thumb|right|300px|Edifícios comerciais na avenida Berrini. O enobrecimento urbano, de acordo com algumas traduções, ou gentrificação, da expressão inglesa gentrification, um neologismo em português, consiste num conjunto de processos de transformação do espaço urbano que ocorre, com ou sem intervenção governamental, nas mais variadas cidades do mundoHOFFMANN, Friederike. Istanbul: Living Together Separatly. Urban Action 2007, College of Behavioral and Social Sciences, San Francisco State University, 2007 e diz respeito à retirada de moradias, que pertencem a classes sociais menos favorecidas, de espaços urbanos que subitamente sofrem uma intervenção urbana (com ou sem auxílio governamental) o que provoca sua evolução, favorecendo o crescimento das cidades.

A expressão da língua inglesa gentrification foi usada pela primeira vez pela socióloga britânica Ruth Glass em 1964, ao analisar as transformações imobiliárias em determinados distritos londrinos.From gentrification to forced eviction – how should economic competitiveness be reconciled with social sustainability in historical districts? Social and Humam Sciences, Social Transformations, Themes, UNESCO A palavra vem de gentry, que na sociedade inglesa designava as classes sociais ricas, a nobreza. Esse termo surgiu nos anos 60, quando algumas pessoas dessas classes sociais mais elevadas começaram a migrar para locais onde antes só moravam trabalhadores, de classe social mais baixa. Esse processo acabou por elevar o preço imobiliário do local e acabou expulsando os antigos moradores (da classe operária): esse evento foi a gentrification. A gentrificação foi um fenômeno inicialmente observado no contexto urbano do mundo anglo-saxão, segundo os estudos mais clássicos - como os textos do geógrafo Neil Smith.<ref>SMITH, Neil; The New Urban Frontier - Gentrification and the Revanchist City; Londres: Routledge, 1996</ref> No ensaio The new urban frontiers: gentrification and the revanchist city, Smith analisou o processo em profundidade e como um fenômeno presente igualmente em outras nas cidades. Smith identificou os vários processos de gentrificação nas décadas de 1980 e de 1990, e tentou sistematizá-los, especialmente em Nova Iorque, concentrando-se na gentrificação ocorrida nos bairros de SoHo e de igual maneira do Harlem. Mais recentemente vários estudos acadêmicos consideram que a gentrification tenha se generalizado pelo mundo todo e seja uma das manifestações da globalização, manifestado-se de uma forma peculiar nas metrópoles latino-americanas.

Trata-se, segundo a definição mais comum, de um fenômeno de retirada indireta das populações de baixa renda de determinadas regiões de uma cidade (com ou sem a participação do Estado) - especialmente das áreas centrais - devido a atuação do Estado, na tentativa de melhoria da cidade e da imagem destes locais, seja através do combate da violência ou de reformas na infraestrutura.Cf. SMITH, op. cit. Por vezes a retirada se dá também de forma direta, através de despejos por determinação judicial. Alguns autores dizem que, em algumas situações, nas quais há corrupção estatal, o Estado poderia agir de acordo com os interesses dos grupos imobiliários, ao usar seu poder repressivo contra as populações.SMITH, op. cit. A retirada desta população que residia nas áreas que sofrem o enobrecimento urbano podem fazer com que essa perca o acesso aos equipamentos e à infraestrutura urbana, segundo também as definições tradicionais do termo, caso encontre acesso à moradia apenas nas periferias extremas.ARANTES, Otília, VAINER. Carlos Vainer e MARICAT, Ermínia. A Cidade do Pensamento Único: Desmanchando Consenso. Petrópolis: Editora Vozes, 3a edicao, 2002, ISBN 8532623840 O processo normalmente identifica casos de recuperação do valor imobiliário de regiões centrais de grandes cidades que sofreram, por décadas um período de degradação, durante o qual a população desses bairros foi-se modificando - pela debandada dos mais ricos - e tiveram seus espaços, que já contam com o benefício de ter todos os investimentos públicos em infraestrutura instalados, vindo a ser ocupados por pessoas pertencente às camadas sociais de menor poder aquisitivo. É uma conhecida estratégia do mercado imobiliário buscar obter uma "revitalização", ou "enobrecimento", também dos centros urbanos, de maneira a atrair novamente para eles residentes de mais alta renda, valorizando assim seus terrenos.

Muitos habitantes desejosos de melhorias nas grandes cidades, a classe política de modo geral, e até alguns acadêmicos têm considerado a gentrificação como sendo uma política positiva. Veem nela o remédio ideal para a solução humana, ecológica e fiscal de regiões urbanas decadentes.

No Brasil

A partir de 1998 alguns estudos acadêmicos indicam a existência de fenômenos localizados de gentrificação em algumas regiões da cidade de São Paulo.Cf. SILVA, Helena Menna Barreto; "Apresentação" in BIDOU-ZACHARIASEN (2006, 8-19). Botelho (2005) BOTELHO, Tarcísio R. Revitalização de centros urbanos no Brasil: uma análise comparativa das experiências de Vitória, Fortaleza e São Luis. Revista eure, Vol. XXXI, No 93, Santiago de Chile, agosto 2005, p. 56 e p. 115 ressalta a distinção entre os procedimentos de gentrificação nos Estados Unidos e no Brasil, dizendo que “o principal elemento diferenciador diz respeito ao papel do poder público como condutor dos processos de revitalização”, e considera que, quando se trata de gentrificação ou revitalização, as cidades de São Paulo, Recife e Rio de Janeiro são considerados os exemplos “clássicos” brasileiros, citando como outros exemplos, onde também ocorre a gentrificação, cidades normalmente ignoradas: Vitória, Fortaleza e São Luís.ARANTES, Otília, VAINER. Carlos Vainer e MARICAT, Ermínia. A Cidade do Pensamento Único: Desmanchando Consenso. Petrópolis: Editora Vozes, 3a edicao, 2002, ISBN 8532623840BERNHARDT, Erica Maria Barroso. Gentrificação e Revitalização: perspectivas teóricas e seus papéis na construção de espaços urbanos contemporâneos, Brasília: Revista Urbanidades, Universidade de Brasília, n° 5.

Segundo alguns autores, no caso de São Paulo, que tradicionalmente apresenta periferias pobres e áreas centrais (ou pericentrais) ricas, o fenômeno se verifica naqueles bairros centrais que sofreram um abandono histórico das elites locaisVILLAÇA, 1998 (assim como do Estado) e foram ocupados por classes populares ao longo da segunda metade do século XX. De acordo com os recentes estudos destes autores sobre gentrificação na cidade, tais bairros têm sido palco de um conflito entre Estado, mercado e classes populares pela permanência ou pela requalificação do lugar .

No simpósio Espaço e poder nas grandes metrópoles, realizado em Campinas em dezembro de 1996, Sharon Zukin Sharon Zukin fez a distinção entre dois temas que chamou de "paisagem" e "vernacular". Segundo ela são os dois processos de relações entre cultura e poder observáveis no cenário urbano pós-moderno. Um desses processos é denominado enobrecimento (gentrification), e se constitui substituição, nos velhos centros decadentes, dos antigos moradores (e seu estilo vernacular) por novos personagens e atividades culturalmente valorizadas. Zukin compara o que sucedeu no que ela classifica de "antigas cidades modernas", como Nova York, Chicago, Londres ou Paris, ao que ocorre em São Paulo, fazendo alusões a paisagens da capital paulistana como o bairro da Vila Madalena e a Praça da Sé. Para Zukin a cidade torna-se cada vez mais mercadoria, seja na forma do centro que se enobrece, seja na forma da paisagem que se mercantiliza. "As paisagens urbanas na aurora do século XXI sugerem, paradoxalmente, que a democratização da sociedade é coordenada com uma transformação mais intensa do espaço urbano em mercadoria", (p. 115) ARANTES, Antonio A. Paisagens paulistanas: transformações do espaço público. Campinas, Editora da Unicamp/Imprensa Oficial, 2000.. O tema faz sentido no caso da cidade de São Paulo tendo em vista a campanha da Associação Viva o Centro para revitalização do chamado centro histórico, assim como a polêmica em torno do frustrado projeto de construção do megaedificío Maharishi.MAGNANI, José Maria Cantor. Espaço e cultura na cidade contemporânea. São Paulo: Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 16, n° 45, fevereiro de 2001CASAJUANA, Santiago Quesada. La Revista Caramelo y la Maharishi SP Tower. Aspectos de la Renovacion de São Paulo y Reflexiones sobre el Edificio-Impacto. Revista Bibliográfica de Geografía y Ciencias Sociales, Universidad de Barcelona Nº 244, 24 de julio de 2000, ISSN 1138-9796TEIXEIRA, Carlos. Maharishi Tower. (DESTAQUE NO PRÊMIO JOVENS ARQUITETOS 2004 – IAB-SP), Arquitetos 050, n° 240, julho de 2004, ISSN 1809-6298.

Na gestão Celso Pitta, a revitalização do Brás e do Pari por meio da torre Maharishi SP Tower, associada à política “Projeto Dignidade” – de retirada dos ambulantes e de escanteio dos projetos autogestionários de moradia popular –, indicava um potencial de gentrification ou enobrecimento urbano, na cidade de São Paulo. Esse projeto acabou frustrado pelo debate dos especialistas, pela resistência dos atores, e pelas denúncias dos ambulantes de corrupção da prefeitura. Mas a partir desse período essas áreas começaram a ganhar importância no posicionamento de São Paulo como cidade globalPEREIRA, Verônica Sales. Memória Industrial e Transformações Urbanas na Virada do Século XXI: os Casos do Brás, Mooca, Belezninho e Pari. Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente, 2 de agosto de 2007, p. 6, ISSN 1980-0894.

Mais serviço social nos bairros nobres

Um estudo encomendado ao Instituto Lidas pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) e divulgado pela Agência Estado, em novembro de 2008, revelou que a cidade de São Paulo, assim como a maioria das cidades do mundo, tem mais serviços sociais em bairros nobres do que nos bairros pobres. No ranking de atendimento Moema ficou em primeiro lugar. Entre os cerca de 70 mil moradores da área, 53% vivem em famílias cujo chefe ganha mais de 20 salários mínimos por mês. Já Perus, que foi o último colocado no ranking entre os 96 distritos pesquisados, tem dez vagas em diferentes tipos de serviços para cada mil moradores de até 18 anos, ou seja, 56 vezes menos serviço social público do que o distrito de Moema. Em Perus 11% de seus jovens estão em situação de extrema pobreza AGÊNCIA ESTADO. Cidade de São Paulo tem mais serviço social em bairros ricos, diz estudo, São Paulo: Agência Estado, in UOL Notícias, 3 de novembro de 2008, 09h00.

Trajetória Durante a década de 1980, com as gestões de Mário Covas na prefeitura de São Paulo e com Franco Montoro no estado - então filiados ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), esboça-se alguma atuação estatal na área central de São Paulo relacionada à valorização de seus bens culturais por meio de projetos de requalificação do espaço público. Na década de 1990, surgem novos recursos para investimentos culturais - ligados ao programa Monumenta, do Banco Interamericano de Desenvolvimento - e relacionados à requalificação de edifícios isolados de uso cultural. Recentemente, o projeto de enobrecimento urbano das áreas centrais, ou sua gentrificação, teria sido reativado por meio de projetos como o da Nova Luz (com participação do Estado) e pela ofensiva do mercado imobiliário sobre o bairro da Mooca, (sem a participação do Estado) .

Análises e críticas