A Primeira Liga Soviética, conhecida após 1970 como Liga Superior (),; serviu como a divisão superior (primeiro nível) do campeonato de futebol da União Soviética de 1936 até 1991. Ao longo dos anos, o nome da liga mudou diversas vezes. Criado em 1936, o nível era originalmente conhecido como "Grupo A" e consistia em um dos quatro níveis que compunham o campeonato de futebol soviético.
A competição era administrada e governada pelo Comitê de Cultura Física de Toda a União (uma instituição do Conselho de Comissários do Povo da União Soviética). O vencedor da competição era honrado com o título de "Campeão da URSS" e recebia a bandeira do comitê.
Desde a sua criação até a sua extinção, a primeira divisão operou em conjunto com a segunda divisão na maior parte do tempo, permitindo o intercâmbio de participantes entre os níveis por meio de acesso e descenso. Em 1963, uma terceira divisão foi introduzida. A partir de 1971, o nome oficial completo passou a ser Campeonato da URSS de futebol: Liga Superior. Uma tentativa de criar uma liga independente como uma entidade ou organização comercial governada de forma autônoma durante o período da "perestroika" foi negada pela federação, em decorrência da cultura política do país.
Embora a competição seja considerada profissional, não havia esportes profissionais (ou comerciais) no Estado comunista devido à sua posição política sobre o tema. As equipes que disputavam a liga eram compostas por jogadores que, oficialmente, nos registros fiscais, eram empregados e remunerados pelas empresas ou agências estatais (como SKA ou Dínamo) que os clubes representavam. Além disso, os jogadores das agências estatais detinham patentes como capitão, tenente, major, etc. A nomenclatura das equipes também era estritamente controlada e precisava da aprovação do governo central. Apenas após a morte de Stalin, os clubes receberam permissão para adotar nomes associados à sua localização geográfica. Oficialmente, as equipes representavam as chamadas sociedades esportivas "voluntárias" (Sociedades esportivas voluntárias da União Soviética).
Após a Segunda Guerra Mundial, paralelamente à competição entre as equipes principais, também eram realizados torneios oficiais entre as equipes de base. A competição recebia o nome de "Torneio dos Duplos" (Turnir doublyorov). As partidas das equipes reservas ocorriam paralelamente às das equipes principais, normalmente agendadas para o dia anterior, com regras de rebaixamento que dependiam totalmente da posição na liga de suas respectivas equipes principais.
A Liga Superior foi uma das melhores ligas de futebol da Europa, alcançando a segunda colocação entre os membros da UEFA na temporada de 1988–89. Três de seus representantes chegaram às finais dos torneios europeus de clubes em quatro ocasiões: Dínamo Kiev, Dínamo Tbilisi e Dínamo Moscou (todos na Recopa Europeia). Da mesma forma que a Rússia sucedeu politicamente a União Soviética, a UEFA considera a Premier League Russa a sucessora da Liga Superior Soviética.Letter to the Secretary-General of the United Nations from the President of the Russian Federation
Visão geral Introdução e popularização A liga foi estabelecida por iniciativa do líder da sociedade esportiva Spartak, Nikolai Starostin. Starostin propôs a criação de oito equipes profissionais de clubes em seis cidades soviéticas e a realização de dois torneios de campeonato por ano civil. Com pequenas correções, o Conselho Soviético de Cultura Física aceitou a proposta, criando uma liga de "equipes de demonstração de mestres", patrocinadas por sociedades esportivas e fábricas. Starostin tornou-se de fato uma figura central da fundação dos campeonatos soviéticos.Vartanian, A. 1936. A child of "Spartak" and Komsomol (ГОД 1936. ДЕТИЩЕ "СПАРТАКА" И КОМСОМОЛА). Sport-Express. 2005 Diversos eventos de massa ocorreram para promover a recém-criada competição, entre os quais a introdução de uma partida de exibição de futebol como parte do desfile do Dia da Cultura Física em Moscou, além do convite à seleção basca, que estava do lado apoiado pela União Soviética na Guerra Civil Espanhola.
Na década de 1930, a administração esportiva soviética recuou de sua oposição inicial aos métodos ocidentais de competição profissional. Com o objetivo de atestar a superioridade do sistema comunista internacionalmente e empregar o esporte como ferramenta diplomática, o governo intensificou a profissionalização velada dos atletas e estabeleceu a liga de futebol sob moldes semelhantes aos campeonatos capitalistas ocidentais, promovendo campeonatos de alto rendimento e o estudo de táticas esportivas internacionais.
Em 1936, o primeiro secretário do Komsomol, Kosarev, concebeu a ideia de realizar uma partida oficial de futebol na Praça Vermelha como parte do desfile do Dia da Cultura Física. Stalin não costumava comparecer a eventos esportivos, mas o Dia da Cultura Física consistia em uma exceção. O desfile de 1936 foi dirigido pelo diretor de teatro russo Valentin Pluchek. Para o jogo, um gigantesco tapete de feltro verde foi costurado pelos atletas do Spartak e estendido sobre os paralelepípedos da praça. Na noite anterior ao evento, o material foi emendado em seções, enrolado e armazenado no vestíbulo das lojas de departamento GUM. Após essa iniciativa, a partida tornou-se uma tradição antes da Segunda Guerra Mundial e parte oficial do cronograma.
No final da década de 1930, o Spartak distribuía milhares de ingressos por partida aos membros do Comitê Central do Partido Comunista de Toda a União (Bolcheviques). Entre os entusiastas do futebol estava Lavrentiy Beria, que propôs ter uma equipe de cada uma das repúblicas da união na liga. Em julho de 1937, um conflito eclodiu após uma turnê bem-sucedida da seleção basca, durante a qual o Conselho de Cultura Física de Toda a União foi acusado pelo partido e pelo Komsomol de falhar na política esportiva. A liderança do Spartak, e Starostin em particular, foram acusados de corrupção e de implementar "métodos burgueses" no esporte soviético.
Os clubes mais proeminentes da liga eram o Dínamo Kiev, o Spartak Moscou e o Dínamo Moscou. As equipes mais populares, além das mencionadas, eram o CSKA Moscou, o Ararat Erevan e o Dínamo Tbilisi. O Dínamo Tbilisi tornou-se notório por terminar em terceiro lugar com frequência nas primeiras décadas, conquistando seu primeiro título apenas em 1964.
Desenvolvimento Até a década de 1960, os principais candidatos ao título na liga eram os clubes moscovitas Spartak e Dínamo, cuja hegemonia foi interrompida apenas por um breve período após a Segunda Guerra Mundial pelo CSKA Moscou, apelidado de "a equipe dos tenentes". A primeira equipe a vencer dez campeonatos foi o Dínamo Moscou em 1963, seguido pelo Spartak em 1979.
Onze agremiações disputaram mais de 30 temporadas na liga, cinco delas sediadas em Moscou. O Dínamo Moscou e o Dínamo Kiev foram os únicos clubes que participaram de todas as edições do campeonato. Entre outras equipes de destaque da Rússia estavam o SKA Rostov/Donu (equipe do exército), o Zenit Leningrado e o Krylia Sovetov Kuibyshev (Asas dos Soviéticos).
Com o passar dos anos, a liga sofreu modificações; no entanto, a partir da década de 1970, sua estrutura competitiva consolidou-se com 16 participantes, exceto no período de 1979 a 1985, quando o número foi ampliado para 18.
Uma regulação institucional notável no futebol soviético durante esse período foi a implementação de um limite de empates. A medida disciplinar foi desenhada pela federação para inibir o arranjo de resultados e a complacência tática. A regra foi formalmente introduzida na temporada de 1978, estabelecendo inicialmente um teto de oito empates por clube. A partir da nona partida empatada, a equipe não recebia mais pontos pelo resultado. Na década de 1980, o limite oficial foi elevado para dez empates. O regulamento impactou diretamente tanto a disputa pelo título quanto as zonas de rebaixamento durante a sua vigência. Um experimento anterior, em 1973, para resolver partidas empatadas por meio de disputa por pênaltis durou apenas uma temporada.
O sucesso do Dínamo Kiev como representante ucraniano foi suplementado na década de 1980 pelo surgimento do Dnipro Dnipropetrovsk, liderado pelo atacante Oleh Protasov, que estabeleceu um novo recorde de gols marcados em uma única edição. Em 1984, o Zenit Leningrado tornou-se campeão soviético pela primeira vez.
Com o desmantelamento da União Soviética no final da década de 1980, a estrutura do campeonato desestabilizou-se. Cada vez mais clubes perdiam o interesse em participar da liga central, o que desencadeou diversas rodadas de reorganização. O principal efeito estrutural dessas mudanças foi o aumento de vagas para clubes ucranianos, de modo a equiparar a representação com os russos. Desde o fim do Estado soviético, sugeriu-se em algumas ocasiões que a competição fosse recriada nos moldes da Copa da Comunidade dos Estados Independentes, mas a iniciativa nunca foi concretizada.
Documentação A documentação aprofundada sobre a liga é restrita. Entre os estatísticos conhecidos estão Aksel Vartanyan (pelo periódico esportivo Sport Express), Andrei Moroz, Georgiy Ibragimov, Alexandru G. Paloşanu e Eugene Berkovich. Compilações digitais também podem ser localizadas na página histórica do Dínamo Moscou e no banco de dados Helmsoccer.
Estrutura das equipes O sistema desportivo soviético operava institucionalmente com base no amadorismo de Estado. Os jogadores eram registrados formalmente como militares, policiais ou operários, recebendo remuneração e patentes das agências estatais empregadoras. A nomenclatura e o financiamento dos clubes refletiam essa estrutura departamental: o CSKA Moscou representava as Forças Armadas (Exército Vermelho); as agremiações da sociedade esportiva Dínamo (estabelecidas em Moscou, Kiev, Tbilisi e Minsk) vinculavam-se à KGB e ao Ministério do Interior; o Torpedo pertencia à indústria automobilística; e o Lokomotiv estava subordinado ao Ministério das Ferrovias. O Spartak Moscou, em contrapartida, operava sob a administração de sindicatos civis do comércio.
A distribuição demográfica desigual exigiu que as equipes de uma temporada típica se dividissem em três blocos regionais. Essa realidade sustentou-se em toda a primeira divisão:
Clubes russos: O futebol russo foi dominado tradicionalmente pelas maiores equipes de Moscou (Spartak, Dínamo, CSKA e Torpedo). Estas eram acompanhadas pelo Lokomotiv, pelo Zenit Leningrado (representando os trabalhadores da indústria de defesa) ou por clubes de províncias menores. O bloco russo apresentava divisões internas: equipes moscovitas, equipes de Leningrado e agremiações do restante da RSFS da Rússia. Na Espartaquíada dos Povos da URSS, a Rússia era representada por três esquadrões distintos que refletiam essa mesma fragmentação.
Clubes ucranianos: A capital da Ucrânia, Kiev, era o domínio do Dínamo Kiev, que se tornou a base principal para a seleção nacional a partir da década de 1960. Diversos clubes disputavam o posto de força secundária da Ucrânia, incluindo o Shakhtar Donetsk (mineiros de carvão), o Metalist Kharkiv, o Chornomorets Odesa (trabalhadores da marinha mercante), o Zorya Voroshilovgrad e o Dnipro Dnipropetrovsk. As duas últimas equipes, vinculadas aos setores regionais de defesa e aeroespacial, conquistaram juntas três títulos da liga. Existia uma hierarquia rigorosa e de alta competitividade entre as agremiações ucranianas, a despeito das diretrizes de Moscou.