Alódia, também chamado de Aluá () ou Árua (), foi um reino núbio situado no centro-sul do Sudão. Sua capital era Soba, localizada perto da moderna Cartum, na confluência do Nilo Azul e Nilo Branco. Fundado em algum momento após o colapso do Reino de Cuxe, em cerca de 350, foi citado pela primeira vez em 569. Foi o último dos três reinos núbios a se converter ao cristianismo em 580 após Nobácia e Macúria. Possivelmente alcançou seu zênite nos séculos IX-XII, quando os registros mostram que controlou muito do centro-sul do Sudão.
Superou seu vizinho Macúria, com o qual mantinha íntimos laços dinásticos, em tamanho, poder militar e bonança econômica. Alódia, um grande estado multicultural, era administrado por um rei poderoso e governadores provinciais nomeados por ele. A capital Soba, dita como cidade de "moradias extensas e igrejas cheias de ouro e jardins", prosperou como centro comercial. Os bens chegaram de Macúria, Oriente Médio, África Ocidental, da Índia e China. A alfabetização em núbio e grego floresceu.
A partir do e, especialmente, do XIII, Alódia declinou, possivelmente por causa de invasões do sul, secas e mudança de rotas comerciais. No , pode ter sido devastado pela praga, enquanto tribos árabes começaram sua migração ao vale do Alto Nilo. Por volta de 1500, Soba caiu para os árabes ou para os funjes. Isso provavelmente marcou o fim de Alódia, embora algumas tradições orais sudanesas afirmassem que sobreviveu sob a forma do Reino de Fazogli dentro das fronteiras etíope-sudanesas. Após a destruição de Soba, os funjes estabeleceram o Sultanato de Senar, dando início a um período de islamização e arabização.
Fontes
Alódia é, de longe, o menos estudado dos três reinos núbios medievais, daí a evidência escassa. O que se sabe sobre ele vem principalmente de um punhado de historiadores árabes medievais. Os mais importantes são os geógrafos islâmicos Iacubi (), ibne Haucal e Ibne Selim de Assuã (), que visitaram-no, e o copta (). Eventos da sua cristianização no foram descritos pelo bispo coetâneo João do Éfeso; várias fontes sudanesas pós-medievais abordam sua queda. Ibne Selim observou que interagiu com um historiador núbio que era "bem familiarizado com o país de Alódia", mas nenhuma obra historiográfica núbia medieval foi descoberta.
Embora se conheça muitos locais alódios, apenas Soba foi amplamente escavada. Partes do local foram escavadas no início dos anos 50, com mais escavações ocorrendo nos anos 80 e 90. Um novo projeto de pesquisa multidisciplinar está programado para começar no final de 2019. Soba tem aproximadamente 2,75 quilômetros quadrados de tamanho e está coberta por numerosos montes de entulho de tijolos que antes pertenciam a estruturas monumentais. As descobertas feitas até agora incluem várias igrejas, um palácio, cemitérios e numerosos pequenos achados.
Geografia upright=1.2|thumb|Restos de colunas da igreja do "Monte C", Soba
Alódia estava situada na Núbia, região que, na Idade Média, se estendia de Assuã, no sul do Egito, até um ponto indeterminado ao sul da confluência do Nilo Branco e Azul. O coração do reino era a Gezira, uma planície fértil delimitada pelo Nilo Branco, a oeste, e pelo Nilo Azul, a leste. Em contraste com o Vale do Nilo Branco, o Vale do Nilo Azul é rico em sítios arqueológicos alódios conhecidos, entre eles Soba. A extensão da influência alódia no sul não é clara, embora seja provável que faça fronteira com as terras altas da Etiópia. Os locais mais ao sul de Alódia estão nas proximidades da Senar.
A oeste do Nilo Branco, ibne Haucal diferenciou Aljebliene, dominada por Macúria e talvez correspondeu ao norte do Cordofão, e Aladine dominada por Alódia, que foi identificada com os montes Nuba, e talvez se estendeu até , perto da fronteira moderna do Sudão do Sul. Conexões núbias com Darfur foram sugeridas, mas falta evidência. A região setentrional de Alódia quiçá se estendeu da confluência dos Nilo rio abaixo para Abu Hamade próximo da ilha de Mograte. Abu Hamade quiçá constituiu o entreposto mais setentrional da província de Alabuabe ("as portas"), mas alguns estudiosos também sugeriram uma localização mais meridional, mais próxima do rio Atbara. Nenhuma evidência para um grande assentamento alódio foi descoberta ao norte da confluência dos dois Nilo, embora vários fortes tenham sido registrados lá.
Entre o Nilo e Atbara estava Butana, pastagem apropriada ao gado. Ao longo do Atbara e do adjacente Marebe (próximo de Cassala), muitos locais cristãos foram notados. Segundo ibne Haucal, um rei vassalo leal a Alódia reinou na região ao redor de Marebe. Os relatos de ibne Haucal e Ibne Selim sugerem que Alódia também controlava o deserto ao longo da costa do mar Vermelho.
História
Origens
thumb|esquerda|Figura de bronze cuxita, . A inscrição meroítica embaixo identifica o indivíduo como um rei núbio
O nome Alódia pode ser consideravelmente antigo, talvez aparecendo como Alute numa estela cuxita do fim do . Aparece novamente como Aluá numa lista de cidades cuxitas do romano Plínio, o Velho (), que disse estar situado ao sul de Meroé. Outra cidade chamada Aluá aparece numa inscrição axumita do , dessa vez perto da confluência dos rios Nilo e Atbara. No começo do , Cuxe, que controlava muitas das margens de rio do Sudão, estava em declínio, e os núbios (falantes das línguas núbias) começaram a se assentar no vale do Nilo. Eles originalmente viviam a oeste do Nilo, mas mudanças no clima forçaram-nos a se assentar a leste, resultando em guerras com Cuxe desde o . Meados do , os núbios ocuparam boa parte da área sob Cuxe, enquanto se limitava a norte de Butana. Uma inscrição axumita cita os belicosos núbios ameaçando as fronteiras do Império de Axum ao norte do rio Tequezé, resultando numa expedição punitiva. Ela descreve a derrota núbia por forças axumitas e uma marcha subsequente à confluência do Nilo e Atbara. Lá, pilharam várias cidades cuxitas, incluindo Aluá.
A evidência arqueológica sugere que o Reino de Cuxe deixou de existir em meados do . Se sabe que as expedições axumitas desempenharam papel direto em sua queda. Parece provável que a presença axumita na Núbia foi breve. Posteriormente, a região viu o desenvolvimento de centros regionais cujas elites foram sepultadas em grandes túmulos. Tais túmulos, dentro do que se tornaria Alódia, são conhecidos de , e talvez . Os túmulos escavados em Hogabi são datados do final do e continham uma variedade de armas imitando rituais funerários reais cuxitas. No meio tempo, muitos templos e assentamentos cuxitas, incluindo a antiga capital Meroé, parecem ter sido abandonados. Os cuxitas foram absorvidos pelos núbios e sua língua foi substituída pelo núbio.
Como o Reino de Alódia surgiu é desconhecido. Sua formação foi concluída em meados do , quando se diz que existiu junto aos outros reinos de Nobácia e Macúria no norte. Soba, que pelo se desenvolveu num grande centro urbano, serviu como sua capital. Em 569, o Reino de Alódia foi citado pela primeira vez, sendo descrito por João do Éfeso como um reino à beira da cristianização. Independentemente de João do Éfeso, a existência do reino é também verificada num documento grego do Egito bizantino do fim do , descrevendo a venda de uma escrava alódia.
Cristianização e zênite
thumb|esquerda|Cruz grafitada em thumb|esquerda|Mapa invertido da Núbia por Dreses (1192). Alódia ("Galua") é erronamente descrita ao norte de Macúria ("Doncola", após Dongola, a capital de Macúria)
O relato de João descreve os eventos em torno da cristianização de Alódia em detalhe. Como o mais meridional dos três reinos núbios, foi o último a ser convertido ao cristianismo. Segundo João, o rei alódio estava ciente da conversão da Nobácia em 543 e lhe pediu que enviasse um bispo que pudesse batizar seu povo. O pedido foi atendido em 580, terminando no batismo do rei, sua família e a nobreza. Assim, Alódia tornou-se parte do mundo cristão sob o patriarcado copta de Alexandria. Após a conversão, vários templos pagãos, como aquele em , foram talvez convertidos em igrejas. A extensão e velocidade com que a nova fé se espalhou entre a população alódia é incerta. Apesar da conversão da nobreza, é provável que a cristianização da população rural tivesse prosseguido devagar, se é que o fez.
Entre 639 e 641, os árabes muçulmanos conquistaram o Egito do Império Bizantino. Macúria, que por essa época se unificou com a Nobácia, afastou duas invasões subsequentes, uma em 641/642 e outra em 652. No rescaldo, os árabes e Macúria assinaram o Bacte, um tratado de paz que incluía uma troca anual de presentes e regulações sócio-econômicos entre árabes e núbios. Alódia foi citada explicitamente no tratado como não sendo afetada por ele. Embora falharam em conquistar a Núbia, os árabes se assentaram junto a costa oeste do mar Vermelho. Fundaram as cidades portuárias de Aidabe e Badi no e Suaquém, primeiro citada no X. Desde o , avançaram pelo interior, assentando entre os bejas por todo o Deserto Oriental. A influência árabe ficaria confinada ao leste do Nilo até o .
Com base na evidência arqueológica, foi sugerido que Soba atingiu seu zênite de desenvolvimento entre os séculos IX e XII. No IX, o reino foi, mas brevemente, descrito pela primeira vez pelo historiador árabe Iacubi. Em seu curto relato, aparece como o mais forte dos dois reinos núbios, sendo um país que requer uma viagem de três meses para atravessar. Também registrou que os muçulmanos ocasionalmente viajavam lá. Em meados do , foi visitado pelo viajante e historiador ibne Haucal, resultando no relato mais compreensível conhecido do reino. Descreveu a geografia e povo em considerável detalhe, dando a impressão de um Estado grande e poliétnico. Também notou sua prosperidade, tendo uma "cadeia ininterrupta de vilas e uma faixa contínua de terras cultivadas". Quando ibne Haucal chegou, o rei se chamada Eusébio, que ao morrer, foi sucedido por seu sobrinho Estêvão. Outro rei alódio desse período era Davi, que é conhecido de uma tumba em Soba. Seu governo foi inicialmente datado de 999-1015, mas baseado em bases paleográficas, é agora datado mais amplamente nos séculos IX e X.
O relato de ibne Haucal descreveu a geografia de Alódia foi amplamente confirmada por Ibne Selim de Assuã, um embaixador fatímida enviado a Macúria, que viajou a Alódia. Similar à descrição de Iacubi, foi notada como sendo mais poderosa, extensa e de exército maior do que Macúria. A capital Soba foi uma cidade próspera com "moradias extensas e igrejas cheias de ouro e jardins", enquanto também tem um grande bairro muçulmano. Abu Almacarim () foi o último historiador a se referir a Alódia em detalhe. Ainda era descrito como um grande reino cristão abrigando cerca de 400 igrejas. Uma delas, particularmente grande e finamente construída, estava localizado em Soba, chamada de "Igreja de Mambali". Dois reis alódios, Basílio e Paulo, são citados no em cartas árabes de Forte Ibrim.
thumb|Pintura mural de Moisés Jorge em Faras thumb|Incensário de bronze com inscrição núbia danificada. Alegadamente de Soba
Há evidência de que em certos períodos houve íntimas relações entre as famílias reais alódia e macúria. É possível que o trono passou frequentemente para um rei cujo pai era da família real do outro Estado. O nubiólogo Włodzimierz Godlewski afirma que foi sob o rei macúrio Mercúrio (início do ) que os reinos começaram a se aproximar. Em 943, Almaçudi escreveu que o rei macúrio governou Alódia, enquanto ibne Haucal escreveu que o oposto também ocorreu. O viu a aparição de uma nova coroa real na arte macúria; foi sugerido que isso derivou da corte alódia. O rei Moisés Jorge, que é conhecido por ter governado a Macúria na segunda metade do , muito provavelmente governou ambos os reinos via união pessoal. Considerando que em seu título real ("rei dos Aruades e Macuritas"), Alódia é citada antes de Macúria, pode ter sido inicialmente um rei alódio.
Declínio