thumb|350px|Vista geral do Castelo de Valençay. O Château de Valençay localiza-se na Comuna de Valençay, no departamento de Indre, na França.

Situado na borda de um planalto, de frente para Nahon, trata-se dum palácio rural que serviu de residência às famílias d'Estampes e Talleyrand-Périgord. Pertenceu a John Law e, depois, ao Príncipe de Talleyrand.

Apesar de geograficamente pertencer à província de Berry, a sua arquitectura leva a comparações com os castelos do vale do rio Loire, especialmente o Château de Chambord.

O solar foi descrito por George Sand como "um dos mais belos da Terra", que também observou que nenhum rei possuiu um parque tão pitoresco.

Está classificado com o título de Monumento Histórico desde Setembro de 1975.

História thumb|300px|left|Castelo de Valençay, França.

O palácio foi construído, em proporções de realeza, pelos d'Estampes, uma família de financistas com uma tradição de mais de dois séculos. A construção começou em 1540, a pedido de Jacques d'Estampes, no local onde existia um castelo do século XII entretanto demolido, tendo sido concluído apenas no século XVIII, quando as torres sul lhe foram adicionadas.

No século XVIII conheceu uma rápida sucessão de proprietários, incluindo o banqueiro escocês John Law, que adquiriu a propriedade em 1719. Quase um século depois, em 1803, Napoleão Bonaparte ordenou ao seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, Charles Maurice de Talleyrand, que adquirisse a propriedade como um sítio particularmente apropriado para receber os dignitários estrangeiros, nomeadamente Fernando VII de Espanha, que haveria de passar seis prazerosos anos nesse cativeiro dourado.

O período de ocupação de Talleyrand foi a era dourada da história de Valençay, com vinte e três comunas a serem administradas pelo príncipe governante. O mais célebre empregado de Talleyrand em Valençay foi sem dúvida o seu chefe de cozinha, Marie-Antoine Carême. Depois da morte de Talleyrand, em 1838, o grande homem de estado foi inumado numa pequena capela fúnebre, no parque do próprio castelo. Os seus descendentes colaterais retiveram a posse da propriedade até 1952, quando a linhagem masculina se extinguiu. O último príncipe deixou a propriedade ao seu enteado, que a vendeu a uma associação de castelos históricos em 1979.

Os príncipes de Talleyrand-Perigord estavam inscritos entre a média nobreza alemã, em virtude do controle nominal do Ducado de Żagań, na Silésia Prussiana (actualmente na Polónia). Devido a este detalhe técnico, o palácio foi poupado durante a ocupação alemã, ao tempo da Segunda Guerra Mundial. Tendo demonstrado a sua neutralidade pessoal, o Duque de Żagań viu tesouros do Louvre (como a Vitória de Samotrácia e a Vénus de Milo) protegidos em Valençay.

Das origens aos d'Estampes thumb|right|180px|Torre na esquina do Castelo de Valençay.

A villa galo-romana de Valenciacus (domínio de Valans) precedeu um primeiro "pesado e maciço donjon de pedra" edificado no fim do século X ou no início do século XI. O primeiro senhor, conhecido por uma carta de doação datada entre 1026 e 1047, é Bertrandcf. R.P. Raoul, op.cit..

Em 1220, Gauthier, dito senhor de Valençay, passa por ter sido o construtor do primeiro castelo feudal. Em 1268, pelo seu casamento com Jean, bastardo de Châlon, a sua descendente Alice de Borgonha transmitiu este importante senhorio, feudo do Duque de Orleães, Conde de Blois, à Casa de Châlon-Tonnerre.

Em 1410, Carlos de Orleães acordou uma diminuição de impostos "aos camponeses e habitantes de Valençay" reduzidos à miséria pelas epidemias, a passagem e o alojamento das tropas.

Em 1451, o senhorio passou para Roberto II d'Estampes e, cerca de 1540, é Jacques I d'Estampes, marido de Jeanne Bernard, rico herdeiro angevino, que manda arrasar o velho solar do século XII para o substituir por uma residência moderna, cujos planos são atribuíveis ao arquitecto Jean de l'Espine; à morte desse senhor, só estão acabados a fachada norte, o pavilhão de entrada e as torres de esquina.

Os trabalhos só foram retomados na primeira metade do século XVII, por Dominique d'Estampes. A ala oeste foi destruída, restando apenas a ala leste. A decoração seria confiada a Pietro de Cortona e ao pintor Jean Mosnier.

A residência tinha um bom vestíbulo e uma escadaria em mármore que conduzia a uma grande sala ornada por obras-primas do Renascimento, em particular uma "magnífica tapeçaria com fundo de paisagem", oferecida a Henri Dominique d'Estampes, e uma Virgem italiana oferecida pelo Papa Inocêncio X a Henri d'Estampes, sobrinho do Cardeal Achille de Valencay e embaixador de França em Roma.

Uma visitante da noite Em 1653, Mademoiselle de Montpensier, dita "a Grande Mademoiselle", passou pelo palácio e evocou-o assim nas suas Memórias:

Cheguei ali com tochas: pensei que estava a entrar numa residência encantada. Tem o corps de logis mais belo e magnífico do mundo (...) A gradação é muito boa e acede-se por uma galeria com arcos que tem magnificência (...) O apartamento corresponde bem à beleza da gradação pelos embelezamentos e móveis(citado pela Duqueda de Dino em Valençay, no dia 5 de Outubro de 1836, nas Chronique de 1831 à 1862 - Plon, 1909, pp.99 e 100)..

Nos séculos seguintes, o grande domínio foi, pouco a pouco, dividido pelas sucessões familiares e Philiberte Amelot, a viúva quase arruinada de Henri-Hubert d'Estampes cedeu, no início do século XVIII, metade ao especulador John Law, venda que, entretanto, seria anulada por decisão do Conselho do Rei.

Os grandes trabalhos do fermier général Em Julho de 1747, Valençay foi vendido a Jacques-Louis Chaumont de la Millière, e depois, vinte anos mais tarde, a Charles Legendre de Villemorien, fermier général (fazendeiro geral), que ali mandou realizar importantes trabalhos: reparação, construção da "Tour Neuve" a sul, demolição dos edifícios comuns, fechando o cour d'honneur a leste, supressão das janelas à francesa e do telhado da mansarda. Criou uma fiação, várias forjas, mandou restaurar as pontes sobre o Nahon e refazer a estrada de Selles-sur-Cher.

As suas forjas encontram-se em Luçay-le-Mâle, "anexo ao senhorio de Valençay (...) o castelo de Lucay parece ser da mesma época que o de Valençay: a sua posição é muito bela, domina a ferraria, a lagoa que a alimenta, a aldeia de Luçay e ravinas pitorescasNota na carta da Duquesa de Dino escrita em Valençay no dia 15 de Julho de 1837, op.cit., p. 165.".

Sob o Terror, o seu filho, o Conde de Luçay, escapou por pouco da guilhotina, escondendo-se três dias e três noites na Floresta de Garsenland; detido, foi absolvido graças à sua esposa na qualidade de "empreendedor de trabalhos úteis à República".

A bela casa de campo de Talleyrand Em 1803, o Conde de Luçay, prefeito dos Palais Consulaires mas com pouco dinheiro, vendeu o enorme domínio, de 12.000 hectares repartidos por 23 comunas, por 1,6 milhões de francos a Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, ex-bispo de Autun, Ministro das Relações Exteriores do Consulado, obedecendo assim a Bonaparte - que contribuiu para a compra - seguindo esta ordem:

"Eu quero que vós tenhais uma bela terra, que vós aí recebais brilhantemente o corpo diplomático, os estrangeiros notáveis..."

Depois de se mudar para ali com a sua esposa, Catherine Worlée, Talleyrand encarregou Jean-Augustin Renard de restaurar e embelezar a sua nova propriedade; um pavilhão de caça foi, então, equipado e o parque transformado em parque à inglesa; o palácio foi remobilado no estilo arcaizante então em moda; o gabinete de trabalho acolhe, actualmente, móveis e objectos que haviam pertencido a Talleyrand, entre os quais um curioso cadeirão com foles. O mobiliário desta sala provém do seu hôtel particulier da Rua Saint-Florentin. A cama em estilo directório, adquirida por Talleyrand como recordação de Madame de Stael, deu o seu nome a um outro quarto.

Em 1902, o último Duque de Talleyrand-Valençay mandou fechar com portas-janelas a galeria com arcos do cour d'honneur, onde se enconteam os retratis em pé de vários antepassados de Talleyrand, pintados em 1810 pelo pintor Joseph Chabord (1786-1848), aluno de Regnault, autor de dois retratos equestres de Napoleão E.Bénézit, "Dictionnaire des peintres, sculpteurs, dessinateurs et graveurs", Grund,1949, tomo 2, p. 410..

O célebre cozinheiro Marie-Antoine Carême, o "'chef de bouche" de Talleyrand, esteve no palácio quase todos os anos.

Uma gaiola dourada para príncipes caídos De 1808 a Dezembro de 1813, Fernando VII de Espanha, o seu irmão Carlos de Bourbon, o seu tio dom António e um séquiro numeroso foram aqui submetidos a prisão domiciliária; o Tratado de Valençay, que foi assinado no palácio na noite de 10 para 11 de Dezembro de 1813, deu-lhe a Coroa de Espanha e os três príncipes regressaram ao seu país no dia 12 de Março de 1814.

A sua memória é evocada pelo "quarto do Rei de Espanha", por uma alameda coberta próxima do castelo e um por um assento de baptismo, datado de 23 de Junho de 1810 e guardada nos arquivos paroquiais, que leva a sua assinatura. Até uma data imprecisa do século XIX, na igreja paroquial existia um "São Fernando" da escola espanhola, numa moldura com as armas de Castela e Leão, oferecido pelo rei ao pároco aquando da sua partida. Queimado por uma vela colocada demasiado perto, foi em seguida substituída por uma cópia do pintor Jobbé-Duval.

O benfeitor de Valençay

Talleyrand, que regressou e viveu no palácio a partir de 1816, foi conselheiro municipal e depois presidente da câmara municipal de Valencay, reconstituiu a fiação – que fornecia as fábricas de Châteauroux, de Issoudun e a casa Sellière em Paris e obteve uma medalha na Exposição de Paris de 1819 – mandou erguer o campanário da igreja em 1836, criou um novo cemitério e deu um terreno para edificar a câmara municipal.

"Não há mendigos nem indivíduos absolutamente necessitados em Valencay, escrevia no dia 14 de Dezembro de 1825 o prefeito do Indre ao Ministro do Interior, porque M. de Talleyrand instalou oficinas onde há trabalho para todas as idades. Aqueles que a doença atinge são visitados, socorridos, consolados pelas irmãs de caridade que ele dotou e fixou nesta pequena cidade".R.P. RaoulR.P. Raoul, op.cit. p.26.

Em 1818, tinha dividido uma propriedade, da qual entregou uma parte à comuna e consagrou a outra à fundação duma escola para as crianças pobres; ofereceu à Santa Elisabeth Bichier des Ages, de quem conhecia a obra pelo seu tio Talleyrand, Cardeal-Arcebispo de Paris, a possibilidade de fundar uma casa, acabada com uma capela em 1820. Esta foi decorada com lambris, mobiliário de carvalho esculpido, vitrais, uma "Fuga para o Egipto" atribuída a Le Sueur - que desapareceu no incêndio de 18 de Agosto de 1944 - e um cálice em prata dourada cinzelado e incrustado de lápis-lazúli, dado pelo Papa Pio VI a um Príncipe Poniatowski, Arcebispo de Cracóvia. Este cálice foi oferecido antes de 1834 por uma das suas sobrinhas, que viveu em Valençay e ali foi inumada, sendo depois entregue ao Duque de Valençay em 1905 e, por fim, transmitido ao Museu do LouvreR.P. Raoul, op.cit. p.26..

Talleyrand, que se interessava pelo trabalho das religiosas, visitava frequentemente a chamada "Casa de Caridade" e levava ali os seus hóspedes, entre os quais o Bispo de Villèle, Arcebispo de Bourges, e, no dia 26 de Outubro de 1834, o duque de Orleães e um numeroso séquito.

Por uma cláusula presente no seu testamento, datado de 9 de Março de 1837, Talleyrand, que morreu um ano depois, assegurou a perpetuidade do estabelecimento e expressou a vontade de ser ali inumado, tendo mandado criar para este efeito uma grande cripta sob o coro da capela da escola livre.

Presentes de Louis-Philippe