Angelo Guido Gnocchi, mais conhecido como Ângelo Guido (Cremona, 10 de outubro de 1893 – Pelotas, 9 de dezembro de 1969), foi um pintor, escultor, gravador, professor, musicólogo, jornalista, historiador e crítico de arte ítalo-brasileiro. Depois de um bem sucedido início de carreira em Santos e São Paulo, radicou-se em Porto Alegre em 1928, onde deixou seu legado mais relevante. Sua produção artística, muito apreciada, estabeleceu um elo entre o academismo e o modernismo, foi um influente professor e seus escritos de crítica, história e teoria da arte exerceram profundo impacto no ambiente artístico e cultural do Rio Grande do Sul.
Biografia São Paulo e Santos Nascido em Cremona em 10 de outubro de 1893, chegou ao Brasil com sua família ainda pequeno, em 1895, fixando-se em São Paulo. Seu pai, Annibale Gnocchi, trabalhava na construção civil, mas se especializou na execução de ornamentos e molduras decorativas de fachadas de edifícios.Silva, Ursula Rosa da. A Crítica de Arte em Ângelo Guido. Appris Editora / Livraria Eireli, 2017, s/pp. Por volta de 1900 iniciou seus estudos artísticos com o tio Aurélio Gnocchi, pintor e decorador, e com seu incentivo matriculou-se no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, onde foi aluno de Piza e Bonomi, tendo os primeiros contatos com as vanguardas modernistas. Só podia estudar no turno da noite, pois sua família era pobre e desde os 11 anos de idade precisou trabalhar para ajudar no sustento da casa, onde tinha dez irmãos. Também recebeu aulas de violino. Não progrediu muito no instrumento, mas teve uma boa formação em teoria da música.Roenau, Helena. "Ângelo Guido, nosso professor". Diário de Notícias, 16/06/1968, p. 8 Iniciou seu trabalho profissional nas artes como assistente dos pintores-decoradores Cesare Formenti e Adolfo Fonzari. Em 1912 participou com o tio da decoração do Salão Nobre do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia. Entusiasmou-se com o espetáculo das igrejas barrocas de Salvador, e lá publicou seus primeiros artigos na imprensa e fez suas primeiras palestras sobre arte.Nequete, Edison. "Angelo Guido: 34 anos de serviços (excelentes) prestados à terra de adoção: Rio Grande do Sul". Diário de Notícias, 04/03/1962, p. 8
Em 1914 passou a residir em Santos, adquirindo uma participação na sociedade do jornal A Tribuna, publicando crítica de arte"Angelo Guido". In: Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira, Acesso em 24/04/2023 e dando conferências. Na década de 1920 já havia ficado notório seu interesse pelos assuntos místicos e espiritualistas, chegando a ser chamado de "teosofista"."Conferencia literaria". Correio Paulistano, 11/03/1920, p. 4 Junto com amigos fundou a editora Agência Novidades, através da qual publicou seu primeiro livro, Ilusão (1922), ao mesmo tempo um elogio e uma refutação à Estética da Vida de Graça Aranha. A obra entrelaçava estética, filosofia e espiritualismo com um estilo poético, e causou certa polêmica, mas lhe trouxe grande reputação como critico e pensador, recebendo vários elogios entusiasmados.Coutinho, S. Galeão."A proposito de Illusão". A Cigarra, 1922; X (196): 40-41"Grande Velada Literária". Jornal da Noite, 13/10/1923, p. 6"Um livro de arte e sonho". Revista Flamma, 1922 (7): 13Carmen, Sylvia. "A arte nova". O Combate, 17/10/1922, p. 1 Ainda em 1922 expôs com Benedito Calixto na inauguração da Bolsa de Café, mostrando várias paisagens, tema que já era seu favorito, surpreendendo a crítica paulista, que só o conhecia pela literatura. O Correio Paulistano disse: "O fino espírito de Ângelo Guido, que toda Santos conhecia através dos seus belos trabalhos de prosa, em que se revelou sempre um comentador amável de doutrinas e religiões, acaba de surpreender o nosso público com uma interessante exposição de pinturas. [...] Os seus quadros, cheios de harmonia e notáveis pela frescura das paisagens, têm impressionado extraordinariamente os apreciadores da arte"."Exposição de Angelo Guido". Correio Paulistano, 13/09/1922, p. 5 Em 1923 fez uma mostra em São Paulo.
Através da escritora feminista e anarquista Maria Lacerda de Moura, ligou-se à revista Renascença, colaborando como programador visual da revista por cinco edições e ilustrador da capa da primeira edição, lançada em 1923, além de ilustrar a capa do livro de Moura Religião do Amor e da Beleza, publicado em 1926. Moura lembrou de Guido em sua autobiografia, dizendo que "suas mãos e seu coração transbordavam do espiritualismo mais alto", e através dele conheceu os escritos espiritualistas de Édouard Schuré, Mabel Collins e Curuppumullage Jinarajadasa. Segundo Patricia Lessa, o contato entre os dois foi intenso, e "o trabalho de ambos na produção da revista foi um exercício político realizado através do encontro de dois educadores empenhados em uma formação cultural e crítica".Lessa, Patricia. "Guido, Ângelo". In: Diccionario biográfico de las izquierdas latinoamericanas. Buenos Aires: Centro de Documentación e Investigación de la Cultura de Izquierdas, 2021
Em 1924 seu pai faleceu e ele teve de voltar para São Paulo para ajudar a família. Vendeu sua sociedade no jornal de Santos e estreitou relações com um círculo de intelectuais e artistas paulistanos, tornando-se amigo de personalidades como Menotti del Picchia, Afonso Schmidt, Ribeiro Couto e outros. Ainda em 1924 fez uma viagem passando por Recife, Fortaleza e Santos, e com as telas produzidas neste percurso fez exposições em Recife, Fortaleza e Porto Alegre. Nos anos seguintes fez outras viagens pelo norte e nordeste do Brasil, novamente expondo trabalhos em Porto Alegre, Manaus, São Paulo, Curitiba, Santos, Belém do Pará e outras cidades, sempre com ótima receptividade, vendendo muitas obras, recebendo encomendas e a aprovação da crítica."Notas de arte". Jornal do Recife, 04/09/1924, p. 3"As telas de Angelo Guido". O Combate, 26/05/1925, p. 4"Angelo Guido". A Cigarra, 1925; XIV (253): 37"Notas de Arte". Praça de Santos, 22/10/1927, p. 3"Exposição de pinturas". O Dia, 27/12/1925, p. 5
Porto Alegre Segundo declaração de Guido, nesta época ainda não tinha a ideia de morar em Porto Alegre, mas "a cidade foi me subjugando, me prendendo cada vez mais". Em 1928 foi convidado por Leonardo Truda, diretor Diário de Notícias de Porto Alegre, para ocupar o cargo de redator. Com um emprego garantido, fixou residência definitiva na cidade e logo passou a escrever crítica e ensaios sobre artes visuais, música, teatro, literatura e história da arte para o Diário, o Jornal do Estado, A Federação e a Revista do Globo,"Viajantes". Jornal do Comércio, 09/05/1940, p. 5"Chegou a pianista Ophelia do Nascimento". O Jornal, 04/01/1934, p. 9Martins, Ari. "O movimento intelectual do Rio Grande do Sul em 1939". Anuário Brasileiro de Literatura, 1940, p. 240"Theatro e musica". O Jornal, 12/10/1939, p. 7"Teatros e musica". Jornal do Comércio, 16/02/1939, p. 5 sendo um dos primeiros a fazer crítica profissionalmente na imprensa do Rio Grande do Sul.Rossi, Elvio Antônio. "Fernando Corona: um crítico na província". In: Revista Ciclos, 2014; 2 (3) Em 1934 foi credenciado pela Associação Brasileira de Imprensa como jornalista profissional."Associação Brasileira de Imprensa". O Paiz, 19/08/1934, p. 5 Em 1935, a convite de Walter Spalding, organizou a seção de Belas Artes da Exposição do Centenário Farroupilha, onde também apresentou trabalhos seus, uma vasta mostra promovida pelo Governo do Estado para celebrar a Revolução Farroupilha e a história local e mostrar ao mundo os progressos em todos os domínios da vida gaúcha, contando também com 17 pavilhões internacionais e 7 nacionais e recebendo cerca de um milhão de visitantes.
Em 1936 foi nomeado professor de história da arte no Instituto de Belas Artes, sendo o primeiro a ministrar a disciplina recém-criada,Bohmgahren, Cintia Neves. Aldo Locatelli e o Muralismo no Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul: um patrimônio histórico e artístico a ser resgatado. Bacharelado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2009, pp. 50-51 tendo entre seus primeiros alunos Alice Soares, Alice Brueggemann e Christina Balbão, Guido atuou num momento em que o Instituto já era a mais importante instância de produção, estudo e consagração artística não apenas da capital, mas de todo o estado. Sob a direção de Tasso Corrêa (1936-1958), um grande impulso renovador foi iniciado, tendo em Guido um grande auxiliar, nomeando-o em 1939 membro do Conselho Técnico Administrativo. Segundo Paulo Gomes, "a atuação de Angelo Guido, apoiada pela gestão renovadora de Tasso Bolívar Corrêa, fez parte do processo de modernização da Escola, contratando novos professores e afirmando a importância da instituição junto às instâncias de poder. A escola mantinha um rigoroso controle da produção local, mormente através dos salões e das premiações, que privilegiavam seus egressos e professores".Gomes, Paulo. "Academismo e Modernismo: possíveis diálogos". In: 100 anos de Artes Plásticas no Instituto de Artes da UFRGS: três ensaios. Editora da UFRGS, 2012, pp. 18-73 Por muitos anos também deu aulas nas Faculdades de Arquitetura e Filosofia, cooperou com escolas tentando melhorar o ensino de arte,"Uma vida dedicada à arte". Diário de Notícias, 12/01/1969, 2º Caderno, p. 8 além de dar muitas palestras e conferências na capital e interior do estado.
Em 1937 tornou-se membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, assumindo um posto no Conselho Fiscal em 1944."Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul". O Momento, 11/11/1944, p. 3 Em 1939 participou do júri do Salão do Instituto de Belas Artes, o qual, inspirado no modelo do Salão Nacional de Belas Artes, comemorando o cinquentenário da proclamação da República e recebendo apoio do Governo do Estado e da Prefeitura, marcou época como um estímulo para a renovação e intensificação das atividades artísticas locais. O Salão teve ampla repercussão e foi um dos pretextos para a construção de um novo prédio para o Instituto de Artes.
Em 1940 a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro já o chamava de "um dos mais eminentes artistas do Brasil","Chega hoje, a esta Capital, o professor Angelo Guido". Gazeta de Notícias, 09/05/1940, p. 7 representou o Instituto de Artes na abertura no grande Salão de Outono que a Sociedade Brasileira de Belas Artes organizou no Rio de Janeiro na sede da Associação Cristã de Moços em homenagem à instituição gaúcha, reunindo cerca de 150 obras,"Exposição de Outono da Sociedade Brasileira de Belas Artes". Vamos Ler!, 06/06/1940, p. 30 e recebeu uma homenagem pessoal da Sociedade. Ainda neste ano presidiu o júri do I Salão de Belas Artes do Rio Grande do Sul"1º Salão de Belas Artes do Rio Grande do Sul". Anuário Brasileiro de Literatura, 1940, p. 257 e a comissão de Paleontologia, Arqueologia, Etnografia e Antropologia do III Congresso Sul-Rio-Grandense de História e Geografia,"Terceiro Congresso Sul-Rio-Grandense de História e Geografia". Diário de Notícias, 03/11/1940, p. 12 e por ocasião das grandes celebrações do bicentenário de Porto Alegre contribuiu ativamente para a divulgação das atividades além de colaborar com o alentado ensaio "As artes plásticas no Rio Grande do Sul" para a luxuosa publicação Porto Alegre: Biografia duma cidade. Monumento do passado, documento do presente, guia do futuro, organizada pela Prefeitura, o Governo do Estado, o IHGRGS, o Instituto de Artes, a Federação das Associações Comerciais do Rio Grande do Sul e a Associação Comercial de Porto Alegre, e publicada no ano seguinte.Simões, Rodrigo Lemos. "A 'evolução' da cultura artística no Rio Grande do Sul: Ângelo Guido e o cenário das artes plásticas no bicentenário da cidade de Porto Alegre em 1940". In: Sillogés, 2020; 3 (2)