miniaturadaimagem|228x228px|Pequena África 1850 - 1920 Pequena ÁfricaPequena África renasce no cais do porto do Rio é o nome dado por Heitor dos PrazeresMOURA, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro . 2ª ed.. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Dep. Geral de Doc. e Inf. Cultural, Divisão de Editoração, 1995 (Coleção Biblioteca Carioca), p. 13 a uma região do Rio de Janeiro compreendida pela zona portuária do Rio de Janeiro que compreende os bairros da Gamboa, Saúde, onde se encontra a Comunidade Remanescentes de Quilombos da Pedra do Sal, Santo Cristo, e outros locais habitados por escravizados alforriados e que de 1850 até 1920 foram conhecidos por Pequena África. 150px|direita|thumb|Pano da costa no século XIX. Descrita por João do Rio em 1904, no livro As Religiões no Rio, com pinceladas estranhas e bizarras, o lado negro e pobre do Rio com distorções de palavras ditas por um africano chamado Antônio que estudou em Lagos que lhe serviu de (intérprete) na Pequena África: "Da grande quantidade de escravos vindos para o Rio no tempo do Brasil colônia e do Brasil monarquia, restam uns mil negros (só no cais). São todos das pequenas nações do interior da África, pertencem ao ijexá, oié, ebá, aboum, hauçá, itaqua, ou se consideram filhos dos ibouam, ixáu dos gege e dos cambindas. Alguns ricos mandam a descendência brasileira à África para estudar a religião, outros deixam como dote aos filhos cruzados daqui os mistérios e as feitiçarias. Todos porém, falam entre si um idioma comum - o eubá (iorubá). E conclui: Antônio, que estudou em Lagos, dizia: O eubá para os africanos é o inglês para os povos civilizados. Quem fala o eubá pode atravessar a África e viver entre os pretos do Rio. Só os cambindas ignoram o eubá, mas esses ignoram até a própria língua, que é muito difícil, quando os cambindas falam, misturam todas as línguas. Agora os Orixás e os Alufás só falam o eubá."

Nesse trecho, a palavra Orixás é usada para designar as pessoas do candomblé, os nagôs, bantos e jejes na maioria analfabetos e a palavra Alufás refere-se aos negros muçulmanos que eram cultos que liam e escreviam em árabe.

200px|direita|thumb|trajes africanos

"As iauô abundam nesta "Babel da crença", cruzam-se com a gente diariamente, sorriem aos soldados ébrios nos prostíbulos baratos, mercadejam doces nas praças, às portas dos estabelecimentos comerciais, fornecem ao Hospício a sua quota de loucura, propagam a histeria entre as senhoras honestas e as cocottes, exploram e são exploradas, vivem da crendice e alimentam o caftismo inconsciente. As iauô, são as demoníacas e as grandes farsistas da raça preta, as obsedadas e as delirantes. A história de cada uma delas, quando não é uma sinistra pantomima de álcool e mancebia, é um tecido de fatos cruéis, anormais, inéditos, feitos de invisível, de sangue e de morte. Nas iauô está a base do culto africano. Todas elas usam sinais exteriores do santo, as vestimentas simbólicas, os rosários e os colares de contas com as cores preferidas da divindade a que pertencem; todas elas estão ligadas ao rito selvagem por mistérios que as obrigam a gastar a vida em festejos, a sentir o santo e a respeitar o pai de santo."

150px|thumb|Africana vendendo caju150px|esquerda|thumb|Trajes africanos no século XIX. Neste outro trecho, fala das iaôs do candomblé como se todas fossem prostitutas, coisa que não é verdade, presume-se pelos relatos que o africano Antônio deve tê-lo levado só nos antros, zonas de meretrício e pais de santo marmoteiros de macumba, pois em outro trecho descreve a feitura de uma iaô, coisa que um terreiro sério jamais permitiria a um estranho, mesmo que acompanhado de pessoa da casa. Talvez chame de iauôs tanto as quituteirasGerlaine Torres Martini, "Baianas do Acarajé - A uniformização do típico em uma tradição culinária afro-brasileira" (íntegra, consultado em 15 de janeiro de 2008). pelo fato de se vestirem para o trabalho como se vestem as filhas de santo de um terreiro, como outras africanas vindas da Bahia por usarem o mesmo traje na época.

Descrição de Antônio feita por João do Rio:

Num gueto africano só lhe foi mostrado o que queriam que ele visse. O candomblé sério foi resguardado dos olhos curiosos. Se, por um lado foi bom, por outro, nem tanto: um livro foi escrito contendo absurdos sobre os orixás que foram tomados como verdade absoluta, como a identificação de Exu com o próprio diabo.

Essa não era a Pequena África adorada e frequentada por grandes figuras negras do mundo musical carioca, como Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Heitor dos Prazeres, que se reuniam na casa da ialorixá Tia Ciata (1854 - 1924) para as rodas de batuque africano.

Tia Ciata trabalhava como doceira na rua Rua da Carioca, sempre vestida de baiana, e foi líder cultural e mãe de 16 filhos.

Reginaldo Prandi escreve: "O candomblé nessa cidade é um culto organizado. Continuemos a ler mais um pouco de João do Rio. Ele conta sobre os babalaôs, mathematicos geniaes, sabedores dos segredos santos e do futuro da gente, que jogam o opelé, e fala dos babás, que atiram o endilogum; são babaloxás, pais de santos veneráveis. Nos lanhos da cara puzeram o pó da salvação e na boca têm sempre o obi, noz de kola.[...] Ha os babalaôs, os açobáa, os aboré, grão máximo, as mães pequenas, os ogãs, as agibonam… e as iaô, evidentemente, a quem João do Rio dedica muitas páginas de deliciosa precisão e explicitíssimo preconceito."Modernidade com feitiçaria: candomblé e umbanda no Brasil do século XX. Por Reginaldo Prandi. Tempo Social 2(1): 49-74, 1º sem. 1990

Representação na cultura É retratada na novela Nos Tempos do Imperador, onde é reduto dos negros livres no Rio de Janeiro. É governado por Dom Olu Maquemba, Rei da Pequena África, interpretado por Rogério Brito. É uma clara alusão a dois príncipes negros que viveram no Brasil, Dom Oba II e Osuanlele, Principe de Ajudá.

Circuito de Herança Africana (IPN – Museu Memorial) O Circuito Histórico de Herança Africana é uma iniciativa voltada à ampliação do acesso ao conhecimento sobre a história da Zona Portuária do Rio de Janeiro, a partir de uma perspectiva social e cultural dos africanos, indígenas e seus descendentes no Brasil. A iniciativa busca contribuir para a construção de uma reflexão crítica e para a promoção de uma sociedade mais justa e igualitária. miniaturadaimagem|Sítio arqueológico Cais do Valongo. Em 2026, o Instituto Pretos Novos (IPN) está com inscrições abertas para o Circuito de Herança Africana/Educação Patrimonial, realizado gratuitamente e sem possibilidade de comercialização. As atividades ocorrem aos sábados, a partir das 9h.

O percurso do circuito inclui seis locais que integram o roteiro oficial da região portuária do Rio de Janeiro: Centro Cultural José Bonifácio (CCJB) — centro cultural instalado em um palacete fundado em 1877; Cemitério dos Pretos Novos — sítio arqueológico; Cais do Valongo — antigo cais situado na Praça Jornal do Comércio; Jardim Suspenso do Valongo — construção localizada no Morro da Conceição; Praça dos Estivadores — praça situada em uma área que, no passado, era utilizada para a venda de escravizados.; Pedra do Sal — localizada aos pés do Morro da Conceição.

Além dos seis pontos do roteiro oficial, o Instituto Pretos Novos incorporou outras localidades ao percurso, com o objetivo de ampliar e fortalecer a narrativa desenvolvida durante a atividade.

A descoberta do Sítio Arqueológico Cemitério dos Pretos Novos, em 1996, e as obras de revitalização da Região Portuária, realizadas entre 2012 e 2016, foram acompanhadas por estudos e escavações arqueológicas que evidenciaram a importância histórica e cultural da região. esquerda|miniaturadaimagem|Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos. Os achados arqueológicos possibilitaram uma melhor compreensão do processo da Diáspora Africana e da formação da sociedade brasileira. Em razão dessa importância, foi criado, por meio do Decreto Municipal nº 34.803, de 29 de novembro de 2011, o Circuito e o Grupo de Trabalho Curatorial do Circuito Histórico e Arqueológico da Herança Africana. A iniciativa tinha como objetivo construir coletivamente políticas de valorização da memória e de proteção do patrimônio cultural relacionado à herança africana na região.

Desde então, segundo o Instituto Pretos Novos, pouco foi realizado para valorizar o potencial histórico da Região Portuária e constituir uma política pública capaz de acolher e atrair um número maior de pesquisadores, estudantes, turistas e moradores da cidade.

O Instituto Pretos Novos desenvolveu oficinas realizadas a céu aberto, que passaram a funcionar como passeios-aulas e tiveram grande repercussão entre grupos de estudantes da Rede Pública de Ensino. A partir dessa experiência, foi idealizado, em 2016, o projeto Circuito de Herança Africana, com o objetivo de promover e fortalecer a educação patrimonial dos participantes, especialmente educadores e estudantes. A proposta utiliza os espaços históricos e arqueológicos da Região Portuária como locais de aprendizagem, articulando os diferentes pontos do percurso à história da presença africana, indígena e de seus descendentes no Brasil. A inclusão de outras localidades, além dos seis pontos do roteiro oficial, busca fortalecer a narrativa da atividade e tornar a experiência mais dinâmica.

Revitalização e Afroturismo No contexto das obras preparatórias para os Jogos Olímpicos de 2016, a Zona Portuária do Rio de Janeiro passou por um processo de revitalização por meio do projeto Porto Maravilha, com o objetivo de incentivar o desenvolvimento turístico e sociocultural na área. esquerda|miniaturadaimagem|Jardim Suspenso Durante as intervenções, achados arqueológicos relevantes levaram à criação do Circuito Histórico e Arqueológico de Celebração da Herança Africana, também conhecido como Circuito da Herança Africana. miniaturadaimagem|Pedra do Sal

Atualmente, a área conhecida como Pequena África se consolidou como um polo turístico e gastronômico, impulsionando o afroturismo no Brasil. O Instituto Pretos Novos oferece passeios guiados gratuitos sobre a herança africana no Rio de Janeiro, com roteiro que começa em frente à estátua de Mercedes Baptista, primeira bailarina negra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, no Largo São Francisco da Prainha. O percurso dura cerca de duas horas e abrange locais históricos e culturais, como a Pedra do Sal, o Morro da Conceição, o Jardim Suspenso do Valongo, a Casa da Tia Ciata, o Cais do Valongo e o Cemitério dos Pretos Novos, destacando as conexões entre a zona portuária e a história da escravidão no Brasil. Na Pequena África também acontecem eventos culturais, como rodas de samba e festivais de arte, promovendo a preservação e valorização da herança afro-brasileira.

Galeria do Circuito de Herança Africana (IPN – Museu Memorial)

Ligações externas no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira

ARANTES, Erika Bastos . Campinas: Unicamp, 2005.

MOURA, Roberto.

. Por Evelyn Furquim Werneck Lima. Vitruvius, ano 2, dezembro de 2001

Categoria:Zona Portuária do Rio de Janeiro Categoria:História da cidade do Rio de Janeiro Categoria:História dos afro-brasileiros