A Catedral de BarcelonaGuia visual Folha de S.Paulo - Barcelona e Catalunha. São Paulo. Publifolha. 2001, p. 56. é a catedral católica de Barcelona, capital do Principado da Catalunha situado em Espanha. A catedral, em estilo gótico, foi construída nos séculos XIII a XV sobre a antiga catedral românica. Esta, por sua vez, foi edificada sobre uma igreja catedral da época visigoda. A esta, precedeu uma igreja paleo-cristã, cujos restos podem ser vistos no subsolo, no Museu de História da Cidade. A fachada de estilo neogótico é, no entanto, muito mais moderna ().
Foi sucessivamente dedicada à Santa Cruz (a cruz em que Jesus foi executado) e a Santa Eulália, patrona da cidade de Barcelona, uma jovem donzela que, de acordo com a tradição católica, foi uma mártir durante a época romana. A dedicação a Santa Eulália data de 877,CARABASSA, Lluïsa. Santa Creu e Santa Eulália de Barcelona, dentro de Guias Catalunha Romanica Vol. XIX. Barcelona, 2002. Ed. Enciclopédia Catalã. ISBN 84-412-0730-5 quando o bispo Frodoí localizou os restos da santa e os levou solenemente para a catedral.AINAUD DE LASARTE, J.M O bispo Frodoino restaurador da Catedral de Barcelona, dentro de Divulgação histórica de Barcelona Butlletí 639, Vol IX. Barcelona, 1957. Aymà editor. Uma das histórias relativas à santa conta que ela foi exposta nua no fórum da cidade e que, milagrosamente, pois já era primavera, caiu uma nevasca que cobriu sua nudez. As enfurecidas autoridades romanas meteram-na, então, num barril com vidros quebrados e cravos e lançaram o barril encosta abaixo (de acordo com a tradição, isto ocorreu Rua da Baixada de Santa Eulália, também conhecida como Costa de Santa Eulália).
thumb|290px|Jardim do claustro
História A igreja paleocristã A igreja paleo-cristã está documentada desde o , porém, supõe-se que seja mais antiga, já que a existência dos bispos de Barcelona é conhecida desde meados do . De facto, o documento mais antigo que os comprova são as actas do Concílio de Sárdica (actualmente Sófia, capital da Bulgária), nas quais se atesta a existência de um bispo de Barcelona em meados do . Além disso, o cronista João de Bíclara escreveu as actas do 2.º Concílio de Tarragona, realizado no ano de 599 (data A. D.), nas quais consta que a primitiva catedral paleo-cristã estava dedicada à Santa Cruz. Entrando pelos subterrâneos do Museu de História da Cidade, podem visitar-se os restos de uma suposta basílica paleo-cristã e de um baptistério octogonal (situado debaixo da fachada posterior do coro central da catedral actual) O baptistério foi escavado pelo arqueólogo Frederic-Pau Verrier em 1965. Os restos encontrados da suposta basílica paleo-cristã, situados debaixo do espaço que se situa entre actual fachada do século XIX e a fachada posterior do coro central gótico, consistindo basicamente num pavimento e nos alicerces de antigas colunas fizeram pensar que aí tinha existido uma basílica paleo-cristã com três naves (a planta típica das basílicas romanas) dispostas transversalmente à actual, estando a cabeceira ao nordeste (tanto a cabeceira românica românica original como a presente cabeceira gótica estão claramente viradas a sudeste) e a fachada ao sudoeste, debaixo das capelas do lado do Evangelho da catedral actual. Actualmente sabe-se que esta suposta basílica paleo-cristã era, na realidade, uma sala de recepção do palácio episcopal, enquanto a verdadeira igreja paleo-cristã devia estar por debaixo da catedral românica, isto é, debaixo do actual cadeiral do coro central, do presbitério e da ábside e, se dela se não se encontrou restos, é porque esta zona não foi escavada.Do romano ao románico. História, arte e cultura da Tarraconense mediterrânea entre os séculos IV e X. Barcelona, 1999. Enciclopedia Catalã. A igreja paleo-cristã foi remodelada completamente antes do , dando lugar à igreja visigótica, e esta, por sua vez, foi destruída em 986 pela razia de Almançor. thumb|150px|Situação da catedral románica (em vermelho) com respeito à catedral gótica actual (em negro).
A igreja românica A catedral românica, consagrada em 1058 pelo arcebispo de Narbona, foi construída por impulso do bispo Guislaberto e tinha a mesma orientação da catedral actual. Bem menor que a atual, de três naves com três ábsides e sem cruzeiro, tinha o campanário próximo de onde hoje está o claustro. Sua orientação coincide com a actual, com o presbitério e a cripta no mesmo lugar. Tinha um átrio, que ocupava a entrada do actual coro central e as naves só começavam onde começam agora os cadeirais do coro central. Foram localizados parte dos alicerces da porta principal, que também podem ser vistos entrando pelo Museu de História da Cidade, e localizaram-se algumas pedras aproveitadas na construção dos alicerces da catedral gótica. Parte da porta da porta lateral que atualmente dá acesso ao claustro pode ter sido aproveitada a parir da antiga porta românica.
A catedral gótica As obras de construção da catedral gótica iniciaram-se em maio de 1298, reinando Jaime II, o Justo, e sob o pontificado episcopal de Bernat Peregrino (1288-1300), começando pela cabeceira, desmontando-se, ao mesmo tempo, a antiga catedral românica e aproveitando-se alguns elementos da mesma na nova catedral gótica, sobretudo elementos escultóricos, como possivelmente as impostas da porta de Santo Ivo, que é a mais antiga da catedral.
As obras não se apresentaram como a construção de uma nova catedral, mas antes como uma reforma e ampliação da catedral românica (…extensione et ampliatione nostre catedralis ecclesie…),Escrito em que o bispo Bernat Peregrino aplica os benefícios vagas da diócesis à construção da catedral. 7 de maio de 1298. Recolhido em Cataluña Románica. Ed. Enciclopedia Catalã sendo que foram feitas por fases, sem derrubar nunca completamente o templo e o permitindo seu uso para o culto divino durante toda a duração da obra (inclusive algumas partes da catedral românica serviram de apoio para construir a gótica). Assim, a catedral gótica conserva o mesmo eixo que a românica (Noroeste/Sudeste) e o deambulatório está construído em torno da antiga ábside central românica (Sudeste).Cataluña Románica. Ed. Enciclopedia Catalã
Na primeira etapa construiu-se a ábside, as capelas radiais e a cripta do presbitério, que foi terminada em 1338, sendo o mestre de obras Jaume Fabre, o primeiro arquitecto de que se tem notícias, durante o pontificado do bispo Ponç de Gualba (1303-1334). Em 23 de junho de 1317, assinou-se o contrato de empreitada para a segunda etapa.
thumb|250px|A fachada no ano 1880 A segunda etapa consistiu no prolongamento das três naves com as capelas adjacentes do lado da epístola e do lado do evangelho, o zimbório coberto com tecto em caixão de madeira, as capelas na fachada principal do templo e, finalmente, o muro com que se fechou a mesma em 1420, à espera de poder realizar a fachada definitiva, que já tinha sido traçada por Carles Galtés de Ruan (denominado Carlí) em 27 de abril de 1408.segundo consta a um projecto em pergaminho , do arquivo capitular, o qual esteve exposto na exposição Millenium no ano 1989
Pode-se dizer que as obras da segunda etapa da construção gótica duraram uns 150 anos e entre os mestres de obra que participaram nesta etapa contam-se Bertran Riquer (1344), Bernat Rocha (1358), Arnau Bargués (1397), Jaume Solà (1401), Bartomeu Vau (1413) e Andreu Escudero (1442).
A fachada neogótica Por ocasião da Exposição Universal de 1888, após quase quatrocentos anos sem fazer grandes obras na catedral, graças ao promotor Manuel Girona e Agrafel e aos seus irmãos, retomaram-se as obras e lançou-se o concurso público para a edificação da fachada no ano 1882, estabelecendo como critério estilístico a seguir o gótico. Foi o projeto adjudicado a Josep Oriol Mestres, arquitecto titular da catedral desde o ano 1855. Inspirou-se no traçado realizado no ano 1408 por Carles Galtés de Ruan.
Edifício thumb|250px|Planta da Catedral de Barcelona
O edifício é formado pelo templo e pelo claustro, perfeitamente unidos pelo mesmo estilo gótico. As medidas da catedral são de 90 metros de comprimento por 40 metros de largura e o jardim quadrado do claustro tem 25 metros por cada lado mais 6 de largura por cada galeria das quatro que o rodeiam.
Estrutura do templo A catedral é formada por três naves da mesma altura, desde o falso cruzeiro, as naves laterais passam a ser curvas e unem-se em charola, passando por trás do presbitério e formando um arco semicircular (deambulatório), onde se alojam novas capelas; acima destas capelas há grandes vitrais e um falso trifólio cujas chaves de abóbada podem ser admiradas a uma distância de uns três metros. A nave central tem o dobro de largura das laterais e além das capelas do deambulatório, as naves laterais dão acesso a 17 capelas, às quais se tem que acrescentar as 20 capelas do claustro e a capela de Santa Luzia com entrada a partir do exterior. A distribuição em três naves é corrente nas grandes igrejas góticas, mas enquanto, nas catedrais francesas e nas que seguem o mesmo exemplo gótico, a presença de três naves serve para dar luz à igreja, fazendo a nave central mais alta que as laterais e abrindo grandes janelas nas paredes da nave central (ver por exemplo a Catedral de Reims) na Catedral de Barcelona a ênfase está na unidade do espaço, levantando-se as três naves quase à mesma altura tal como se fez em outras igrejas do gótico catalão: por exemplo, na de Santa Maria do Mar adopta-se aproximadamente a mesma solução, e nas igrejas mais pequenas como Santa Maria do Pinho ou na do Mosteiro de Pedralbes eleva-se a unidade do espaço até ao extremo fazendo a igreja de uma só nave.
Contrafortes interiores 250px|thumb|As capelas de São Bernardo (esquerda) e da Virgem do Rosário (direita)
As paredes das fachadas laterais exteriores não são contíguas às naves laterais, mas situam-se mais afora, deixando os contrafortes no interior do edifício, quando habitualmente ficam no exterior. Isto aumenta aparentemente a catedral, com a impressão de acrescentar uma nave a mais de cada lado. No entanto, no nível inferior, o espaço entre os contrafortes não se cobre com uma abóbada de cruzaria, mas com duas, isto é, cada espaço tem duas capelas com galeria sobreposta). Isto tem efeitos sobre a iluminação do interior e sobre a disposição das capelas.
Efeitos sobre a iluminação Tendo sido ampliado o espaço interior do edifício, os vitrais ficam bem mais longe do centro do que seria normal e, além disso, a iluminação fica dificultada pelos contrafortes e pelos arcos que sustentam as abóbadas entre os contrafortes. A parte da catedral em que esta falta de iluminação se sente menos é a abside, que é a única parte em que os contrafortes ficam no exterior do edifício e os vitrais se situam na parede do deambulatório semicircular que sucede às naves laterais nesta parte do edifício.
Efeitos sobre as capelas Quando os contrafortes se situam no exterior, é entre eles que se situam os arcos que sustentam as abóbadas que cobrem as capelas, as quais têm uma alçada proporcionada à sua medida, como acontece na igreja de Santa Maria do Mar. Pelo contrário, na catedral de Barcelona, o espaço entre os contrafortes é excessivo para formar o espaço recolhido que convém às capelas, pelo que as capelas (duas a cada espaço entre contrafortes) estão cobertas por abóbadas mais baixas, deixando espaço para uma galeria em cima. A intenção original devia ser construir mais capelas no lugar da galeria e, de facto, chegaram-se a fazer quatro capelas sobre a galeria do lado do Evangelho, chegando à porta de Santo Ivo, que ainda se podem ver, mas a oferta de capelas devia ser excessiva porque se não construíram mais.BRACONS, J., TERRES, M.R. A Catedral de Barcelona dos de A Arte Gótico em Cataluña. Vol. 1. Barcelona, 2002. Ed. Enciclopedia Catalã. ISBN 84-412-0889-1
Exterior Fachada principal e zimbório