miniaturadaimagem|A Vanguarda Viperina, 1985 (Foto da Lucia Helena Zaremba) Escultor, desenhista e artista performático, Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, conhecido como Tunga, (8 de fevereiro de 1952 – Rio de Janeiro, 6 de junho de 2016), é considerado uma das figuras mais emblemáticas da cena artística nacional.
Sua erudição e formação filosófica se refletiu em uma produção artística que envolve o cruzamento de pesquisas em diferentes áreas do conhecimento, apresentando interfaces com a literatura, filosofia, psicanálise, teatro, ciências exatas e biológicas. Trata-se de uma obra potente, profunda e autorreferente que nega o tempo linear e se apoia fortemente na materialidade, topologia, simbologias e processos de transformação e metamorfoses.
Foi o primeiro artista contemporâneo e o primeiro brasileiro a expor no icônico Museu do Louvre em Paris, e já teve sua obra exposta na 40ª Bienal de Veneza, na Itália; na X Bienal de Havana, em Cuba; na X Documenta de Kassel, na Alemanha; e, na V Bienal de Lyon, na França.
Participou, ainda, de mostras na Whitechapel Gallery, na Inglaterra; no Museum of Contemporary Art of Chicago e no Museum of Modern Art PS1, ambos nos EUA; no Jeu de Paume e no Centre de la Vieille Charité, ambos na França; no Moderna Museet, na Suécia; no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, na Espanha; e, no Garage Center of Contemporary Culture, na Rússia.
Tunga tem, atualmente, obras em acervos permanentes de museus como o Guggenheim, em Veneza; o Museum of Modern Art, em Nova York; a Tate Modern em Londres; o Museu d'Art Contemporani de Barcelona; o Museum of Fine Arts Houston; e, Centre Pompidou, em Paris, além de galerias dedicadas à sua obra no Instituto Inhotim.
Faleceu, no Rio de Janeiro, em 6 de junho de 2016. Desde então, o Instituto Tunga atua preservando, conservando, catalogando e divulgando sua extensa obra e memória. Em parceria com as galerias e museus do Brasil e mundo, o Instituto Tunga já realizou 6 grandes exposições e colaborou ativamente para 4 publicações.
Atualmente, a equipe do Instituto Tunga trabalha na elaboração do Catálogo Raisonné que irá mapear todas as obras bidimensionais do artista em uma única publicação bilingue, em português e inglês, online e gratuita.
Biografia
Nascido em Palmares, Pernambuco, filho do escritor Gerardo Mello Mourão e da ativista social Léa de Barros Carvalho e Mello Mourão, Tunga morou e trabalhou no Rio de Janeiro, onde concluiu o curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Santa Úrsula.
Inicia sua carreira nos primeiros anos da década de 1960, produzindo desenhos e pequenas esculturas. Traça imagens figurativas com temas ousados, como nas séries O Perverso, Pensamentos, Máquinas, Charles Fourier (1772/1887) e Paisagens do Desejo. miniaturadaimagem|À la Lumière des Deux Mondes, 2005 (Foto: Angèle Dequier) Editou, ao lado de Celso F. Ramos Filho, Eduardo Prisco Paraiso Ramos, Gonçalo de Barros Carvalho e Mello Mourão, Marcelo Villela de Andrade, Paulo Ramos Filho, a Revista Nove (1969-1971), uma publicação de poesia moderna. E colaborou com a revista Malasartes (1976), ao lado de Paulo Sérgio Duarte, Waltercio Caldas, Ronaldo Brito, Cildo Meireles, Paulo Venancio Filho, José Resende e Rodrigo Naves; e com o jornal A Parte do Fogo (1980), também com Cildo Meireles, José Resende e Waltercio Caldas, entre outros.
Em 1975, Tunga apresentou pela primeira vez objetos tridimensionais, apresentados na exposição individual intitulada Tunga - Ar do Corpo, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Na década de 1980, passou a criar instalações, nas quais utilizou grande variedade de materiais para explorar a ideia de conjunção, magnetismo, transmissão e isolamento de energia e forças invisíveis - é o caso dos imãs, das lâmpadas, dos fios elétricos, do cobre, e de materiais isolantes como o feltro e a borracha -, sempre justapondo-os com rigor formal. alt=Xifópagas Capilares Entre Nós, 1987 (Foto Wilton Montenegro)|miniaturadaimagem|Xifópagas Capilares Entre Nós, 1987 (Foto Wilton Montenegro) Buscava extrair sentidos simbólicos de obras que passaram, aos poucos, a apresentar um caráter autorreferente. Neste período criou obras icônicas como Trança ; ÃO ; Xifópagas Capilares entre Nós , Vanguarda Viperina ; Eixos Exógenos [1986-2000]; e, Semeando Sereias [1987-1998].
Nesta mesma época, Tunga deu início aos trabalhos com formas e signos que marcariam sua carreira como as tranças; o tacape; o escalpe; o pente; o cálice; os sinos, seda, palíndromo, caldeirões e funis.
No decorrer da década de 90, Tunga intensificou a pesquisa sobre as relações energéticas entre diferentes metais em suas instalações, passando a usar conjuntos de ímãs em diversos trabalhos. Ao mesmo tempo, passou a elaborar suas instaurações - nome dado pelo artista às ações que ativavam seus trabalhos tridimensionais ou imersivos. Segundo Tunga, vale lembrar, a noção de instauração implica um modo de fazer poesia onde não há ensaios. Diferente da performance, que implica uma noção relacionada ao desempenho, a instauração trata-se de "fazer acontecer algo que você testemunha, que não estava ali, com uma luz nova.” Neste período, Tunga promove uma série de ações com terracota, argila e maquiagem - materiais que fazem alusão à origem humana, da terra; ao primitivismo; e, ao processo de reencarnação, de dar carne ao objeto, corporeidade à obra.
Em 1997, publica o icônico Barroco de Lírios, primeiro livro editado pela Cosac & Naify, que faz um retrospecto das principais obras de Tunga realizadas entre 1981 e 1996. Trata-se de uma publicação concebida pelo artista como uma obra de arte em si, apresentando textos de sua própria autoria, além de encartes e transparências que são como múltiplos não assinados. alt=Gravitação Magnética, 1987|miniaturadaimagem|Gravitação Magnética, 1987 Entre os anos 2000 e 2016, as obras incorporam, em pequenas e grandes dimensões, a presença de sinos, mondrongos, garrafas, cálices, jóias, dentes, asas, portais, luminárias, tripés, dedais, balança, bengala, líquidos e tipitis. Também foi o período em que ele passou a incluir os mondrongos em diversas instalações e instaurações. Mondongos são elementos amorfos utilizados em pares que sugerem uma reprodução Morfogenética, na qual os que apresentam protuberância estão relacionados ao "macho-fera" e os que possuem cavidade estão relacionados à “fêmea-bela”.
Em 2002, ocupa três andares do Centro Cultural Banco do Brasil e preenche a rotunda da instituição com uma luz vermelha e voz de Arnaldo Antunes, além de uma tríade com sinos, cálices, garrafas, caldeirões e bengalas de 14 metros. Atores e bailarinos, dirigidos pela coreógrafa Lia Rodrigues, aplicavam maquiagem à instalação. Idealizou a instalação Tríade Trindade ; as performances Encarnações Miméticas e Experiência com Ynaiê ; a série Quase Auroras ; os filmes Quimera , que concorreu à Palma de Ouro, na categoria curta-metragem, em Cannes, em 2004, e Medula , ambos em parceria com Eryk Rocha; e, as obras i Psicopompos e Vers La Voie Humide, no Château La Coste, na França [2008-2015].
Em 2004, inaugura a Galeria True Rouge - primeira instalação permanente do Instituto Inhotim, um desdobramento da série de performances True Rouge, apresentadas desde 1997 em diversas ocasiões e cuja inspiração parte de uma poesia algébrica do escritor Simon Lane. E, em 2012, inaugura a Galeria Psicoativa Tunga, também em Inhotim, que abriga uma exposição permanente apresentando mais de 20 obras do artista sendo muitas icônicas como Ão (1981); Vanguarda Viperina (1985); Palíndromo Incesto (1990-1992); Tereza (1998); Prole do Bebê (2000); À la Lumière des Deux Mondes (2005); X-estudo (2009); Psicopompo Cooking Crystal (2010); e, Toro Condensed (1983) and Toro Expanded (2012).
Tunga recebeu a condecoração Chevalier des Arts et des Lettres (Cavaleiro das Artes e das Letras) pelo embaixador da França, Alain Rouquié. E, em 2005, foi o primeiro artista contemporâneo a exibir sua obra, À la Lumière des Deux Mondes, na pirâmide do Louvre.
miniatura|280px|Galeria True Rouge, uma das galerias permanentes de Tunga no Instituto Inhotim, em Minas Gerais. alt= "Tríade Trindade”, 2001, na Pinacoteca (foto: Isabella Matheus)|miniaturadaimagem|250x250px|Tríade Trindade, 2001, na Pinacoteca de São Paulo(foto: Isabella Matheus)
Filmografia Filmes do Tunga em parceria com outros criativos:
1975 - O ar do corpo - João Lanari e Tunga 1987 - Nervo de Prata - direção, fotografia, edição e trilha sonora: Arthur Omar sobre conceitos, obras e argumento de Tunga 2004 - Medula - Tunga e Eryk Rocha 2004 - Quimera - Tunga e Eryk Rocha
Filmes sobre o trabalho do Tunga:
1993 - Seeding Mermaids - Shelagh Wakely 1996 - Dear Friend - Shelagh Wakely 1997 - Inside out / upside down - Lucia Helena Zaremba e Toni Cid Guimarães 1997 - Há Sopas - Lucia Helena Zaremba e Toni Cid Guimarães 1997 - A última sereia - Arthur Omar 1998 - True Rouge - Shelagh Wakely 1999 - A Vida de Infra Tunga - Karin Schneider e Nicholas Guagnini 2000 - Lucido Nigredo - Shelagh Wakely 2001 - Resgate - Lucia Helena Zaremba e Toni Cid Guimarães 2002 - Nosferatu Spectrum - Shelagh Wakely 2002 - TUNGA: Encarnações Miméticas e Nociferatu - Murilo Salles 2003 - Egypsia and the Phoenix - Shelagh Wakely 2005 - Paris [À La Lumière des deux mondes - Louvre] - Shelagh Wakely
Exposições e trabalhos no exterior Sua obra acabou por ganhar repercussão internacional, levando-o a expor em importantes espaços destinados às artes plásticas ao redor do mundo. 1981 - Participa da exposição individual “Spazio Aperto - 123ª Mostra D'arte maggio-giugno 1981 - Tunga” no Centro Iniziative Culturali Pordenone, Itália; 1982 - Divide o Pavilhão Brasileiro da 41ª Bienal de Veneza com o escultor Sérgio Camargo. 1985 - Realiza a exposição individual “Xifópagas Capilares Entre Nós - Siamesas Capilares Entre Nosotros” no Museo Nacional de Bellas Artes, em Buenos Aires, Argentina; 1986 - Participa da “Trienal Latino-Americana de Arte Sobre Papel” no Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba), em Buenos Aires, Argentina; 1989 - Realiza a exposição individual “Options 37: Tunga”, no Museum of Contemporary Art Chicago (MCA), EUA; 1989 - Participa da exposição coletiva “U-ABC”, no Stedelijk Museum, em Amsterdam, Holanda. Com itinerância na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, Portugal; 1989 - Realiza a exposição individual “Tunga” na Whitechapel Gallery, em Londres; 1989 - Participa da exposição “Tunga Lezarts / Cildo Meireles Through”no Kanaal Art Foundation, em Kortrijk, Bélgica; 1990 - Realiza a exposição individual “Tunga” no The Third Eye Centre, em Glasgow, Escócia; 1992 - Participa da exposição coletiva “Désordres” na Galerie nationale du Jeu de Paume, em Paris, França; 1992 - Participa da exposição coletiva “Latin American Artists of the Twentieth Century”, no Centre Georges Pompidou, Paris, França. Com itinerância na Estación Plaza de Armas, em Sevilla, Espanha; no Museum Ludwig, em Colônia, Alemanha; e no Museum of Modern Art (MoMA) em Nova York, EUA; 1993 - Participa de uma mostra coletiva no Moma, em Nova York; 1993 - Participa de uma mostra coletiva no Ludwig Museum, na Alemanha; 1994 - Realiza a exposição individual “Tunga: Instalações e Esculturas”, no The Museum of Contemporary Art, em Nova York, EUA; 1994 - Participa da “5º Bienal de Havana”, Cuba; 1995 - Participa da exposição coletiva “Avant-garde walk a Venezia”, em Veneza, Itália; 1996 - Participa da exposição coletiva “Walk on the SoHo Side”, em Nova York, EUA; 1997 - Participa da “Documenta X”, em Kassel, Alemanha; 1998 - Participa da exposição coletiva “Être Nature“ na Fondation Cartier pour l'art contemporain, em Paris, França; 1999 - Realiza a exposição individual “Tunga” no Centro Cultural Recoleta, em Buenos Aires, Argentina; 2000 - Participa da “3ª Gwangju Biennale”, Coreia do Sul;