thumb|Prédio neoclássico da Academia Imperial de Belas Artes, projeto de Grandjean de Montigny, da Missão Francesa.
O Neoclassicismo no Brasil deve seu florescimento à influência europeia, onde era cultivado desde meados do século XVIII. Seus primeiros sinais apareceram na literatura e arquitetura, mas somente no início do século XIX, a partir das preferências da corte portuguesa, instalada no Rio de Janeiro desde 1808, é que se tornou uma espécie de "estilo oficial", passando a sobrepujar em mais larga escala a arraigada tradição barroca. Com a chegada da Missão Artística Francesa, em 1816, e a consequente fundação da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, o estilo foi institucionalizado e seu ensino, sistematizado num modelo conhecido como Academismo.Costa, Maria Cristina Castilho. A imagem da mulher: um estudo de arte brasileira. Senac, 2002, pp. 53-54Denis Rafael Cardoso. "Academicism, Imperialism and national identity: the case of Brazil's Academia Imperial de Belas Artes", in Denis, Rafael Cardoso; Trod, Colin. Art and the academy in the nineteenth century. Manchester University Press, 2000, pp. 53-55Fernandes, Cybele Vidal Neto. "O Ensino de Pintura e Escultura na Academia Imperial das Belas Artes". In: 19&20 - A revista eletrônica de DezenoveVinte, II (3), julho de 2007
Reagindo contra o Barroco, o Neoclassicismo se caracterizou pela ênfase no racionalismo, no equilíbrio, na ordem, na moderação e na economia, e teve como inspiração básica o legado cultural da Antiguidade Clássica, de onde deriva seu nome, também incorporando a interpretação renascentista daquele legado, mais os princípios sociais e éticos renovadores da filosofia iluminista.Gontar, Cybele. "Neoclassicism". In: Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000Palmer, Allison Lee. Historical Dictionary of Neoclassical Art and Architecture. Scarecrow Press, 2011, pp. ix; 1-2 No Brasil, além de apresentar características similares, o estilo se tornou um elemento ideológico indicativo de progresso e civilização. Seu conteúdo político incitou a Inconfidência Mineira e, após a proclamação da independência, inspirou um projeto modernizador oficial num momento em que a antiga colônia se tornava uma nação autônoma e buscava esquecer a longa dominação portuguesa, fortemente associada com o Barroco.Cavalcanti, Nireu Oliveira. O Rio de Janeiro setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da Corte. Zahar, 2004. pp. 298-300Gomes Júnior, Guilherme Simões. Palavra peregrina: o Barroco e o pensamento sobre artes e letras no Brasil. Volume 16 de Ensaios de Cultura. EdUSP, 1998. pp. 48-50 No entanto, dadas as condições peculiares da cultura brasileira no período imperial, o Neoclassicismo logo fundiu-se ao Romantismo e ao Realismo, outras importações europeias, dando origem a um estilo eclético.Schwarcz, Lilia. "Romantismo Tropical: A estetização da política e da cidadania numa instituição imperial brasileira". In: Penélope, nº 23, 2000, pp. 109-127
Origens
A Antiguidade Clássica - um termo que compreende a cultura da Grécia Antiga e da Roma Antiga - jamais foi inteiramente esquecida no ocidente. Mesmo que tenha passado por períodos de relativa obscuridade, sua herança permaneceu viva de várias maneiras nos longos séculos que se passaram desde a queda de Roma, e em vários períodos se verificaram ressurgências mais ou menos intensas de seus ideais. Assim foi, por exemplo, na chamada Renascença Carolíngia, no século VIII, e no Renascimento, entre os séculos XIV e XVI.Czajkowski, Jorge (curador) & Sendyk, Fernando (coordenador). Guia da Arquitetura Colonial, Neoclássica e Romântica do Rio de Janeiro. Casa da Palavra / Centro de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro / Prefeitura do Rio de Janeiro, 2000, p. 25 thumb|O Juramento dos Horácios, por Jacques-Louis David, 1784, uma das obras mais conhecidas e influentes da escola neoclássica europeia
Em meados do século XVIII o ciclo revivalista se repetia, acompanhando a proliferação de estudos científicos sistemáticos, de escavações arqueológicas e de reproduções em gravura de inúmeras obras e monumentos antigos, tornando-se logo uma moda que se alastrou entre as elites e mesmo entre a classe média em ascensão. No terreno artístico, buscava-se uma arte de características racionais e progressistas e fundo ético, contrapondo-se ao que viam como falta de decoro, excessos ornamentais e irregularidades formais do Barroco, e à sofisticação hedonista da sua última floração, o Rococó. Johann Joachim Winckelmann, o grande teórico do Neoclassicismo, advogava um retorno à simplicidade e à nobreza dos gregos, ao mesmo tempo em que influentes pensadores iluministas como Rousseau e Voltaire condenavam os dogmas religiosos e as superstições, admiravam o modelo democrático da Grécia e o republicano de Roma, e louvavam o "homem natural", o "bom selvagem" - ainda que esse homem natural fosse de fato uma abstração idealista. Mais do que um simples movimento artístico, o Neoclassicismo afetou toda a cultura do período, pretendendo reorganizar e purificar, à semelhança da virtude e excelência que encontrava na Antiguidade, uma sociedade considerada decadente e frívola.Kleiner, Fred S. Gardner's Art Through the Ages: The Western Perspective, Volume 2. Cengage Learning, 2009, pp. 599-605Bietoletti, Silvestra. Neoclassicism & Romanticism. Sterling Publishing Company, Inc., 2009, pp. 8-16Barasch, Moshe. Theories of Art: From Plato to Winckelmann. Routledge, 2000, pp. 330-333
Winckelmann atuou principalmente em Roma, mas logo Paris assumiu a dianteira do movimento, oportunamente cooptado pelos revolucionários que colocariam um fim no Antigo Regime, tendo como seu mentor artístico o pintor Jacques-Louis David e identificando seus princípios estéticos com os ideais de Estado. Como afirmou o historiador Ernst Gombrich, os franceses gostavam de pensar a si mesmos como cidadãos de uma Grécia rediviva. Porém, as conotações políticas do movimento não se restringiram à Europa, mas disseminaram-se para a América, onde incendiaram os desejos reprimidos de liberdade e igualdade das colônias, resultando, por exemplo, na independência dos Estados Unidos.Schwarcz, Lilia Moritz. O sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e as desventuras dos artistas franceses na corte de d. João. Companhia das Letras, 2008, pp. 54-58Czajkowski & Sendyk (2000), pp. 25-27
A adaptação brasileira
thumb|150px|left|François Gérard: Retrato de Joachim Lebreton, o líder da Missão Francesa.
Os ideais neoclássicos encontraram o Brasil ainda como uma colônia de Portugal, pesadamente explorada e rigidamente controlada.Sevcenko, Nicolau. Pindorama revisitada: cultura e sociedade em tempos de virada. Série Brasil Cidadão. Editora Peirópolis, 2000. pp. 39-47 Apesar do temor com que a Metrópole portuguesa via a circulação do iluminismo na colônia, censurando livros e perseguindo seus propagadores, paradoxalmente as próprias instâncias oficiais deram sua contribuição para a mudança, através das reformas institucionais, educativas e jurídicas introduzidas pelo Marquês de Pombal, adepto do despotismo esclarecido. Em Minas, mais para o final do século, o Neoclassicismo iluminista foi cultivado por um grupo de literatos que pretendia abolir a monarquia absolutista e implantar uma democracia burguesa e independente de Portugal. Alvarenga Peixoto, Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, entre outros, deram origem a uma insurreição conhecida como Inconfidência Mineira, severamente reprimida pelas autoridades coloniais, onde o martírio de Tiradentes acabou se tornando mais tarde um popular símbolo de liberdade. No Rio também foram os literatos os responsáveis pela introdução das ideias iluministas, através da fundação de uma sociedade clandestina que estava em contato com os sediciosos de Minas.Czajkowski & Sendyk (2000), pp. 27-28
Enquanto corrente estética, as primeiras manifestações neoclássicas no Brasil ocorreram estando o território imerso no estilo Barroco, que lá enraizara desde o século XVII. O Barroco nacional fora marcado pela influência dominante da Igreja Católica, dando seus principais frutos no campo da arte sacra e sendo dirigido principalmente para a catequese e o estímulo à devoção. Era uma arte funcional e didática, carregada de misticismo e de caráter fortemente ornamental, retórico, dinâmico, dramático, espetaculoso e extravagante.Oliveira, Carla Mary S. "Construindo Teorias sobre o Barroco". In: Saeculum, Revista de História. 162 ; João Pessoa, jul./ dez. 2005, pp. 159-162"Barroco brasileiro". In: Enciclopédia Itaú Cultural, 30/06/2011 Reagindo contra esse modelo, o Neoclassicismo cultivou uma arte austera, equilibrada e pouco dada a ornamentações, abordando com mais ênfase também temas profanos e celebrando uma sociedade laica.Zaccara, Madalena. "Aspectos da Trajetória do Romantismo no Brasil: Pedro Américo de Figueiredo e Mello". In: Zaccara, Madalena & Pedrosa, Sebastião. Artes Visuais: Conversando Sobre. Editora Universitária UFPEp, 2008, 46 O Neoclassicismo brasileiro derivou de várias vertentes, e não foi tão ortodoxo como em seus inícios europeus, mesclando-se a antecipações românticas e resíduos barroco-rococós.Souza, Alberto. "Origens da Arquitetura Classicista do Império". In Machado, Nara & Mizoguchi, Ivan (orgs). Palladio e o Neoclassicismo. EdiPUCRS, 2006. pp. 151-152Helena, Lúcia. Tomás Antônio Gonzaga. Agir, 2005, pp. 27-30
A Missão Artística Francesa, ativa a partir de 1816, por muito tempo foi considerada, erroneamente, a responsável pela introdução do estilo no Brasil, embora seja um consenso que a sua contribuição na sua divulgação e institucionalização tenha sido muito importante.Conduru, Roberto. "Araras Gregas". In: 19&20 - A revista eletrônica de DezenoveVinte, 2008; III (2) De fato, traços classicistas são observados em aparições esparsas em vários pontos do território e em diversos domínios artísticos desde a segunda metade do século XVIII, mais notadamente na arquitetura desenvolvida por Antônio Landi, José Fernandes Alpoim e José de Sá e Faria,Oliveira, Domingos Sávio de Castro. O vocabulário ornamental de Antônio José Landi: um álbum de desenhos para o Grão Pará. Mestrado. Universidade Federal do Pará, 2011, pp. 23-25 na escola musical de Minas Gerais e na obra dos poetas e escritores árcades."Arcadismo". In: Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2021