miniaturadaimagem|upright=1.2|Pintura de Johannes Gehrts (1855–1921), baseada no romance histórico Ivanhoé, de Walter Scott, considerado um dos primeiros romances históricos. Romance histórico é um gênero literário em prosa em que a narrativa ficcional se ambienta no passado. Geralmente, os romances históricos são marcados pela influência (em menor ou maior grau) de eventos e personagens históricos no desenrolar da trama. Ao longo da história, o gênero teve um papel importante em trazer para um público leitor conhecimentos históricos através das narrativas de ficção. Apesar de tradicionalmente a origem do romance histórico ser atribuída à obra de Walter Scott no início do , há pesquisas que afirmam que o gênero teve início no final do e início do . Ainda assim, é a partir da publicação e tradução das obras de Scott que esse gênero literário como é comumente entendido se espalha pelo mundo.

O gênero se caracteriza pela forma como articula os aspectos ficcionais da literatura com as pesquisas e com os fatos históricos. Desde o início do gênero, uma das principais preocupações dos autores e dos teóricos é sobre a capacidade do romance histórico em representar, com qualidade, o passado. Nesse sentido, as obras do gênero muitas vezes são criticadas por anacronismos cometidos pelos autores, e por passarem noções erradas sobre o passado. Por outro lado, há também autores, como Ian Mortimer e o próprio Walter Scott, que defendem que uma das principais virtudes do romance histórico é a sua capacidade em tornar o passado palpável, e por serem mais acessíveis ao público geral do que as obras de historiografia.

Outro aspecto importante do gênero é a forma como ele se relaciona à formação dos estados nacionais. O romance histórico desempenhou um papel cultural importante em explorar as relações entre os indivíduos que compõem uma nação e o desenvolvimento histórico dessa nação. Apesar de inicialmente estar ligado à formação dos estados nacionais na Europa, o romance histórico foi utilizado também por autores da América do Sul, da América do Norte, da Ásia, da África e da Oceania para defender a independência dos países contra os regimes coloniais.

No , principalmente durante a segunda metade do século, o gênero passa a ser caracterizado por sua multiplicidade de movimentos literários e subgêneros. Por um lado, há o desenvolvimento de um mercado editorial voltado para o entretenimento de baixo custo, com a produção de centenas de romances históricos por ano, geralmente tidos como tendo pouca complexidade literária. Do outro lado, há a escrita de romances históricos que buscam questionar as convenções do gênero. Na África, na Ásia e na América Latina, o desenvolvimento do romance histórico pós-colonial e o movimento literário do realismo mágico defendem a identidade cultural própria dos países, e os seus movimentos de independência. Há também um movimento em explorar a história de grupos sociais que foram historicamente excluídos de um papel central na literatura, como as mulheres, as pessoas negras, e as pessoas LGBT.

Contexto de surgimento O romance enquanto forma literária surge no , tomando inspirações diretas de outros gêneros de ficção, como o épico, a autobiografia e o romance de cavalaria. A principal característica do romance, e que o diferencia dos gêneros literários ficcionais que vieram antes, é a busca em retratar, através da literatura, a realidade da forma mais fiel possível. Assim, o romance se diferenciava por buscar explorar as experiências individuais e os aspectos psicológicos de seus personagens, além de ter grande preocupação pelos detalhes da ambientação onde a narrativa ocorre. Dessa forma, o romance não utiliza uma narrativa em versos, mas sim em prosa, para transmitir de forma autêntica a experiência individual do personagem, através de suas ações e seus sentimentos.

Para György Lukács, o surgimento do romance histórico como forma literária só foi possível em razão de uma nova percepção histórica que surge no . Para ele, a Revolução Francesa e as guerras napoleônicas são eventos que, além de alterarem a ordem social na França, modificaram também a própria experiência histórica da população geral. Para o autor, as revoluções sociais do final do passaram a fazer com que não apenas as classes letradas, mas também os camponeses compreendessem a história como algo que determina ativamente o seu cotidiano e a sociedade como um todo, ampliando o interesse por livros históricos. Esta nova compreensão da história, ligada profundamente ao desenvolvimento de um sentimento nacional, ocorrida na França e em diversos outros países europeus, permite, de acordo com Lukács, o surgimento do romance histórico como um gênero literário.

A maior parte dos autores situa as origens do romance histórico por volta da virada do para o , especialmente a partir da obra de Walter Scott. Mas sobretudo a partir do , alguns especialistas no tema buscam traçar as origens do romance histórico em autores e gêneros de escrita anteriores a esse período. Dentro deste grupo de pesquisadores, alguns, como Franco Moretti, tentam demonstrar a existência de outras formas de literatura de ficção histórica antes do romance, enquanto outros, como Richard Maxwell e April Alliston, confrontam diretamente a figura de Walter Scott como o criador do romance histórico, afirmando que o gênero na sua forma moderna teve origem na França, no final do . Estes autores, representados sobretudo por Richard Maxwell e seu livro The Historical Novel in Europe, 1650-1950 (2009), colocam como a ideia de Walter Scott enquanto pai do romance histórico se dá em razão principalmente da influência do trabalho de György Lukács nas pesquisas sobre o tema ao longo de todo o .

Público

O tem como característica a ampliação do público interessado em literatura. Apesar disso, não se pode pensar que essa ampliação significava a existência de uma grande massa de leitores; há estimativas de que a correlação entre livro comprado e público comprador era de 1 livro para cada 100 pessoas, enquanto outras mais otimistas estimam a proporção de 20 leitores por exemplar. É preciso considerar também que a maior parte da população era analfabeta no , tanto nas zonas rurais quanto nas urbanas (em menor número). Isso se devia principalmente pela ausência de ensino público: a maioria das escolas eram particulares ou mantidas por doações, tendo custos acima do que a população pobre poderia pagar. Também existiam as escolas de caridade, que instruíam gratuitamente a população, mas que serviram muito mais como uma forma de instruir os trabalhadores pobres para o seu dia-a-dia através da alfabetização do que, de fato, garantir, ou mesmo visar uma instrução letrada capaz de garantir a leitura de obras literárias.

Dessa forma, o grande público-alvo do mercado editorial em ascensão era a classe média, que era, de certa forma, motivada a se instruir de acordo com as necessidades de suas profissões ligadas ao comércio, à administração etc. O que mais tendia a delimitar o público leitor do era a questão econômica, principalmente pelo aspecto material da compra dos livros. Apesar do preço dos livros comercializados variarem bastante dependendo do tipo da capa, do tamanho e de outras características, grande parte dos exemplares custava tanto quanto (ou algumas vezes até mais) do que os salários semanais da maioria das pessoas. Isso fazia com que apenas as pessoas das classes médias-altas e altas tivessem acesso aos livros por meio da compra, e essa é uma característica importante para entender quem era o público leitor desse período. Além das questões materiais, também havia uma separação de classes em relação à leitura: era subentendido que a prática da leitura deveria ser um entretenimento apenas dessas classes elevadas, pois os camponeses e artesãos não poderiam distrair-se de suas tarefas para ler. Outra questão é que a forma do romance, de texto corrido, sem tantos rodeios na maneira de escrita, também permitiu que mais pessoas se interessassem por ele, fazendo com que fosse ampliado o púbico leitor de ficção através do .

Tendo em vista que as mulheres eram o setor mais ocioso da sociedade, em especial as das classes mais altas, elas se tornaram uma das partes principais do público consumidor de romances. Havia a compreensão de que a literatura se adaptava ao mundo feminino, por conta da grande quantidade de tempo livre de que as mulheres dispunham. Enquanto os homens se ocupavam de atividades na esfera pública, tanto de administração de negócios quanto de entretenimento, as mulheres ficavam de fora e a literatura servia para passar o tempo. O autor Ian Watt escreve que mesmo entre as mulheres das classes trabalhadoras de cidades como Londres era comum a restrição das esposas ao ambiente doméstico e muitas não trabalhavam fora. Com o desenvolvimento da manufatura, muitas das tarefas do lar como fazer pão, tecer e fiar não eram mais necessárias, pois esses produtos poderiam ser comprados. Isso também contribuiu para a ociosidade feminina, principalmente nas regiões urbanas como Londres e as cidades provincianas maiores. Outra parte da sociedade que poderia ser incluída no setor ocioso são os aprendizes e os criados, uma das mais numerosas classes de profissionais do . Estes trabalhadores possuíam tempo e luz do dia para ler, e normalmente poderiam pegar os livros emprestados das casas em que trabalhavam, principalmente os criados; assim como tinham mais chances de comprá-los com seu pagamento, já que não precisavam arcar com despesas de alimentação e moradia.

Através do desenvolvimento do comércio, cada vez mais pessoas entraram no que foi se formando enquanto a classe média no , e consequentemente cresceu também o mercado editorial e o público leitor. A ampliação do público com acesso à literatura fez com que ela também se tornasse mais ampla, justamente para atender a esse maior número de leitores.

Preço e circulação O romance, comparado a outros gêneros de livro, tinha um preço mediano, e havia uma série de possibilidades para baratear seu custo e fazê-lo alcançar mais pessoas, como a divisão de uma obra em volumes menores para que fossem vendidos a preços mais acessíveis. Frequentemente esses livros foram impressos em três volumes. Apesar disso, apenas as classes mais abastadas tinham possibilidade material de adquiri-los e lê-los. Uma comparação interessante é a diferença de custos entre os livros de literatura e as peças de teatro na Inglaterra, por exemplo. Segundo Ian Watt, apenas os miseráveis não poderiam gastar um pêni ocasionalmente para ir ao Globe Theatre, enquanto as obras impressas mais simples custavam em média três xelins.

Além dos altos preços dos livros, sendo que apenas as classes mais altas tinham acesso e tempo para o consumo, é preciso lembrar que no só se poderia ler durante o dia ou sob a luz de velas; as velas não eram um produto trivial e os trabalhadores braçais não tinham tempo para ler durante o dia.

Algo que possibilitou uma maior distribuição e aumento do acesso aos livros de literatura, principalmente a de romance, foram as bibliotecas circulantes, nome dado a estabelecimentos comerciais que alugavam livros por preços abaixo dos preços de venda. O próprio Walter Scott, no prefácio da edição de 1826 de Waverley, afirmou que passou boa parte de sua infância em uma biblioteca circulante de Edimburgo. O romance enquanto gênero literário pôde se popularizar através desses locais, pois era a principal atração de quem buscava essas bibliotecas.

Características