A Batalha de Alcácer-Quibir (; lit. "batalha da grande fortaleza"), também conhecida pela Batalha dos Três Reis (, Maʿrakat al-Mulūk al-Thalātha) ou também como Batalha do Rio Mocazim (, Maʿrakat Wādī al-Makhāzin) foi uma batalha travada no norte de Marrocos, perto da cidade de Alcácer Quibir, a 4 de agosto de 1578, entre um exército do Reino de Portugal, apoiante da pretensa à coroa do então deposto sultão Mulei Maomé Almotauaquil ao do Sultanato Sádida, liderado pelo sultão reinante Mulei Maluco.

A vitória marroquina representou para Portugal o seu maior desastre militar e marcou o fim definitivo da expansão portuguesa no norte de África, envolveu a perda de considerável parte da classe político-administrativa, um aumento brutal da despesa do reino e levou à crise dinástica de 1580, com a subsequente união com a Espanha, sob a dinastia de Habsburgo, durante 60 anos. Para além do mais, a derrota na batalha de Alcácer-Quibir levou ao nascimento do mito do Sebastianismo.

Por outro lado, a morte dos dois sultões e a grande derrota portuguesa permitiram a plena consolidação do poder de Amade Almançor, que se aproveitou do poderoso capital político e simbólico proporcionado pela vitória para reforçar a centralização do estado e a sua legitimidade religiosa e dinástica, entrando Marrocos, durante o seu reinado, no auge. A captura de um número elevado de prisioneiros e o seu resgate proporcionou um afluxo extraordinário de capital, permitindo a expansão da Corte, o reforço do exército e uma diplomacia mais afirmada face à Europa e ao Império Otomano. De mesmo modo, porém, a vitória inaugurou também um modelo de poder assente em receitas excecionais e gastos elevados, estimulando políticas fiscais e militares difíceis de sustentar. A morte do sultão em 1603 contribuiu para a rápida fragmentação política do sultanato, revelando que o triunfo de 1578, embora fundador do apogeu sádida, continha indiretamente também as sementes da sua fragilidade estrutural.

Antecedentes

Expansão portuguesa em Marrocos Com o sucesso da Reconquista na Península Ibérica, os reinos cristãos europeus (em especial, os reinos ibéricos e italianos) iniciaram um período de várias incursões ao norte de África (Magrebe) de modo a reconquistar, novamente para a Cristandade, os territórios do norte do continente africano, perdidos já desde o meados do . De facto, este assunto é em especial sensível aos reinos hispânicos, que viam estas incursões como o prolongamento da Reconquista: não apenas fechar a Reconquista na Península, mas sim empurrar a fronteira entre cristãos e muçulmanos para o outro lado do estreito de Gibraltar.

esquerda|miniaturadaimagem|233x233px|Possessões portuguesas em Marrocos nos séculos XV e XVI miniaturadaimagem|212x212px|Arzila Portuguesa, c. 1570

Com a tomada de Ceuta em 1415, inicia-se o início da presença portuguesa no Algarve magrebino. Desde então, a coroa portuguesa tenta, especialmente no reinado de , defender, consolidar e expandir a sua presença e influência em Marrocos. Após Ceuta, Portugal toma Alcácer-Ceguer, Arzila, Tânger, entre outros, aumentando assim o controlo militar e comercial da região. Com as tentativas posteriores infrutíferas de recaptura das praças aos portugueses, e o aumento da instabilidade do reino de Marrocos (iniciando-se com o assassinato do sultão Abuçaíde Otomão III em 1420), começa-se então um período de árduas e prolongadas crises sucessivas.

Com a queda dos Merínidas e a ascensão dos Oatácidas, a situação económica e sociopolítica agravou-se. Marrocos não saiu da crise — de facto, entrou numa fase diferente e até mais profunda da mesma — havendo uma continuação da fragilização do poder central, agora sob uma dinastia com legitimidade mais limitada e menor capacidade coerciva fora dos centros urbanos do norte, sendo que no sul as autoridades locais eram vistas como as únicas com autonomia e legitimidade de negócio e diplomacia com os portugueses. Os Oatácidas tornaram-se, portanto, mais vulneráveis à pressão portuguesa.

Ascensão dos Sádidas Com o declínio do poder dos Oatácidas, ascende, na década de 1500, na região mais a sul, a dinastia sádida, determinada a combater os portugueses, conquistar o poder em Marrocos e reunificar o país. Poder-se-á afirmar que houve três principais razões para a unificação das tribos do sul sobre a égide Sádida. A primeira e talvez a mais notável prende-se com a crescente força que os portugueses detinham ao longo da costa marroquina e o seu desígnio de ocuparem o interior alarmou os chefes e líderes locais, levando-os a procurar uma alternativa a Fez. Em segundo lugar, as rotas comerciais, que eram uma importante percentagem da economia trans-sahariana, estavam agora a ser contestadas pelas alternativas do comércio marítimo europeu, mais eficiente. Os portugueses, principalmente, procuravam estabelecer rotas comerciais marítimas em substiuição das rotas terrestres. Por último, os xarifes Sádidas temiam o crescimento na região do poder otomano, que estavam no seu apogeu e demonstravam também interesse em influenciar e conquistar o Magrebe. Tendo antes apoiado os Oatácidas na tomada de poder, os turcos Otomanos, pretendiam assim estabelecer um quase estado cliente do seu império, aumentando a sua força e influência na região.

Em Setembro de 1554 Maomé Xeque venceu decisivamente a batalha de Tédula e destronou os Oatácidas, fundando assim o Sultanato Sádida. Maomé Xeque teve três filhos — Abedalá Algalibe, Mulei Maluco e Amade Almançor — que demonstraram, desde tenra idade, uma excelente aptidão e potencial como estadistas. No entanto, Maomé Xeque foi assassinado pelos otomanos em 1557 e o seu filho mais velho assumiu o trono. Este governou durante dezassete anos, consolidou as conquistas do seu antecessor, impediu uma restauração Oatácida, e defendeu Marrocos dos portugueses, espanhóis e otomanos. Com a sua ascensão ao trono, os seus irmãos mais novos tinham-se refugiado em Argel (na altura parte do Império Otomano), de modo a escapar a uma purga. Ali foram acolhidos pelos otomanos, educados e, por viagens no Império, ganharam grande experiência, tanto militar como administrativa e política. Mulei Maluco visitou a capital otomana em julho de 1571 e, de seguida, com seu irmão Amade Almançor, ingressou no serviço dos otomanos, tendo servido na Batalha de Lepanto e na Conquista de Tunes.

Crise de sucessão em Marrocos

miniaturadaimagem|261x261px|Miniatura otomana representando a conquista de Marrocos sob o comando do governador otomano de Argel,

Com a morte de Abedalá Algalibe em 1574 e a sucessão não consensual do seu filho Maomé Almotauaquil, a dinastia Sádida conheceu a sua primeira crise. Após destacar-se em campanha contra os cristãos, Mulei Maluco visitou Constantinopla novamente e obteve do novo sultão otomano Murade III, que procurava expandir a influência otomana em Marrocos, um acordo para ajudá-lo a conquistar militarmente o trono. Caso conseguisse, Mulei Moluco prometia declarar-se vassalo dos otomanos, pagar quantias avultadas à Sublime Porta e arrendar o porto de Larache aos otomanos, ganhando estes uma base no atlântico para a pirataria e corso contra os cristãos.

Em 1576, Mulei Maluco invadiu Marrocos com cerca de quinze mil homens, ganhou a Batalha de Fez e capturou de seguida a cidade. Depois, venceu a Batalha de Rabat e, por fim, a Batalha de Tarudante, destronando assim o seu sobrinho. Feito isto, Mulei Maluco reconheceu o sultão Murade III como suserano, adoptou os costumes otomanos na Corte, e reorganizou o seu exército de acordo com os moldes otomanos (tropas regulares (guich), artilharia moderna, atiradores montados e infantaria com arcabuzes. Muitos soldados eram descendentes de andalusinos expulsos da Península Ibérica, tribos berberes como os Zwawa, além de turcos e ex-soldados otomanos), tornando-se, de facto, num estado cliente deste.

Exílio de Maomé Almotauaquil e proposta a Portugal Com a sua derrota e tomada do poder por seu tio Mulei Moluco, Maomé Almotauaquil procurou refúgio primeiramente em enclaves espanhóis no continente africano. Primeiramente, refugia-se no em Veléz de la Gomera, e tentou formar uma coligação espanhola e portuguesa de forma a tomar novamente o trono. Com isto, prometeu que, caso ganhasse o trono novamente, Maomé Almotauaquil entregaria a importante cidade e seu porto de Larache, Arzila, Safim, Alcácer-Quibir, Tetuão e outras importantes praças e territórios ao domínio da Coroa portuguesa, dando também todo o litoral marroquino e até seis léguas para os portugueses se adentrarem no sertão marroquino. Fora isto, daria também tolerância maior a cristãos nos seus territórios, juntamente com permissão de missionários jesuítas de continuarem, se bem que com limitações, a operar em Marrocos. Isto foi visto com bons olhos por vários patrocinadores portugueses e por vários membros da corte portuguesa, que viam na pessoa de Maomé Almotauaquil um aliado útil na expansão e recuperação do domínio português no norte de África, coisa que já era pedido ao rei em cortes anteriores, mas que o mesmo não tinha acedido. Fora isto, e talvez mais importante para as aspirações pessoas do rei Sebastião, Maomé Almotauaquil prometeria que, em caso de vitória, declarar-se-ia súbdito do rei português, permitindo que Sebastião se coroasse como Imperador de Marrocos.

miniaturadaimagem|178x178px|Exemplo de um peito de couraça. Este era o tipo de armadura comum das Ordenanças portuguesas de final do

Exército português

Composição do exército e reformas sebásticas esquerda|miniaturadaimagem|194x194px|Sebastião I de Portugal Durante o , é de se notar um processo de renovação das práticas militares de ambos os reinos. Por um lado, em Portugal, João III e sobretudo o seu sucessor, Sebastião I, levaram a cabo profundas reorganizações no exército português, de modo a profissionalizarem, e melhor capacitarem o mesmo para os desafios futuros. No último quartel do , a expectativa de uma intervenção militar despoletou um esforço institucional sem precedentes e que perdurou, praticamente inalterável, por quase cem anos. Este esforço foi acompanhado pela atualização do conhecimento militar. De início foram estabelecidas as capitanias-mores do Porto e de Lisboa. As leis promulgadas contemplavam a regularização do armamento, passando pela fortificação costeira, a construção naval e a centralização do recrutamento, bem como o enquadramento sistemático dos homens em companhias. A criação deste tipo de unidades militares teve o seu início oficial a 6 de Março de 1568 – ainda durante a regência do cardeal Henrique – com a criação, no Porto, de companhias com o efetivo de 300 homens, regime que se estendeu, ainda nesse mesmo ano, ao Oriente. Pouco depois, através do Regimento dos Capitães-mores e mais capitães, e officiais das companhias de gente de cavallo e de pé: e da ordem que teram em se exercitarem de 10 de Dezembro de 1570, o rei Sebastião regulamentou a Lei das Armas que cada pessoa he obrigada a ter... de 1569 e alargou a estrutura das ordenanças a todo o país, criando a base de um exército verdadeiramente nacional. Reduziu o efectivo das companhias de 300 para 250 soldados e fixou definitivamente uma orgânica idêntica para todo o reino. Na prática, as chamadas “ordenanças militares sebásticas” resumiram todo o esforço levado a cabo desde a época do rei Manuel numa única série de diplomas publicados entre 1568 e 1574, que reestruturaram o poder militar do reino de acordo com um sistema único e coerente. esquerda|miniaturadaimagem|252x252px|Escultura de arcabuzeiro português do Reino do Benim (séc. XVII, Bode-Museum)

miniaturadaimagem|175x175px|Morrião do . Este tipo de proteção era o mais comum nos exércitos hispânicos de final de e XVI