A Sociedade Recreativa Beneficente e Esportiva Lavapés Pirata Negro (conhecida simplesmente como Lavapés) é a mais antiga escola de samba da cidade de São Paulo ainda em atividade, tendo sido fundada em 9 de fevereiro de 1937 por Madrinha Eunice (Deolinda Madre). Suas cores oficiais são o vermelho e o branco, uma homenagem à Unidos de São Carlos (atual Estácio de Sá), do Rio de Janeiro, que a inspirou. A escola tem como símbolo uma baiana, representando as matronas dos terreiros e a tradição das tias baianas.

Heptacampeã do Grupo Especial (1950, 1951, 1952, 1953, 1956, 1961 e 1964), a escola ocupa a sexta posição no ranking histórico dos campeonatos paulistanos. Em dezembro de 2025, foi reconhecida por unanimidade pela Assembleia Legislativa como Patrimônio Histórico Cultural Imaterial do Estado de São Paulo através do Projeto de Lei nº 867/2024, de autoria do deputado Teonilio Barba (PT). Atualmente, sob a presidência do ator Ailton Graça (desde 2019), a agremiação vive um processo de renascimento cultural e social, com ensaios e atividades no bairro do Jabaquara.

A história da Lavapés, como a de diversas agremiações da cidade que não figuram nas primeiras divisões do carnaval, não estava completamente registrada. Este verbete baseia-se em pesquisa acadêmica da Universidade de São Paulo que reconstituiu essa trajetória por meio de história oral e levantamento de documentos, demonstrando que a fundação da escola na Liberdade é uma importante evidência da significativa presença negra no bairro — presença esta omitida pelas narrativas oficiais que atribuem a ocupação da região exclusivamente a imigrantes japoneses.

O Território Negro da Liberdade: O Berço do Samba Paulistano

Antes mesmo da fundação da Lavapés, a região que compreende os atuais bairros da Liberdade, Cambuci e Glicério constituía um território de intensa e fundamental presença negra na cidade de São Paulo. Durante o período colonial e imperial, a área abrigava os símbolos da opressão e da resistência: o antigo Largo da Forca (atual Praça da Liberdade), o pelourinho e a cadeia eram locais de execução e tortura, onde, segundo a tradição popular, o soldado negro Chaguinhas teria tido sua forca arrebentada três vezes, levando a multidão a gritar "Liberdade!" – uma das versões para a origem do nome do bairro. Ao lado, funcionava o Cemitério dos Aflitos, o primeiro cemitério público da cidade, reservado ao sepultamento de escravizados, indígenas e condenados, onde homens e mulheres negras realizavam seus ritos litúrgicos de culto aos mortos, numa prática de resistência e fé que misturava o catolicismo oficial às tradições de matriz africana.

Nas primeiras décadas do século XX, essa mesma região era um "gueto de sambistas" e um núcleo cultural pulsante, com salões de baile e a tradicional Festa da Igrejinha de Santa Cruz. Foi ali, na Rua da Glória, que a comunidade negra se organizava em torno de associações, clubes e times de futebol de várzea, como o Esporte Clube Lavapés.

A partir da década de 1910, a região começou a sofrer um processo de transformação urbana orientado por uma ideologia racista e higienista das classes dominantes. As intervenções urbanísticas (alargamento de ruas, arrasamento de morros) e o forte incentivo à imigração, primeiro europeia e depois japonesa, visavam "embranquecer" a cidade e apagar a memória de sua população negra. Aos poucos, a Liberdade foi sendo caracterizada como um "bairro eminentemente japonês", com suas lanternas e festividades nipônicas, enquanto a memória da ocupação negra era deliberadamente silenciada. Em 2018, a lei municipal 16.960 chegou a alterar o nome da Praça da Liberdade para "Liberdade-Japão", um ato simbólico que escancarou essa tentativa de apagamento histórico.

É nesse contexto de resistência cotidiana, de luta por espaço e de afirmação identitária que nasce a Escola de Samba Lavapés. A sua permanência na região, mesmo após décadas de transformações e pressões imobiliárias, é um ato de resistência negra. A casa da fundação, na Rua da Glória, 955, foi tombada como patrimônio histórico municipal pelo CONPRESP em 2018, como parte do "Caminho Histórico Glória-Lavapés", um reconhecimento oficial, ainda que tardio, de que aquelas ruas guardam "memórias importantes como a memória de ocupação negra, a memória morfológica do traçado da cidade colonial e a memória visual e topográfica da condição acidentada do terreno". No entanto, como critica o site São Paulo Antiga, o poder público trata a área de forma desigual: enquanto a parte "oriental" do bairro recebe investimento, limpeza e segurança, a "baixada do Glicério", onde está a casa de Madrinha Eunice, sofre com o descaso. "Será que se a casa estivesse na parte 'bairro oriental' da Liberdade a conversa seria outra?", questiona o jornalista Douglas Nascimento.

Este processo de expulsão da população negra das áreas centrais não foi isolado. Como documentado pelo pesquisador Gleuson Pinheiro, do Laboratório Cultura, Cidade e Diáspora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), em sua pesquisa sobre a Escola de Samba Príncipe Negro, a construção de grandes avenidas e a valorização imobiliária empurraram comunidades inteiras para as periferias mais distantes, como a Cidade Tiradentes, onde muitos ex-moradores do centro foram reassentados. A história da Lavapés se insere neste mesmo contexto de disputa territorial e resistência cultural.

História

Antecedentes e a Pioneira Madrinha Eunice

A história da Lavapés se confunde com a biografia de sua fundadora, Deolinda Madre, a Madrinha Eunice (Piracicaba, 14 de outubro de 1909 – São Paulo, abril de 1995). Filha de ex-escravizados, Mathis Madre e Sebastiana Franco do Amaral, que conquistaram a liberdade por meio de cartas de alforria, Madrinha Eunice mudou-se para a capital aos 11 anos de idade, estabelecendo-se no bairro da Liberdade.

Ela construiu sua independência econômica como quitandeira, chegando a ter quatro barracas de frutas na região central, o que lhe permitiu alugar três cômodos na Rua da Glória, onde acolhia hóspedes e sustentava a comunidade ao redor. Era uma mulher de "reza forte", frequentadora assídua das festas religiosas de Bom Jesus de Pirapora – consideradas o berço do samba paulista, como demonstra a pesquisa da professora Olga von Simson, da Unicamp – e das festas de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Em seu terreiro de Quimbanda, tinha assentado a entidade Exu Veludo, que se tornou o patrono espiritual da futura escola de samba. A pesquisadora Carminda Mendes André, do Instituto de Artes da Unesp, destaca que "a gente aprende, com Madrinha Eunice, que fazer carnaval não é só a brincadeira, mas é também o louvor aos orixás".

Casou-se com Francisco Papa, o Chico Pinga, com quem formou uma parceria musical e pessoal por décadas. No entanto, quando confrontada com um ultimato para escolher entre o marido e a escola, optou pelo samba e se separou. Sem poder ter filhos biológicos, tornou-se madrinha de 41 afilhados, origem do apelido que a consagrou.

Madrinha Eunice representa um "feminismo muito forte em solo nacional", anterior aos movimentos feministas dos anos 1960, por sua independência, liderança comunitária e capacidade de não se submeter aos padrões da época. Foi a primeira mulher a presidir uma escola de samba no Brasil, acumulando também o pioneirismo como presidenta de um time de futebol de várzea, o Esporte Clube Lavapés.

Fundação: A Primeira Escola de Samba de São Paulo (1937)

Em 1936, Madrinha Eunice viajou ao Rio de Janeiro com Chico Pinga e encantou-se com os desfiles das escolas de samba na Praça Onze, especialmente com a Unidos de São Carlos (atual Estácio de Sá), uma agremiação vermelha e branca. Decidida a transplantar o modelo para São Paulo, retornou e, em 9 de fevereiro de 1937, reuniu familiares e amigos – entre eles o irmão Zé da Caixa – e fundou a Sociedade Recreativa Beneficente Esportiva Escola de Samba Lavapés, na casa da Rua da Glória, 955, no bairro da Liberdade.

Este ato foi inovador e ousado, pois, diferentemente de outras agremiações históricas paulistanas como a Vai-Vai e a Camisa Verde e Branco, que evoluíram a partir de cordões carnavalescos, a Lavapés já nasceu com a concepção de escola de samba, sendo a primeira a se firmar nesse formato na capital paulista. A escolha do nome "Lavapés" é um topônimo, uma referência direta à rua onde a escola foi fundada e ao córrego onde os viajantes lavavam os pés ao entrar na cidade.

Fatos e Datas: A Trajetória Década a Década

Décadas de 1930 e 1940: Os Primeiros Anos e o Testemunho de Lévi-Strauss

A Lavapés nasceu em uma região que era forte em desfiles de blocos e ranchos, o bairro da Liberdade. O local era refúgio de festas e gueto de sambistas dos mais famosos, um núcleo cultural, que ainda contava com salões de baile e a tradicional festa na Igrejinha de Santa Cruz, festa de negros e de sambistas como Madrinha Eunice. O samba integrava diversas novidades e os desfiles de carnaval foram sofrendo inúmeras alterações. O carnaval na década de 30 na cidade de São Paulo ainda era dominado pelos grupos carnavalescos e cordões.

Um dos mais preciosos registros da época vem do etnólogo francês Claude Lévi-Strauss, que viveu em São Paulo entre 1935 e 1937. Fascinado pela cidade, ele registrou suas experiências carnavalescas:

"Meus colegas e eu havíamos chegado a São Paulo em pleno Carnaval. Na mesma noite, saímos em exploração através da cidade. Num bairro popular, uma casa baixa com janelas abertas deixava ouvir uma música tonitruante e viam-se pessoas dançando. Aproximamo-nos, um negro alto que guardava a porta disse que podíamos entrar para dançar, mas não para olhar. Dançamos, portanto, com aplicação, receio que sem a menor habilidade, e causando muitos incômodos às mulheres jovens, negras também, que, numa total indiferença, aceitavam nossos convites."

Esse relato é um testemunho único da vivência do samba nos redutos negros da cidade, demonstrando a presença marcante dessa cultura no centro, décadas antes da sua oficialização.

Década de 1950: Inovações e Tetracampeonato

No início da década de 50, a disputa das escolas de samba da cidade foi unificada, esta acontecia na Praça da Sé, centro de São Paulo. A Lavapés conquistou os títulos de 1950 a 1953 e de 1956, ano em que o carnaval da cidade começou a ficar mais disputado, dividindo o título com a Nenê de Vila Matilde. Por volta de 1950, com a chegada de Popó, um sambista carioca que veio morar em São Paulo e logo se envolveu com a Lavapés, a escola inovou, implantando o Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira e a Comissão de Frente.

Foi por esta época que começaram a surgir também nos desfiles de São Paulo, os primeiros sambas de enredo (músicas que contavam a história que desfilava na avenida), feitos por compositores de cada agremiação carnavalesca e exclusivamente para o carnaval e seu desfile. Madrinha Eunice, Chico Pinga, Popó e Doca foram parceiros constantes até 1968. Na época os sambas eram chamados de samba-tema. Sendo o primeiro deles: "São Paulo Antiga."

É da Lavapés, inclusive, o pioneirismo de levar para a avenida a primeira comissão de frente feminina de São Paulo.

Década de 1960 e Oficialização do Carnaval de São Paulo

No ano de 1961, a Lavapés voltava a ser campeã, conquistando seu sexto título de melhor da cidade. Já em 64, a Lavapés ganha seu sétimo e até hoje, último título da elite do carnaval paulistano, voltando ao topo da cidade.

Após a luta de grandes sambistas paulistanos como Madrinha Eunice e Seu Nenê de Vila Matilde, para o carnaval de 1968, foram tomadas uma série de medidas pelo prefeito da cidade Faria Lima, e a disputa do carnaval foi oficializada. A Lavapés ficou em 3º lugar nesse ano (numa disputa de 3 escolas), atrás de Nenê de Vila Matilde e Unidos do Peruche, o que se repetiu em 1969.

Década de 1970 e 1980: O Declínio, a Repressão e a Expulsão do Território