma igreja, financiada também por esmolas que coletou do povo. A construção foi aprovada no mesmo ano pelo bispo de Mariana e pelo rei de Portugal. O projeto tem autoria desconhecida. Disse Luiza de Castro Juste que o próprio Feliciano pode ter orientado o traçado, pois consta no termo de sua admissão à Ordem Terceira de São Francisco de Vila Rica que era "oficial de pedreiro".Juste, Luiza de Castro. Evolução Histórico-cultural e Paisagística da Praça da Basílica de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas-MG. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Lavras, 2012, p. 26 As obras iniciaram ainda em 1757 pela capela-mor, com a participação dos mestres-pedreiros Domingos Antônio Dantas e Antônio Rodrigues Falcado. Em três anos o edifício já tinha condições de receber o culto, mas muito ainda faltava completar.Frade, Gabriel dos Santos. Dissertação de Mestrado. A Influência do Movimento Litúrgico na Arquitetura das Igrejas Paulistanas da Época Pré-Vaticano II: Igreja N. S. da Paz, Capela do Cristo Operário e Igreja de S. Domingos . Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, 2005, pp. 82-83 Pouco se sabe sobre o desenvolvimento das obras, pois a documentação correspondente foi em grande parte perdida.Juste, Luiza de Castro & Paiva, Patrícia Duarte de Oliveira. "Resgate histórico da praça da Basílica de Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas, Minas Gerais". In: Revista Brasileira de Horticultura Ornamental, 2015; 21 (1)

O fundador morreu em 1765, e os trabalhos tiveram continuidade com a supervisão dos ermitãos seus sucessores, primeiro Gonçalves de Vasconcelos, e depois Inácio Gonçalves Pereira. Uma imagem do Bom Jesus foi encomendada em Portugal para ser entronizada no altar-mor, aumentando o prestígio do culto. De 1765 a 1776 Dantas acrescentou as torres e reforçou a estrutura da nave. O insigne arquiteto e construtor Francisco de Lima Cerqueira esteve na cidade entre 1769 e 1773, mas não se sabe exatamente o que fez. Segundo o IPHAN, teria participado da elevação da capela-mor junto com Tomás da Maia e Brito, colaborado na finalização das torres e deve ter erguido o frontão.IPHAN. Santuário de Bom Jesus de Matozinhos: conjunto arquitetônico, paisagístico e escultórico (Congonhas, MG). Arquivo Noronha Santos - Livro das Belas Artes.

Em 1773 a estrutura estava essencialmente completa. Enquanto isso, continuava a decoração do interior. João Gonçalves Rosa foi incumbido das obras de carpintaria entre 1769 e 1790, criando também o oratório da sacristia, quatro tocheiros, uma estante de jacarandá, o trono do Jesus crucificado e o altar da Casa dos Milagres, onde se guardam os ex-votos.Brandão, Angela. "Das pontes aos castiçais: a produção de mobiliário artístico em Minas Gerais do e os ofícios mecânicos" . In: Revista Científica da Faculdade de Artes do Paraná, 2009; 4 (2):50-66 A decoração externa foi finalizada em 1794 por Vicente Freire de Andrada.Juste (2012), op. cit. p. 28

A planta da igreja segue o modelo barroco colonial, com uma nave única, um coro sobre a entrada e uma capela-mor separada da nave por um arco monumental. Corredores em torno da capela-mor levam a uma sacristia nos fundos. A fachada também é típica do período, com um bloco central para o corpo da igreja, de entrada única adornada com uma moldura de pedra lavrada, formando um elaborado frontispício, cujo desenho foi atribuído por Germain Bazin ao Aleijadinho. Rocalhas e cabeças de querubins rodeiam um medalhão onde foram inscritos os símbolos da Paixão de Cristo. No nível superior se abrem dois janelões com balaustrada e verga em arco abatido. Este bloco é coroado por um frontão ornamental de arcos quebrados e volutas, com um óculo periforme ao centro, sobre o qual se eleva uma cruz ladeada de pináculos. Ladeiam o bloco central duas torres sineiras de partido quadrado, com duas seteiras no nível inferior e arcos vazados para os sinos no superior, elementos arrematados por coruchéus em forma de sino, sobre os quais foram instaladas cruzes sustentadas por esferas armilares.UNESCO. Sanctuary of Bom Jesus do Congonhas.

A novidade do conjunto é o seu grande adro com escadaria de linhas curvas, iniciado em 1777 e concluído em 1790, e decorado mais tarde com as celebradas estátuas dos profetas criadas pelo Aleijadinho, formando uma estrutura sem paralelos na tradição arquitetônica colonial do Brasil, mas que tem precedentes portugueses como o Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga, e o Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego."Conheça o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos (MG)". Portal Brasil, 09/09/2014Bury, John. "Os doze profetas de Congonhas do Campo". In: Bury, John [Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira (org.)]. Arquitetura e Arte do Brasil Colonial. IPHAN / Monumenta, 2010, pp. 36-59 Durante muito tempo se pensou que a estrutura do adro fora projetada pelo Aleijadinho, mas análises recentes da documentação que sobreviveu tendem a descartar essa opinião. Hoje atribui-se a provável autoria do projeto ao seu próprio executante, Tomás de Maia e Brito. O mestre canteiro Antônio Gomes também deu breve colaboração na construção.Rocha, Ricardo. "As 'muralhas' e a escadaria do adro do Santuário de Congonhas do Campo: ponto de partida, discussão e considerações provisórias". In: IX Colóquio Luso-Brasileiro de História da Arte em homenagem aos 200 anos da morte de Antônio Francisco Lisboa - o Aleijadinho. Belo Horizonte, 02-05/11/2014 Para John Bury,

"Esse pátio monumental, com seus largos parapeitos e elaborada escadaria, se apresenta como um trabalho cheio de dignidade e boas proporções. O efeito básico é simples, mas por trás dessa aparente simplicidade há uma complexa harmonia no contraste das linhas côncavas e convexas, que dão variedade e movimento ao conjunto, impedindo que caia na monotonia e no peso excessivo. Assim, a arquitetura do adro constitui, por si só, uma realização de qualidade, mas quando considerada juntamente com as estátuas dos profetas, cumprindo sua função, temos um desses magníficos e dramáticos conjuntos arquitetônicos de elementos independentes em que se sobressaem os artistas do estilo".

"Nesse conjunto, as figuras dos profetas assumem um valor arquitetônico paralelamente ao escultórico, e o efeito global atingido é autenticamente Barroco. Pode-se comparar as estátuas de Congonhas às onze que se encontram no topo da fachada da Igreja de São João de Latrão, em Roma, de meados do , pois em ambos os grupos as figuras gesticulantes desempenham uma função de equilíbrio na composição arquitetônica. Em Congonhas, porém, as figuras foram trazidas para a frente e para baixo até o nível do parapeito do adro, relacionando-se com a portada da igreja no plano horizontal, e não no vertical, como acontece na Igreja de São João de Latrão. Desse ponto de vista, também pode ser reconhecida no conjunto de Congonhas a culminância das experiências do Aleijadinho no desenho tridimensional e decoração de fachadas".

Seu interior tem rica decoração em estilo Rococó, composta de talha dourada nos altares, estatuária e pinturas nos forros e paredes. Os altares do arco do cruzeiro foram iniciados entre 1765 e 1769 por Jerônimo Felix Teixeira, e terminados em 1772 por Manuel Rodrigues Coelho, sendo dourados e pintados por João Carvalhais (altar de Santo Antônio) e Bernardo Pires da Silva (altar de São Francisco de Paula). O altar da capela-mor é produto de João Antunes de Carvalho, executado entre 1769 e 1775. Francisco Vieira Servas criou em 1778 os dois grandes anjos tocheiros que ornamentam a capela-mor, e os quatro relicários são obra da oficina do Aleijadinho, pintados pelo Mestre Ataíde.