miniaturadaimagem|251x251px|Ilustração de um laboratório de química do século XVIII. Desde milhares de anos antes de Cristo, a história da Química está essencialmente ligada ao desenvolvimento da humanidade, já que abarca todas as transformações da matéria e teorias correspondentes. Geralmente a história da química se relaciona intimamente com a história dos químicos — segundo a nacionalidade ou tendência do autor — e ressalta em maior ou menor medida os sucessos alcançados num campo ou por uma determinada nação.
A química surge no século XVII a partir dos estudos de alquimia populares entre muitos dos cientistas da época. Considera-se que os princípios básicos da química foi vista pela primeira vez na obra do cientista irlandês Robert Boyle: The Sceptical Chymist. A química, como denominada atualmente, começa a ser explorada um século mais tarde com os trabalhos do francês Antoine Lavoisier e as suas descobertas em relação ao oxigênio com Carl Wilhelm Scheele, à lei da conservação da massa e à refutação da teoria do flogisto como teoria da combustão.
Introdução A história da química é o estudo da evolução do conhecimento e das práticas relacionadas à composição, estrutura, propriedades e transformações da matéria. Desde as primeiras tentativas humanas de compreender e manipular materiais — como a metalurgia, a tinturaria e a fermentação — até a formulação das modernas teorias atômicas e moleculares, a química percorreu um longo processo de transformação epistemológica e técnica.Leite Lopes, J. (2002). História da Química. In: Ciência, Tecnologia e Sociedade. São Paulo: Ed. UNESP.
Embora suas raízes se estendam à Antiguidade e à alquimia, a química começou a se constituir como ciência moderna no século XVIII, especialmente com os trabalhos de Antoine Lavoisier. No século XIX, desenvolveu-se como disciplina experimental e teórica com a criação da tabela periódica, da teoria atômica e da estequiometria. No século XX, incorporou os avanços da física quântica e tornou-se base para indústrias como a farmacêutica, petroquímica e biotecnológica.Brock, W. H. (1993). The Norton History of Chemistry. Norton.
Origens da Química As origens da química remontam à pré-história, quando os seres humanos aprenderam a lidar com processos materiais como a metalurgia, a cerâmica e a produção de corantes e bebidas fermentadas. Essas práticas, embora não sistematizadas como ciência, exigiam observações empíricas e domínio técnico sobre transformações da matéria.Beretta, M. (2004). The Enlightenment of Matter. Science History Publications.
Na Antiguidade, as civilizações egípcia, grega, chinesa e indiana desenvolveram saberes rudimentares sobre substâncias, que muitas vezes se misturavam à medicina, cosmologia e filosofia. A teoria dos quatro elementos (terra, água, ar e fogo), atribuída a Empédocles, foi sistematizada por Aristóteles e perdurou por séculos como base do pensamento natural.Dicionário de História da Ciência. São Paulo: Ed. UNESP, 2009.
A alquimia, surgida por volta do século III no Egito helenístico, teve grande importância na transmissão de conhecimentos sobre materiais e processos como destilação, sublimação, calcinação e cristalização. Na tradição islâmica, autores como Jabir ibn Hayyan (Geber) contribuíram para o desenvolvimento sistemático de técnicas laboratoriais, nomenclatura e teorias sobre a transmutação dos metais. Na China e na Índia, práticas alquímicas também foram desenvolvidas, geralmente associadas à medicina e à busca da longevidade.Needham, J. (1980). Science and Civilisation in China. Cambridge University Press.
Apesar de seu caráter esotérico, a alquimia teve papel fundamental na formação da química moderna, ao preservar métodos experimentais e ao explorar a transformação das substâncias como um fenômeno passível de estudo.
A racionalização da química Um ponto crucial no desenvolvimento da química como ciência, foi a racionalização dos conhecimentos empíricos obtidos, procurando criar leis racionais e simplificar, de forma coerente, as informações obtidas. O princípio de conservação da massa e o entendimento da influência da composição da atmosfera nos experimentos ambos amplamente disseminados a partir dos trabalhos do químico Lavoisier, no final do século XVIII permitiram que os experimentos se tornassem cada vez mais rigorosos e precisos, em oposição ao caráter apenas qualitativo das experimentações alquimistas. A partir deste momento, a medição de massas assume um caráter fundamental na história da química, tendo sido esse o principal impulsor para o desenvolvimento da balança, a partir da época de Lavoisier, tendo ele próprio construído os equipamentos mais precisos desse período.
Revolução Química A chamada Revolução Química ocorreu principalmente no final do século XVIII, quando a química começou a se desvincular das tradições alquímicas e a se consolidar como ciência moderna. Essa transformação teve como figura central o químico francês Antoine Laurent Lavoisier (1743–1794), considerado o "pai da química moderna" por suas contribuições fundamentais à sistematização de métodos experimentais e à introdução de uma nova linguagem científica.Brock, W. H. (1993). The Norton History of Chemistry. Norton.
Até então, o modelo dominante para explicar a combustão e outras reações químicas era a teoria do flogisto, proposta por Georg Ernst Stahl no início do século XVIII. Segundo essa teoria, os materiais combustíveis continham uma substância invisível e imponderável chamada flogisto, que era liberada durante a queima. No entanto, experimentos conduzidos por Lavoisier demonstraram que, durante a combustão, o que ocorre é a combinação de uma substância com o oxigênio presente no ar — invalidando a hipótese do flogisto.Leite Lopes, J. (2002). História da Química. In: Ciência, Tecnologia e Sociedade. Ed. UNESP.
Lavoisier também foi responsável por introduzir a Lei da conservação da massa, demonstrando que, em uma reação química, a massa total dos reagentes é igual à dos produtos. Essa noção foi revolucionária, pois estabeleceu a ideia de que as transformações químicas obedecem a leis quantitativas, o que abriu caminho para a estequiometria e a formulação de equações químicas.Lavoisier, A. (1789). *Tratado Elementar de Química*.
Outro marco da Revolução Química foi a criação de uma nova nomenclatura racional, desenvolvida por Lavoisier em colaboração com outros químicos franceses como Claude Louis Berthollet, Antoine Fourcroy e Guyton de Morveau. Essa nomenclatura substituiu os nomes tradicionais, muitas vezes arbitrários ou esotéricos, por uma terminologia baseada na composição e propriedades das substâncias — como “óxido”, “ácido” e “sulfato”.Beretta, M. (2004). The Enlightenment of Matter: Chemistry as the Science of the World.
A publicação do Tratado Elementar de Química (1789), de Lavoisier, é considerada o marco fundacional da química moderna. Nesse livro, o autor apresenta não apenas uma nova linguagem e uma nova teoria, mas também o método experimental que passou a definir a disciplina científica.Lavoisier, A. (1789). *Traité Élémentaire de Chimie*.
A hipótese atomística Em uma época de 478 a.C., o filósofo grego Leucipo, que vivia na costa norte do Mar Egeu apresentou a primeira teoria atômica, e seu discípulo Demócrito a aperfeiçoou e a propagou. "Considere a areia de uma praia. Vista de longe ela parece contínua, porém, observada de perto, notamos que é formada pequenos grãos. Na realidade todas as coisas no universo são formadas por grãozinho tão pequenos que não podemos enxergar e, dessa forma, temos a impressão de que elas são contínuas." Tendo como base essa analogia, esses "grãozinhos" seriam os átomos (a palavra átomo significa, em grego, indivisível), que fariam parte da menor partícula que a matéria seria formada. Demócrito postulou que todas as variedades de matéria resultam da combinação de átomos de quatro elementos: terra, ar, fogo e água.
Demócrito baseou o seu modelo na intuição e na lógica. No entanto foi rejeitado por um dos maiores lógicos de todos os tempos, o filosofo Aristóteles. Este reviveu e fortaleceu o modelo de matéria contínua, ou seja, a matéria como "um inteiro". Os argumentos de "Aristóteles"permaneceram até a Renascença.
Todo o modelo não deve ser somente lógico, mas também deve ser consistente com a experiência. No século XVII, experiências demonstraram que o comportamento das substâncias era inconsistente com a ideia de matéria contínua e o modelo de Aristóteles desmoronou.
Em 1808, o professor inglês John Dalton propôs a ideia de que as propriedades da matéria poderiam ser explicadas em termos de comportamento de partículas finitas e unitárias. Segundo suas ideias, a matéria seria formado por partículas unitárias e elementares. Para isso, ele resgatou o conceito de átomo defendido por Demócrito e o adaptou à luz das novas observações químicas da época. Sua teoria conseguiria explicar as leis químicas enunciadas por Lavoisier e por Proust. Assim, no modelo de Dalton os átomos eram vistos como esferas minúsculas, rígidas e indestrutíveis.
A racionalização da matéria A teoria atomística de Dalton teve importantes repercussões. Baseado em dados experimentais, um cientista francês, chamado Joseph Proust, já tinha proposto formalmente o conceito de que toda substância tinha uma composição constante e homogênea. Assim, a água, por exemplo, independente da sua origem, era sempre composta pela mesma proporção de dois gases: oxigênio e hidrogênio. Juntando esse conceito e seus postulados atomísticos, Dalton organizou de forma racional as diversas substâncias conhecidas, criando uma tabela de substâncias que seriam formadas por apenas um tipo de átomo, e substâncias que eram formadas por uma combinação característica de átomos.
Assim, tanto a grafite como os gases hidrogênio e oxigênio, por exemplo, eram formados apenas por um tipo de átomo, enquanto que outras substâncias, como a água, eram formadas pela combinação de dois ou mais átomos, nesse caso, dos elementos hidrogênio e oxigênio (as dificuldades de obter certos dados com uma precisão razoável levaram Dalton a propor erroneamente para a água a fórmula HO, em vez de H2O). Apesar das dificuldades experimentais.
O vitalismo e o começo da química orgânica Tão cedo se compreendessem os princípios da combustão, outro debate de grande importância apoderou-se da química: o vitalismo e a distinção essencial entre a matéria orgânica e inorgânica. Esta teoria assumia que a matéria orgânica só podia ser produzida pelos seres vivos atribuindo este fato a uma vis vitalis (força ou energia vital) inerente na própria vida. A base desta teoria era a dificuldade de obter matéria orgânica a partir de precursores inorgânicos. Este debate foi revolucionado quando Friedrich Wöhler descobriu, acidentalmente, como se podia sintetizar a ureia a partir do cianato de amónio, em 1828, mostrando que a matéria orgânica podia criar-se de maneira química. No entanto, ainda hoje se mantém a classificação em química orgânica e inorgânica, ocupando-se a primeira essencialmente dos compostos do carbono e a segunda dos compostos dos demais elementos. Os motores para o desenvolvimento da química orgânica eram, no princípio, a curiosidade sobre os produtos presentes nos seres vivos (provavelmente com a esperança de encontrar novos fármacos) e a síntese dos corantes ou tinturas. A última surgiu depois da descoberta da anilina por Runge e a primeira síntese de um corante artificial por Perkin.
Depois adicionaram-se os novos materiais como os plásticos, os adesivos, os cristais líquidos, os fitossanitários, etc.
Até à Segunda Guerra Mundial a principal matéria-prima da indústria química orgânica era o carvão, dado a grande importância da Europa no desenvolvimento desta parte da ciência e o fato de que em Europa não há grandes jazidas de alternativas como o petróleo.