A rã-cachorro (nome científico: Physalaemus cuvieri) é uma espécie de anfíbio da família Leptodactylidae, pertencente a subfamília Leiuperinae,Leptodactylidae Werner, 1896 (1838) | Amphibian Species of the World. Disponível em: https://amphibiansoftheworld.amnh.org/Amphibia/Anura/Leptodactylidae. Acesso em: 4 maio. 2021. e com ampla distribuição no território brasileiro.LOURENÇO, L B; TARGUETA, C P; BALDO, D; NASCIMENTO, J; A GARCIA, P C; ANDRADE, G V B; F, Haddad C; RECCO-PIMENTEL, S M. Phylogeny of frogs from the genus Physalaemus (Anura, Leptodactylidae) inferred from mitochondrial and nuclear gene sequences. Molecular Phylogenetics And Evolution, [S.L.], p. 1-45, jun. 2015.
Etimologia A palavra Physalaemus tem sua origem no idioma grego: Physal = fole ou bexiga; laemus = garganta, este gênero ganhou este nome devido ao seu saco vocal, que, durante a vocalização, infla bastante. A etimologia de seu epíteto específico, em latim “cuvieri”, é uma homenagem ao zoologista francês Cuvier.VAUCHER, Claude. Polystoma cuvieri n. sp.(Monogenea: Polystomatidae) a parasite of the urinary bladder of the Leptodactylid frog Physalaemus cuvieri in Paraguay. The Journal of parasitology, p. 501-504, 1990. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/3282828?seq=1. Acesso em: 03 mai 2021. Já seu nome popular (rã-cachorro) faz referência a seu canto, que se assemelha aos latidos de um cachorro. Seu outro nome popular é rã foi-não-foi e também possui ligação com a sonoridade de sua vocalização, que, quando em coro, aparenta dizerem “foi-gol-não-foi”.LAVANDER, Vivian. O Folclore como ferramenta de motivação para o ensino de Zoologia na escola: proposta de um livro paradidático. 2008. 282 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Ciências, Departamento de Zoologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/41/41133/tde-06072008-222659/publico/vivian_mendonca_completo.pdf. Acesso em: 03 maio 2021.
Taxonomia e sistemática O gênero Physalaemus é um dos maiores dentro da família Leptodactylidae. No passado, a família era dividida em cinco subfamílias (Ceratophryinae, Cycloramphinae, Eleutherodactylinae, Leptodactylinae e Telmatobiinae) e era considerada polifilética.MIRANDA, Núbia Esther de Oliveira. PADRÕES E PROCESSOS ASSOCIADOS À DIVERSIDADE DA ANUROFAUNA EM ÁREAS ABERTAS DA AMÉRICA DO SUL: filogeografia de Physalaemus cuvieri (anura: leptodactylidae). 2014. 124 f. Tese (Doutorado) - Curso de Ecologia e Evolução, Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2014. No entanto, na última década, a taxonomia da família passou por alterações devido a novas análises filogenéticas, e atualmente o gênero Physalaemus está incluído na subfamília Leiuperinae, junto aos gêneros Edalorhina, Engystomops, Eupemphix, Physalaemus, Pleurodema e Pseudopaludicola. Destes, o gênero Eupemphix foi levantado como sinônimo júnior de Physalaemus. Apesar de extensas análises confirmarem o monofiletismo de Leiuperinae, não está claro qual é o grupo irmão de Physalaemus, apenas foi recuperado que Pleurodema é grupo irmão de um clado composto por Edalorhina, Engystomops e Physalaemus. Atualmente, existem 49 espécies nomeadas do gênero Physalaemus, apesar de suas relações filogenéticas serem muito pouco estudadas. Segundo a classificação de Nascimento e colaboradores (2005)Nascimento J, Lima JD, Suárez P, Baldo D, Andrade GV, Pierson TW, Fitzpatrick BM, Haddad CF, Recco�pimentel SM and Lourenço LB(2018) Extensive Cryptic Diversity Within the Physalaemus cuvieri – Physalaemus ephippifer Species Complex (Amphibia, Anura) Revealed by Cytogenetic, Mitochondrial, and Genomic Markers. Front. Genet. 10:719. doi:10.3389/fgene.2019.00719, o grupo de Physalaemus cuvieri é composto por nove espécies crípticas, todas com distribuição em áreas amplas e são típicas de áreas abertas.
Na América do Sul, os fósseis de anfíbios anuros mais antigos datam do período Cretáceo, e vários grupos de anuros já estavam presentes no Terciário. Não se tem registros de fósseis para a família Leiuperinae, porém existem fósseis bem documentados para o gênero Leptodactylus, um gênero intimamente aparentado. Apesar de não se ter conhecimento sobre registros fósseis para espécies que habitam o Cerrado, a evidência disponível indica que a maior parte da herpetofauna local teve sua origem no supercontinente Gondwana e já havia divergido no começo do Terciário, foi provavelmente nesse período que houve o surgimento de uma biota endêmica, onde paisagens abertas foram favoráveis à sua diversificação por um longo período de tempo.
Dentre os fatores que contribuíram para a diversificação da herpetofauna, principalmente da anurofauna, estão o aumento do gradiente latitudinal de temperatura no continente sulamericano causado pela orogenia dos Andes no Paleógeno, transgressões marinhas no Mioceno, o soerguimento do planalto central brasileiro durante a transição Mioceno-Plioceno e as flutuações climáticas do Quaternário, que criaram cenários complexos que possibilitavam oportunidades de diversificação, mas também de extinção. MIRANDA, Núbia Esther de Oliveira; MACIEL, Natan Medeiros; LIMA-RIBEIRO, Matheus Souza; COLLI, Guarino Rinaldi; HADDAD, Célio Fernando Baptista; COLLEVATTI, Rosane Garcia. Diversification of the widespread neotropical frog Physalaemus cuvieri in response to Neogene-Quaternary geological events and climate dynamics. Molecular Phylogenetics And Evolution, [s. l], v. 132, p. 67-80, nov. 2019. centro|miniaturadaimagem|560x560px
Distribuição geográfica e habitats A espécie apresenta uma ampla distribuição geográfica neotropical sendo típica de áreas abertas, ocorrendo no Brasil, leste do Paraguai e Argentina. Possui também presença incerta na Bolívia, Estados Plurinacionais, Guiana, Uruguai, Venezuela e República Bolivariana. No território brasileiro o grupo distribui-se de nordeste a sul do país, apresentando ocorrência em ambientes climáticos distintos, como Cerrado, Caatinga e Chaco, como apresentado no mapa adaptado de GIBF.ANDRADE, G. V. A História de Vida de Physalaemus cuvieri (Anura: Leptodactylidae) em um Ambiente Temporário. Ciências Biológicas, Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 1995. 185 p.Physalaemus cuvieri Fitzinger, 1826. GIBF. Disponível em: https://www.gbif.org/species/2423581. Acesso em: 4 maio. 2021.
Biologia e história natural
Caracterização da espécie
Adultos alt=Representação dorsal da rã Physalaemus Cuvieri. Em vermelho o comprimento do fêmur, em verde comprimento da tíbia, em azul o comprimento do tarso em rosa o comprimento do pé e em amarelo medida dorso-ventral.|miniaturadaimagem|208x208px|Representação dorsal da rã Physalaemus Cuvieri. Em vermelho o comprimento do fêmur, em verde comprimento da tíbia, em azul o comprimento do tarso em rosa o comprimento do pé e em amarelo medida dorso-ventral. |esquerdaA rã-cachorro de idade adulta, possui um comprimento que permuta de um porte de pequeno a médio, variando de 25 mm a 27 mm de comprimento. Em média, a medida de sua cabeça é de 7,8 mm de comprimento e apresenta 7,3 mm de diâmetro.RIBEIRO, R. S.; EGITO, G. T. B. T.; HADDAD, C. F. B. Chave de Identificação: Anfíbios Anuros da Vertente de Jundiaí da Serra do Japi, Estado De São Paulo. Biota Neotropica, v5 (n2). 2005.WEBER, L. N. Espécies do gênero Physalaemus no Estado do Rio de Janeiro.(Amphibia, Anura, Leptodactylidae). Rio de Janeiro, UFRJ, Museu Nacional, 1998. 139 palt=Representação de: a. pé (face plantar) com tubérculo tarsal, demais tubérculos e calosidades; b. mão (face palmar) com tubérculos e calosidades. |miniaturadaimagem|Representação de: A) pé (face plantar) com tubérculo tarsal, demais tubérculos e calosidades; B) mão (face palmar) com tubérculos e calosidades. A medida das pernas, formada pela junção das medidas da tíbia e do fêmur, não é maior que o comprimento rostro-anal, visto que o primeiro mede em média 11,3 mm e o segundo 11,0 mm, no entanto, ao somar-se a medida do tarso (6,4 mm) e do pé (13,0 mm), os membros inferiores ultrapassam, em comprimento, a medida do rostro-anal. Os membros inferiores dos anuros sofreram adaptações que os possibilitam criar grandes impulsos para saltar e nadar.POUGH, F. H.; JANIS, C. M.; HEISER, JOHN B. H. A vida dos vertebrados. São Paulo : Atheneu, 2008. 684 p. Diferentemente, os membros anteriores, são curtos, com a mão medindo 6,4 mm e o antebraço 5,2 mm.
As membranas interdigitais, que auxiliam na vida semiaquática da maioria dos anfíbios, e que conferem hidrodinâmica para a vida semiaquática, no caso da rã P. cuvieri, é reduzida ou às vezes inexistente nos artelhos e dedos dos pés, sendo os artelhos e dedos das mãos sempre livres. As pontas dos dedos, assim como os artelhos, apresentam forma arredondada.LIMA, L. L. C. et al. Características gerais dos anfíbios anuros e sua biodiversidade. Diversitas Journal, Santana do Ipanema, v. 4, set. 2019. p. 1-16.alt=Indivíduos da espécie Physalaemus cuvieri apresentando colorações castanho claro, bege|miniaturadaimagem|Rã-cachorro apresentando coloração castanho claro, begealt=Physalaemus cuvieri apresentando coloração esverdeada|miniaturadaimagem|Rã-cachorro apresentando coloração esverdeada |213x213pxMãos e pés apresentam calosidades em áreas que representam o carpo, o metatarso e as sub articulações, na palma e na face plantar. Diferente de outras espécies de anuros, não existe a presença do prepólex, estrutura que se localiza nos ossos das mãos, próximo ao metacarpo. No entanto, possuem duas almofadas nupciais (hipertrofias) nos "polegares'', que auxiliam os machos a segurar a fêmea no momento do amplexo.CHAI, N. Fowler's Zoo and Wild Animal Medicine. Anurans, Volume 8, [S.L.], 2015. p. 1-13. Elsevier. http://dx.doi.org/10.1016/b978-1-4557-7397-8.00001-3. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/B9781455773978000013. Acesso em: 28 abr. 2021
O tubérculo tarsal, presente no pé, nessa espécie, assim como as demais de mesmo gênero, são bem característicos. Na boca, existe a presença de uma língua em formato ovóide e a presença de dentes maxilares, já os dentes vomerianos são ausentes ou vestigiais. Essa dentição geralmente não é usada para reduzir o tamanho do alimento, como um auxílio na ingestão, e sim para matar a presa ou imobilizá-la. A forma do focinho da rã-cachorro varia entre um formato arredondado a uma arredondado-afilado, quando avistado de cima.
O tímpano não é visível e o saco vocal, na rã P. Cuvieri, é único e se expande externamente.
O dorso das espécies de P. cuvieri, podem apresentar até três tipos de coloração e isso varia de indivíduo para indivíduo, entre as variações de cores apresentadas estão castanho claro, cinza ou cor esverdeada, podendo ainda apresentar manchas ou linhas irregulares, com estrias dorsais longitudinais, já o ventre apresenta-se esbranquiçado. Nas laterais há uma faixa de cor negra e a região inguinal Tons que variam de laranja a vermelho, possuindo manchas sacrais de tamanho pequeno e quase sempre evidentes. A cor da íris é bronze. No dorso a pele é lisa ou possui grânulos finos pode ainda apresentar pequenas rugas, já o ventre é totalmente liso, apresentando granulosidade apenas abaixo das coxas.ROSSA-FERES, D. C.; NOMURA, F. Characterization and taxonomic key for tadpoles (Amphibia: Anura) from the northwestern region of São Paulo State, Brazil. Biota Neotropica, v6 (n1). 2006. 26 p.
As diferenças entre fêmeas e machos limitam-se à coloração da região gular, que nos machos é enegrecida e nas fêmeas a coloração é branca. Fase Larval alt=Representação do girinos Physalaemus cuvieri (adaptado de ROSSA-FERES; NOMURA, 2006)|miniaturadaimagem|330x330px|Representação do girinos Physalaemus cuvieri (adaptado de: ROSSA-FERES; NOMURA, 2006)|esquerda