Francisco Domingos da Silva (Alto Tejo, Território do Acre, c. 1910 – Fortaleza, 6 de dezembro de 1985), conhecido como Chico da Silva, foi um pintor brasileiro. Analfabeto a vida inteira, começou por volta de 1937 desenhando com carvão, giz e cacos de tijolo nos muros caiados dos casebres da Praia Formosa, em Fortaleza, e assinava os quadros "F. D. Silva", com um carimbo do polegar ao lado.

Em 1943 o pintor suíço Jean-Pierre Chabloz, que estava em Fortaleza a serviço da Campanha da Borracha, viu os muros e foi atrás de quem os pintava. Deu-lhe guache, papel e pincéis, comprou o que ele produziu e levou os trabalhos para a Europa, onde em dezembro de 1952 publicou na revista parisiense Cahiers d'Art o artigo "Un indien brésilien ré-invente la peinture". Em 1959, de volta a Fortaleza, apresentou-o ao reitor da Universidade Federal do Ceará, que o contratou para pintar nas dependências do museu de arte então em implantação. Desse conjunto de cerca de quarenta obras saíram os doze guaches que representaram o Brasil na XXXIII Bienal de Veneza, em 1966, onde ele recebeu uma menção honrosa. No ano seguinte participou da IX Bienal de São Paulo.

O repertório mudou pouco em quarenta anos: dragões, peixes voadores, aves e cobras em cor chapada, sem profundidade e sem espaço vazio, primeiro em guache sobre papel e depois em acrílica sobre tela. A crítica o classificou sucessivamente como primitivo, naïf e folclórico, e ele recusava a leitura mais repetida sobre seus temas, a de que seriam memória da infância amazônica. O maior conjunto público de obras suas está no museu da universidade cearense, e há trabalhos também na Tate, no Museu de Arte do Rio e no museu de arte naïf de Laval, na França.

A procura pelos quadros passou do que ele conseguia pintar, e em torno dele formou-se no Pirambu um ateliê coletivo em que discípulos e parentes executavam por etapas as pinturas que ele acabava, assinava e vendia, conhecido como Escola do Pirambu. O arranjo veio a público em 1969, quando Maria Augusta do Carmo Moreira, então com quinze anos, declarou aos jornais ser a autora de telas assinadas por ele. Seguiu-se uma década de falsificação em escala industrial, com o nome dele em quadros vendidos a preço de lembrança nas portas dos hotéis de Fortaleza, e a autoria de sua obra continua em disputa. Doente e pobre, passou os últimos dez anos entre internações por cirrose e alcoolismo, e morreu em 1985. Sua obra voltou aos museus na década de 2020, quando as curadorias passaram a apresentá-lo como artista indígena, classificação que a pesquisa acadêmica discute.

Infância e formação Chico da Silva nasceu no Alto Tejo, às margens do rio de mesmo nome, no Território do Acre, perto da fronteira com o Peru, em área que então pertencia ao município de Cruzeiro do Sul e hoje integra Marechal Thaumaturgo. Nunca teve registro de nascimento, e as fontes dão datas separadas por quase vinte anos: 1910 na carteira de identidade, que é a data adotada por Roberto Galvão e pela bibliografia corrente; 1914 ou 1916 em entrevistas do próprio pintor ao mesmo autor; 16 de março de 1922 no catálogo de sua primeira individual; e 2 de maio de 1928 numa conversa de 1972 com o crítico Luiz Ernesto Kawall. Ele já dera o mesmo ano ao Correio da Manhã em junho de 1966, quando também disse que a família se mudara para Fortaleza quando ele tinha onze anos. O crítico Estrigas defendeu 1922 ou 1923 e atribuiu o 1910 a um erro que passou de catálogo em catálogo, entre eles o Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, de Roberto Pontual.

Era filho de Minervina Félix de Lima, cearense que tinha seguido a borracha para a Amazônia, e de um caboclo peruano de sobrenome Domingos da Silva, que Galvão supõe de origem kampa. O catálogo de 1961 nomeia o pai como Luiz Domingos da Silva. Segundo o filho, o pai tinha barcos e o levava nas viagens pelos rios. A família voltou para a terra da mãe quando ele ainda era menino, e o pai morreu no Ceará, picado por uma cascavel. Morou em Quixadá e depois na serra de Guaramiranga, onde trabalhou no sítio Canabrava, e chegou a Fortaleza já rapaz, fixando-se no Pirambu, uma faixa de dunas e casebres de pescadores na zona oeste da cidade.

Foi analfabeto a vida inteira. Já adulto, no museu da universidade, aprendeu a desenhar a própria assinatura, e a impressão do polegar veio depois. Antes de viver de pintura fez de tudo: tamanqueiro, sapateiro, barbeiro, consertador de guarda-chuvas, e vendia fogareiros de lata que ele mesmo fazia. Um perfil publicado no diário Unitário, de Fortaleza, em 1967, quando ele já vendia por galeria, ainda o apresentava como o sapateiro que passara a pintar nas horas vagas. Por volta de 1937 começou a desenhar nos muros caiados dos casebres da Praia Formosa, perto do Passeio Público e do Poço da Draga.

Chabloz e os primeiros guaches Em 1943 o pintor suíço Jean-Pierre Chabloz, que estava em Fortaleza a serviço da Campanha da Borracha, foi com outros artistas a uma excursão à Praia Formosa e viu as pinturas nas paredes. Perguntou quem as fazia e lhe responderam que era um índio que aparecia, desenhava e ia embora. Deixou o endereço com os moradores, e os dois se encontraram meses depois. Chabloz encomendou trabalhos em papel, entregou o material e pagou adiantado: folhas de bristol, nanquim, guache, tinta pastel, lápis, penas e pincéis. Ao longo das estadas de 1943-1945 e 1947-1948 formou uma coleção de cerca de vinte guaches.

Antes de ser conhecido, corria no bairro que ele fosse débil mental, avaliação que Estrigas recusaria, e o descreve como vivo e habilidoso, sem instrução escolar formal. Os primeiros guaches entraram nos salões de Fortaleza em 1944, no III Salão Cearense de Pintura. Em 1945 Chabloz organizou na Galeria Askanasy, no Rio de Janeiro, uma mostra de artistas cearenses que incluía trabalhos seus, e dela veio a primeira crítica nacional.

Naquela década os quadros quase não eram vendidos. Como não havia mercado de arte em Fortaleza, eles circulavam como presente para membros da elite cultural da cidade, e o comércio especializado só apareceu nos anos 1960, com ele próprio entre os primeiros nomes a sustentá-lo.

Chabloz voltou à Europa em 1948 levando a coleção, e Chico da Silva largou os pincéis por cerca de dez anos. O diário O Nordeste, de Fortaleza, registrou a partida em agosto daquele ano. Os quadros viajaram sem ele: Genebra, no Salão Beauregard, em 1949, onde o Journal de Genève anunciou uma mostra de "gouaches primitives" do pintor índio amazônico Francisco Silva, em cartaz até 12 de outubro; Lausanne, na Galeria Pour l'Art, em 1950; Lisboa, na embaixada brasileira, em 1951; e Paris em 1952, onde Chabloz os mostrou a André Malraux e ao crítico Christian Zervos. Malraux respondeu por carta pedindo que confiassem muros ao pintor. Em dezembro de 1952 Chabloz publicou na revista parisiense Cahiers d'Art o artigo "Un indien brésilien ré-invente la peinture". De novembro de 1955 a fevereiro de 1956 a obra esteve em Le Brésil, o panorama de arte primitiva, popular e moderna brasileira com que o Museu Etnográfico de Neuchâtel, na Suíça, inaugurou sua sala de exposições.

O museu da universidade e o mercado Em novembro de 1959, de volta a Fortaleza, Chabloz encontrou-o sem pintar e apresentou-o a Antônio Martins Filho, reitor da Universidade Federal do Ceará, que implantava o museu de arte da instituição. Contratado pela universidade, Chico da Silva passou a pintar nas dependências do próprio museu, e dali saíram as cerca de quarenta obras que formam o núcleo daquele acervo. A versão do próprio pintor sobre o emprego era outra: ao Correio da Manhã, em 1966, disse que ficara dois dias e saíra por não aceitar gritos, e um perfil de 1967 em Fortaleza, que confirma a contratação pelo reitor com bom salário, o mostra largando o emprego com a frase de que não era homem para trabalhar com patrão. Participou da exposição inaugural do museu em 25 de junho de 1961, com seis guaches. Sua primeira individual tinha aberto dois meses antes, em 10 de abril, na sede dos Diários Associados, e ficou uma semana em cartaz. Levantamentos de artistas cearenses publicados em Fortaleza em 1965 e 1967 ainda creditavam aos Diários Associados o lançamento dele.

Por volta de 1963 aproximou-se de Henrique Bluhm, cantor lírico alemão e dono de uma lanchonete no centro de Fortaleza, que virou seu primeiro marchand e organizou mostras no Rio e em São Paulo. Bluhm foi o primeiro em Fortaleza a se chamar marchand, e depois dele vieram Maurício Xerez e José Edilson Pitombeira, o Dão. Em setembro daquele ano, uma individual na Galeria Relevo, no Rio, organizada por Jan Boghici, abriu o mercado do Sudeste para o pintor. Chabloz afastou-se dele ao voltar da Europa, em novembro de 1962, desinteressado do que chamou de façanhas "mais mundanas que artísticas".

Veneza, 1966 O crítico Clarival do Prado Valladares incluiu Chico da Silva na delegação brasileira à XXXIII Bienal de Veneza, escolhendo em janeiro de 1966 doze trabalhos no acervo do museu da universidade, e resistiu à pressão para desligá-lo, movida, segundo Roberto Galvão, por preconceito contra a arte primitiva e por interesse de mercado. Em carta de setembro daquele ano, Valladares escreveu que fora "terrivelmente combatido" em Veneza por brasileiros contrários à presença do pintor. Ele não viajou. Quatro guaches foram pendurados, e o júri concedeu a menção honrosa depois que o crítico mostrou a cinco de seus membros os guaches que tinham ficado fora das paredes; a comissão brasileira negou o beneplácito à distinção, que Valladares descreveu como inédita para um primitivo na história da mostra. O arquivo histórico da própria Bienal nomeia os quatro, todos guaches: Serpente della serra luminosa, Uccello e pesce roni, Drago con serpente e Tronco d'albero con serpente; e registra a distinção como menzione. Estrigas registra que o prêmio pleiteado acabou indo para Arthur Luiz Piza, e trata a menção como o único prêmio que o pintor recebeu em toda a vida. A comenda nunca chegou às mãos dele: em 1974 o prefeito de Fortaleza ainda tentava mandá-lo ao Rio de Janeiro para recebê-la. No ano seguinte ao da Bienal, participou da IX Bienal de São Paulo.

Ele nunca saiu do Brasil, mas contava viagens que não fez, a países que incluíam um chamado Juberlano, e falava de uma audiência com a rainha Elizabeth II e de um cumprimento de De Gaulle. Em 1977, a repórteres que pediram para ver, mostrou um passaporte vencido dez anos antes e sem nenhum visto de saída.

A Escola do Pirambu

A oficina thumb|upright=1.35|alt=Ave enorme de pescoço curvo e corpo em espirais, acima de quatro aves menores de crista|Ave Fantástica e Filhotes, c. 1969. Guache sobre papel, 43 × 59 cm. O pontilhado que cobre a superfície era a etapa que cabia aos auxiliares. A procura passou do que ele conseguia entregar, e entre o fim de 1963 e o começo de 1964 ele passou a trabalhar com auxiliares, garotos da vizinhança. O núcleo inicial tinha cinco nomes, com idades entre doze e dezoito anos: Babá (Sebastião Lima da Silva), Claudionor (José Claudionor Nogueira), Garcia (José dos Santos Gomes), Ivan de Assis (Ivan José de Assis) e Chica (Francisca Silva), filha do pintor. O trabalho era dividido por etapa: Claudionor, Ivan e raramente o próprio Chico faziam os desenhos; Babá, Ivan e Garcia enchiam as cores e faziam o pontilhado; e ele reservava para si o acabamento, o verniz aplicado com bomba de flit, a assinatura e a venda. O aprendizado era escalonado: primeiro o aprendiz enchia os esboços, depois passava à pigmentação e só então podia criar os próprios bichos. Todos recebiam pelo serviço executado, e o quanto recebiam é o ponto em disputa: Chica lembra de ter ganho trinta cruzeiros por um quadro vendido por cem.