thumb|300px|Giuseppe Garibaldi fotografado em Palermo, em julho de 1860

A Expedição dos Mil (em italiano Spedizione dei Mille) é um célebre episódio do Risorgimento italiano, ocorrido em 1860, quando um corpo de voluntários, os Camisas Vermelhas, sob o comando de Giuseppe Garibaldi, desembarcou na Sicília ocidental, e conquistou o Reino das Duas Sicílias, então pertencente à casa real dos Bourbons, no reinado de Francesco de Assis Maria de Bourbon.

Antecedentes A partir do famoso "Encontro de Plombières", com Napoleão III, em 21 e 22 de julho de 1858 e, sobretudo com a assinatura do tratado de aliança defensiva entre a França e o Reino da Sardenha, de 26 de Janeiro de 1859, o primeiro-ministro Conde de Cavour iniciou os preparativos para a independência do norte da Itália e inevitável declaração de guerra à Áustria.

A 24 de abril de 1859, Cavour conseguiu êxito na sua declaração de guerra à Áustria, com início das hostilidades a 27 de Abril. A Segunda Guerra de Independência Italiana terminou em julho: foi celebrado o "Armistício de Villafranca, reconhecendo ao Reino da Sardenha a Lombardia (com a exclusão de Mântua), mas não o Vêneto.

Já em março deste mesmo ano a população do Grão-Ducado da Toscana pertencente à Legazioni (Bolonha e Romanha), do Ducado de Módena e do Ducado de Parma depunham seus próprios governantes e reclamavam a anexação ao Reino da Sardenha, enquanto as populações da Úmbria e de Marcas sofriam a dura repressão do governo pontifício.

Napoleão III e Cavour estavam reciprocamente em débito: o primeiro, porque havia libertado Veneza do domínio austríaco; o segundo, porque havia libertado a Itália central. O impasse veio a ser resolvido em 24 de março de 1860, quando Cavour subscreveu o Tratado de Turim, cedendo a Saboia e Nice à França e obtendo, em troca, o consenso do imperador francês da anexação da Toscana e da Emília-Romanha ao Reino da Sardenha. Como então dissera Cavour ao emissário francês, os dois haviam se tornado "cúmplices".

Objetivos e vínculos à posterior unificação do Estado Italiano Em março de 1860 restavam, portanto, na Itália, apenas três estados:

o Reino da Sardenha, composto pela Sardenha, Piemonte, Vale de Aosta, Ligúria, Lombardia, Emília-Romanha e Toscana; os Estados Pontifícios, pertencentes à Igreja, com a Úmbria, Marcas e Lácio com a "intocável" Roma; e o Reino das Duas Sicílias - com capital em Nápoles - com Abruzos, Molise, Campânia, Basilicata, Apúlia, Calábria e a Sicília, esta última rebelde à corte napolitana.

Aliada ao imperador austríaco Francisco José, a Sicília era considerada um dos potentados italianos, junto ao Vêneto, ao Trentino (atual Província autônoma de Trento) e ao Tirol do Sul (atual Província autônoma de Bolzano ou Alto Ádige), e também o Friul-Veneza Júlia, a Dalmácia e Mântua. Não se desconsidera a França, que assumia o papel ambíguo de potência protetora de Roma e principal aliada do Reino da Sardenha: uma ambiguidade que permitiu a Napoleão III manter uma decisiva influência sobre os assuntos italianos, que durou até o último momento da existência do seu império, em 1870 (batalha de Sedan).

Napoleão III, então, impedia ao Reino da Sardenha tanto uma ação contra a Áustria (ao que negava seu apoio), quanto uma ação contra Roma (com sua explícita oposição). Restava a este apenas um objetivo possível: o Reino das Duas Sicílias.

As fraquezas do Reino das Duas Sicílias O Reino das Duas Sicílias apresentava ao menos cinco fraquezas fundamentais: Um monarca jovem e inexperiente (Francisco II), sucessor de seu pai (Fernando II) a 22 de maio de 1859, menos de um ano no cargo; Situação interna instável, assinalada por um regime político antiquado, a constante rivalidade siciliana, e oposição liberal ao governo; Estável hostilidade por parte da opinião pública liberal da Europa, por conta da repressão ali ocorrida em 1799, quando da República Napolitana; Uma excessiva proximidade política com o Império Austríaco, o grande derrotado em 1859, e perda da relação com a grande vencedora, a França; Relações decisivamente ruins com o Reino da Sardenha.

Particular importância teve, no outono-inverno de 1859, a ação rude de Francisco II, em acordo com Francisco José I da Áustria, em apoio à reivindicação do Papa Pio IX feita ao grão-duque da Toscana, ao duque Francisco V de Módena e a Roberto de Parma no sentido de reintegrar-se na posse de seus territórios da Itália central. A iniciativa batia de frente contra os interesses vitais de Turim (por razões evidentes) e de Paris (na medida em que Napoleão III, para justificar a guerra à Áustria para a opinião pública francesa, devia anexar ao menos a Saboia).

Somente um imprecavido poderia imaginar que a Áustria iria empreender uma guerra menos de um ano depois da Batalha de Solferino: o Reino da Sardenha havia multiplicado o tamanho do próprio exército, passando de cinco a catorze divisões e Napoleão III nunca havia concordado na perda de sua determinante influência política na Itália que, entre os soberanos franceses, somente haviam gozado antes Napoleão Bonaparte, Carlos Magno e, um pouco, por Francisco I.

Um soberano mais experiente, ou com conselheiros menos reacionários, teria evitado um erro semelhante, mas, naquele momento, não era a situação do Reino das Duas Sicílias. E Francisco II, seu soberano, podia contar somente com as próprias forças.

À procura de um motivo bélico Ao Reino da Sardenha, assim, faltava um motivo beligerante justificável para atacar o Reino das Duas Sicílias. Cavour procurava agir sempre com o argumento de restauração da ordem.

A única chance era provocar uma sublevação interna, que provasse o descontentamento da população contra o regime absolutista do governo napolitano. Que demonstrasse, sobretudo, a incapacidade de Francisco II em garantir, de forma aceitável, a ordem pública em seus próprios domínios.

A situação no Reino das Duas Sicílias A oposição interna existente no Reino era muito ativa: em apenas sessenta anos os Bourbons haviam esmagado a República Partenopéia de 1799, as Revoluções Sicilianas de 1821 e de 1848 e o movimento constitucionalista napolitano de 1848.

Por duas vezes os Bourbons foram reconduzidos ao trono por força de invasão militar austríaca que derrotara exércitos inteiramente napolitanos: em 1815 o austríaco Frederico Bianchi (de pai comasco) derrotara Joaquim Murat na batalha de Tolentino e em 1821 o austríaco Frimont derrotou a Guglielmo Pepe, nas batalhas de Rieti e de Antrodoco.

Em 1860, todavia, a situação apresentava-se bem pouco favorável aos Bourbons: desde 1821 o exército foi depurado dos elementos liberais, estava repleto de mercenários austríacos, suíços e bávaros, e por conta disso era alvo de constante atenção econômica por parte do rei. Este complexo exército aparentava seguramente fidelidade à casa reinante. Os liberais napolitanos, entretanto, não possuíam forças suficientes para impor uma constituição, mesmo depois da vitória na batalha de Solferino. Eles eram, entretanto, bastante numerosos na marinha napolitana que, de fato, não demonstrou grande fervor de combate durante toda a campanha contra Garibaldi.

A ocasião oportuna: a revolta siciliana thumb|200px|Garibaldi, retratado num afresco em muro de um edifício de Guardabosone, na província de Vercelli

A única das muitas forças oposicionistas aos Bourbons que demonstrava vontade de pegar em armas, naquele ano de 1860, era a fronda siciliana.

Eles traziam viva a memória da longa Revolução Siciliana de 1848. A repressão bourbônica havia sido particularmente dura e nulas as tentativas do despótico governo napolitano de voltar a uma acomodação política. Muitos dos quadros dirigentes da revolução (Rosalino Pilo, Francesco Crispi, etc.), além disso, estavam expatriados em Turim, haviam participado com entusiasmo da Segunda Guerra de Independência Italiana e haviam amadurecido uma atitude política decisivamente liberal e unificadora (unitária).

Um fator mais importante ainda havia: a insatisfação não era limitada à classe dirigente, mas crescia largamente na população urbana e, por fim, no meio rural. Um elemento quase que único no curso de todo o Risorgimento que grande diferença na Sicília. Prova indubitável disto foi o grande número de voluntários que se agregaram aos garibaldinos, de Marsala até Messina, em especial na batalha do Volturno.

A 4 de abril se acende mais uma chama, quando a tentativa em Palermo de Francisco Riso, prontamente reprimida, deu início a uma série de manifestações e insurreições, tendo como desfecho a famosa marcha a Messina, entre 10 e 20 de abril de 1860, por Rosalino Pilo. A quem encontrava pelo caminho, anunciava prontamente: "Garibaldi virá!"

A 2 de março, um mês antes, Mazzini escrevera uma carta aos sicilianos e declarara: "Garibaldi está vinculado ao que ocorrer".

Quando a notícia da sublevação foi confirmada no continente, Garibaldi julgou ser aquele o momento propício para agir.

Um exército de voluntários thumb|right|300px|A partida no Distrito Garibaldi, legionário da brilhante campanha da Lombardia com os Caçadores dos Alpes, havia demonstrado a própria capacidade de chefe militar, com um ligeiro exército de voluntários e contra um exército regular. A Itália era plena de voluntários, desejosos por unir-se aos veteranos dos "Caçadores" e por combater ao seu lado: o recrutamento da tropa não seria um obstáculo.

O armamento e os uniformes, se não obtidos junto aos Caçadores dos Alpes, seriam obtidos junto ao exército sardo. O financiamento, também. Em todo caso, sua origem poderia recorrer-se à campanha da "Subscrição nacional por um milhão de rifles", iniciada ainda a 18 de dezembro de 1859.

Garibaldi era, porém, de fé republicana mas, já se havia passado 12 anos desde que concordara em colaborar com a Casa de Savoia. Porém, os tempos eram tais que até mesmo Mazzini podia escrever que: "não se trata mais de república ou monarquia: se trata da unidade nacional" - "de ser ou não ser".

Para Cavour, Garibaldi era potencial fonte de grande preocupação: somente ao fim de 1859 ele havia retornado à Romanha, no intento de invadir Marcas e Úmbria onde as tropas pontifícias haviam terminado uma feroz repressão. E porque o governo sardo estava àquele tempo impedido de agir (sem o consentimento de Napoleão III) e com sérias dificuldades (como a jornada do Aspromonte demonstrou, dois anos mais tarde), seria uma segurança a mais caso ele se empenhasse numa missão aparentemente impossível. Garibaldi, por último, gozava de uma ilimitada estima da opinião pública italiana e da liberal, no mundo.

Numa conversa, Cavour havia julgado justo que fosse enviado Garibaldi a tentar a famosa sublevação do interior, que transtornasse o Reino de Nápoles e reduzisse Francisco II a ações moderadas, ou "constrangesse" o Reino da Sardenha a garantir a ordem pública: a realidade mostrou superar todas as previsões.

Os últimos acertos entre Cavour e o rei Vítor Emanuel II foram feitos num encontro em Bolonha, a 2 de maio. No dia 22 de abril, Cavour havia ido a Gênova, para inteirar-se pessoalmente da situação.

A viagem de transferência 150px|right|thumb|Placa em memória da visita de mil em Porto Santo Estêvão 9 de maio de 1860 Naquele tempo a organização da força de expedição estava em pleno desenvolvimento: juntava-se em Gênova fundos e voluntários. Muitos outros se preparavam.

Em 4 de maio de 1860 foi acertada em Turim, pelo notário Joaquim Vincenzo Baldioli, contratado por Garibaldi, representante de Giácomo Médici, a compra do armador Rubbatino e dois vapores (Piemonte e Lombardo). Para o pagamento havia sido contratado um empréstimo, secretamente garantido pelo Reino da Sardenha.

Na tarde de 5 de maio, a expedição embarcava na praia rochosa do Distrito dos Mil (que até então chamava-se Distrito do Mar - Quarto al Mare - atualmente distrito genovês, rebatizado em homenagem aos patriotas).