A língua ofayé (em ofayé: ofayé, ), também conhecida como ofaié ou ofayé-xavante, é uma língua indígena brasileira criticamente ameaçada de extinção pertencente à família Macro-jê. É o idioma nativo da tribo dos Ofayé, que atualmente vive em uma pequena reserva situada em Brasilândia, MS, e teve apenas 3 falantes registrados em 2025, com um projeto de revitalização em curso.
Ao longo da história, houve um declínio demográfico do povo Ofayé, devido a migrações forçadas, doenças trazidas pelos colonizadores e à violência sofrida pelos povos indígenas oriunda da expansão pecuária no Centro-Oeste. A partir de meados da década de 1970, porém, a população voltou a crescer - fenômeno que não se estendeu ao número de falantes maternos da língua.
Alguns apontamentos e estudos linguísticos foram feitos sobre o ofayé desde o início do século XX, sendo a obra mais extensa sobre a gramática do ofayé a tese Ofayé, a língua do povo do mel - Fonologia e gramática, de Maria das Dores de Oliveira, datado de 2006. O ofayé é originalmente ágrafo, mas foi desenvolvido um material didático a ser utilizado na escola da aldeia que utiliza a escrita do alfabeto latino, com a presença de diacríticos para melhor adequação às nuances do inventário fonológico da língua. Os estudos realizados anteriormente à proposta de uma ortografia representavam o idioma principalmente por meio do alfabeto fonético internacional.
Linguisticamente, a língua ofayé destaca-se pela presença de pronomes ligados a verbos nas sentenças independentemente se o nome a que se referem também estão explícitos ou não, pela ordem sintática sujeito-objeto-verbo (SOV) e pela formação de sintagmas nominais por meio principal de afixos.
Etimologia O termo endônimo ofayé é utilizado tanto para se referir à língua quanto ao próprio povo Ofayé, significando índio ou indígena.
Os não-indígenas, ao explorarem o Centro-Oeste do Brasil nos tempos da colonização, cunharam o termo "Xavantes" como um nome para se referir "àqueles que vivem na savana" - nesse caso, o cerrado matogrossense - e estenderam a nomenclatura a todos os diferentes povos indígenas da região. Apesar de terem recebido o mesmo exônimo, o povo Ofayé difere da tribo dos Xavantes, que habita o leste do Mato Grosso.
Distribuição
O ofayé tem sua distribuição limitada à própria pequena etnia Ofayé, comunidade essa que está localizada na Reserva Indígena Ofayé-Xavante, chamada de Aldeia Anodi (em ofayé: Akanõdji - nosso lugar), no município de Brasilândia, no Mato Grosso do Sul.
Há uma população de quase 130 Ofayé (2024) no conjunto da Reserva Indígena Ofayé-Xavante e a Terra Indígena Ofayé-Xavante, áreas adjacentes com um total de cerca de 2,4 mil ha e cujo processo de demarcação e reconhecimento ainda não foi totalmente concluído.
Após a construção da escola da aldeia Escola Ofayé-E-Iniêcheki em 1995, quando o português começou a ser ensinado na comunidade e sua utilização no dia-a-dia, encorajada, a geração mais nova foi gradualmente deixando a língua materna de lado. A diminuição da população e a aproximação com o homem branco fez com que a língua ofayé se distanciasse cada vez mais de seus falantes maternos, e a tornasse uma segunda língua a ser ensinada na escola.
Há somente três falantes nativos de ofayé restantes: José de Souza Koi, professor, artesão e guardião da língua; Dona Neuza Ofaié, artesã; e Dona Joana.
Línguas relacionadas
Apesar do idioma pertencer ao tronco linguístico Macro-Jê, ela é considerada como uma língua isolada dentro desse tronco.
Na aldeia, há a convivência de três línguas diferentes: o português, majoritariamente usado no dia-a-dia pela comunidade, o ofayé e o guarani, em decorrer da miscigenação entre as diferentes etnias indígenas.
História A história da língua ofayé está intrinsicamente relacionada com a história do povo Ofayé, visto que é uma característica única de tal etnia indígena brasileira.
Histórico da distribuição
Estima-se que, baseado no primeiro contato oficial da tribo dos Ofayé com o Marechal Cândido Rondon em 1903, a população dessa etnia seria de dois mil indivíduos até o final do século XIX, que vivia espalhada pela margem direita do rio Paraná, desde a foz do Sucuriú até as nascentes dos rios Vacaria e Ivinhema.
Em 1910, os números teriam caído para cerca de 900 pessoas, divididas em algumas tribos que habitavam territórios diversos ao longo do rio Paraná. Entre estes, áreas dos dois lados do rio Samambaia, ao sul do rio Pardo, no rio do Peixe, ao redor do rio Verde, entre outros.
A trajetória do povo Ofayé pela história, muito similar a de demais povos indígenas brasileiros, foi marcada por fugas e migrações frequentes. Eram decorridas do avanço da criação de gado no interior do Brasil a partir de meados do século XIX, o que implicava em sofrer perseguições e massacres realizados pelos vaqueiros.
Em 1978, houve a contratação dos Ofayé pela FUNAI, que propôs, diante da fragilidade do povo, a sua remoção para uma área reservada para grupos ameaçados. Foram levados para a Serra da Bodoquena, território indígena Kadiwéu, onde, contra todas as promessas e expectativas, foram abandonados e deixados à mercê tanto da outra tribo, hostil, quanto dos fazendeiros.
Após oito anos, em 1986, o agrupamento Ofayé recebe ajuda do Conselho Indigenista Missionário para fugir de Bodoquena e retornar à Brasilândia, de onde haviam sido levados. A princípio, se instalaram em fazendas nas quais trabalhavam, e então vão sendo acomodados em áreas cada vez maiores - primeiro, em uma fazenda de dois hectares na Reserva Natural Cisalpina, depois em uma área de 110 hectares arranjada pela FUNAI às margens do Rio Verde.
A falta de garantia de um lugar fixo para sobrevivência do grupo perdurou até 1997, quando a Companhia Energética de São Paulo comprou uma nova área a título de indenização das terras tradicionais dos Ofayé na Reserva Natural Cisalpina, inundadas com a construção da Hidrelétrica de Porto Primavera, atualmente Usina Hidrelétrica Engenheiro Sérgio Motta.
Atualmente, os Ofayé estão definitivamente assentados nesta área comprada pela CESP, onde plantam, colhem, estudam e colhem os frutos da mata, como o marolo e a guavira, e vendem na cidade para contribuir na renda familiar. Além disso, as mulheres participam ativamente na confecção de artesanatos, contribuindo assim na renda familiar.
História da documentação Os apontamentos linguísticos mais antigos que se tem notícia sobre os Ofayé e sua língua foram recolhidos pelo filósofo tcheco Albert Vojtech von Fric, que manteve contato em 1901 com um grupo as margens do rio Verde, afluente do rio Paraná (no atual município de Brasilândia). No entanto, o autor não conseguiu recolher as informações detalhadas que pretendia, devido ao fato de não compreender a chamada língua geral.
O estudo linguístico de maior referência até a publicação de Ofayé, a língua do povo do mel - Fonologia e gramática, elaborado por Maria das Dores de Oliveira em 2006, era o artigo de Sarah Gudschinsky de 1974, intitulado Fragmentos do Ofaié: a descrição de uma língua extinta, que tratava de aspectos da estrutura da língua, da descrição fonológica dos segmentos e uma parte dedicada à morfologia do ofayé. Nesse trabalho, resultado de um trabalho de campo realizado em 1968, a autora acredita estar trabalhando com o último falante da língua ofayé, considerado-a praticamente como uma língua extinta e, consequentemente, fortalecendo a idéia de extinção do grupo, apresentada anteriormente por Darcy Ribeiro a partir de seu contato com um pequeno grupo de Ofayé, em fins de 1948.
O trabalho extenso de Oliveira foi imperativo para a preservação do idioma ofayé, visto que seu propósito era justamente sugerir uma classificação tipológica da língua, tanto na morfologia quanto na sintaxe, visando a confecção de materiais didáticos para o ensino do ofayé. Tal estudo é discutido com mais detalhes na seção de Ortografia.
Fonologia Consoantes O inventário consonantal do idioma ofayé consiste em 23 fonemas, apresentados na tabela abixo:
Os fonemas /t/, /d/, /k/ e /g/ possuem uma versão pós-nasalizada, representada pela combinação com o /ⁿ/. /k/, /g/, /f/ e /h/, por sua vez, apresentam versões labializadas, representada pela combinação com o /ʷ/.
Vogais Os fonemas vocálicos em ofayé são descritos como "não-previsíveis", e apresentam, caso não sejam nasais, formas longas e curtas.
Os fonemas nasais do ofayé, representados pela combinação com o sinal diacrítico <~>, são os seguintes: //, //, //, //, //.
Outro estudo realizado sobre a língua propõe a presença de mais fonemas, como o //, //,//, // e //.
Alongamento de vogais
As vogais longas em ofayé //, //, //, //, //, // ocorrem apenas em fronteira de morfemas ou de palavras. A diferençiação, além de ter valor contrastivo entre itens lexicais, é resultado da elisão de sílabas finais.
Prosódia
O padrão dos acentos é fixo: a maior intensidade ocorre sempre na primeira sílaba de uma palavra, apesar da diferença entre uma sílaba acentuada a não-acentuada ser mínima. Esse fenômeno ocorre em cada palavra de um sintagma, independentemente da quantidade de sílabas de uma palavra e se ela é composta ou simples.
Ortografia O ofayé é, em sua origem, uma língua oral, ou seja, uma língua que não possui sistema de escrita. Em 2006, Maria das Dores de Oliveira formulou uma "proposta de elaboração de um alfabeto e produção de materiais didáticos a serem utilizados na escola da comunidade".
Em registros anteriores a esse, utilizava-se comumente o alfabeto fonético internacional em obras com enfoque mais técnico, como o de Sarah Gudschinsky, Fragmentos de Ofaié: A descrição de uma língua extinta, de 1974. Há também registros do uso de uma grafia simplificada para leitores falantes de português ou da língua materna do autor para expor a língua de forma simples.
O material didático desenvolvido por Oliveira para ser utilizado pelos professores na escola da aldeia, junto com a proposta do alfabeto propriamente dita, foi deixado com os Ofayé em forma de manuscrito. Sabe-se, porém que os grafemas atualmente utilizados para a representação da língua são pertencentes ao alfabeto latino, adaptado para a pronúncia específica dos sons presentes na língua, como é possível observar no livro desenvolvido por professores da escola, o "Krekiage ofaie’ã!".
+Exemplos de termos em ofayé reirados do livro "Krekiage ofaie’ã!"OfayéTradução para o portuguêsTehäTchauEhekiageDesculpeNakãZeroKriifwaiétaGaloXokwiknHistória
A proposta de um alfabeto acarretou em algumas tentativas de formalização da fonologia do idioma, e não foram todas bem recebidas. Relata-se que em mais de uma ocasião houve discussões ou questionamentos sobre a escolha de certos grafemas para a representção da língua.
Gramática Substantivos Posse Os nomes em ofayé podem ser dividos em três classificações de posse: alienavelmente possuíveis (animais, utensílios domésticos, objetos, plantas, entre outros), inalienavelmente possuíveis (relações de parentesco e partes do corpo) e não possuíveis (fenômenos da natureza, corpos celestes, acidentes geográficos). Tal marcação é feita por um prefixo posicionado imediatamente antes à raiz.
A marcação é obrigatória aos nomes inalienavelmente possuíveis, recebendo o prefixo da 3a pessoa do singular [ã] quando são citados sem referência direta a um possuidor. Quando o possuidor é um nome próprio, não se utiliza um afixo.
+Sistema de prefixos de posse do ofayé - nomes inalienavelmente possuíveisNúmero1a pessoa2a pessoa3a pessoaSingularʃə-ə-ã-Pluralaka-eke-ida-
O uso dos prefixos em nomes alienavelmente possuíveis, entretanto, é opcional.
+Sistema de prefixos de posse do ofayé - nomes alienavelmente possuíveisNúmero1a pessoa2a pessoa3a pessoaSingulara-ə-hã-Pluralaka-eke-ida-