A Linha do Leste é uma ligação ferroviária entre a Estação de Abrantes, em Portugal, e a fronteira com Espanha, junto a Elvas, apresentando um comprimento de 140,692 quilómetros. Originalmente a designação de Linha do Leste ou Caminho de Ferro do Leste referia-se ao conjunto dos lanços entre a Estação de Santa Apolónia, em Lisboa, e a fronteira com Espanha perto de Elvas, mas posteriormente passou a ser apenas a via férrea de Abrantes à fronteira. Assim, o seu primeiro lanço, entre a estação provisória de Lisboa e o Carregado, foi inaugurado em 28 de Outubro de 1856, tendo a linha chegado à fronteira com Espanha em 24 de Setembro de 1863.REIS et al, 2006:12
thumb|left|Comboio de mercadorias junto a Bemposta, em 2017
Caracterização Exploração Em Outubro de 2011, apresentava via única, não electrificada, e utilizava um sistema de exploração em cantonamento telefónico. O traçado desta linha era um dos melhores em Portugal, com longas rectas e curvas de raio muito aberto. A maioria das estações estavam emparedadas, mas tinham sido pintadas pela Rede Ferroviária Nacional. Na mesma altura, esta linha apenas era utilizada por serviços regionais, utilizados maioritariamente por idosos e estudantes. Os serviços foram encerrados em 1 de Janeiro de 2012, tendo sido retomados de Abrantes até Portalegre em 25 de Setembro de 2015, e até Badajoz em 29 de Agosto de 2017.
Material circulante Entre o material circulante utilizado na Linha do Leste, estiveram as automotoras da Série M 1 a 7 da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses.REIS et al, 2006:115 Também circularam as locomotivas da Série 1200, que rebocavam comboios regionais entre Elvas e Badajoz.
História Fases da Construção Entre as EstaçõesExtensãoInauguraçãoAbrantes – Crato64,404 km 6 de Março de 1863Crato – Elvas65,573 km 4 de Julho de 1863Elvas – fronteira10,715 km 24 de Setembro de 1863 Antecedentes As comunicações fronteiriças entre Portugal e Espanha sempre foram muito deficientes, devido principalmente a diferenças políticas; a primeira grande proposta para estabelecer uma via de comunicação foi lançada ainda durante o reinado de Filipe II de Espanha, quando ambas as nações ibéricas se encontravam politicamente unidas, e propunha tornar navegável os rios Tejo e Jarama, de forma a ligar Lisboa a Madrid por via fluvial. Este empreendimento, junto com outros que lhe seguiram, não foram bem sucedidos, mas os governos não deixaram de procurar outras formas de facilitar as ligações entre os dois países, principalmente para poder exportar os seus produtos. No entanto, as principais rotas de comunicação, por via rodoviária, continuavam a ser inseguras e irregulares. Em 1830, iniciou-se um serviço de mala posta entre o Montijo e Badajoz, unindo Lisboa a Madrid por via terrestre. A viagem era desconfortável e era muito longa, e a falta de procura motivou o seu cancelamento logo em 1831. A mala posta do Montijo a Badajoz foi reposta em 1854, e embora continuasse a sofrer de problemas de conforto e de segurança, durou até 1863, devido à inauguração da Linha do Leste.
Século XIX thumb|Mapa com os planos ferroviários de 1845, incluindo a linha de Lisboa à fronteira Primeiras tentativas Os primeiros planos para instalar um caminho de ferro em território nacional surgiram na década de 1840, numa carta enviada por Benjamim de Oliveira ao seu primo, o Conde de Tojal em 10 de Outubro de 1844, onde propôs a formação de uma companhia inglesa para construir uma linha férrea em Portugal, unindo Lisboa ao Porto. Em 6 de Dezembro desse ano, houve uma reunião de capitalistas em Londres, tendo-se planeado a construção de duas linhas, uma de Lisboa à fronteira e outra no Alentejo. No entanto, esta proposta não teve seguimento devido à publicação de um decreto de 19 de Dezembro de 1844, que fundou a Companhia das Obras Públicas de Portugal, que foi encarregada de construir a linha de Lisboa à fronteira por uma Lei de 19 de Abril de 1845. Nessa mesma data foi assinado o contrato com a companhia, onde ficou estabelecido que a linha até à fronteira acompanharia o percurso do Rio Tejo. Esta via férrea seria de grande importância, por permitir uma ligação entre Portugal ao estrangeiro, não só a Espanha mas a toda a Europa continental, tendo a Revista de Obras Públicas previsto, em 1845, que Lisboa seria a ponta ocidental de uma grande rede ferroviária até Königsberg, por Madrid, Bordéus, Paris, Bruxelas, Colónia, Berlim e Dantzig. Este empreendimento devia estar realizado num prazo de 10 anos, mas a empresa foi encerrada em 5 de Junho de 1846, devido à instabilidade política e à Revolução da Maria da Fonte.
Planeamento e fase de concurso Em 1851, iniciou-se a Regeneração, um período de relativa estabilidade social e política, que possibilitou o desenvolvimento dos caminhos de ferro. Um empresário britânico, Hardy Hislop, apresentou uma proposta para uma linha de Lisboa a Badajoz, tendo uma portaria de 18 de Julho de 1851 formado uma comissão para estudar esta proposta, onde se incluía o escritor Almeida Garrett. Em 20 de Outubro, a comissão elaborou as bases para o concurso deste caminho de ferro, fundadas na proposta anterior. O concurso, organizado por Fontes Pereira de Melo, foi aberto em 6 de Maio e encerrado em 31 de Julho de 1852, tendo participado vários concorrentes, como Benjamim de Oliveira e Samuel Morton Peto, mas a concessão acabou por ser entregue à Companhia Central e Peninsular dos Caminhos de Ferro em Portugal. O contrato foi assinado em 10 de Agosto desse ano, e as obras começaram oficialmente em 17 de Setembro de 1853. Nessa altura, gerou-se alguma polémica sobre qual das duas linhas, a do Norte ou do Leste, era de construção prioritária, tendo-se dado a preferência à linha até Badajoz. Em 6 de Novembro de 1854, foi nomeada uma comissão para se reunir em 13 de Novembro com os representantes espanhóis, em Elvas, de forma a ser escolhido o local onde a futura linha férrea de Lisboa a Madrid deveria passar a fronteira.MARTINS et al, 1996:241
Em Janeiro de 1856, chegou a Portugal o engenheiro Wattier, que tinha sido contrato pelo governo para planear o traçado e dirigir as obras da Linha do Leste.VIEGAS, 1988:60-61 Em Junho desse ano, os governos ibéricos formaram uma comissão mista, para estudar qual o traçado definitivo para a ligação fronteiriça. Formaram-se duas correntes de opinião, uma defendendo que a linha deveria ser paralela ao Rio Tejo, o que diminuiria as distâncias entre as capitais mas necessitaria de mais investimentos, enquanto que a outra apresentava um traçado junto ao Rio Guadiana, porque passaria junto à Praça-forte de Elvas. Foi escolhida a segunda proposta, mas continuaram a surgir movimentos de resistência a esta decisão. Um dos principais opositores foi o rei D. Pedro V, que tinha uma certa animosidade em relação ao facto de D. José de Salamanca se encontrar à frente dos principais projectos ferroviários portugueses, tendo intervindo directamente no planeamento desta linha, e escrito sobre o seu traçado numa revista de engenharia militar.REIS et al, 2006:15 Em 18 de Agosto de 1856, o rei escreveu um relatório denominado de O Caminho de Ferro de Leste, onde criticou a forma como o concurso fora realizado, uma vez que não tinha sido escolhido o empreiteiro mais adequado para as obras, e aconselhou a uma separação entre as linhas do Norte e Leste, de forma a não ficarem ambas sob a mesma empresa. Desta forma, a companhia seria responsável pelas duas vias principais, ficando com um poder quase estatal, e prejudicando futuras negociações para a abertura de linhas transversais àqueles dois eixos.MÓNICA, 2001:174 Com efeito, esta situação sucedeu alguns anos depois, como a tentativa para ligar Évora a Elvas por via férrea na década de 1860, que teria sido de grande utilidade para a região meridional do país, mas que encontrou uma forte oposição por parte da Companhia Real. Decidiu-se que as duas linhas teriam um tronco comum até um ponto próximo da Vila Nova da Barquinha, onde seria instalada a Estação do Entroncamento.
thumb|Engenheiros ingleses nas obras da Linha do Leste, em 1856 Lanços de Lisboa a Abrantes
O primeiro troço desta linha, entre o Carregado e Lisboa, foi inaugurado em 28 de Outubro de 1856. Porém, continuaram os problemas com as obras, e a Companhia Central e Peninsular enfrentou graves problemas económicos. Após ter fracassado um contrato com o empresário Samuel Morton Peto, em 1859, o governo adjudicou em 30 de Julho desse ano, de forma provisória, as obras nas Linhas do Leste e Norte ao empresário espanhol D. José de Salamanca y Mayol. O contrato definitivo foi assinado em 12 de Setembro desse ano, e aprovado pelas cortes por uma carta de lei de 5 de Maio de 1860. D. José de Salamanca criou a Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses para explorar ambas as linhas, tendo trespassado a sua concessão para a Companhia Real em 13 de Outubro de 1860.MARTINS et al, 1996:242 Este primeiro lanço foi construído em bitola padrão, de 1,435 m, já a pensar na futura integração na rede ferroviária Europeia, mas entretanto as vias férreas em Espanha adoptaram uma nova bitola de 1,672 m, forçando à adaptação das linhas portuguesas, de forma a não ficarem isoladas do país vizinho. Assim, foram modificadas as vias férreas em 1861, e o lanço até Santarém entrou ao serviço em 1 de Julho desse ano. O troço até Abrantes entrou ao serviço em 7 de Novembro de 1862. Em 2 de Dezembro de 1862, ocorreu um acidente na Ponte da Ribeira De Sôr. Em 1860, o rei D. Pedro V escreveu dois artigos sobre as linhas férreas na Revista Militar, onde relatou que as autoridades militares tinham-se oposto ao traçado da Linha do Leste, considerando que aquela artéria seria muito perigosa em caso de conflito. Desta forma, assistiu-se a um conflito entre os interesses militares e económicos, como os de Portalegre, e as directrizes técnicas na escolha do traçado.MÓNICA, 2001:178 Com a criação da Companhia Real, deu-se um novo impulso às obras das linhas do Norte e Leste, onde chegaram a trabalhar 40 mil operários, dirigidos por um grande número de engenheiros portugueses e espanhóis.
thumb|left|Inauguração do troço entre Badajoz e a fronteira portuguesa, em 1863 Construção do Crato a Badajoz e primeiros anos A Linha chegou ao Crato no dia 6 de Março de 1863, e a Elvas em 4 de Julho do mesmo ano. A ligação desde esta estação até à fronteira abriu à exploração em 24 de Setembro, tendo o troço desde este ponto até à estação de Badajoz, do lado espanhol, entrado ao serviço no dia 20 de Setembro. A cerimónia de inauguração contou com a presença da rainha Isabel II de Espanha. Esta foi a primeira união ferroviária entre os dois países, embora este lanço estivesse inicialmente isolado da rede espanhola. A plataforma de via foi desde logo preparada para a duplicação.
A construção da Linha do Leste fez parte da primeira fase da instalação dos caminhos de ferro em Portugal, nas décadas de 1850 e 1860, que incluiu igualmente a Linha do Norte, e os primeiros lanços das futuras linhas do Alentejo, Évora e Sul.LAINS e SILVA, 2005:165
Em 25 de Maio de 1865, a exploração das Linhas do Norte e Leste passou a ser assegurada pela Companhia Real, tendo sido até então feita pela empresa construtora.MARTINS et al, 1996:243 Em 26 de Setembro desse ano, foi aprovado o Regulamento de Sinais para as duas linhas.MARTINS et al, 1996:244
Em 3 de Maio de 1871, entraram ao serviço os livros de reclamação nas estações das linhas do Norte e Leste.MARTINS et al, 1996:245 Em 30 de Janeiro de 1873, iniciou-se uma greve de oito dias nas linhas do Norte e Leste, onde participaram os maquinistas, os fogueiros e dos operários das oficinas. Em 26 de Fevereiro de 1875, uma lei autorizou o governo a isentar dos impostos de trânsito as mercadorias que fossem transportadas no regime de pequena velocidade pelas linhas do Norte e Leste, durante um período de 36 anos.MARTINS et al, 1996:246