O conjunto da Igreja e convento da Graça, também designado por Convento da Graça, Convento de Nossa Senhora da Graça, Igreja Paroquial da Graça ou Igreja de Santo André e Santa Marinha, está localizado no Largo da Graça, na freguesia de São Vicente, em Lisboa, estando adjacente a um miradouro com vista sobre a cidade e o rio.
Pertencia à Ordem dos Agostinianos Eremitas (Ordo eremitarum Sancti Augustini), hoje conhecida como Ordem de Santo Agostinho, e por isso, por ter aqui a sua sede em Portugal, também era conhecida por Ordem dos GracianosConvento da Graça / Convento de Nossa Senhora da Graça/ Igreja Paroquial da Graça / Igreja de Santo André e Santa Marinha, SIPA.
Remonta ao início da nacionalidade portuguesa, fundado no século XIII, no Monte de São Gens, no antigo local conhecido por Almofala, onde D. Afonso Henriques terá acampado com as suas tropas durante o cerco a Lisboa em 1147. Foi depois reedificado no século XVI e restaurado após o terramoto de 1755, dado que grande parte da igreja ruira, sobretudo a fachada, as abóbadas da capela-mor e do cruzeiro.
Após a extinção das ordens religiosas o convento foi transformado em quartel de diversas unidades do exército. Está classificado como Monumento Nacional desde 1910.
História Origens O convento da Graça remonta à época da Reconquista cristã, registando-se a fundação de um eremitério nas Olarias (zona da actual Rua do Terreirinho) e a subsequente edificação de um mosteiro no monte de São Gens em 1147. Em 1243, uma mulher de nome Susana doou aos frades eremitas calçados de Santo Agostinho um monte para a edificação que rapidamente se revelou inadequado, provavelmente devido ao vento e à falta de água, forçando uma nova transladação. A localização definitiva estabeleceu-se em Almofala, um pequeno arrabalde mourisco situado no exterior da malha urbana amuralhada, que albergou o acampamento de D. Afonso Henriques durante o cerco de Lisboa de 1147.
Neste local, doado pela edilidade sob o patrocínio de D. Afonso III, arrancou em 1271 a construção da terceira casa conventual, dotada de uma igreja gótica consagrada a Santo Agostinho e de instalações mais espaçosas, concebidas à época para albergar 50 monges. A mudança oficial da comunidade consumou-se no ano de 1291, transferindo-se para a nova estrutura, então designada por Convento de Santo Agostinho, a sede perpétua da Cabeça da Ordem Provincial.
A fixação do clero impulsionou uma modesta urbanização da área contígua, preenchida até então apenas por pomares, searas e olivais que ladeavam a antiga via mourisca de ligação aos arrabaldes do Nordeste. A dedicação do convento e por extensão da própria colina/zona a Nossa Senhora da Graça foi determinada a 3 de Março de 1305 pelo 8.º Geral da Ordem dos Agostinianos, Frei Francisco do Monte Rubiano, em cumprimento de um voto formulado em Roma.
Quando a muralha fernandina foi erigida em 1375, o seu perímetro oriental englobou o cenóbio, com excepção da face sul, excluindo, no entanto, o rudimentar casario adjacente por não justificar a sua inclusão no cinto defensivo. O acesso aos arrabaldes e a comunicação com a urbe fizeram-se, durante séculos, através do postigo da Graça e do postigo do Caracol da Graça, passagens que foram demolidas apenas em 1700 — por esta altura, delineou-se a configuração do actual largo fronteiro, onde até hoje subsistem vestígios da torre primitiva de acesso.
Os milagres Reza a lenda que, a 14 de Agosto de 1362, durante a vigília da Assunção, pescadores de Cascais recolheram no mar, com as suas redes, uma enigmática imagem da Virgem com o Menino, talhada em madeira de cipreste. Perante a incerteza do destino a dar à efígie, uma criança terá indicado que a efígie deveria ir para "o mosteiro de seus frades". No dia seguinte, a figura foi transportada em solene procissão popular e entregue à guarda dos agostinianos.
Passados 23 anos, a 14 de Agosto de 1385, diz-se que a mesma escultura sagrada terá anunciado a vitória de Portugal na Batalha de Aljubarrota àqueles que oravam prostrados perante o seu altar, motivando o Cabido Eclesiástico e o Senado da Câmara a instituírem o voto perpétuo de realizar uma romaria anual, com feira associada, interrompida exclusivamente durante o domínio espanhol de Portugal (1580-1640). O extenso panteão devocional da igreja passou a englobar posteriormente a figura de Nossa Senhora da Soledade, esculpida em 1827 por Francisco de Borja Gomes por um valor de 36$000, e a venerada imagem de Nossa Senhora da Pérsia. Esta última imagem terá sido furtada dos templos de Ormuz em 1622 por um árabe e, perante a derrocada dos negócios do mercador, a peça foi readquirida pelos agostinianos locais, enviada estrategicamente para Goa por receio de represálias e, finalmente, instalada na capela lisboeta de Santa Ana no ano de 1645. Fomentou-se ainda a devoção de monarcas, como o Infante D. Henrique e a Infanta D. Maria, tendo esta última mandado revestir a efígie de Nossa Senhora da Graça primitiva de prata, excepto no rosto e nas mãos.
Séculos XV a XVII: panteão e nova traça renascentista Ao longo dos séculos XV a XVII, a igreja da Graça serviu quase como um panteão para a aristocracia lisboeta. A 1 de Junho de 1472, Rui Gomes de Alvarenga, chanceler-mor do conselho régio, e D. Melícia de Melo instituíram na igreja a respectiva capela sepulcral. O testamento de Afonso de Albuquerque, assinado a 24 de Março de 1506, determinou uma capela para albergar os restos mortais de seu pai e do seu bisavô (Gonçalo Lourenço Gomides). O corpo do conhecido governador da Índia viria também a ser inumado na capela-mor a 18 de Maio de 1566, de onde o seu túmulo seria removido em 1635. A antiga capela de São Fulgêncio (actual baptistério) foi legalizada a 16 de Julho de 1530 por Lopo Soares de Albergaria, 3.º vice-rei da Índia, para sua sepultura e da sua consorte, D. Joana de Albuquerque.
Seguiram-se: a fundação da capela de São Marçal por João Carreira de Almada em 1537, com inumação frente à mesma; a doação de terrenos exteriores aos muros por D. João III em 1544; a empreitada referida na carta de Pedro Fernandes a 1 de Agosto de 1547; e a instituição da capela de Santa Ana por D. Ana de Almeida e o seu esposo, falecidos em 1599. Um registo de 1551, da autoria de Cristóvão Rodrigues de Oliveira, relatava a existência à época de 70 frades e 13 capelas:O Mosteiro de Nossa Senhora da Graça é de frades de santo Agostinho da correia. Há nele setenta frades professos, e destes são vinte de missa. Há neste mosteiro treze capelas. Quatro são quotidianas e os padres as cantam; e as outras seis, uma é de são Marçal, e outra de Nossa Senhora da Graça, de muita devoção e esmolas, outra de santa Ana, outra da Assunção de Nossa Senhora, outra do Espírito Santo, outra de santa Mónica. As outras três são de administradores em que os padres são obrigados a dizer certas missas por defuntos que deixaram bens ao dito mosteiro. E destas três capelas, e por outras obrigações que têm, se dizem no mosteiro cada ano duzentas e quarenta missas cantadas, e mil cento e vinte uma rezadas. Há nele três confrarias: uma de Nossa Senhora da Graça, e outra de são Marçal, e outra de santa Ana. Valem as esmolas delas trezentos e cincoenta cruzados. E a renda do mosteiro vale dois mil e quinhentos cruzados. E há nele dez servidoresminiaturadaimagem|297x297px|A figura do Senhor dos Passos é objecto de veneração desde o século XVI (imagem de 2006)Perante a visível degradação estrutural do gótico primitivo, o conjunto foi demolido e integralmente reconstruído entre 1556 e 1565 sob a direcção do Bispo D. Frei Ambrósio Brandão e Vigário-Geral Frei Luís de Montoya e traça de Custódio Vieira. A igreja foi alargada, contemplando agora três naves, um vasto transepto e um monumental claustro nobre de refinado gosto serliano. As obras custaram 70 mil cruzados, uma despesa bastante avolumada, sendo as rendas e as esmolas do convento bastante modestas. A reconstrução ficou assim envolta numa certa aura mística:piamente se crê que a maior parte do dinheiro aplicado lho deu [a Frei Luís de Montoya] e mandou o Céu pelas mãos de seus Anjos, como por assentar tão elevada e dilatada máquina em sítio tão iminente sobre poucos ou nenhuns alicerces, dizendo ele aos Mestres, que duvidavam sobre tão fracos fundamentos sustentar tanta obra, que o céu lhos poria a seu tempo; e quando acabada a Igreja, a rodeou,na última cimalha, de Cruzes, então os certificou de que aqui igreja tinha já mais fortes e seguros alicercesAssinale-se que, devido aos danos infligidos pelo terramoto de 1755, sobreviveram desta campanha apenas o actual baptistério e o paramento contíguo que alberga as sepulturas dos Alvarengas. A constituição da Irmandade de Vera Cruz e Passos de Cristo, criada em 1586 por Luís Álvares de Andrade na igreja de São Roque, ditou a transferência do culto para o claustro grande da Graça por escassez de espaço na paróquia original. Estava inaugurada, a partir de 1587, a notória Procissão dos Passos na Quaresma, que unia os dois edifícios, visitando passagens nas ruas.
No século XVII, e existindo já uma Capela do Senhor Jesus dos Passos no claustro, o Mosteiro acolheu sepultamentos de figuras ilustres: o governador da Índia André Furtado de Mendonça (1610), o bispo de Miranda D. Pedro Pueros (1649), o bispo do Funchal Dom Jerónimo Fernando (1650), Agostinho Preto Falcão (1663), e as ossadas de Jorge Francisco de Azevedo e de Joana de Pina Palha em 1691. O Conde de Vila Verde enterrou, contra a vontade da igreja, um dos seus filhos na Sala do Capítulo em Outubro de 1689. Em termos patronais, destacam-se os 100$000 deixados pelo rei Filipe II para o sacrário em 1616 e a instituição da capela de Nicolau da Veiga Ximenes na sacristia, a 15 de Janeiro de 1627, para os seus pais Lupo Duarte Ximenes e Joana da Veiga.
Sob a tutela de provedores como Luís das Póvoas (1620-1621), construiu-se a Casa do Despacho entre 1623 e 1630, laborada pelo pedreiro Diogo Vaz e pelo carpinteiro João Lobato. Destaca-se ainda a execução do retábulo dos Passos pelo entalhador António Ramos e pelo dourador Tomé da Costa (1632), ornamentando-se o anexo com azulejos de Manuel Pinheiro (1636, por 17$500) e painéis de tribuna do pintor José do Avelar Rebelo (1642, por 18$000). Após a doação do altar pela confraria de São Marçal a 9 de Abril de 1667, a imagem tutelar transitou para o cruzeiro da igreja (1667 a 1670) com intervenção directa de João Nunes Tinoco. Obras de ampliação seguiram-se no transepto em 1668, adjudicadas ao pedreiro Jacinto Simões (315$000) e ao entalhador Pedro Álvares Pereira (150$000). A Irmandade, requerendo autorização camararária a 21 de Maio de 1674, ampliou a sua infraestrutura até 1675, promovendo a edificação sequencial de Passos pelas ruas da cidade: um na Rua do Benformoso (1673-1674, destruído em 1795) e outro na zona da Mouraria (1698 a 1702).
A planta de Lisboa de 1650, concebida pelo já referido João Nunes Tinoco, mostra que na altura, o convento cobria a área da igreja até à muralha fernandina, contendo duas torres na ala norte, o que indica que o claustro pequeno, iniciado em finais do século anterior, já existia a essa data.
Terramoto e reconstrução