Taiji Quan ou tai chi chuan [tai chi chuã]Dicionário escolar da língua portuguesa/Academia Brasileira de Letras. 2ª edição. São Paulo. Companhia Editora Nacional. 2008. p. 1 218. (em chinês: 太極拳; em pinyin, Tàijí quán) é uma arte marcial chinesa interna (neijia, 內家), parcialmente baseada no bagua (em Pinyin, bā guà, 八卦).

Este estilo de arte marcial é reconhecido também como uma forma de meditação em movimento.

Os princípios filosóficos do taiji Quan remetem ao taoismo e à alquimia chinesa.

A relação de yin e yang, os cinco elementos, o ba gua (Oito Trigramas), o Livro das Mutações (Yi Jing) e o Dao De Jing de Lao Zi são algumas das principais referências para a compreensão de seus fundamentos.

Os textos clássicos do Taiji Quan escritos pelos mestres orientam a: Vencer o movimento através da quietude (Yi Jing Zhi Dong) 以靜制動 Vencer a dureza através da suavidade (Yi Rou Ke Gang) 以柔克剛 Vencer o rápido através do lento (Yi Man Sheng Kuai) 以慢勝快

O taiji quan tem suas raízes na China, sendo, atualmente, uma arte praticada no mundo todo. É apreciado no ocidente especialmente por sua relação com a meditação (dao yin) e com a promoção da saúde, oferecendo, aos que vivem nas grandes cidades, uma referência de tranquilidade e equilíbrio.

Os criadores do taiji quan basearam sua arte na observação da natureza - não apenas na observação dos animais, mas também no estudo dos princípios da interação entre os diversos elementos naturais.

Como somos parte desta natureza, o conhecimento destes princípios e de como atuam dentro de nós, estudado pela medicina tradicional chinesa, revela o tai chi como uma fonte efetiva de energia que encontra-se em nosso interior, situada na região do corpo nomeada pelos chineses de dantian médio.

Etimologia Os ideogramas que compõe a palavra taiji quan significam: 太, Tai, significa "o maior", "o mais alto", "supremo", "absoluto". 極 (ou 极 em chinês simplificado), Ji (ou Chi), significa, original e literalmente, a parte mais alta do telhado - "cumeeira". Por extensão, significa também "polar".WU, J. Tai Chi Chuan: a alquimia do movimento. 5ª edição. Rio de Janeiro. Mauad. 2010. p. 15. 拳, Quan (ou Chuan), significa "Punho",WU, J. Tai Chi Chuan: a alquimia do movimento. 5ª edição. Rio de Janeiro. Mauad. 2010. p. 30. aqui simbolizando "soco", "luta a mãos livres" (desarmadas), "boxe"

thumb|180px|Tei-gi, o diagrama daoista adotado no tai chi chuan Portanto, algumas das possíveis traduções literais de taiji quan são: "Punho da suprema cumeeira", "punho do limite supremo", "punho do taiji" e "punho do estado supremo, acima das polaridades".WU, J. Tai Chi Chuan: a alquimia do movimento. 5ª edição. Rio de Janeiro. Mauad. 2010. pp. 15,30. Como cada ideograma pode ter mais de um sentido, há outras formas de se traduzir o termo além destas.

No daoismo, onde o taiji quan teve sua origem, o taiji ("suprema cumeeira", "limite absoluto" ou "estado supremo, acima das polaridades") tem a conotação filosófica de "elevação", "sublimação", "purificação", resultante, entre outros, do desenvolvimento de um mecanismo de defesa emocional pelo qual tendências ou sentimentos considerados "inferiores" se transformam em tendências e sentimentos considerados "superiores".

O taiji também simboliza o "Cosmo" e a interação dos princípios energéticos yin e yang (que estão em constante mutação), sendo conhecida a sua representação através do diagrama taijitu, também chamado de tei-gi e, como é mais conhecido no Ocidente, "símbolo do yin-yang".

Origem thumb|esquerda|180px|Zhang Sanfeng A história do taiji quan é considerada sempre sob dois aspectos: o lendário e o historicamente comprovado. Esses dois aspectos não se excluem necessariamente para a maioria dos professores propagadores dessa arte.

O aspecto lendário é, geralmente, encarado como uma metáfora para indicar o desenvolvimento dos princípios do taiji quan através da figura do daoista imortal Chang San Feng.

Historicamente comprovado, o criador do taiji quan foi Chen Wangting.

Existem indicações de que, durante a Dinastia Tang (618-906 d.C.), um eremita chamado Xu Xuan Ping desenvolveu uma arte chamada "os trinta e sete estilos do taiji", também chamada de chang chuan (punho longo) ou chang kiang (rio longo).

Por volta da mesma época, um monge daoista chamado Li Dao Zi praticava uma arte denominada "punho longo primordial", semelhante aos trinta e sete estilos do taiji.

Muitas das posturas dessas duas artes têm nomes semelhantes aos das atuais posturas do taiji quan.

O texto Guan Jing Wu Hui Fa (Método para se Alcançar o Esclarecimento Através da Observação da Escritura), escrito por Cheng Ling Xi na época da Dinastia Liang (907-923 d.C.), no período das cinco dinastias e dos dez reinos, é o documento mais antigo já encontrado a usar o termo taiji quan. Cheng Ling Xi foi discípulo de Han Gong Yue, que lhe ensinou sua arte, chamada "Os catorze estilos do treinamento do taiji".

Chang San Feng (1247-?), que então vivia num templo daoista nas Montanhas Wudang, já teria desenvolvido uma arte conhecida como "Os trinta e dois estilos do punho longo de Wudang" e, posteriormente, criou "As treze posturas do taiji", após observar uma luta entre um pássaro (grou) e uma cobra, quando constatou que a flexibilidade se sobrepunha à rigidez, compreendendo a prática da alternância entre o yin e o yang e outras concepções da natureza, que se constituem na base do que depois passou a ser chamado de taiji quan.

O sucessor de Chang Sangfeng foi o também monge taoista Taiyi Zhenren, que, no final da dinastia Ming, difundiu a arte entre os discípulos do monte Wudang. Entre esses discípulos, encontrava-se outro monge de nome Ma Yun Cheng.

Ma Yun Cheng transmitiu a arte para vários discípulos célebres, entre eles Mi Deng Xia e Guo Ji Yuan, popularmente conhecidos como "os dois santos", e Wang Zhong Yue, que denominou essa arte de Wudang taiji quan e escreveu o "Tratado de Taiji Quan", um dos Clássicos do taiji quan.

Wang Zhong Yue transmitiu o taiji quan ao famoso mestre Zhang Song Xi, que, depois, o ensinou a Dan Si Nan, que veio a ter, como discípulo, Wang Zheng Nan, que se referia à arte de Wudang como uma arte interior, distinta das artes de Shaolin, que ele chamava de arte exterior.

Segundo os historiadores Tang Hao e Gui Liuxin, seguindo a origem a partir do fato histórico de que Yang Luchan aprendeu com Chen Changxing (1771-1853) do vilarejo de Chenjiagou, o taiji quan foi criado por Chen Wangting (1600-1680) na passagem da dinastia Ming para a dinastia Qing. Esta é a versão considerada oficial pelo governo chinês . Ji e qi É preciso atenção na sutileza da interpretação chinesa, pois no taiji (também transliterado como taich'i), esse "ji" ou "ch'i" não é o mesmo "qi" (sopro, energia vital, ar), que o kung fu (arte marcial chinesa) bem explora, assim como o qigong (ou chi kung). O ideograma para esse "qi" (气) não é o mesmo do "ji" (极).

O pano de fundo de ambos os termos pode ser afim, apontando para um sentido praticamente comum, mas o ji tem direção mais filosófica, quase taoista, com sentido de supremacia. Assim, o taiji teria um significado como sendo um conhecimento de "primeira grandeza", dando ideia de "grande" e "supremo" (mais ao pé da letra).

Já o Qi do Qigong é uma técnica de fortalecimento interno nas artes marciais chinesas, específico para o fortalecimento interno do praticante.

A semelhança dos sons aos ouvidos ocidentais, é verdade, colabora para a mistura dos termos. Mas, no pensamento tradicional chinês, são termos distantes com relação à prática marcial e, principalmente, quanto ao conteúdo doutrinário.

Estilos São cinco os estilos de taiji quan reconhecidos como tradicionais pela comunidade internacional: cada um deles recebeu o nome da família chinesa que o criou, desenvolveu e transmitiu. Todos têm a mesma essência e seguem os mesmos princípios básicos, diferindo apenas na forma. Por ordem cronológica, temos:

Taiji quan estilo Chen (陳氏) Taiji quan estilo Yang (楊氏) Taiji quan estilo Wu/Hao (武氏) Tai chi chuan estilo Wu (吳氏) Tai chi chuan estilo Sun (孫氏)

Ordenados por sua popularidade, considerando o número de praticantes, teríamos: Yang, Wu, Chen, Sun e Wu/Hao.

Atualmente, encontramos referências a diversos outros estilos. Alguns deles são estilos híbridos ou derivados desses cinco estilos tradicionais. Outros alegam ter sido praticados em segredo dentro de outras famílias ou em monastérios a partir das referências milenares taoistas que teriam dado origem a esta prática, tornando-se de conhecimento aberto ao público há menos tempo. Entre estes exemplos, se inclui o estilo Wudang, realizado ainda hoje nos templos da montanha de Wudang (não confundir com o estilo contemporâneo que tomou para si o nome de Taiji Quan de Wudang).

Há também o que poderíamos chamar de taiji quan estilo de Pequim, composto por formas (tao lu) padronizadas pelo governo chinês através do Comitê Nacional de Esportes da China, desenvolvidas exclusivamente para fins terapêuticos e esportivos. Hoje em dia, é muito popular não apenas na China mas em todo o mundo.

As treze posturas fundamentais Como arte marcial, o taiji quan baseia-se em treze conceitos fundamentais (shi san shi, 十三势). Estas posturas/movimentos podem ser reconhecidos nas diversas formas praticadas pelos diferentes estilos. Cada escola interpreta estes conceitos com pequenas variações.

São conhecidas como "as oito portas e os cinco passos" (八門 五步). Em chinês, são denominadas: Peng, Lu, Ji, An, Cai, Lie, Zhou, Cao, Jin, Tui, Gu, Pan e Ding.

As "oito portas" (bā mén) se associam às oito direções representadas pelos oito trigramas do ba qua (em Pinyin, bā guà, 八卦), elementos básicos na constituição do Yi Jing (易经).

Os quatro lados (si zheng 四正) Péng 掤 (aparar) Lǜ 履 (desviar) Jǐ 擠 (pressionar) Àn 按 (empurrar)

Os quatro cantos (si yu 四隅) Cǎi 採 (colher e puxar) Liè 挒 (colher e quebrar) Zhǒu 肘 (golpe de cotovelo) Kào 靠 (golpe de ombro)

Os "cinco passos" (Wǔ bù, 五步) podem ser relacionados aos Cinco Elementos cósmicos (五行, py wǔ xíng) que fundamentam a medicina tradicional chinesa: madeira, fogo, terra, metal e água (木, 火, 土, 金, 水).

Jìn bù 進步 (avançar) Tùi bù 退步 (recuar) Zǔo gù 左顧 (olhar à esquerda) Yòu pàn 右盼 (olhar à direita) Zhōng dìng 中定 (equilíbrio central) Os dez princípios essenciais Conforme Yang Chengfu: Suspender a cabeça pelo topo com leveza e sensibilidade (xu ling ding jin) Esvaziar o peito (han xiong) e alongar as costas (ba bei) Relaxar a cintura (song yao) Distinguir entre o cheio e o vazio (fen xu shi) Relaxar os ombros [Chen Jian] e soltar os cotovelos (zhui zhou) Usar a mente e não a força muscular (yong yi bu yong li) Interligar os movimentos da parte superior e inferior do corpo (shang xia xiang sui) Unir o interior e o exterior (nei wai xiang he) Mover-se com continuidade, sem rupturas (xiang lian bu duan) Buscar a quietude dentro do movimento (dong zhong qiu jing) Treinamento O treinamento envolve basicamente duas modalidadesː as formas individuais, chamadas taolu, praticadas individualmente e que se compõe de movimentos lentos, executados com a espinha ereta e respiração abdominal; e as formas executadas em dupla, chamadas de tuishou ("mãos que empurram") e sanshou ("mãos livres"), que visam a exercitar os movimentos em condições mais próximas às da realidade de uma luta. Formas executadas em dupla