A história das relações internacionais do Brasil é a cronologia de eventos envolvendo a política externa brasileira em tratados, reivindicações e conflitos.
Período colonial 1493 - Bula Inter Coetera 1494 - Tratado de Tordesilhas 1750 - Tratado de Madrid 1761 - Tratado de El Pardo 1777 - Tratado de Santo Ildefonso 1801 - Tratado de Badajoz 1808 - Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas 1810 - Tratado de Aliança e Amizade 1810 - Tratado de Comércio e Navegação
Período monárquico
Primeiro Reinado Durante os primeiros anos da história do Brasil enquanto Estado independente, a política externa esteve voltada para o seu reconhecimento por outras nações, pela atenção dada à região platina e pelo estabelecimento de relações diplomáticas com outros países, especialmente através dos Tratados de Amizade e Paz. miniaturadaimagem|Luis José de Carvalho e Melo, Ministro das Relações Exteriores, responsável por negociar o Tratado do Rio de Janeiro (1825). O primeiro chanceler brasileiro foi José Bonifácio de Andrada e Silva, que se manteve no cargo até 16 de julho de 1823. Em 26 de maio daquele ano, os Estados Unidos da América se tornariam o primeiro país a reconhecer a Independência do Brasil. Em 14 de novembro de 1823, Luís José de Carvalho e Melo, o Visconde de Cachoeira, seria nomeado Ministro das Relações Exteriores, sendo um dos diplomatas mais importantes deste período. Durante a sua gestão frente ao ministério, Caldeira Brant e Gameiro Pessoa negociaram em Londres o primeiro empréstimo público assumido pelo Brasil (agosto de 1824) junto a Barão de Rothschild, o México se tornaria o segundo país a reconhecer a independência do Brasil (9 de março de 1825), teria início a Guerra da Cisplatina (19 de abril de 1825) e seria assinado o Tratado do Rio de Janeiro entre Brasil e Portugal, reconhecendo a Independência do Brasil e colocando fim à Guerra de Independência, celebrado com a interveniência da Grã-Bretanha. Além disso, o tratado continha uma cláusula pela qual o Brasil se comprometia em regulamentar e abolir ulteriormente o comércio das escravaturas nas costas da África. Em 24 de setembro de 1825 aconteceria a Batalha de Rincón, primeiro grande êxito militar da Cruzada Libertadora na Guerra da Cisplatina. miniaturadaimagem|Guerra da Cisplatina, evento militar mais importante na política externa brasileira durante o Primeiro Reinado. Francisco Vilela Barbosa, que fora Ministro das Relações Exteriores por quatro dias em 1823 e plenipotenciário brasileiro no Tratado do Rio de Janeiro, teria mais uma breve passagem pelo cargo entre outubro e novembro de 1825. Durante esse período, ocorreria a Batalha de Sarandi, determinante para que o governo rioplatenho decidisse apoiar à Cruzada Libertadora contra o Brasil. Em 18 de outubro, o Reino Unido reconheceria a independência do Brasil, seguido pela França oito dias depois. O Marquês de Paranaguá seria sucedido por José Egídio Álvares de Almeida, outro plenipotenciário brasileiro no Tratado do Rio de Janeiro e futuro embaixador do Brasil em Londres e Paris em missões extraordinárias. Mantendo-se no cargo por três meses, período em que o Brasil declarou declara guerra ao Governo das Províncias Unidas do Rio da Prata (10 de dezembro de 1825), teve sua independência reconhecida pela Áustria e pela Suécia (30 de dezembro de 1825 e 5 de janeiro de 1826, respectivamente) e assinou seu primeiro Tratado de Amizade, Navegação e Comércio, em 8 de janeiro de 1826, com a França.DEVEZA, Guilherme. Um precursor do comércio francês no Brasil (III). Revista de História, v. 6, n. 13, p. 123-141, 1953. Disponível em: https://bdor.sibi.ufrj.br/bitstream/doc/409/1/362%20PDF%20-%20OCR%20-%20RED.pdf
O reconhecimento da Independência do Brasil por outros Estados teria continuação durante o período em que Antônio Luis Pereira da Cunha esteve à frente do Ministério das Relações Exteriores (20 de janeiro de 1826 a 15 de janeiro de 1827), sendo reconhecido pelos Estados Papais, Suíça, Países Baixos, Prússia e Rússia. Entre junho e julho de 1826, ocorreria o Congresso do Panamá, no qual o Brasil esteve ausente. Em 23 de novembro de 1826, seria assinada entre Brasil e Reino Unido a Convenção sobre o Tráfico de Escravos, em que o governo brasileiro se comprometia em tornar o comércio de cativos uma atividade de pirataria em até três anos.CARVALHO, João Daniel Antunes Cardoso do. Lago. O tráfico de escravos, a pressão inglesa e a lei de 1831. Revista de História Econômica & Economia Regional Aplicada, v. 7, n. 13, p. 95-114, 2012. Disponível em: http://www.ufjf.br/heera/files/2009/11/Artigo-Jo%C3%A3o-Daniel-Carvalho1.pdf João Severiano Maciel da Costa sucedera o Marquês de Inhambupe como ministro, mantendo-se no cargo entre janeiro e novembro de 1827. O início deste ano fora marcado por uma série de batalhas no âmbito da Guerra da Cisplatina: Batalha de Vacacai, Batalha de Umbu, Batalha do Passo do Rosário e Batalha de Monte Santiago. Em 24 de maio, Brasil e Argentina concluiriam a assinatura de uma Convenção Preliminar de Paz sobre tal guerra. Em 17 de agosto, Brasil e Inglaterra (representada por Robert Gordon) firmariam o Tratado de Amizade, Navegação e Comércio de 1827, um dos principais tratados em matéria econômica do período do Primeiro Reinado, sendo uma adaptação do Tratado de Comércio e Navegação de 1810. Válido por 15 anos, tal dispositivo confirmava a condição de nação mais favorecida, limitando também as tarifas de importação sobre produtos ingleses a 15% ad valorem.RABELO, Pedro Henrique de Mello. Os tratados de Amizade, Navegação e Comércio na constituição do Estado imperial brasileiro (1808-1829). http://snh2015.anpuh.org/resources/anais/39/1457977561_ARQUIVO_Artigo_ANPUH.pdf
Entre 20 de novembro de 1827 e 4 de dezembro de 1829, as relações exteriores brasileiras seriam comandadas por João Carlos Augusto de Oyenhausen-Gravenburg, quando a cláusula de nação mais favorecida fora também estabelecida em Tratados de Amizade, Navegação e Comércio com a Áustria, Prússia, Cidades Hanseáticas (1827), Dinamarca, EUA e Países Baixos (1828) e Sardenha (1829), benefício que seria estendido aos produtos de todas as proveniências a partir da Lei de 24 de setembro de 1828 (ou "Tarifa Bernardo Pereira de Vasconcelos"). Em julho de 1829, o Brasil contrairia seu segundo empréstimo em Londres, que ficou conhecido como "empréstimo ruinoso". Além das questões econômicas, o período foi marcado pelo fim da Guerra da Cisplatina, encerrada de fato na Batalha de Las Piedras (18 de maio de 1828) e de jure com a assinatura do Tratado do Rio de Janeiro (27 de agosto de 1828) por Brasil e Províncias Unidas do Rio da Prata sob a mediação do Reino Unido, estabelecendo a independência da República Oriental do Uruguai. Em 13 de março de 1830 a Convenção sobre o Tráfico de Escravos entre Brasil e Inglaterra tornava-se lei, proibindo assim o comércio de cativos no país.
15 de dezembro de 1830: prestação de contas do Ministério perante a Assembleia.
Período Regencial miniaturadaimagem|O poder legislativo do Império, com sede primeiro na Cadeia Velha (imagem acima) e depois no Palácio do Conde dos Arcos, passa a ter maior influência e competências sobre a política exterior brasileira durante o período da regência. Ao final do reinado de Dom Pedro I, o Ministério das Relações Exteriores seria chefiado por Francisco Carneiro de Campos, que se manteria no cargo até 3 de agosto de 1832. Durante este período, ocorreria algumas reformas no Ministério que serão dos eventos mais importantes da política externa brasileira durante a Regência, uma vez que a instabilidade interna voltara o foco das atenções para questões nacionais e houve poucos eventos de grande relevância para o Brasil em matéria internacional. A partir de 15 de dezembro de 1830, passara a ser exigido do Ministro a prestação de contas perante a Assembleia e, em 14 de junho do ano seguinte, quando foram definidas as competências dos regentes, obrigou-se a apresentação ao parlamento de um relatório anual da Repartição dos Negócios Estrangeiros, bem como se estabeleceu que os tratados internacionais, de qualquer natureza, seria submetidos à Assembleia (competência de depois seria transferida ao Conselho de Estado). Assim, uma maior participação crítica na política externa brasileira vai ganhando espaço nas instituições (Câmara, Gabinete, Senado e Conselho) e se consolida a visão de afirmação nacional. Em meados da década, uma outra reforma ministerial é instituída, através do regimento consular e do regimento das legações, que estabelecessem normas administrativas para exercício da função (1834). Sabe-se que, em 1836, o Ministério contava com 19 pessoas e o corpo diplomático no exterior com 39.
Em 7 de novembro de 1831 era promulgada a Lei Feijó, que proibia definitivamente o tráfico de escravos, embora não tenha tido sucesso prático. Durante esse período, o Brasil manteve uma política de neutralidade no Rio da Prata e até 1838, as fronteiras não aparecem como preocupação da diplomacia, até que alguns eventos, como as agitações no Uruguai junto ao Rio Grande do Sul, a concessão de sesmarias por autoridades de Chiquitos no Mato Groso e a invasão francesa ao Oiapoque, levam à mudança. O Brasil não aceitara a aplicação do Tratado de Santo Ildefonso no início das negociações de fronteiras, com a Grã-Colômbia (1826); Bolívia (1834 e 1837) e outros países, levando o ministro uruguaio Lucas Obes a propor, em 1834, uma união de todos os Estados limítrofes para forçar o Brasil a respeitar o tratado.
Em 1839, o Brasil realiza seu terceiro empréstimo junto a um banco londrino. Segundo Reinado
A política externa do Brasil durante o Segundo Reinado pode ser analisada sob a ótica econômica e sob a perspectiva militar-territorial. Do ponto de vista econômico, pode-se destacar os assuntos relacionados à política tarifária brasileira, a contratação de empréstimos e atração de investimentos estrangeiros, bem como os assuntos relacionados à escravidão e imigração. Do ponto de vista militar-territorial, ressalta-se o posicionamento do Brasil na Bacia do Prata e a chamada "Grande Política Americanista", destinada a estreitar os vínculos com os vizinhos e resolver questões fronteiriças.
Apesar das disputas entre os grupos políticos do período imperial, a política externa foi marcada por uma relativa conciliação entre os partidos Liberal e Conservador, dando a ela as características de uma política de Estado, e não de governo, em que houve pouca interferência de Dom Pedro II, por vezes tratado como um pacifista e moderado. Pode-se destacar dois grupos, que, apesar de antagônicos, pouco divergiam e muito articulavam:
Moderados, avessos à política de força, em que sobressai as figuras de Antônio Paulino Limpo de Abreu (Visconde de Abaeté); Pedro de Araújo Lima (marquês de Olinda) e João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu (visconde do Sinimbu); Realistas, menos idealistas: Paulino José Soares de Sousa (Visconde de Uruguai); Honório Hermeto Carneiro Leão (marquês do Paraná); João Maurício Wanderley (barão do Cotegipe) e José Antônio Saraiva. José Maria da Silva Paranhos (visconde do Rio Branco), apesar de estar mais próximo do segundo grupo, representou a síntese das duas tendências.
O período também foi marcado por reformas administrativas no Ministério das Relações Exteriores. Em 26 de fevereiro de 1842 um regulamento da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros dividia-a em quatro seções (Inglaterra e França, resto da Europa, América e Contabilidade) e estabelecia o concurso público para a carreira diplomática. Outras sucessivas reformas do Ministério dos Negócios Estrangeiros (1847, 1851, 1852 e 1859) o dotaram de normas e quadros habilitados.miniaturadaimagem|O decreto de 12 de agosto de 1844, formulado pelo então Ministro da Fazenda Manuel Alves Branco, estabeleceu uma nova tarifa de 2% e 60% a ser cobrada de todas as importações, colocando fim ao sistema de tratados preferenciais.|alt=|251x251px