miniaturadaimagem|Última carga de Lasalle em Wagram, de Édouard Detaille (1912).

Cavalaria é a arma das forças terrestres que se destina ao combate de fogo em movimento, em ações de choque ou de reconhecimento. Historicamente, a cavalaria é a arma mais móvel dos exércitos e a segunda mais antiga, depois da infantaria.

Hoje em dia, são raros os exércitos que mantêm forças de combate a cavalo. No entanto, em muitos deles, por tradição, continua a se chamar Cavalaria às forças e unidades mecanizadas ou blindadas, fazendo uso de veículos motorizados, e de veículos blindados. Essa arma é importante para os Exércitos e Forças Policiais, pois apresenta o poder ofensivo e defensivo, por meio de sua ação de choque, potência de fogo e proteção blindada.BABEL, Isaac. O Exército de cavalaria, 1° Ed. São Paulo: Nova Fronteira, 2006.

Normalmente, a designação "cavalaria" não se estendia às forças que combatiam montadas em outros animais que não o cavalo, como o camelo ou o elefante. Igualmente, as tropas que se deslocavam a cavalo, mas que desmontavam para combater, eram conhecidas como "dragões", não sendo consideradas parte da cavalaria, senão a partir da segunda metade do . No tempo de D. Afonso Henriques a cavalaria ligeira era chamada de "corredores". No Brasil, a cavalaria foi muito importante pela necessidade de conquistar território durante a Guerra do Paraguai, entre 1865 e 1870, sob o comando do Duque de Caxias. Nesse conflito, destacou-se a liderança do General Manuel Luís Osório, que hoje é o patrono da arma no Exército Brasileiro.

Desde os tempos mais remotos que a elevada mobilidade da cavalaria lhe deu uma vantagem como um instrumento multiplicador de forças. Mesmo uma pequena força de cavalaria poderia manobrar de forma a flanquear, evitar, surpreender, retirar e escapar, de acordo com as necessidades do momento. Um homem combatendo montado num cavalo tinha também a vantagem de uma maior altura, velocidade e massa inercial sobre um oponente a pé. Outro elemento da guerra a cavalo era o impacto psicológico que um soldado montado poderia infligir sobre um oponente.

O valor da mobilidade e do choque da cavalaria foi muito apreciado e explorado pelos exércitos da Antiguidade e da Idade Média, muitos dos quais eram constituídos, praticamente, apenas por tropas a cavalo. Isso acontecia especialmente nas sociedades nómadas da Ásia que originaram os exércitos mongóis. Na Europa, a cavalaria transformou-se, essencialmente, numa cavalaria pesada constituída por cavaleiros de armadura. Durante o a cavalaria europeia perdeu a maior parte das suas armaduras e, no final do século já só algumas unidades usavam armadura e esta, limitando-se à couraça do peito. A cavalaria tradicional sobreviveu até ao início da guerra de trincheiras na Primeira Guerra Mundial. A maioria das unidades de cavalaria foram então desmontadas e empregues como infantaria na Frente Ocidental. No período entre guerras, muitas unidades de cavalaria foram motorizadas ou mecanizadas. No entanto, algumas tropas a cavalo ainda combateram durante a Segunda Guerra Mundial sobretudo na União Soviética, onde foram usadas tanto pelos Soviéticos como pelos Alemães e seus aliados. Hoje em dia, a maioria das unidades militares a cavalo ainda existentes, são usadas apenas para funções cerimoniais. Existem no entanto, algumas forças de combate a cavalo que atuam como infantaria montada para operar em terrenos de acesso difícil, como florestas densas e montanhas.

A missão da cavalaria

thumb|300px|direita|Carga da Brigada Ligeira

Em muitos dos exércitos modernos, o termo "cavalaria" ainda é usado para se referir à arma que desempenha funções semelhantes às que a antiga cavalaria ligeira desempenhava, montada a cavalo. Essas funções incluem a exploração, a caça aos elementos de reconhecimento inimigos, a segurança avançada, o reconhecimento ofensivo pelo combate, cobertura das forças amigas durante movimentos retrógrados, a retirada, a recuperação do comando e controlo, a decepção, a ligação, a penetração e a incursão. Para desempenhar estas funções, a cavalaria moderna trocou o cavalo por um conjunto de equipamentos que inclui veículos ligeiros todo-o-terreno, motociclos, veículos blindados, helicópteros, radares de superfície e drones.

Já a função de choque, antigamente desempenhada pela cavalaria pesada, é, em muitos exércitos hoje desempenhada por uma arma própria (normalmente designada "arma blindada" ou " de blindados") ou, nalguns casos, pela infantaria. No entanto, em outros exércitos, esta função também ainda se mantém como atribuição da arma de cavalaria. Para desempenho da função de choque, os cavalos de grande porte e as armaduras foram substituídos pelos carros de combate.

História

Origens

Antes da Idade do Bronze, o papel da cavalaria no campo de batalha era, essencialmente, desempenhado pelos carros ligeiros puxados a cavalo. O carro de combate puxado a cavalo teve origem na cultura de Andronovo da Ásia Central e espalhou-se pelos povos nómadas ou seminómadas indo-iranianos. O carro foi prontamente adotado por povos sedentários, tanto como meio de combate como objeto cerimonial símbolo de estatuto, especialmente pelos egípcios, assírios e babilónios.

O poder da mobilidade, dado pelas unidades montadas, cedo foi reconhecido, mas prejudicado pela dificuldade em levantar grandes forças e pela incapacidade dos cavalos — então, a maioria de pequeno porte — em carregar armaduras pesadas. As técnicas de cavalaria foram uma inovação desenvolvida pelos povos nómadas equestres da Ásia Central e pelas povos pastorícios do atual Irão, como os Pártias e os sármatas.

Os relevos encontrados, datados de cerca de , representando a cavalaria assíria, mostram-nos que, por esta altura, os cavaleiros não usavam esporas, selas ou estribos. O combate em cima do cavalo seria muito mais difícil do que uma simples cavalgada. Os cavaleiros atuavam aos pares, sendo um deles um arqueiro e o outro, um parceiro que lhe controlava as rédeas do cavalo, enquanto aquele disparava o seu arco. Já nesta época, a cavalaria fazia uso de espadas, escudos e arcos. Evidências posteriores, mostram já o uso de selas primitivas pela cavalaria assíria, permitindo, aos arqueiros, o controlo dos seus próprios cavalos.

Heródoto refere que, já em , os medos criaram uma raça de grandes cavalos, capaz de carregar homens protegidos com armaduras cada vez mais pesadas. Mas os cavalos de grande porte eram ainda uma raridade, por esta altura.

O uso de carros de combate puxados a cavalo estava já obsoleto na altura que os Persas foram derrotados por Alexandre o Grande. Os carros continuaram, no entanto ainda a ser usados por povos menos evoluídos tecnicamente. Por exemplo, os povos do sul da Grã-Bretanha ainda enfrentaram a invasão romana, comandada por Júlio César, com carros de combate puxados a cavalo, em 55 e No entanto, por essa altura, os carros já quase só eram usados em cerimónias, desfiles militares ou em corridas.

Grécia antiga e Macedónia

A cavalaria desempenhou um papel, relativamente subalterno, na Grécia antiga, sendo os conflitos decididos por massas de infantaria couraçada. Contudo, a Tessália era, amplamente, conhecida por produzir exímios cavaleiros e experiências posteriores em guerras, tanto com como contra o Império Aquemênida ensinaram aos Gregos o elevado valor da cavalaria em ações de perseguição e em escaramuças. Xenofonte — autor e soldado ateniense — advogou a criação de uma pequena, mas bem treinada força de cavalaria, escrevendo, para isso, vários manuais sobre cavalos e cavalaria.

Em contrapartida, a Macedónia, ao norte, desenvolveu uma forte cavalaria pesada que culminou nos hetairos (cavalaria dos Companheiros) de Filipe II e de Alexandre o Grande. Além desta cavalaria pesada, o exército de armas combinadas macedónio também empregou soldados de cavalaria ligeira, chamados "pródromos, em missões de exploração e de cobertura. Foram também empregues os ippiko, soldados de cavalaria média, armados com lança e espada, protegidos com uma couraça de pele, cota de malha e chapéu, usados como exploradores e caçadores a cavalo. Esta cavalaria era usada em conjunto com a infantaria ligeira e a famosa falange macedónica. A eficiência do sistema de armas combinadas foi demonstrado nas conquistas asiáticas de Alexandre o Grande.

Império Romano

thumb|esquerda|Cavaleiro auxiliar romano

O serviço na cavalaria, no início da República Romana, manteve-se como uma prerrogativa reservada aos membros da classe abastada dos equites, os únicos com capacidade para manter um cavalo, além das armas e da armadura. À medida que a classe cresceu, tornando-se mais numa elite social do que, propriamente, num grupo de militares, os Romanos começaram a empregar aliados Italianos (não Romanos) da classe dos sócios (socii) para preencherem os postos da sua cavalaria. Ao mesmo tempo, os Romanos começaram a recrutar auxiliares de cavalaria estrangeiros, de entre os Iberos, Gauleses e Númidas. O próprio Júlio César era conhecido pela admiração que tinha da sua escolta de cavalaria mista germânica, que deu origem à Coorte de Cavalaria (Cohorte Equitates). Os primeiros imperadores mantiveram uma ala de cavalaria, composta por Batavos, para sua guarda pessoal, mais tarde extinta por Galba.

Durante a maior parte da república, a cavalaria romana funcionou, apenas como uma auxiliar da infantaria das legiões, formando apenas um quinto da força armada. Isto não significa que a sua utilidade possa ser subestimada, uma vez que o seu papel estratégico no reconhecimento e nas operações avançadas foi crucial para a capacidade dos Romanos em conduzir operações a longa distância em território hostil ou desconhecido. Em algumas ocasiões, a cavalaria romana também provou a sua capacidade para conduzir ataques decisivos contra uma inimigo fraco ou pouco preparado, sendo um exemplo disso a carga final durante a Batalha de Aquilônia.

Depois de derrotas, como a da batalha de Carras, os Romanos aprenderam, com os Partos e com os Sassânidas, a importância da ação de uma grande formação de cavalaria. Ambos, mas sobretudo os últimos, eram conhecidos pelos seus catafractários e clibanários — soldados de cavalaria, armados com lanças e protegidos com uma armadura completa. A mobilidade da cavalaria parta confundiu os Romanos, cujas formações em ordem unida não foram capazes de contrabalançar a velocidade dos Partos. A partir daí, os Romanos irão aumentar substancialmente, tanto a quantidade como os padrões de instrução da sua cavalaria. Irão criar as suas próprias unidades de catafractários e de clibanários. No entanto o exército romano continuaria a se basear primariamente na sua infantaria pesada.

No exército do Império Romano tardio, a cavalaria desempenhou um papel com uma importância crescente. A espata (espada clássica usada durante a maioria do primeiro milénio depois de Cristo) foi adotada como modelo padrão das forças de cavalaria do Império.

O declínio progressivo do Império Romano e da sua infraestrutura, tornou cada vez mais difícil a mobilização de uma grande força de infantaria. Assim, durante os séculos IV e V, a cavalaria começou a assumir um papel mais dominante nos campos de batalha da Europa, o que também se tornou possível com a criação de novas raças de cavalos de grande porte. A substituição da sela romana por variantes baseadas no modelo cita e a adopção de estribos, permitiram, aos cavaleiros, uma maior estabilidade no combate a cavalo. Os catafractários couraçados começaram a empregues no leste da Europa e no Próximo Oriente como a principal força de combate romana, em contraste com os papéis iniciais da cavalaria que se limitavam à exploração, incursão e flanqueamento.

As tradições da cavalaria do final do Império Romano e dos invasores germânicos contribuíram para o desenvolvimento da instituição da cavalaria medieval.

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