Melisenda ( – 11 de setembro de 1161) foi a Rainha de Jerusalém de 1131 até ser forçada a se abster da política em 1152, tendo sido a primeira soberana mulher do Reino de Jerusalém e também a primeira mulher a ocupar um cargo público em qualquer um dos estados cruzados. Era a filha mais velha do rei Balduíno II e da rainha Morfia, tendo sido declarada a herdeira presuntiva do trono e se casado com Fulque V, Conde de Anjou, na década de 1120 quando ficou claro que seu pai não teria filhos homens. Balduíno II morreu em meados de 1131 e Melisenda e Fulque foram coroados como rainha e rei pouco depois.
Fulque tentou governar sozinho no início do reinado conjunto, porém barões se revoltaram e a rainha ficou mais poderosa, aterrorizando o rei e seus apoiadores até ele concordar em compartilhar o governo com ela. Os dois reconciliaram e tiveram um segundo filho, com Fulque não mais tomando qualquer tipo de decisão sobre o reino sem antes consultar Melisenda. Durante o reinado conjunto, ela administrou as relações e patronato com a igreja. Fulque morreu em 1143 e Melisenda assumiu poderes totais junto com seu filho mais velho, Balduíno III. Este alcançou a maioridade dois anos depois, mas Melisenda se recusou a ceder a autoridade para ele. Ela defendeu uma intervenção militar da Europa após a queda de Edessa em 1144, o que levou à Segunda Cruzada.
O relacionamento de Melisenda com Balduíno III ruiu em 1150 à medida que ela reduzia ainda mais o envolvimento dele em questões de estado. A Alta Corte dividiu o reino entre mãe e filho em 1152. Entretanto, Balduíno invadiu a parte de Melisenda semanas depois e a cercou na Torre de David. Ela concordou em deixar a política e ir para Nablus. Melisenda continuou a se envolver em assuntos da sua família, que também governava Antioquia e Trípoli. Sua influência em Jerusalém ficou limitada, mas mesmo assim ela aconselhou Balduíno e realizou uma campanha militar bem sucedida na ausência dele. Seu patronato e envolvimento em questões eclesiásticas também continuou. Melisenda morreu em 1161 depois de ficar incapacitada por uma doença, possivelmente um infarto.
Antecedentes Jerusalém fora conquistada pelos cristãos francos em 1099, durante a Primeira Cruzada, e desde essa época o reino latino instituído no Levante foi governado por dois irmãos originários do condado de Bolonha, Godofredo de Bulhão e Balduíno I. Depois passou para o primo destes, Balduíno II, que só gerou descendência feminina, tendo baptizado a sua primogénita com o nome da sua mãe, Melisenda de Montlhéry.Hamilton, Bernard, Queens of Jerusalem, Ecclesiastical History Society, 1978, Frankish women in the Outremer, pg 143, Melisende's youth pgs 147, 148, Recognized as successor pg 148, 149, Offers patronage and issues diplomas, Marriage with Fulk, Birth of Baldwin III, Second Crowing with father, husband, and son, pg 149,Oldenbourg, Zoe, The Crusades, Pantheon Books, 1966, Baldwin II searches for a husband for Melisende, feudal relatiolnship between France and Jerusalem, Fulk V of Anjou, pg 264,
Melisenda de Jerusalém teve três irmãs mais novas: Alice, princesa de Antioquia, Hodierna, condessa de Trípoli, e Ioveta, abadessa em Betânia. A relação entre as irmãs teria sido estreita, sendo provável que a rainha de Jerusalém tivesse auxiliado as políticas tanto de Alice como de Hodierna. Esta última chegou mesmo a baptizar a sua filha, Melisenda de Trípoli, com o nome da irmã.
Herdeira Já antes em 1128, Melisenda, como primogénita, foi designada herdeira do Reino de Jerusalém. No período medieval, as mulheres que herdavam territórios geralmente só o faziam quando não havia herdeiros varões, geralmente devido à guerra e à violência, que causavam a morte prematura de muitos homens.
As mulheres reconhecidas como soberanas por direito próprio raramente exerciam a sua autoridade, ou exerciam-na sob algumas condições, nomeadamente a obrigação de terem um consorte aprovado pelo anterior rei ou pela nobreza do país. Exemplos de poderosas contemporâneas de Melisenda nestas condições incluíam a rainha Urraca I de Leão e Castela (1080-1129), a duquesa Leonor da Aquitânia (1121–1204) e a condessa portucalense Teresa de Leão (1080-1130).
thumb|left|180px|Casamento de Melisenda com Fulque V de Anjou (miniatura da História da Conquista de Jerusalém de Guilherme de Tiro)
A herança de Melisenda não lhe foi passada devido à existência de um filho, mas de forma independente da existência ou não deste. Segundo o cronista Guilherme de Tiro «o governo do reino permaneceu no poder da senhora rainha Melisenda, uma rainha amada por Deus, a quem passou por direito hereditário. Melisenda já não era uma mera regente-rainha em nome do seu filho Balduíno III, mas uma rainha reinante, por direito de hereditariedade e direito civil».
Durante o reinado do seu pai, Melisenda era referida como «filha do rei e herdeira do reino de Jerusalém» (filia regis et regni Jerosolimitani haeres) e em cerimónias tinha um lugar de destaque superior ao dos outros nobres e do clero. Balduíno II foi associando gradualmente a sua herdeira em documentos oficiais, na cunhagem de moeda, concessão de feudos e outras formas de patronagem, e na correspondência diplomática. Foi assim educada para a sucessão, apoiada pela Haute Cour, um tipo de conselho real que compreendia a nobreza e o clero do reino.
No entanto, Balduíno também julgou necessário casar Melisenda com um aliado poderoso, capaz de proteger e salvaguardar a sua herança e dos seus descendentes. A sua verdadeira intenção teria sido prover a filha com um simples consorte, não com um rei consorte reinante.
O escolhido foi Fulque V de Anjou, um cruzado e comandante militar de renome. Mas durante as negociações, Fulque insistiu no governo conjunto do reino com a sua esposa. Balduíno II acabou por ceder a estas condições uma vez que Fulque tinha o dinheiro e o exército necessários para a defesa de Jerusalém.
Com o nascimento em 1130 de Balduíno III, o filho herdeiro deste casamento, Balduíno II pretendeu reforçar a posição de Melisenda como única monarca soberana de Jerusalém. Para isso, designou a filha como guardiã do seu jovem filho, excluindo o angevino desta posição de poder. Apesar disso, depois da morte do rei Balduíno II em 1131, Melisenda e Fulque subiram ao trono, ambos como governantes.
Reinado Ascensão thumb|right|220px|Morte de Fulque de Jerusalém - Historia de Guilherme de Tiro e continuação, manuscrito do de São João de Acre (Biblioteca Nacional de França)
Depois de assumirem o trono, Fulque V de Anjou, apoiado pelos seus cavaleiros, afastou Melisenda da capacidade de conceder títulos e outras formas de patronagem, e contestava publicamente a sua autoridade. Este tratamento para com a rainha irritou os membros da Haute Cour, cujas próprias posições de poder ficavam em risco se o rei continuasse ganhar domínio sobre Jerusalém.
Disputa com Fulque O afastamento do casal real era uma útil ferramenta política, usada pelo angevino em 1134 quando acusou o conde Hugo II de Puiset e Jafa de adultério com a rainha. Hugo era o barão mais poderoso do reino, e devotadamente leal à memória de Balduíno II. Esta lealdade fora extensiva à filha deste, sua prima, apesar de Hugo, se se levasse em conta a estrita sucessão varonil, ter uma pretensão mais válida ao trono.
Fontes contemporâneas, como Guilherme de Tiro, descartam a infidelidade de Melisenda. Em vez disso, realçam que Fulque favorecia demasiadamente os recém-chegados cruzados francos de Anjou em detrimento da nobreza nativa do reino. A posição da nobreza e principalmente da Igreja pode servir de indicador: se Melisenda fosse adúltera, estes provavelmente não teriam aderido à sua causa.
Hugo aliou-se à cidade muçulmana de Ascalão, e assim conseguiu resistir ao exército que se formou contra a sua pessoa. Mas não era possível manter a sua posição indefinidamente, e sua aliança com Ascalão custara-lhe apoios na corte. Com o patriarca Jerusalém a negociar termos clementes de paz, acabou por ser exilado por três anos. Pouco depois houve um atentado à vida de Hugo, atribuído a Fulque ou aos seus apoiantes, o que levou o partido da rainha a desafiar abertamente o rei, uma vez que as acusações de infidelidade eram uma afronta pública que comprometiam a posição política de Melisenda.
thumb|left|150px|Iluminura do Saltério de Melisenda, encomendado durante o seu reinado
Num verdadeiro golpe palaciano, os apoiantes da rainha derrubaram Fulque, e desde 1135 que a sua influência se deteriorou rapidamente. Os apoiantes do rei «fugiram [do palácio] aterrorizados pelas suas vidas».Women in the Crusader States: The Queens of Jerusalem, Bernard Hamilton, Medieval Women, ed. Derek Baker, Ecclesiastical History Society, 1978 Segundo Guilherme de Tiro, Fulque «não tentou tomar a iniciativa, mesmo em assuntos triviais, sem o conhecimento [de Melisenda]».
Governo com Fulque O casal real reconciliou-se em 1136, e assim nasceu um segundo filho, Amalrico. E quando Fulque morreu em um acidente de caça em 1143, Melisenda pôs luto em público e em privado. A vitória da rainha era total. Mais uma vez surge nos registros históricos a conceder títulos nobiliárquicos, feudos, nomeações e cargos, favores e perdões reais, e a presidir à corte.
De facto, Melisenda teve sempre o apoio da Igreja durante a sua vida: desde a sua nomeação como sucessora de Balduíno II, durante o conflito com Fulque, e mais tarde quando Balduíno III chegou à maioridade. Este apoio deveu-se parte às suas benfeitorias: em 1138 fundou o grande convento de São Lázaro na Betânia, onde a sua irmã Ioveta seria abadessa; de acordo com o que era habitual para uma abadia real da época, concedeu-lhe terrenos, as planícies férteis de Jericó; a ainda ofereceu ricas mobílias e objectos litúrgicos, para que não fosse em nada inferior às casas religiosas para homens.
Melisenda também doou grandes «dotações ao Santo Sepulcro, à Nossa Senhora de Josafá, ao Templum Domini, à Ordem do Hospital, ao hospital dos leprosos de São Lázaro e aos premonstratenses de São Samuel», e também fez mecenato com os artistas do reino.
Algures entre 1131 e 1143, foi encomendado o célebre Saltério de Melisenda. Apesar de influenciados pelas tradições bizantinas e italianas nas iluminuras, os artistas que participaram da sua concepção fizeram um estilo único, decididamente próprio do reino. «No segundo quarto do , Jerusalém possuía um scriptorium próspero e bem estabelecido que era capaz de, sem dificuldades, assumir uma comissão de um manuscrito real de qualidade de luxo».Miniature Painting in the Latin Kingdom of Jerusalem, Hugo Buchtal, 1957
Governo sozinha thumb|250px|Chegada dos monarcas cruzados Luís VII de França e Conrado III da Germânia a Constantinopla, capital do Império Bizantino
Em 1144, o Condado de Edessa foi cercado pelo atabei Zengui de Alepo e Mossul. Melisenda respondeu ao apelo enviando um exército liderado pelo condestável Manasses de Hierges, pelo grão-mestre templário Filipe de Milly e por Elinando de Bures. Raimundo de Poitiers, príncipe de Antioquia, o estado cruzado mais próximo de Edessa, ignorou o pedido de ajuda uma vez que as suas forças já estavam ocupadas contra o Império Bizantino na Cilícia. Apesar dos reforços de Jerusalém, Edessa foi perdida a 24 de Dezembro e os cristãos da cidade foram massacrados.
Melisenda comunicou este facto ao papado em Roma, e em resposta o ocidente proclamou a Segunda Cruzada, que seria liderada pelo rei Luís VII de França e pelo sacro-imperador Conrado III da Germânia. A acompanhar Luís vinha a sua poderosa esposa, a duquesa Leonor da Aquitânia, com os seus próprios nobres vassalos.
A estratégia de combate foi planeada no encontro com os cruzados em São João de Acre em 1148. Conrado e Luís aconselharam o jovem Balduíno III a atacar a cidade-estado muçulmana de Damasco, apesar de Melisenda, Manasses e Leonor pretenderem conquistar Alepo, o que ajudaria a retomar Edessa. Ganhou o projecto dos soberanos franco e germânico.