Otto Karl Wilhelm Neurath ( Viena, — Oxford, ) foi um filósofo da ciência, sociológo e economista político austríaco. Foi um dos fundadores do positivismo lógico e era uma das principais figuras do Círculo de Viena antes de ser obrigado a se mudar para a Inglaterra devido ao nazismo.
Foi o criador do movimento ISOTYPE, em Viena e mais tarde na Inglaterra, Otto Neurath e sua equipe criaram um sistema de pictogramas projetados para comunicar informação de forma simples, valorizando a linguagem não-verbal. Uma contribuição considerável ao campo do design e da comunicação visual em geral.
Primeiros anos Neurath nasceu em Viena, filho de Wilhelm Neurath (1840–1901), um renomado economista político judeu da época. A mãe de Otto era protestante, e ele também se tornaria um. Helene Migerka era sua prima. Estudou matemática e física na Universidade de Viena (formalmente matriculado apenas por dois semestres em 1902–03). Em 1906, obteve seu Ph.D. no departamento de Ciência política e Estatística da Universidade de Berlim com a tese Zur Anschauung der Antike über Handel, Gewerbe und Landwirtschaft (Sobre as concepções da Antiguidade acerca do comércio, dos negócios e da agricultura).
Casou-se com Anna Schapire em 1907, que morreu em 1911 ao dar à luz seu filho, Paul; posteriormente casou-se com uma amiga próxima, a matemática e filósofa Olga Hahn. Talvez devido à cegueira de sua segunda esposa e depois por causa da eclosão da guerra, Paul foi enviado para um lar infantil fora de Viena, onde vivia a mãe de Neurath, retornando para viver com ambos os pais aos nove anos de idade.
Carreira em Viena Neurath lecionou economia política na New Vienna Commercial Academy, em Viena, até a eclosão da guerra.Thomas E. Uebel (ed.), Rediscovering the Forgotten Vienna Circle: Austrian Studies on Otto Neurath and the Vienna Circle, Springer, 2012, p. 26. Posteriormente, dirigiu o Departamento de Economia de Guerra no Ministério da Guerra. Em 1917, concluiu sua tese de habilitação Die Kriegswirtschaftslehre und ihre Bedeutung für die Zukunft (Economia de guerra e sua importância para o futuro) na Universidade de Heidelberg. Em 1918, tornou-se diretor do Deutsches Kriegswirtschaftsmuseum (Museu Alemão de Economia de Guerra, posteriormente “Deutsches Wirtschaftsmuseum”) em Leipzig. Lá trabalhou com Wolfgang Schumann, conhecido pelo jornal Dürerbund, para o qual Neurath escreveu diversos artigos. Durante a crise política que levou ao armistício, Schumann incentivou-o a elaborar um plano de socialização para a Saxônia."Otto Neurath: Empiricism and Sociology". edited by Marie Neurath and Robert S. Cohen. Dordrecht-Holland/Boston-USA: D. Reidel Publishing Company, 1973 Junto de Schumann e Hermann Kranold, desenvolveu o Programm Kranold-Neurath-Schumann. Neurath então ingressou no Partido Social-Democrata da Alemanha em 1918–19 e dirigiu um escritório de planejamento econômico central em Munique. Quando a República Soviética da Baviera foi derrotada, Neurath foi preso, mas retornou à Áustria após intervenção do governo austríaco. Enquanto esteve preso, escreveu Anti-Spengler, um ataque crítico ao Declínio do Ocidente de Oswald Spengler.
Na Viena Vermelha, juntou-se aos social-democratas e tornou-se secretário da Austrian Association for Settlements and Small Gardens (Verband für Siedlungs-und Kleingartenwesen), uma associação de grupos de ajuda mútua que buscava fornecer moradia e terrenos de jardinagem a seus membros. Em 1923, fundou um novo museu dedicado à habitação e ao planejamento urbano chamado Siedlungsmuseum. Em 1925, renomeou-o para Gesellschafts- und Wirtschaftsmuseum in Wien (Museu da Sociedade e da Economia em Viena) e fundou uma associação para administrá-lo, da qual participavam a administração municipal de Viena, os sindicatos, a Câmara dos Trabalhadores e o Banco dos Trabalhadores. O então prefeito Karl Seitz atuou como primeiro patrono da associação. Julius Tandler, vereador responsável por assistência social e saúde, integrou o primeiro conselho do museu junto de outros importantes políticos social-democratas. O museu recebeu salas de exposição em edifícios da administração municipal, sendo a mais importante o Salão do Povo na Prefeitura de Viena.
Neurath colaborou com a revista social-democrata Der Kampf.
Para tornar o museu compreensível para visitantes de todo o multilíngue Império Austro-Húngaro, Neurath trabalhou com design gráfico e educação visual, acreditando que “As palavras dividem, as imagens unem”, frase de sua própria autoria exibida na parede de seu escritório. No final da década de 1920, o designer gráfico e teórico da comunicação Rudolf Modley atuou como assistente de Neurath, contribuindo para um novo meio de comunicação: uma “linguagem” visual. Com o ilustrador Gerd Arntz e Marie Reidemeister (com quem se casaria em 1941), Neurath desenvolveu novas formas de representar informações quantitativas por meio de ícones facilmente interpretáveis. Precursor dos atuais infográficos, inicialmente chamou esse método de “Método Vienense de Estatísticas Pictóricas”. À medida que suas ambições ultrapassaram os dados sociais e econômicos relacionados a Viena, renomeou o projeto para "Isotype", um acrônimo do título completo do projeto: International System of Typographic Picture Education. Em convenções internacionais de urbanistas, Neurath apresentou e promoveu suas ferramentas de comunicação. Durante a década de 1930, começou também a promover o Isotype como uma linguagem pictórica internacional, relacionando-o tanto ao movimento de educação de adultos quanto ao entusiasmo internacionalista por línguas novas e artificiais, como o Esperanto, embora enfatizasse em palestras e correspondências que o Isotype não pretendia ser uma linguagem autônoma e era limitado no que podia comunicar.
Na década de 1920, Neurath também se tornou um fervoroso positivista lógico e foi o principal autor do manifesto do Círculo de Viena. Foi a força motriz por trás do movimento da Unidade da Ciência e da International Encyclopedia of Unified Science.
Neurath era defensor do Esperanto e participou do Congresso Universal de Esperanto de 1924 em Viena, onde conheceu Rudolf Carnap pela primeira vez. Em 1927, tornou-se secretário da Ernst Mach Society.
Exílio Países Baixos Durante a Guerra Civil Austríaca em 1934, Neurath trabalhava em Moscou. Antecipando problemas, pediu que lhe enviassem uma mensagem codificada caso fosse perigoso retornar à Áustria. Como Marie Reidemeister relatou posteriormente, após receber o telegrama “Carnap está esperando por você”, Neurath escolheu viajar para Haia, nos Países Baixos, em vez de Viena, para poder continuar seu trabalho internacional. Posteriormente, Arntz juntou-se a ele, depois que os assuntos em Viena foram resolvidos da melhor maneira possível. Sua esposa também fugiu para os Países Baixos, onde morreu em 1937.
Ilhas Britânicas Após a Luftwaffe bombardear Roterdã, ele e Marie Reidemeister fugiram para a Grã-Bretanha, atravessando o Canal da Mancha com outros refugiados em um barco aberto. Ele e Reidemeister casaram-se em 1941 após um período de internamento na Ilha de Man (Neurath esteve no campo de Onchan). Na Grã-Bretanha, ele e sua esposa fundaram o Isotype Institute em Oxford, e foi convidado a aconselhar e elaborar gráficos Isotype para a planejada reurbanização das favelas de Bilston, próximo de Wolverhampton.
Neurath morreu de forma súbita e inesperada em decorrência de um derrame, em dezembro de 1945. Após sua morte, Marie Neurath continuou o trabalho do Isotype Institute, publicando postumamente os escritos de Neurath, concluindo projetos iniciados por ele e escrevendo muitos livros infantis utilizando o sistema Isotype, até sua morte na década de 1980.
Contribuições
Filosofia da ciência e da linguagem O trabalho de Neurath sobre enunciados protocolares tentou reconciliar uma preocupação empirista com a fundamentação do conhecimento na experiência e o caráter essencialmente público da ciência. Neurath sugeriu que os relatos da experiência deveriam ser compreendidos como tendo um caráter de terceira pessoa e, portanto, público e impessoal, em vez de serem declarações subjetivas em primeira pessoa. Bertrand Russell discordou da concepção de Neurath sobre os enunciados protocolares em seu livro An Inquiry Into Meaning and Truth (p. 139 e seguintes), argumentando que ela rompia a conexão com a experiência que é essencial para uma concepção empirista de verdade, fatos e conhecimento.
Uma das obras posteriores de Neurath, Physicalism, transformou completamente a natureza da discussão do positivismo lógico acerca do programa de unificação das ciências. Neurath delineia e explica seus pontos de concordância com os princípios gerais do programa positivista e suas bases conceituais:
a construção de um sistema universal que compreendesse todo o conhecimento fornecido pelas diversas ciências; e a rejeição absoluta da metafísica, entendida como quaisquer proposições que não possam ser traduzidas em sentenças científicas verificáveis.
Em seguida, ele rejeita o tratamento positivista da linguagem em geral e, em particular, algumas das primeiras ideias fundamentais de Wittgenstein.
Primeiramente, Neurath rejeita o isomorfismo entre linguagem e realidade como uma especulação metafísica inútil, que exigiria explicar como palavras e sentenças poderiam representar coisas no mundo externo. Em vez disso, Neurath propôs que linguagem e realidade coincidem — isto é, que a realidade consiste simplesmente na totalidade das sentenças previamente verificadas na linguagem, e que a “verdade” de uma sentença diz respeito à sua relação com a totalidade das sentenças já verificadas. Se uma sentença falha em “concordar” (ou ser coerente) com a totalidade das sentenças previamente verificadas, então ela deve ser considerada falsa, ou alguma proposição daquela totalidade deve ser modificada de algum modo. Assim, ele vê a verdade como uma coerência interna das afirmações linguísticas, e não como algo relacionado a fatos ou outras entidades no mundo. Além disso, o critério de verificação deve ser aplicado ao sistema como um todo e não a sentenças isoladas. Essas ideias moldaram profundamente o verificacionismo holístico de Willard Van Orman Quine. O livro de Quine, Word and Object, tornou famosa a analogia de Neurath, que compara a natureza holística da linguagem e, consequentemente, da verificação científica, à construção de um barco já em alto-mar (cf. Navio de Teseu):
Neurath também rejeitou a noção de que a ciência deveria ser reconstruída em termos de dados sensoriais, pois as experiências perceptivas são subjetivas demais para constituir uma base válida para a reconstrução formal da ciência. Assim, a linguagem fenomenológica que a maioria dos positivistas ainda enfatizava deveria ser substituída pela linguagem da física matemática. Isso permitiria as formulações objetivas necessárias, já que ela se baseia em coordenadas espaço-temporais. Tal abordagem “fisicalista” das ciências facilitaria a eliminação de qualquer elemento residual de metafísica, pois permitiria reduzi-los a um sistema de afirmações relativas a fatos físicos.
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