António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de NoronhaPela grafia arcaica, Antonio Joze de Souza Manoel de Menezes Severim de Noronha. GCNSC (Lisboa, – Lisboa, ), 7.º Conde de Juro e Herdade e 1.º Marquês de Vila Flor e ainda 1.º Duque da Terceira, de juro e herdade, com Honras de Parente, foi um importante general e homem de Estado português do tempo do liberalismo, sendo uma das mais importantes figuras do tempo, tanto no plano político, como, e talvez sobretudo, no plano militar. De herói das guerras liberais tornou-se no líder incontestado dos cartistas, a facção mais conservadora do liberalismo português, embrião do futuro Partido Regenerador.
Pertencente à mais genuína alta nobreza portuguesa, teve múltiplos cargos e honrarias na corte, entre as quais, moço fidalgo da rainha Maria I, gentil-homem da câmara de el-rei João VI, copeiro-mor e estribeiro-mor. Exerceu as funções de marechal de campo, comandante-em-chefe do Exército Português, conselheiro de Estado, par do Reino, tendo por quatro vezes (1836, 1851, 1842-1846 e 1859-1860) exercido o cargo de Presidente do Conselho de Ministros. Foi o 10.º capitão-general dos Açores, ali presidindo à Regência de Angra durante a fase inicial das guerras liberais.
Biografia António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha nasceu em Lisboa, no Palácio do Conde de Vila-Flor, a 18 de Março de 1793, filho primogénito de António de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha, 6.º conde de Vila Flor, então um dos homens mais ricos de Portugal, e de Maria José de Mendonça, filha do 6.º conde de Vale de Reis. Como grande do reino, era membro da alta nobreza e o herdeiro de uma das mais ricas e antigas casas vinculares portuguesas.
Tinha apenas dois anos de idade quando em 1795 lhe faleceu o pai, sucedendo-lhe no título de conde de Vila Flor e no cargo de copeiro-mor da rainha, herdando uma imensa fortuna, composta por bens de raiz e por múltiplas comendas e outros rendimentos vinculados. Entre outras, herdou as comendas de Santa Maria de Pereira, de São Pedro de Calvelo, de São Tiago de Cassourado, de São Vicente de Figueira e de São Geris de Arganil, e várias tenças, sendo uma de 500$000 réis e outra de 200$000 réis no almoxarifado do pescado de Lisboa.
Herdou igualmente o padroado do convento dos Capuchos de Nossa Senhora dos Anjos, do lugar de Sobralinho, da capela de Nossa Senhora do Pópulo, na cerca do convento da Boa Viagem, da ermida de Nossa Senhora da Conceição do Portal, na vila da Alhandra, e a administração de vários morgadios, que compreendiam duas quintas em Alverca do Ribatejo, a Lezíria da Corte da Vila e o casal de Borges, no termo de Azambuja, a Herdade da Aravia, em Avis, e as casas de São João da Praça e o morgado de Braço de Prata, em Lisboa.
Destinado à vida da Corte, fez a aprendizagem típica da alta nobreza da época, voltada essencialmente para as artes militares e para a vida política. Nesse contexto, logo em 1797, contando apenas quatro anos de idade, recebeu o grau de comendador da Ordem de Cristo, tendo, a 25 de Julho de 1804, aos 12 anos, professado como freire dessa ordem no convento de Nossa Senhora da Luz.
Entretanto, a 10 de Fevereiro de 1802, com nove anos de idade, tinha assentado praça como cadete no Regimento de Cavalaria Nº 4, do qual seria promovido a alferes a 24 de Junho de 1807. Tinha este posto quando a 20 de Novembro de 1807 as tropas francesas, comandadas pelo general Jean-Andoche Junot, entraram em Portugal, na primeira invasão francesa, desencadeando a Guerra Peninsular. Não aceitando a submissão aos franceses, pediu a sua demissão do Exército, a qual lhe foi logo concedida por um aviso de Pedro José de Almeida Portugal, o 3.º marquês de Alorna, então comandante das forças portuguesas.
Participação na Guerra Peninsular (1809-1815) Apenas as forças francesas foram expulsas de Portugal, o conde de Vila Flor obteve o reingresso no Exército, com o posto que tinha anteriormente. Em 6 de Dezembro de 1809 foi promovido a tenente e a 23 de Janeiro de 1811 a capitão da 5.ª Companhia do Regimento de Cavalaria n.º 4. Durante este período participou activamente nas campanhas da Guerra Peninsular.
A 5 de Agosto de 1811 casou com a sua prima Maria José do Livramento e Melo, filha do marquês de Sabugosa, fortalecendo a sua aliança com as principais famílias da alta nobreza portuguesa. Deste casamento nasceria em 1813 o único filho do 7.º conde de Vila Flor, o qual viria, contudo, a falecer com apenas 15 meses de idade.
Passou depois a servir como ajudante de ordens do general António José de Miranda Henriques, 1.º visconde de Sousel, e a partir de 26 de Março de 1813 passou às ordens do marechal William Carr Beresford, então comandante supremo do Exército Português em campanha.
Foi então promovido a major, distinguindo-se muito nas campanha da Guerra Peninsular, sobretudo na batalha de Vitória, cabendo-lhe a honra de ser encarregado de trazer a Lisboa a notícia do sucesso, sendo vivamente louvado pelo próprio general Arthur Wellesley, depois duque de Wellington, na carta que este escreveu ao futuro João VI, então príncipe regente, em que lhe dava conta do triunfo.
Vindo como mensageiro da vitória portuguesa, foi acolhido com entusiasmo em Lisboa e imediatamente promovido a tenente-coronel (Agosto de 1813).
Já de regresso a Portugal, terminada a Guerra Peninsular, quando tinha apenas 22 anos de idade, em Outubro de 1815 foi promovido a coronel e em Dezembro de 1815 foi condecorado com o grau de cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, pelo valor com que se portara durante as campanhas da Guerra Peninsular.
A estadia no Brasil (1817-1821) Terminada a guerra, o jovem conde de Vila Flor decidiu partir para o Rio de Janeiro, cidade onde então estava a Corte portuguesa, indo ocupar o lugar que lhe pertencia como membro da alta nobreza. Partiu para o Brasil em 1817, integrado na força que foi enviada para ajudar a debelar a insurreição de Pernambuco (ou Revolução Pernambucana), em cuja campanha participou activamente.
Terminada aquela breve campanha, o conde de Vila Flor foi nomeado governador e capitão-general do Grão-Pará, lugar que exerceu até 1820. A 20 de Julho de 1818, a esposa, que o acompanhara para o Brasil, faleceu.
No ano de 1817 criou o Corpo de Cavalaria do Pará, com sede no Convento de São José, tendo como primeiro Comandante, o Major de Cavalaria Joaquim Mariano de Oliveira Bello, tio materno do Duque de Caxias, tendo ainda definido os padrões de fardamentos dos oficiais e dos soldados, no mesmo ano.
No ano seguinte (1818), criou o Corpo de Polícia, tendo como primeiro Comandante o Ajudante José Victorino de Amarantes.
Em 1820 foi nomeado para igual posto na então Capitania da Baía de Todos os Santos. Contudo, não chegou a exercer este último cargo, pois a 26 de Abril de 1821 embarcou para Portugal, acompanhando o rei João VI, de quem era gentil-homem da câmara.
Entretanto, nas vésperas do embarque, casou a 23 de Abril de 1821, em segundas núpcias, com Maria Ana Luísa Filomena de Mendonça, filha de Agostinho Domingos José de Mendoça Rolim de Moura Barreto, o 8.º conde de Vale de Reis e 1.º marquês de Loulé, estabelecendo uma aliança com a família Loulé que se revelaria de grande importância nos anos futuros, quando, a par de Nuno José Severo de Mendonça Rolim de Moura Barreto, o 1.º duque de Loulé, seria uma das principais figuras da política portuguesa. A noiva, que tinha apenas 13 anos de idade, era já camareira-mor da rainha e dama da Ordem Real de Santa Isabel e da Ordem de Maria Luísa de Espanha.
O primeiro liberalismo e a relação com Miguel (1821-1824) Regressado a Lisboa no período conturbado do primeiro liberalismo português e em pleno funcionamento das Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa, o 7.º conde de Vila Flor acompanhou de perto a difícil reintegração de João VI na vida política portuguesa. Neste período, seguindo a trajectória típica da alta nobreza, assume uma posição dúbia face ao constitucionalismo e à imposição de juramento a que as Cortes Constituintes sujeitaram o rei, gravitando claramente para a órbita mais conservadora dos que viam com grande desconfiança, e mesmo como uma ofensa de lesa-majestade, o tratamento a que foi sujeita a família real recém-chegada.
Entretanto, a situação política fora-se degradando rapidamente, com o surgimento de crescentes focos antiliberais que ameaçavam a estabilidade do regime saído da Revolução Liberal de 1820. Na região de Vila Real, logo em Fevereiro de 1823, o general Francisco da Silveira Pinto da Fonseca Teixeira, conde de Amarante, levanta-se à frente das suas tropas contra a Constituição e a província de Trás-os-Montes adere na quase totalidade. No mês de Maio, o Regimento de Infantaria n.º 23, aquartelado em Vila Franca de Xira, levanta-se em armas a favor do rei absoluto, no que é seguido pelos regimentos de Lisboa, com Miguel à frente. É a Vilafrancada, na qual o conde de Vila Flor ainda participa do lado realista.
Tendo a esse tempo o posto de brigadeiro, a sua proximidade à facção realista levou a que não tardasse a ser despachado marechal-de-campo e ajudante-de-ordens de Miguel, quando este infante recebeu o comando-em-chefe do Exército Português. Como outras importantes figuras da primeira fase do liberalismo português, o conde de Vila Flor estreou-se na vida política contribuindo para que se restabelecessem em Portugal os direitos inauferíveis do absolutismo, sendo também um dos condecorados com a famosa medalha da Poeira.
Naquela que foi mais uma prova de confiança por parte do partido realista, em 1823, o conde de Vila Flor foi encarregado de ir a Espanha, em missão diplomática, para cumprimentar Louis Antoine d'Artois, o então duque de Angoulême, que viera com um exército francês (os famosos cem mil filhos de São Luís) ajudar a restabelecer o governo absolutista de Fernando VII de Espanha.
A partir desta altura começa a gravitar para o campo liberal, aderindo claramente ao partido pró-constitucional quando em Fevereiro de 1824 o seu sogro, o 1.º marquês de Loulé, foi assassinado pelos miguelistas. Em consequência, a 30 de Abril daquele ano de 1824, absteve-se de tomar parte na Abrilada. Em resultado, Miguel mandou-o preso para Peniche. Com esta prisão, estava definitivamente selada a adesão do conde de Vila Flor ao campo liberal.
Os anos finais do primeiro liberalismo português e o exílio (1824-1828) Fracassada a Abrilada, demitido e expulso Miguel, que se exila em Viena, o conde de Vila Flor foi libertado e reintegrado nas suas funções militares, nas quais assume uma complexa posição de equilíbrio face às crescentes tensões entre os partidários do liberalismo e os defensores dos direitos inauferíveis de João VI. Quando este falece, a 10 de Março de 1826, a crise agudiza-se, com a luta latente a tornar-se cada vez mais acesa e próxima.
Quando o infante Pedro sobe ao trono como Pedro IV de Portugal e promulga a Carta Constitucional de 1826 no Brasil, o conde de Vila Flor, como grande do Reino, foi nomeado par do Reino, por carta régia de 30 de Abril desse ano.
Outorgada a Carta, poucos dias depois, a 2 de Maio de 1826, Pedro IV abdica em sua filha Maria da Glória, a rainha Maria II de Portugal, estabelecendo, num gesto que pretendia conciliador, que a jovem rainha, então com sete anos de idade, deveria casar, logo que tivesse idade para tal, com o seu tio Miguel.
Entretanto os acontecimentos precipitam-se e a insurreição a favor da realeza de Miguel espalha-se pelo país como fogo: a 26 de Julho, o Regimento de Infantaria n.º 24, aquartelado em Bragança faz um levantamento e aclama Miguel; seguem-se, em ritmo acelerado, o levantamento do Regimento de Cavalaria n.º 2, em Vila Viçosa e das guarnições de Estremoz, Almeida, Vila Real e Vila Pouca de Aguiar, a que se aliam as populações da maior parte do Minho, Trás-os-Montes, Beiras e Alentejo.