A 9.ª Região Militar (9.ª RM) é um comando administrativo do Exército Brasileiro sediado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, com jurisdição sobre esse estado e Mato Grosso. Isto corresponde à área do Comando Militar do Oeste, ao qual a Região está subordinada, tendo atualmente atribuições de fiscalização e gestão de pessoal.

Os estados sob sua responsabilidade tiveram seus primórdios, desde o período colonial, como uma região de fronteira logínqua e militarizada, cujo desenvolvimento demográfico começou nas bases e fortificações nos rios Paraguai e Guaporé. O Governo das Armas da Província de Mato Grosso, organizado em 1821, é considerado o embrião da atual Região Militar. Após a invasão paraguaia de 1864–1868, a província tornou-se a terceira com o maior contingente militar do Império. Entretanto, nas primeiras décadas da República o serviço militar em Mato Grosso permanecia estigmatizado; era uma região de difícil acesso e más condições de trabalho, para onde os dissidentes e “incorrigíveis” eram transferidos. Os militares servindo ali eram tipicamente forasteiros.

Por outro lado, os oficiais em Mato Grosso tinham influência social, econômica e política, envolvendo-se no início da República nas constantes lutas armadas pelo governo estadual. O comando regional foi reorganizado como o 7.º Distrito Militar (1891), 13.ª Região Militar (1908), Circunscrição Militar de Mato Grosso (1915), 1.ª Circunscrição Militar (1919) e 9.ª Região Militar (1934). A chegada da ferrovia Noroeste do Brasil ao sul do estado (que ainda não havia emancipado do norte), em 1914, não encerrou as dificuldades de transporte, mas levou à transferência da sede ao seu local atual, Campo Grande, em 1919. A maior concentração de tropas passou ao sul do estado.

Nos anos 20, Mato Grosso foi foco de conspiração tenentista, e na década seguinte, um importante teatro de operações na Revolução Constitucionalista de 1932. De 1946 a 1985 a Região Militar foi subordinada à Zona Militar Centro/II Exército, em São Paulo. As brigadas e divisões criadas em Mato Grosso não foram subordinadas à 9.ª Região Militar, que atualmente não comanda unidades combatentes.

História Os primórdios e o controle dos rios miniaturadaimagem|Atlas do Estado de Mato Grosso em 1908|esquerda|180px A presença militar e a ocupação das fronteiras marcam a história de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul desde a fundação da Capitania de Mato Grosso, em meados do século XVIII. Rivalizando com o Império Espanhol pela hegemonia do centro da América do Sul, o Conselho Ultramarino do Império Português criou a Capitania em 1748 para tornar a “colônia de Mato Grosso tão poderosa, que contenha os vizinhos em respeito e sirva de antemural a todo interior do Brasil”. O primeiro governador português, Antônio Rolim de Moura, chegou em 1751 com um regimento de infantaria, oficiais, peças de artilharia e munição. Sua administração concentrou-se em fortificar a fronteira no rio Guaporé, nos atuais Mato Grosso e Rondônia, por onde a Capitania se comunicava com a Corte. Em 1771 assumiu como governador o capitão do Exército Português Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, cujo nome é homenageado na 9.ª RM com seu título de “Região Mello e Cáceres”.

O território era vasto e de baixíssima densidade demográfica. A economia local, centrada da mineração, era muito pobre, dependendo do fornecimento externo de instrumentos de trabalho, armas, munições e até de alimento. As comunicações internas eram precárias. Tais dificuldades continuaram por muitas décadas.

A navegação até Mato Grosso seria fácil através do rio Paraguai, cuja saída pelo rio da Prata era controlada pelos espanhóis. Estes, entretanto, tiveram seu avanço a montante de Assunção barrado pela construção do Forte de Coimbra em 1775. Situado num estreito fácilmente fortificável, ele dava aos portugueses o controle sobre ambas as margens do rio. Fortificações e povoados adicionais consolidaram a posse da margem direita. Esta seria a primeira linha de defesa de Mato Grosso contra uma invasão por via fluvial. O presídio de Miranda, construído em 1797, barrava a progressão espanhola no rio Apa. Os fortes, fortins, presídios e colônias militares construídos nas fronteiras mato-grossenses foram núcleos formadores de muitos povoados.

A Guerra do Paraguai miniaturadaimagem|O Forte de Coimbra às márgens do rio Paraguai Após a independência das colônias sul-americanas, Mato Grosso permaneceu relevante ao Brasil como um tampão entre as províncias centrais (Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro) e as influências platinas (Argentina, Paraguai e Bolívia). Entretanto, em meados do século XIX a província era uma das mais débeis do Império do Brasil, com uma economia e população em declínio, e alvo de ambições da República do Paraguai. Em 1863, suas defesas compreendiam apenas 1 415 militares de linha (ou seja, excluindo a Guarda Nacional), organizados no 2.º Batalhão de Artilharia a Pé, Corpo de Artilharia, Corpo de Cavalaria, Batalhão de Caçadores e Companhia de Artífices. A autoridade militar era o Governo das Armas (posterior Comando das Armas) da Província de Mato Grosso, criado em 1821 e considerado o embrião da atual Região Militar. Esta instituição era subordinada ao Presidente da província.

As tropas paraguaias tiveram facilidade para invadir o território mato-grossense em 1864, iniciando a Guerra do Paraguai. A Campanha do Mato Grosso foi travada no sul do estado e marcada pelas cheias do Pantanal, a fome e doença, que custaram muito ao efetivo. Observadores contemporâneos e historiadores enfatizam a surpresa e o despreparo das defesas de Mato Grosso, embora Mário Maestri argumente que as autoridades haviam sido avisadas com antecedência, havia consideráveis estoques de armamento e munição e o efetivo poderia chegar a seis mil incorporando a Guarda Nacional; para ele, a fraqueza defensiva se devia à indisposição da população ao voluntariado.

miniaturadaimagem|Expedição brasileira a Mato Grosso passa por Goiás|esquerda A ofensiva paraguaia teve um eixo fluvial, que ocupou o forte de Coimbra e os povoados de Albuquerque e Corumbá, e um eixo terrestre nas colônias militares dos rios Miranda e Dourados e os povoados de Nioaque, Miranda e Taquari. Apesar dos temores de invasão, os paraguaios não chegaram até a capital provincial, Cuiabá. Reforços brasileiros vieram de outros estados, como São Paulo e Minas Gerais. Uma tentativa de invasão ao território paraguaio resultou em baixas elevadas na Retirada da Laguna. Corumbá foi retomada temporariamente pelos brasileiros em 1867 e definitivamente em 1868, quando os paraguaios abandonaram sua ocupação militar do território mato-grossense. A retirada devia-se ao revés noutra frente da guerra, Humaitá, que havia aberto o solo paraguaio à invasão pela Tríplice Aliança.

A campanha foi apenas um teatro secundário da guerra, mas teve imenso impacto na história local. No século seguinte, batalhas e homens como Carlos Camisão, Guia Lopes e Antônio João tornaram-se monumentos e nomes de logradouros e prédios públicos, e a campanha foi promovida como um dos marcos da identidade sul-mato-grossense. Após 1870 o rio Paraguai foi plenamente aberto à navegação internacional, e o sul da província passou a receber colonos e investimentos, mas a ação de salteadores estrangeiros e os conflitos pela terra aumentaram. O Império ainda receava o Paraguai e a Argentina, e por isso reforçou a presença do Exército em Mato Grosso, com um efetivo flutuando entre 1 237 e 2 481 homens em 1871–1888. Em 1889, ano da Proclamação da República, Mato Grosso era a terceira província com o maior efetivo do Exército, representando 5% do total. As guarnições ficavam em Cuiabá, Cáceres, Nioaque e Corumbá, contribuindo ainda à ocupação do Paraguai, que durou até 1876.

Além das preocupações internacionais, o Exército combatia as “correrias” dos índios ao redor de Cuiabá e nos sertões mato-grossenses. Estas operações, e a necessidade de proteger os rios Paraguai e Guaporé com parcos recursos, pulverizavam o efetivo em guarnições de um a 64 soldados. Em 1884, aproximadamente 25% do efetivo servia longe da sede das unidades, guarnecendo fortalezas, depósitos, margens de rios e colônias militares. Isto dificultava a rotina administrativa e a instrução.

A República e o Distrito Militar miniaturadaimagem|A revista O Malho compara desfavoravelmente os soldados em Mato Grosso, "homens sem uniforme, sem instrução militar, bisonhos e ridículos", com o Exército Boliviano A a Proclamação da República foi recebida em Mato Grosso com uma pequena revolta monarquista dos praças do destacamento da foz do rio Apa, em 20 de dezembro de 1889. Em 1891 os Comandos das Armas deram lugar a Distritos Militares, subordinados ao Ministério da Guerra, que formariam grandes unidades operacionais na guerra. O 6.º e o 7.º Distritos, correspondendo respectivamente ao Rio Grande do Sul e Mato Grosso, foram os únicos a compreender apenas um estado, devido à importância estratégica de ambos. A sede distrital era Cuiabá, e as unidades permaneciam nos rios da bacia paraguaia. O transporte, seja fluvial ou pela tração animal, era difícil, ainda mais nas secas. A comunicação telegráfica com o restante do país, um imperativo geoestratégico militar, só começou em 1891, quando Cuiabá foi ligada à divisa com Goiás.

Mato Grosso era um vazio demográfico, e serviam ali, em grande parte, militares de outros estados. A viagem era longa, a alimentação e acomodação eram péssimas e as doenças assolavam a todos, praças e oficiais. A região tinha os estigmas de atrasada, violenta e incivilizada, definida por Euclides da Cunha como a “Sibéria canicular” do Exército. A transferência era considerada um castigo e um atraso na carreira. Desde o Império, os dissidentes políticos eram transferidos ali como punição informal, o que era um fator nas muitas revoltas locais. Em 1907, o general Dantas Barreto criticou o “sistema adotado por todos os governos da República, de preencherem os quadros da força federal, ali, com pessoal incorrigível de outras guarnições”. Os oficiais faziam o possível para não servir ali, e muitos dos transferidos, graças a seus contatos, não chegavam a se apresentar.

Em 1860–1907, o soldado de infantaria típico (isto é, mais da metade dos registrados nos Livros de Assentamentos) em Mato Grosso era de outro estado (especialmente do Nordeste), pardo, com estatura de 1,60 a 1,69 metros e 18 a 25 anos de idade, solteiro, sem ofício e analfabeto. Os recrutas originários de fora eram frequentemente recrutados à força (a cobrança do “tributo de sangue”) como forma das autoridades se livrarem de determinados grupos, como os capoeiras do Rio de Janeiro. Outros, como os refugiados da seca no Nordeste, voluntariavam-se no Exército como alternativa de subsistência. Mas em Mato Grosso, atrasos de mais de doze meses no pagamentos dos soldados eram comuns. As relações entre praças e oficiais podiam ser definidas pelo paternalismo, ou, até os anos 1910, por crimes e desobediência. A criminalidade não era exclusiva ao Exército; o banditismo era endêmico na região. A deserção, por outro lado, era incomum, graças à predominância dos forasteiros.

O efetivo combatente do Distrito era previsto em 2 009 homens no período de 1890–1907, distribuídos entre o 2.º Batalhão de Artilharia de Posição, o 7.º Regimento de Cavalaria e o 8.º, 19.º e 21.º Batalhões de Infantaria. Estas eram as mesmas unidades do final do Império; somente o Regimento de Cavalaria mudou de nome. Embora a população local estivesse em crescimento, o efetivo real tendeu a diminuir, despencando de 1 570 no início desse período para 625 em 1900, e recuperando até 1 368 no final.

As ambições políticas locais