A Batalha de Suvali (ou Batalha Naval de Suvali) foi uma batalha que ocorreu nos dias 29 e 30 de novembro de 1612, ao largo da costa e vila de Suvali (anglicizado posteriormente para Swally), vila próxima à cidade de Surrate, no atual estado indiano de Guzerate.

Antecedentes Com a União Ibérica, em 1580, e a união de ambas as coroas sob a dinastia filipina, Portugal encontrava-se agora em guerra com os inimigos da coroa de Espanha. Com a eclosão da Guerra Luso-Holandesa, em 1595, e com a criação da Companhia Holandesa das Índias Orientais, em 1602, as Províncias Unidas, nova nação no panorama europeu, possuíam agora o objectivo de se estabelecer definitivamente no comércio das especiarias nas Índias Orientais. No ano de 1603, é capturada a nau portuguesa Santa Catarina, ao largo da costa da Singapura, pela Companhia Holandesa das Índias Orientais. Dois anos depois, nas ilhas Molucas, é capturado agora o forte português de Ambão.

Com a contestação aberta da política de Mare Clausum pelas Províncias Unidas, de mesma forma o Reino de Inglaterra se empenha em destabilizar e tomar para si o comércio lucrativo das especiarias das Índias Orientais. Apesar de, oficialmente, Inglaterra estar em paz com a monarquia hispânica, e do rei inglês Jaime I, pretender a todo o custo evitar uma guerra aberta e uma hostilização de Portugal, após a trégua e a subsequente paz na guerra anglo-espanhola, entre 1604 e 1624, o governo em Londres permite a guerra de corso na Ásia, às possessões e embarcações portuguesas, pela Companhia Britânica das Índias Orientais e por particulares, sobretudo quando combinado com lucros comerciais.

O primeiro encontro entre navios da Companhia das Índias Orientais Britânica e os navios das Armadas da Índia deu-se em outubro de 1611, de acordo com Sir James Lancaster. Os navios da Companhia, comandados por Sir Henry Middleton, chegaram à barra de Surrate a 26 de setembro de 1611, no entanto, eram fortemente vigiados e impedidos de contactar com o porto local, por uma armada portuguesa que já lá se encontrava. De acordo com o mesmo, nenhum provisionamento, cartas, ou outro mantimento deveria chegar de Surrate, às mãos dos ingleses, interrompendo assim o monopólio do negócio português. Sir Henry Middleton, comandante da frota, deu instruções claras para não se atacar, nem hostilizar de qualquer forma os portugueses, a menos que atacados primeiramente. Com isto, a frota portuguesa, apesar de não atacar, mantinha uma posição de força e pressão à frota da Companhia. Com isto, Middleton, escreve uma carta ao capitão-mor da armada portuguesa, de modo a impedir qualquer tipo de ataque de ambos os lados, e dando as suas razões para se encontrar em tais águas. No entanto, nenhuma resposta foi dada do lado português. Posteriormente, ofereceu-se o capitão-mor para acompanhar Middleton a Goa para saber da vontade do Vice-Rei Rui Lourenço de Távora; caso contrário não poderia permitir que nenhum negócio fosse realizado. Com tal recusa, o lado inglês tenta à força fazer o comércio com os Mogóis, no entanto, os navios despachados para tal efeito são capturados pela frota portuguesa, onde o capitão-mor, alegadamente em tom jocoso, envia uma carta a Middleton, a agradecer os mantimentos. A 12 de outubro de 1611, depois do navio da Companhia Darling, que intentava uma passagem da barra para furar o bloqueio português e assim desembarcar as tropas abre fogo sobre a frota portuguesa, resultando num navio português danificado. Com isto, as relações de paz entre a Armada e a Companhia Britânica das Índias Orientais, rompem-se em definitivo. miniaturadaimagem|248x248px|Navio Red Dragon, no Estreito de Malaca em 1606, gravura de 1645-1646.

Frota Inglesa A décima viagem da Companhia Britânica das Índias Orientais era capitaneada por Thomas Best. Partiu de Gravesend, a 1 de fevereiro de 1612, e a sua armada era composta por quatro embarcações: Red Dragon, Osiander (um pequeno patacho de 213 toneladas, capitaneado por Thomas Aldworth), James e Solomon. Destes quatro, o navio-capitânia, o Red Dragon tinha de arqueação bruta de 600 a 900 toneladas, e trinta e oito bocas de fogo, entre estes dois basiliscos, dezasseis colubrinas, doze canhões e oito falcões. A própria Rainha Isabel I de Inglaterra, aquando o seu lançamento, o baptizou de Flagelo da Maldade (em inglês: Scourge of Malice). Era, à data do seu lançamento, o maior navio alguma vez construído na Inglaterra.

Alcançando Damão a 3 de setembro de 1612, a frota inglesa chega dois dias depois a Surrate, porto principal do Império Mogol, situada na foz do rio Tapti. Rapidamente, os ingleses da Companhia pretendiam estabelecer agora, definitivamente, tratados comerciais com o Império Mogol, e estabelecerem na região uma feitoria inglesa. Com a chegada de Thomas Best à região de Surrate, e as suas negociações com o governador de Amedabade levaram o vice-rei português, Rui Lourenço de Távora, a 13 de setembro, a enviar quatro galeões fortemente armados, juntamente com pequenas fragata e patachos de apoio, comandados por Nuno da Cunha, para Surrate.

Frota Portuguesa A frota portuguesa, comandada pelo capitão-mor Nuno da Cunha, era composta por quatro galeões, de 800 toneladas cada, de alto-bordo, com cerca de vinte a vinte e seis patachos e pequenas fragatas de apoio aos galeões. De acordo com as fontes inglesas do combate, estiveram presentes na batalha, vinte e cinco embarcações portuguesas no total. Os galeões, aparte da nau-capitânia de Nuno da Cunha, eram comandados por Francisco de Miranda Henriques, Gaspar de Melo de Sampaio e Manuel de Andrade Beringel. Fora estes, estavam também nos galeões portugueses outros nobres.

Apesar de aparentemente bem preparada, a frota portuguesa apenas estaria preparada para um conflito com fações e nações locais do Índico, desajustada para conflito com nações europeias que possuíssem navios de alto-bordo e grande poder de fogo. O navio de Nuno da Cunha, possuía vinte e oito peças de fogo; outro dos galeões teria dezoito e os outros dois tinham ambos menos peças de fogo. Fora isto, muitos dos navios tinham um número insuficiente de marinheiros e artilheiros portugueses, sendo muitos dos seus efetivos substituídos por lascarins, nativos locais, a serviço da Coroa, com conhecimento limitado do manuseamento das peças, baixa moral, e com insubordinações comuns ao comando.

Batalha miniaturadaimagem|Praia de Suavli, perto de onde se deu o embate entre forças portuguesas e inglesas.|288x288px A 25 de novembro, a frota inglesa recebe a notícia, por intermédio de dois ingleses capturados pelos portugueses, Edward Christian e Canninge, que estariam a deslocar-se para os interceptar e neutralizar, uma armada de galeões portugueses. Dia 27, é avistado o contingente português pelas forças inglesas, estabelecidas na baía de Suvali. Vendo a força portuguesa, dois navios ingleses, o Red Dragon e o Osiander, saem à barra, com medo de serem abalroados ou abordados pelas forças portuguesas. O primeiro embate dá-se pelas quatro horas da tarde de dia 29 de novembro, tendo esse combate durado até ao anoitecer. Apesar de superiores em número, as forças portuguesas, mal provisionadas e com sérias limitações de manobralidade numa baía de tão baixa profundida, demonstrou-se um sério obstáculo às tentativas ofensivas da armada de Nuno da Cunha. De mesmo modo, o patacho Osiander, com calado muito menor e com maior manobralidade, consegue governar com facilidade dentro da baía, colocando-se fora do alcance das peças de artilharia portuguesas. Na caça a este, acabam dois galeões portugueses por embaterem em baixios, imobilizando-os e tornando-os virtualmente fora do combate. O navio Red Dragon, com poder de fogo superior aos galeões portugueses, acaba por abrir fogo de ambos os bordos aos navios portugueses, gerando a confusão entre a frota portuguesa e provocando um número elevado de baixas.

No dia seguinte, após uma paragem pela noite, a batalha prossegue. O galeão português, comandado por Gaspar de Melo tenta, com o gurupés, fixar e abalroar o pequeno patacho inglês Osiander, de modo a abordá-lo e tomá-lo. No entanto, com a baixa profundidade do local, acaba o mesmo galeão por embater em baixios, e ficar completamente imobilizado, tendo o patacho, de menor calado, escapado e feito fogo contra o galeão. Com a imobilização de dois dos seus galeões, Nuno da Cunha decide retirar da baía, dando espaço de manobra aos navios ingleses. O ataque prossegue, onde a manobralidade dos navios ingleses se demonstra superior aos galeões portugueses, onde a sua grande esperança residia no abalroamento dos navios inimigos. Com o fogo inglês, o navio de Nuno da Cunha acaba por se incendiar na coberta. Como tal, os outros navios da frota, temendo uma explosão do paiol, tentam acudir a este com a maior brevidade possível. Este incêndio, além de um encorajar e subir a moral dos ingleses, acabou por ser um golpe na moral do lado português.

Consequências Apesar das baixas de ambos os lados serem relativamente reduzidas, e nenhuma das embarcações de qualquer lado ter sido definitivamente neutralizada, a Batalha de Suvali representou principalmente uma derrota moral, permitindo o estabelecimento dos ingleses com uma feitoria na baía de Suavli, marcando o princípio do fim da hegemonia portuguesa no Índico, absolutamente incontestada desde a Batalha Naval de Diu a meados da década de quarenta do século XVI, e até então apenas contestada pelos otomanos, e do monopólio das especiarias na região. Como tal, os portugueses passaram a ser alvo de vários ataques de pirataria e invasão das suas posições e feitorias, desde ingleses, holandeses e até franceses.

Com o ataque por europeus às possessões portuguesas na Ásia, a má gestão da coroa portuguesa na União Ibérica e subsequentes trocas de funcionários por aspetos políticos alinhados a Espanha, a defesa portuguesa das suas possessões na Ásia decresce, primeiro gradual, e depois exponencialmente. De mesmo modo, as nações locais revoltaram-se e/ou atacaram várias posições e delegações portuguesas na região, gerando um decréscimo da receita do comércio da região e um aumento com o gasto na defesa da região, situações que iriam ser ainda mais extrapoladas com a segunda guerra anglo-espanhola, que serviriam, entre outros, como motes para a futura Restauração da Independência. Esta batalha também convenceu a Companhia Britânica das Índias Orientais a estabelecer uma pequena marinha para salvaguardar seus interesses comerciais de outras potências europeias e também de piratas. Este pequeno início é considerado a raiz da moderna Marinha Indiana.Gilbert, Albert (2013). «Swally, 29-30 November 1612». The Encyclopedia of Warfare - Early Modern wars 1500-1775. Londres: Amber Books Ltd

Em 6 de janeiro de 1613, o Capitão Best recebeu uma carta do Imperador ratificando o tratado, que foi apresentada pelo Governador. O Capitão Best então ordenou que um de seus homens, Anthony Starkey, partisse em 16 de janeiro para a Inglaterra, por terra, carregando cartas sobre seu sucesso. Starkey posteriormente morreu; alegou-se pelos ingleses que ele foi envenenado por dois padres jesuítas.

O Capitão Best então continuou para Ceilão em 18 de janeiro, e depois para Sumatra, antes de retornar à Inglaterra por volta de abril de 1614 sem retornar à Índia.

Impacto sobre os Mogóis Este evento impressionou suficientemente o Subedar (Governador) do Guzerate, que o relatou ao Imperador Jahangir. A partir de então, o Imperador foi mais favorável aos ingleses do que aos portugueses.

Feitoria inglesa