O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro é um filme brasileiro de 1969, dos gêneros aventura e nordestern, dirigido e escrito por Glauber Rocha. Em seu elenco principal, conta com nomes como Maurício do Valle, como o matador de cangaceiros Antônio das Mortes, Lorival Pariz, Odete Lara, Othon Bastos, Hugo Carvana e Jofre Soares. A história segue Antônio das Mortes, um matador de cangaceiros, que vai para a cidade de Jardim das Piranhas contratado para matar Coirana, um novo chefe cangaceiro que se apresenta como a reencarnação de Lampião. É uma espécie de continuação de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1964, também dirigido por Rocha, onde Antônio aparece pela primeira vez. O título faz referência à lenda da luta de São Jorge contra um dragão que assolava um vilarejo que visitou.

Primeiro longa-metragem em cores de Glauber Rocha, seu lançamento ocorreu no Festival de Cinema de Cannes em 1969, na sua 22ª edição, onde competiu pelo prêmio de maior prestigio do festival, a Palma de Ouro. No festival, Glauber recebeu o prêmio de Melhor Diretor, tornando-se o primeiro brasileiro e latino-americano a receber o prêmio. Ainda recebeu a Coruja de Ouro de Melhor Direção, além do Prêmio Adicional de Qualidade, em 1969. O filme foi escolhido pelo Instituto Nacional de Cinema (INC), para representar o Brasil no Oscar de Melhor Filme Internacional de 1970, na 42ª cerimônia da premiação, porém não ficou entre os cinco finalistas. Foi lançado no mercado estrangeiro com o título Antonio das Mortes.

Em 1999, em uma pesquisa do jornal Folha de S.Paulo realizada com 24 críticos e estudiosos do cinema brasileiro, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro foi lembrado como um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos.. Em novembro de 2015, o filme entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos, ficando na 34ª posição. Em maio de 2026, foi incluído na lista dos cem filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos, da mesma associação.

Enredo thumb|left|250px|Maurício do Valle como Antônio das Mortes em cena do filme. O filme inicia com uma cena de Antônio das Mortes (Maurício do Valle) atravessando a caatinga e atirando, matando um cangaceiro no processo. Coirana (Lorival Pariz), com seu bando de cangaceiros, ocupa a vila Jardim de Piranhas com bandeiras e estandartes e reúne-se no centro da praça com os influentes locais: o coronel Horácio (Jofre Soares), mandante absoluto, Mattos (Hugo Carvana), delegado da cidade, idealista, servil e puxa-saco do coronel, e Laura (Odete Lara), esposa do Coronel. Assistindo estão o Professor (Othon Bastos), espécie de consciência do vilarejo e o cego Antão (Mário Gusmão). Coirana diz que vai voltar para "enfrentar o dragão da maldade". Num boteco, distante dali, Antônio das Mortes conta como encontrou Lampião, que o convidou para entrar no cangaço, causando ciúmes em Corisco. Revela também que, mais tarde, matou Corisco. Agora, vai a Jardim de Piranhas enfrentar os cangaceiros. Apanha o chapéu e o rifle papo amarelo e parte. Na vila, o Coronel não gosta de jagunços mercenários, pois acha que eles trazem mais problemas. Mattos, porém, mostra-se decidido a acabar com a violência dos cangaceiros. Na verdade, quer a "paz" para instalar uma indústria local e gerar empregos. O Coronel tem medo que venha a reforma agrária e assim perder suas terras e suas vacas.

Coirana, na encosta de uma montanha, diz para Santa Bárbara (Rosa Maria Penna) que é hora de queimar os vivos e destruir as cidades. Na vila, Antônio das Mortes recorda que matou mais de cem cangaceiros e hoje só vive na tristeza e na lembrança. Agora, Coirana é um desafio para ele. Beatos e cangaceiros entram novamente na cidade. Coirana e Antônio se defrontam. O cangaceiro grita "Homem vai virar mulher, mulher vai pedir perdão, prisioneiro vai ficar livre, carcereiro vai para a prisão". Antônio pergunta se Coirana é verdadeiro ou uma assombração. Este retruca: "Diga seu nome, fantasiado, quem abre assim a boca fica condenado". No duelo, Coirana cai e vai ser morto, mas Santa Bárbara interfere; Antônio concede a vida ao inimigo, que é levado dali ferido. O Coronel fica possesso, e, com mais medo, diz que é um homem bom, distribui farinha e carne seca ao povo, reclamando que o governo não manda dinheiro para nada. Ferido, deitado num balcão de bar, Coirana delira. É levado para fora, colocado aos pés de Santa Bárbara. Curioso, Antônio quer saber de Santa Bárbara de onde veio Coirana, pois pensava ter sido Corisco o último cangaceiro. Ele mostra que está cansado e não quer matar mais gente. Santa Bárbara, no entanto, grita: "Vai embora e cruze os caminhos de fogo do mundo pedindo perdão pelos crimes que cometeu". Coirana mostra o punhal e o aponta para Antônio: "Você é o dragão da maldade. Debaixo dessa capa tem uma camisa de ouro, por isso bala não entra em seu peito. O ouro que você ganhou dos ricos matando os pobres".

Antônio volta para Jardim de Piranhas. Na igreja, diz a Mattos para pedir ao Coronel que abra o armazém e dê toda comida ao bando de Coirana. E este que possa ficar por ali plantando banana. Mattos, em resposta, pede que Antônio mate o Coronel, pois assim tomará seu lugar e tentará realizar o pedido de Antônio. Antônio, entretanto, diz que só matará o coronel se este recusar a sua requisição. O Coronel se recusa a abrir o armazém e decide matar Antônio. Mattos, que trouxe Antônio, agora quer que ele vá embora, diz que vai ser prefeito e assim vai resolver o problema de todo mundo. O Coronel traz um caminhão de jagunços chefiados por Mata-Vaca (Vinícius Salvatori). Ao descobrir que Mattos é amante de Laura, o Coronel obriga Mattos a beijar Laura diante de toda a vila. Há um entrevero, Mattos, Laura e o Professor entram no bar e se trancam. Laura grita que Mattos prometeu levá-la embora da vila e o Professor discute com o delegado. Laura sai do bar, apanha o punhal de Mata-Vaca e o crava no peito de Mattos no momento que este sai do bar.

Na encosta da montanha, Coirana morre. Antônio, Santa Bárbara e outros se aproximam, e Antônio decide enterrar Coirana no fundo do sertão. Na vila, o Professor arrasta o corpo de Mattos, seguido por Laura num vestido roxo. O padre avisa ao Professor que Mata-Vaca vai matar os beatos e quer que procurem Antônio. Mas este, com o corpo de Coirana às costas, atravessa o sertão. Na encosta da montanha, os jagunços dançam diante dos beatos, que depois são mortos a tiros, com somente Santa Bárbara permanecendo viva. Quando Antônio chega à encosta, todos estão caídos e Santa Bárbara cobre os olhos de Antônio com um espadim. Antônio se vai, seguido pelo Professor, que quer apanhar uma carona nos caminhões. O Professor tira o revólver e o punhal do corpo de Coirana.

Na vila, o Coronel e Laura, sentados numa marquesa, sobre os ombros dos jagunços, desafiam Antônio. O Professor é quem se apresenta primeiro, e diz que sua hora vai chegar. Antônio desafia Mata-Vaca e estes se enfrentam com facões. No decorrer da luta, inicia-se um tiroteio, em que Laura é ferida. Surge o cego Antão vestido com as roupas de Oxóssi e enfia uma lança no coração do Coronel — representando as reais figuras do "Dragão da Maldade" e do "Santo Guerreiro". No final, o Professor, com o corpo de Laura entre os braços, beija sua boca. Antônio das Mortes afasta-se pela estrada asfaltada em meio aos caminhões. Ao final, são mostradas imagens de São Jorge matando o dragão.ALZUGARAY, Cátia; ALZUGARAY, Domingo. (Editores). ISTOÉ: Cinema brasileiro., anexo da ed. 1466, p. 3-5.

Elenco thumb|right|200px|Maurício do Valle interpreta Antônio das Mortes Maurício do Valle como Antônio das Mortes: um matador de cangaceiros conhecido por agir em nome de seus sentimentos contraditórios sobre problemas de moral e de justiça no sertão do nordeste Lorival Pariz como Coirana: um novo chefe cangaceiro que se apresenta como a reencarnação de Lampião. Faz parte de um bando que invade o Jardim das Piranhas Jofre Soares como Coronel Horácio Odete Lara como Laura: esposa do Coronel. É amante do delegado Mattos Othon Bastos como Professor: espécie de consciência do vilarejo Hugo Carvana como Mattos: delegado da cidade que contrata Antônio das Mortes para exterminar o bando de Coirana. É um idealista, servil e puxa-saco do coronel Rosa Maria Penna como Santa Bárbara Mário Gusmão como Antão Emmanuel Cavalcanti como Padre Vinícius Salvatori como Mata Vaca: chefe dos jagunços contratados pelo Coronel Santi Scaldaferri como Batista Conceição Senna como Madalena

Produção Dentre todos os personagens de Deus e o Diabo na Terra do Sol, que mais levantou interesse do público e da crítica foi Antônio das Mortes, tornando-se um personagem icônico. Por conta disso, Glauber acabou sendo convidado por uma rede de televisão do Rio de Janeiro para produzir uma série sobre o personagem. No entanto, alguns problemas o impediram de realizar o projeto. Apesar disso, não desanimou da ideia de finalizar a história de Antônio das Mortes, lançando assim o filme O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro.

Apesar da história ser simples, o diretor Glauber Rocha a conta de uma forma alegórica, misturando cordel e ópera, priorizando a música e os ritos folclóricos próprios da população nordestina. Glauber envolve a narrativa dentro do olhar metalinguístico comum ao cinema novo. A câmera arrastada e a música vibrante nordestina dão quase uma impressão de continuação a Deus e o Diabo. Por muitos é considerado a obra prima do Mestre Glauber, que mistura o ritual antropofágico nordestino, sua "seita" e seu folclore ao encontro apoteótico com uma forma diferente de se fazer cinema, seguindo os parâmetros do cinema novo, já passada a fase experimental da primeira leva de filmes.

Trilha sonora Entre as músicas presentes na trilha sonora estão: Antonio das Mortes, escrita e interpretada por Sérgio Ricardo Carinhoso, escrita por Pixinguinha e João de Barro, interpretada por Odete Lara e Hugo Carvana Coirana, escrita por Walter Queiroz, interpretada por Lorival Pariz Volta por Cima, escrita por Paulo Vanzolini Ukrinmakrinkrin, para soprano, instrumentos de sopro e piano, composta por Marlos Nobre

Lançamento Inicialmente, foi censurado pelo governo do General Emílio Garrastazu Médici, porém, por conta de toda a sua repercussão internacional que o filme recebeu, acabou por ser liberado.DRAGÃO da Maldade Contra o Santo Guerreiro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obras/123398-dragao-da-maldade-contra-o-santo-guerreiro. Acesso em: 14 de abril de 2026. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7 Foi lançado comercialmente nas salas de cinema do Brasil em 6 de setembro de 1969, após sua estreia no Festival de Cannes, no mesmo ano.

Restauração Uma versão restaurada da obra foi exibida no festival Cine Ceará, em 2007. A cópia restaurada teve um complexo processo de recuperação do negativo, que levou quase quatro anos para ser concluída. Os negativos originais do filme acabaram por serem destruídos em um incêndio ocorrido no Laboratório GTC, em Paris.

No Brasil, o que havia de preservado era apenas um negativo de câmera extremamente granulado. Para a restauração, uma cópia dublada em francês foi usada de base, com o áudio sendo recuperado em um negativo que estava em Cuba. Para poder juntar as duas pontas, a restauração teve de ser feita completamente na Inglaterra, no Laboratório Prestech, com curadoria de João Sócrates Oliveira e supervisão de Affonso Beato, com o último tendo sido o diretor de fotografia do filme.

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