A Batalha de Badajoz, travada na noite de 6 para 7 de abril de 1812, com o objectivo de capturar aquela praça, então ocupada pelos franceses, foi o culminar de um cerco efectuado pelo Exército de Wellington, com início a 16 de março.Encontra-se com frequência a designação desta acção como Cerco de Badajoz. Na realidade, tratou-se de um cerco que, porque as forças sitiadas não capitularam, terminou com o assalto à fortificação que se encontrava cercada. A guarnição francesa, sob o comando do General Philippon, só se rendeu quando as forças de Wellington se encontravam já dentro da praça. Este facto originou uma acção de saque que foi dos mais violentos da Guerra Peninsular.

Antecedentes Enquanto decorria a Terceira Invasão Francesa, Soult capturou Badajoz, numa tentativa de criar condições para as suas tropas entrarem em Portugal pelo eixo Sul. A Praça de Badajoz caiu em poder das tropas francesas a 11 de Março de 1811. As ameaças surgidas na Andaluzia obrigaram Soult a voltar rapidamente para aquela província espanhola e a deixar uma guarnição francesa na Praça de Badajoz (Ver o artigo Primeiro Cerco de Badajoz). Os Aliados tentaram recuperar aquela praça mas não conseguiram o seu intento (Ver artigo Cercos de Badajoz na Guerra Peninsular).

Finalmente, em 1812, após a captura de Ciudad Rodrigo que, juntamente com a Praça de Almeida, garantia o domínio do eixo de invasão a Norte, Wellington reuniu as suas unidades com a finalidade de obter o mesmo resultado no eixo Sul. Só desta forma poderia avançar em Espanha.

A Praça de Badajoz A cidade de Badajoz, na altura com 16 000 habitantes,CHABY, p. 507. cresceu à volta do castelo medieval. No século XVII, durante as Guerras da Restauração da Independência de Portugal, foi construindo um conjunto de muralhas adequado aos conceitos defensivos da época e que englobava todo o tecido urbano.

A fortificação da cidade era constituída por oito baluartes, com cerca de 9 metros de altura, ligados através de muralhas muito fortes, com uma altura entre 7 e 8 metros, que se uniam no antigo castelo. Este situava-se na parte Nordeste das muralhas, sobre uma colina íngreme que atingia cerca de 30 metros acima do nível das águas do Rio Guadiana.GLOVER, pp. 182 a 184.

O Rio Guadiana passava a norte da cidade. Na margem norte do Guadiana, o forte de San Cristobal dominava as zonas altas daquele lado do rio. Uma ponte antiga, a Ponte de Palmas, construída em 1460, com trinta arcos e 585 metros de comprimento, ligava as duas margens e, na margem norte, era defendida por uma fortificação que aparece designada, quer em língua francesa, quer em língua inglesa, por Tete Du Pont. Da praça saía-se para a ponte pela Porta de Palmas.

Existiam algumas obras exteriores que permitiam exercer controlo sobre as vias de aproximação da cidade: a Luneta de San Roque e o forte Picurina, do lado Sudeste, e o forte Pardaleras do lado Sudoeste.RAWSON, p. 189.

A ribeira de Rivillas corre paralela às muralhas viradas a Este e tinha sido construída uma represa para permitir inundar os terrenos mais baixos, entre o forte Picurina e a Lunette San Roque, o que limitava os movimentos na área.

As forças em presença As forças francesas thumb|direita|250px|General Armand Phillipon, governador francês da praça de Badajoz O governador da praça de Badajoz - comandante da sua guarnição - era o General Armand Philippon. A guarnição da praça tinha um efectivo de aproximadamente 4 700 homens, contando com os elementos de apoio logístico e estado-maior, e dispunha de munições e de víveres para sete semanas.WELLER, p. 200 As tropas combatentes presentes no dia 15 de março eram as seguintes:OMAN, pp. 235 e 593

Cinco batalhões mais duas companhias de infantaria de linha, franceses, com 2 897 homens; Dois batalhões do Regimento de Hesse-Darmstadt , da Divisão Rheinbund do Exército do Centro, com 910 homens; Três baterias de artilharia, com 261 homens; Engenheiros e sapadores, 260 homens; Um pequeno corpo de cavalaria com 42 homens; Uma companhia de Juramentados espanhóis, que tinha escoltado um comboio de abastecimentos e ficou retida na cidade quando o cerco teve início, com 54 homens.

Todas as tropas francesas e especialmente o governador e a maior parte do seu estado-maior conheciam bem a praça pois já ali se encontravam há vários meses.

O Exército de Wellington O exército anglo-luso, sob o comando de Wellington estava organizado em dois corpos de tropas:Corpo de tropas é uma designação normalmente utilizada para designar um conjunto de tropas que não se identifica com uma unidade orgânica, por exemplo, Divisão ou Batalhão. a força de ataque a Badajoz, na qual se incluíam os meios para pôr cerco à praça, e a força de cobertura, destinada a conter qualquer tentativa de ajuda à guarnição francesa sitiada. Ao reunir as suas tropas na região de Elvas, Wellington contava com perto de 60 000 homens. Ao contrário do que sucedera em batalhas anteriores, o exército anglo-luso englobava agora um forte corpo de cavalaria, em situação de igualdade com o exército de Soult (Exército do Sul ou Exército da Andaluzia) que constituía a ameaça mais próxima.

A força de ataque à praça de Badajoz Para o ataque à Praça de Badajoz, Wellington utilizou as seguintes unidades:Dados adquiridos com base nas obras de FLETCHER, OMAN, PATRIDGE & OLIVER E SMITH; nas obras consultadas não se encontram dados sobre os efectivos de cada uma das unidades.

thumb|direita|250px|O Duque de Wellington. Retrato por Francisco Goya 3ª Divisão – Brigadeiro-General Sir Thomas Picton 1ª Brigada – Major-General James Kempt - 1/45th,De ler-se 1º Batalhão do 45º Regimento 74th (regimento com um único batalhão), 1/88th, 5/60th. 2ª Brigada – Coronel J. Campbell - 2/5th, 77th (regimento com um único batalhão), 2/83rd, 94th (regimento com um único batalhão) 8ª Brigada Portuguesa – Brigadeiro Champalimaud - RI 9,Deve ler-se Regimento de Infantaria nº 9 RI 21. 4ª Divisão – Major-General Charles Colville 1ª Brigada – Major General Kemmis - 1/40th, 3/27th, 5/60th (1 companhia) 2ª Brigada – Major General Sir Edward Pakenham - 1/7th, 1/23rd, 1/48th 9ª Brigada Portuguesa - Coronel Richard Collins - RI 11, RI 23, Caçadores 7 5ª Divisão de Infantaria (menos a 2ª Brigada), sob o comando do Tenente General Sir James Leith: 1ª Brigada – Major-General Hay – 3/1st, 1/9th, 2/38th, Brunswick Oels (1 companhia); 2ª Brigada da 5ª Divisão de Infantaria – Major-General Walker - 1/4th, 2/30th, 2/44th, Brunswick Oels (1 comp) 3ª Brigada Portuguesa (Independente) - Brigadeiro William Frederick Sprye – RI 3, RI, Caçadores 8; Divisão Ligeira – Tenente-Coronel Andrew Francis Barnard 1ª Brigada - Tenente-Coronel Andrew Francis Barnard - 1/43rd, 95th (8 ou 11 companhias? dos 3 batalhões do regimento), Caçadores 1 2ª Brigada – Vandeleur - 1/52nd, 1/95th (4 companhias), Caçadores 3

A força de cobertura Como força de cobertura, Wellington organizou dois corpos fortes em cavalaria. Tinham a seguinte constituição:OMAN (2), p. 228.

O primeiro corpo de tropas, sob o comando do Tenente-General Sir Thomas Graham, tinha cerca de 19 000 homens e era constituído por: 1ª Divisão de Infantaria, sob o comando do Tenente-General Sir Thomas Graham; 6ª Divisão de Infantaria, sob o comando do Tenente-General Sir Henry Clinton; 7ª Divisão de Infantaria, sob comando do Major-General Sir Charles Alten (Carl August von Alten); Corpo de Cavalaria de Slade; Corpo de Cavalaria de Le Marchand (Major-General John Gaspard Le Marchant).

O segundo corpo de tropas, sob o comando do Tenente-General Sir Rowland Hill, tinha cerca de 14 000 homens e era constituído por: 2ª Divisão de Infantaria, sob o comando do Tenente-General Sir Rowland Hill; Divisão Portuguesa de Infantaria, sob comando do Tenente–General John Hamilton; Corpo de Cavalaria Britânica de Long; Corpo de Cavalaria Portuguesa de Campbell (Coronel John Campbell).

Outras forças à disposição de Wellington Wellington podia dispor, a partir de 21 de março, para além das forças de cerco e de cobertura, de cerca de 12 000 homens das seguintes unidades:OMAN (2), p. 229.

1ª Brigada Portuguesa (Independente) – Brigadeiro Dennis Pack – RI 1, RI 16, Caçadores 4; 10ª Brigada Portuguesa (Independente) – Brigadeiro Thomas Bradford – RI 13, RI 24, Caçadores 5; Brigada de Cavalaria da King’s German Legion – Major-General George Bock – 1º e 2º Regimentos de Dragões; 3ª Brigada da 1ª Divisão de Cavalaria – Tenente-Coronel Frederick Cavendish Ponsonby (em substituição do Tenente-Coronel George Anson) – 14º e 16º Regimentos de Dragões Ligeiros.

Wellington podia ainda contar com as tropas de Penne Villemur e de Morillo, cerca de 1 000 sabres e 4 000 baionetas. O General Castaños, comandante do Exército Espanhol da Estremadura, deu ordem para aquelas forças marcharam das regiões de Cárceres e Valência de Alcântara para o Baixo Guadiana com a finalidade de entrar no Condado de Niebla, juntar-se a uma guarnição militar espanhola de Ayamonte e atacar Sevilha assim que tivessem conhecimento de que Soult tinha marchado para Norte, para Badajoz. O plano era obrigá-lo a voltar para trás para enfrentar esta ameaça.

As Operações A estratégia de Wellington Quando Wellington começou a enviar a sua artilharia de cerco para Elvas, a infantaria e a cavalaria mantiveram-se nas mesmas posições para esconder dos franceses a intenção de se dirigir para Sul. Só a partir de 19 de fevereiro, as suas divisões começaram a retirar da forma mais discreta possível. O quartel-general de Wellington só saiu de Freneda, perto de Fontes de Onor, no dia 5 de março e a frente foi mantida à custa da 5ª Divisão e o 1º Regimento de Hussardos da King's German Legion. O objectivo era iludir as forças francesas por forma a que o Marechal Marmont, comandante do Armée du Portugal, continuasse a acreditar que o exército anglo-luso continuava concentrado a Norte.OMAN (2), pp. 218 e 219.

Wellington tinha então de conduzir as operações por forma a que a praça de Badajoz estivesse capturada antes que o Marechal Marmont tivesse conhecimento da situação e conseguisse reunir as suas forças e avançar para Sul. Wellington assumiu que Marmont não chegaria a tempo de impedir a captura da praça de Badajoz e preocupou-se, por um lado, em garantir a segurança das operações de cerco perante a possível ameaça das forças francesas estacionadas na Estremadura espanhola ou até perante a possibilidade de Soult tentar libertar a praça com as forças disponíveis do Armée du Sud; por outro lado, em desenvolver as operações de cerco e assalto da praça de Badajoz tão rapidamente quanto possível.

A Preparação do Cerco Após a captura de Ciudad Rodrigo, era necessário concentrar perto de Badajoz, as tropas, as armas e os equipamentos destinados ao cerco. Elvas, pela sua proximidade, era a base ideal para a reunião dessas forças. As unidades de infantaria, cavalaria e artilharia de campanha podiam deslocar-se normalmente pelas estradas (embora más) que conduziam para Sul. A artilharia de cerco, pesada e difícil de transportar, constituía o maior problema.

Wellington enviou uma parte do seu trem de cerco pelas estradas da Beira e a outra parte por mar. Esta desceu o Douro em barcaças, foi transportada até Setúbal e daí, por barcaça, até Alcácer do Sal, de onde seguiram em carros puxados por bois até Elvas. Para coordenar estes movimentos a partir de Setúbal, Wellington enviou um oficial de artilharia, Alexander Dickson, a Setúbal. Este oficial tinha ainda outra missão: levar para Elvas vinte peças de 18 libras dos navios britânicos fundeados no Tejo. O Almirante Berkeley, comandante da esquadra, decidiu, no entanto, enviar vinte peças dos navios russos estacionados no Tejo desde 1808. Dickson conseguiu encontrar em Lisboa munições adequadas àquelas peças que eram também de 18 libras mas diferentes das britânicas.