thumb|250px|Jardim Duque da Terceira: vista geral do jardim; ao fundo, a baía de Angra. thumb|250px|Jardim Duque da Terceira: monumento em homenagem a Almeida Garrett (glorieta em bronze e pedra, descerrada a 30 de Novembro de 1954). thumb|250px|Jardim Duque da Terceira: plataforma inferior com o coreto e chafariz (o «babão»). thumb|250px|Jardim Duque da Terceira: «Tanque do Preto» (detalhe do chafariz, mostrando a escultura em basalto). thumb|250px|Jardim Duque da Terceira: busto do Dr. Manuel António Lino (descerrado a 16 de outubro de 1949). thumb|250px|Jardim Duque da Terceira: painéis de azulejo representando a parábola do filho pródigo (parte da cerca do convento dos franciscanos). thumb|250px|Jardim Duque da Terceira: destaque para o feto arbóreo ao centro da foto. O Jardim Duque da Terceira é um parque municipal integrado no Centro Histórico de Angra do Heroísmo (ilha Terceira), conjunto inscrito na lista do Património Mundial da UNESCO, considerado um dos mais belos jardins clássicos do arquipélago dos Açores. Assim designado, por deliberação camarária de 18 de Janeiro de 1888, em homenagem a António José de Sousa Manoel de Menezes Severim de Noronha, duque da Terceira,<ref name="siaram">[http://siaram.azores.gov.pt/patrimonio-cultural/Jardins-dos-Acores/Jardim-Duque-Terceira/_texto.html Paulo J. M. Barcelos, "Jardim Duque da Terceira in SIARAM : sentir e interpretar o ambiente dos Açores].</ref> o complexo de parque e edifícios conexos ocupa cerca de 31 600 m2 e está implantado nos terrenos outrora ocupados pelas cercas do Colégio dos Jesuítas e do Convento de São Francisco de Angra e pelos quintais da Casa do Capitão do Donatário de Angra. É um jardim de traços clássicos, construído em patamares ligados por caminhos declivosos, desenhados com pedras de basalto, que se estendem até ao Alto da Memória. Conserva valiosos testemunhos da antiga cerca dos franciscanos e exibe uma grande variedade de espécimes vegetais pertencentes à flora das regiões subtropicais e tropicais.Maria Manuel Velasquez Ribeiro, “Jardim Duque da Terceira: espaço de representações e de memórias (a propósito dos seus 120 anos)", in Revista Atlântida, vol. XLVII, p. 118. Angra do Heroísmo, 2002.
História Acompanhando as tendências dos inícios do século XIX o Município de Angra, com o valioso contributo de vários particulares, construiu em 1815 um «passeio público» no Alto das Covas, usando os terrenos anexos à cerca do Convento de São Gonçalo. Esta primeira tentativa de dotar a cidade de um espaço para atrair os cidadãos nas suas horas de lazer não surtiu o efeito desejado e em poucos anos o «passeio» ficou vandalizado e semi-abandonado, acabando por ser desmantelado em 1871. Entretanto fora construído um pequeno jardim na parte final da falésia acima do varadouro do Porto de Pipas, que nos tempos do Estado Novo seria designado por «Jardim Brianda Pereira», mas que por estar situado em local considerado distante, e mesmo como sendo fora da cidade, também foi votado ao esquecimento, mas ainda assim persistindo até à década de 1950.
Foi neste contexto de acompanhar a modernidade e dotar o centro da cidade de um decente «passeio público» que surgiu a ideia de utilizar para esse fim os terrenos das antigas hortas do Colégio dos Jesuítas e de parte da cerca do Convento de São Francisco. Ao tempo a parte inferior desses prédios era conhecida pelo «Sítio do Fagundes», tendo sido arrematado por um particular com esse apelido após a extinção dos conventos ocorrida em 1834.
Com esse objectivo, a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo adquiriu em 1863 o domínio útil do denominado «Sítio Fagundes», do qual tomou posse no ano seguinte, passando assim a dispor de uma parte substancial da cerca do convento de São Francisco e as casas anexas que até então eram do abonado proprietário de apelido Fagundes. O Município acabaria mais tarde por comprar este prédio de 16 335 m2, inscrito em 1872 na Conservatória do Registo Predial a seu favor. O prédio compreendia as antigas cercas do Colégio dos Jeuítas (hoje o «Jardim de Baixo») e do Convento de São Francisco (hoje os «Bosques» e «Jardim de Cima»).
Apesar da aquisição, o objectivo de ali estabelecer, embora de forma faseada, um «passeio público» tardou e o Conselho Agrícola Distrital, um organismo dependente da Junta Geral do Distrito de Angra do Heroísmo, tomou o terreno por arrendamento para ali estabelecer a sua quinta experimental.
Em resultado desse arrendamento, os terrenos permaneceram durante muitos anos sob a administração e exploração do Conselho Agrícola Distrital, que ali realizou várias experiências de aclimatação de plantas, com a condição expressa de reservar uma parte para ajardinamento.Carlos Enes, Angra do Heroísmo - Alma e memória, pp. 56-64. Município de Angra do Heroísmo, 2019 (ISBN 978-972-91385-25-5). Nesse período, o terreno que hoje constitui o «Jardim de Baixo» estava dividido em cinco secções: floricultura, fruticultura, horticultura, grande cultura e viticultura.
A construção do jardim apenas foi iniciada em 1882, quase duas décadas após a aquisição dos terrenos, por sugestão do governador civil Afonso de Castro que no início desse ano lembrou à Câmara Municipal a necessidade de ser construído o falado passeio público. Tendo o Governo assumido parte da obra, por incapacidade financeira do Município, 6 meses depois, nos finais de 1882, já havia o Município dado início aos trabalhos.
O projecto inicial, em estilo geometrizado clássico francês, foi elaborado por François Joseph Gabriel (1835-1897, frequentemente referido por Francisco José Gabriel), um agrónomo e jardineiro, natural de Liège, que trabalhava nos viveiros do empresário valão Lambert Jacob-MakoyDictionnaire des Wallons: Lambert Jacob-Makoy. quando foi contratado pelo micaelense António Borges, para instalar o seu parque em Ponta Delgada (hoje o Jardim António Borges).Isabel Soares de Albergaria, Quintas e jardins da ilha de São Miguel, vol. I, p. 184. Dissertação de mestrado, policopiada, Ponta Delgada, 1996. Depois de uma viagem por Paris e Londres, fixou-se em 1853 na ilha de São Miguel, onde colaborou na instalação de diversos jardins, entre os quais em 1859, por encomenda de Jácome Correia, os do parque do Palácio de Santana.
Após o falecimento da esposa, mudou-se para Angra como representante da Fábrica de Tabaco Micaelense e procurador dos herdeiros da baronesa da Fonte Bela. Em Angra, em 1870 voltou a casar, fixando-se em definitivo. Depois de ornamentador várias quintas nos arredores da cidade, em 1873 já trabalhava para a Câmara Municipal, como responsável pelo plantio de árvores na Praça Velha. Introduziu várias espécies de árvores e arbustos na ilha Terceira, entre as quais o metrosídero, o eucalipto-limão e a araucária. O seu trabalho na aclimatação de plantas e na construção do jardim público levou a que fosse agraciado em 1882, por proposta do governador civil de Angra, com a comenda da Ordem de Nossa Senhora da Conceição, pelos serviços prestados à agricultura. Foi avô de Marina Dewander Gabriel, professora de canto e cantora de projecção internacional.A Ilustração, n.º 103 (3.ª série) de 1 de abril de 1930: Marina Dewander Gabriel (fotografia e curta notícia).
A fase inicial, correspondente ao talhão que é hoje conhecido pelo «Jardim de Baixo», abriu em finais de 1882, com o portão e a vedação para a Rua Direita com a configuração que ainda mantêm, ocupando essencialmente os terrenos antes pertencentes ao Colégio, com a implantação de uma cascata em obsidiana, canteiros e um lago, cujo repuxo se elevava a alguns metros de altura.
Desde o início da construção do jardim, iniciada em finais de 1882, foram várias as concepções estéticas adoptadas. Apesar disso, o jardim mantém a marca do belga François Joseph Gabriel, que ao desenhar o «Jardim de Baixo» e ao chefiar nos primeiros anos o andamento dos trabalhos, imprimiu àquele espaço um claro cunho clássico francês, estilo desenvolvido dois séculos antes por André Le Nôtre. Esta opção estilística foi depois replicado, embora com modificações, nas zonas posteriormente construídas. Na parte desenhada por François Gabriel os caminhos cuidadosamente delineados realçam a simetria conferida pelos tapetes relvados, sobre os quais estão montados canteiros sazonais e se alinham e emparelham árvores e arbustos. A repetição de elementos vivos, como as roseiras, os corpos de água geometricamente dispostos, as podas de topiaria que impõem formas exóticas às árvores e arbustos, são as características dominantes desta parte do jardim.
Em redor da zona ajardinada permaneciam muros altos, que separavam o «passeio público» dos quintais circundantes e da zona de aclimatação de plantas, que foram sendo retirados ao longo da década seguinte. A zona sul, hoje contígua ao hotel e onde se localiza o «babão», inicialmente separada por alto um muro, era mais baixa, sendo ocupada por viveiros de plantas. Aquela zona assim permaneceu até se proceder ao seu ajardinamento e plantio com roseiras, o que levou à criação de um espaço em estilo tipicamente francês, tendo o coreto na zona de separação, então transformada num talude ajardinado. O desnivelamento entre os dois tabuleiros foi sempre motivo de alguma contestação, sendo desde o início proposto o aterro com terras a retirar do adro da Igreja de Nossa Senhora da Guia do contíguo Convento de São Francisco.
Por deliberação de 18 de Janeiro de 1888 este local de experimentação e de aclimatação de culturas, passa a denominar-se «Passeio Duque da Terceira», ficando Angra com um recanto verde estrategicamente situado no coração da cidade. Com a generalização da designação de «jardim» o local nas décadas seguintes passou a ser conhecido pela sua designação actual, passando a ser o «Jardim Duque da Terceira», tendo como epónimo, o 1.º duque da Terceira, uma das figuras mais relevantes da implantação do liberalismo em Portugal.
O nivelamento do «Jardim de Baixo» apenas foi conseguido na década de 1920, por proposta do vereador Eduardo Abreu que para tal se socorreu de um projecto elaborado pelo então major Eduardo Gomes da Silva. A obra iniciou-se em 1922, ficando concluída em meados de 1923, altura em que aquela plataforma ganhou a configuração que ainda mantém. Por esta altura o Jardim ganhou nova vitalidade, especialmente pelo empenhamento de Henrique Brás, ao tempo presidente da Câmara Municipal, invertendo-se a degradação que então se verificava no asseio e na decoração. A zona mais próxima do Convento de São Francisco, hoje conhecida pelo «Jardim de Cima», era então uma mata, em boa parte abandonada e com árvores secas a necessitar de limpeza e reposição.
Em 1925, novamente sob a presidência de Henrique Brás, o coreto, que havia sido construído em 1887, ganhou a sua presente configuração, com a actual cobertura metálica e gradeamento. Nesse mesmo ano foi transferido para a localização actual o chamado «babão», fontanário decorativo em mármore que depois de uma curta passagem pela Praça Velha em 1879, e após vários anos desmontado à guarda do Conselho da Agricultura, se encontrava inicialmente instalado no «bosque», ou seja no actual «Jardim de Cima», ocupando uma posição central, sensivelmente frente à porta da Igreja de Nossa Senhora da Guia. Ficava assim completo o «Jardim de Baixo» na sua presente configuração. O coreto era a esse tempo local principal de atracção da cidade, com concertos nocturnos da banda militar, e a partir de 1900 das filarmónicas, num jardim que para esse efeito era iluminado.