O RMS Aquitania foi um navio de passageiros britânico operado pela Cunard Line e construído pelos estaleiros da John Brown & Company. Foi o terceiro transatlântico gigante da companhia depois de seus irmãos RMS Lusitania e RMS Mauretania, sendo o maior e mais luxuoso dos três, porém também o mais lento. O Aquitania teve sua construção iniciada em junho de 1911 e começou seu serviço em maio de 1914, conseguindo completar seis viagens comerciais antes do início da Primeira Guerra Mundial. Durante o conflito a embarcação foi convertida em um navio hospital para servir na Campanha de Galípoli e depois em um navio de transporte de tropas até 1919.
Ele voltou ao serviço comercial em 1920, atuando como o principal navio da Cunard ao lado do Mauretania e do RMS Berengaria. O Aquitania acabou se tornando uma das embarcações mais populares do Atlântico, recebendo o apelido de "O Navio Belo" por causa de suas instalações luxuosas. Sua popularidade fez com que conseguisse continuar ativo mesmo depois da fusão da Cunard em 1934 com sua antiga rival a White Star Line, quando muitos navios foram aposentados por serem considerados excedentes. Sua substituição acabou prevista para 1940 depois do lançamento do RMS Queen Elizabeth.
O início da Segunda Guerra Mundial em 1939 prorrogou sua vida. O Aquitania foi novamente convertido em navio de transporte de tropas e continuou no serviço militar até 1947, transportando em média três mil soldados por viagem para os campos de batalha na Europa e posteriormente de volta para suas casas na Oceania e Canadá. O Aquitania encerrou sua carreira transportando imigrantes canadenses, porém estava velho e em péssimo estado e a Junta Comercial britânica o julgou como obsoleto. Ele foi tirado do serviço em 1949 e desmontado no ano seguinte.
Antecedentes A ideia do Aquitania nasceu da rivalidade entre as companhias britânicas Cunard Line e White Star Line, que competiam desde o início do século XX pelos maiores e melhores navios de passageiros do mundo. A Cunard havia saído na frente com o RMS Lusitania e o RMS Mauretania, enquanto a White Star respondeu com a Classe Olympic: RMS Olympic, RMS Titanic e RMS Gigantic (posteriormente renomeado para HMHS Britannic). Estes eram trinta metros maiores em comprimento e bem mais luxuosos, porém mais lentos. Os dois navios da Cunard entraram em serviço em 1907 e rapidamente estabeleceram novos recordes de velocidade, ambos vencendo a Flâmula Azul de travessia transatlântica mais rápida. Os navios da White Star não haviam sido construídos para se impor em velocidade, porém concentraram-se em luxo e regularidade. Por sua vez, o Lusitania e o Mauretania não eram capazes de manter um serviço regular entre Europa e América do Norte.
Para cobrir o buraco, os executivos da Cunard começaram a pensar em 1910 sobre um terceiro navio no mesmo perfil que os predecessores. Vários projetos evoluíram ao longo do ano para determinar as principais características da embarcação e sua velocidade, que ficou estabelecida em 23 nós aos invés dos 25 do Lusitania e Mauretania. A empresa começou uma campanha em julho a fim de determinar qual estaleiro construiria o novo navio, no fim escolhendo a John Brown & Company da Escócia, os mesmos construtores do Lusitania. A encomenda foi realizada em dezembro de 1910 e o nome Aquitania foi escolhido em 19 de janeiro do ano seguinte, dando continuidade à precedência da companhia de nomear suas embarcações em homenagem a antigas províncias romanas. O contrato oficial da Cunard com a John Brown foi assinado uma semana depois.
Construção thumb|240px|esquerda|O Aquitania em construção, 1913. O projeto geral foi realizado pelo engenheiro naval Leonard Peskett. Os planos originais eram para uma embarcação quarenta metros maior que seus dois predecessores. A tonelagem permaneceu ligeiramente menor que a do Olympic, porém o deslocamento do Aquitania ficou um pouco mais elevado. O batimento da quilha ocorreu em junho de 1911 e ao mesmo tempo Peskett embarcou na viagem inaugural do Olympic a fim de observar seu rival e tirar ideias que pudessem também ser aplicadas em seu navio. Ele ainda estava em construção quando o Titanic afundou em abril de 1912, com a Cunard e a John Brown centrando os projetos na segurança da embarcação; a construção não foi muito afetada pelo desastre, indicando que possivelmente os planos originais já incorporavam botes salva-vidas para todos a bordo ou já tinham abertura para sua colocação, além de possuir anteparas à prova d'água que permitiam a flutuação com até cinco compartimentos inundados. O casco duplo também foi particularmente destacado em anúncios como uma medida de segurança extra, que muitas vezes falavam de "um navio dentro de um navio".
miniaturadaimagem|Aquitania antes de seu lançamento. A armação do casco foi completada no início de 1913 e o Aquitania foi lançado ao mar em 21 de abril, sendo batizado por Alice Stanley, Condessa de Derby. Ele logo em seguida foi levado para uma doca seca e pelos treze meses seguintes passou por seu processo de equipagem, em que todas as instalações, decorações e equipamentos foram colocados no lugar. Os trabalhos internos foram coordenados por Arthur Joseph Davis e auxiliados por Charles Mewès, que ao mesmo tempo estava trabalhando nos navios alemães SS Imperator, SS Vaterland e SS Bismarck da Hamburg-Amerika Linie. Sob Davis funcionava uma grande equipe de decoradores e artesãos. Os custos das decorações ultrapassaram as estimativas iniciais, ao contrário do que havia acontecido no Mauretania, com os móveis custando mais do que as próprias decorações, forçando uma simplificação do estilo arquitetônico.
Quando os trabalhos de equipagem terminaram, o navio deixou a John Brown em 10 de maio de 1914 para seus testes marítimos. Os testes acabaram superando as expectativas dos executivos da Cunard, com o Aquitania também conseguindo alcançar a velocidade máxima desejada. A embarcação entrou no rio Mersey em 14 de maio e permaneceu no porto de Liverpool durante duas semanas, período em que passou por uma última grande limpeza e acabamento antes de sua viagem inaugural.
Características Aspectos técnicos center|688x688px|Visão longitudinal do Aquitania.|alt=|miniaturadaimagem O Aquitania tinha 274,6 metros de comprimento por 29,6 de altura, sendo o maior navio de passageiros britânico na época e superando as embarcações da classe Olympic por alguns metros. Entretanto, sua tonelagem de 45 647 toneladas era um pouco inferior do que seus rivais. Foi também o primeiro navio da Cunard a ultrapassar a simbólica marca de novecentos pés de comprimento. A concorrência era grande sobre este aspecto, tanto que quando a HAPAG descobriu sobre essa realização, ela mandou instalar uma águia decorativa na proa do Imperator, então na sua fase de conclusão, para poder ganhar alguns metros a mais de comprimento e superar a embarcação britânica.
Do ponto de vista externo, o navio retomou características da silhueta do Mauretania, porém de maneira revisada e ampliada, especialmente em relação às chaminés vermelhas com aro preto no topo. O Aquitania foi o décima segunda embarcação da história a possuir quatro chaminés e a última delas a servir na rota transatlântica. Ao contrário de outros navios do tipo, a última chaminé do Aquitania não era falsa e servia para evacuar a fumaça produzida nas salas das caldeiras. Sua superestrutura era pintada de branco com o objetivo de contrastar com seu casco preto, com a falta de um castelo da proa mais elevado lhe dando um visual um pouco mais imponente Na popa, os conveses superiores da superestrutura eram perfurados por grandes aberturas na altura do convés de passeio.
Assim como seus dois irmãos, o Aquitania era impulsionado por quatro hélices de quatro lâminas cada movidas por turbinas alimentadas pela queima de carvão em caldeiras, convertido depois para queima de petróleo em 1920. Seu casco era dividido em vários compartimentos estanques, projetados para que o navio continuasse flutuando com até cinco compartimentos seguidos inundados. Um casco duplo protegia a porção central do Aquitania, principalmente nas áreas das caldeiras e dos depósitos de combustível.
Instalações thumb|O salão de jantar da primeira classe do Aquitania no estilo Luís XVI. Ao ser lançado, o Aquitania podia transportar 3 230 passageiros: 618 na primeira classe, 614 na segunda e 1 198 na terceira. Sua reforma de 1926 reduziu esses números para um total de 2 200 passageiros: 610 pessoas na primeira classe, 950 na segunda e 640 na chamada classe "turística". As especificações originais diziam que a embarcação também contava com 972 tripulantes, porém esse número às vezes chegava em aproximadamente 1 100 durante seus primeiros anos de serviço comercial e por volta de oitocentos na época da queda da imigração e conversão para o petróleo como combustível, em meados da década de 1920.
O Aquitania foi decorado de maneira luxuosa, o que depois acabou lhe rendendo o apelido de "Navio Lindo". Todas as instalações foram o trabalho de Arthur Joseph Davis e seu sócio Charles Mewes. A primeira classe oferecia várias áreas comuns, incluindo um grande salão no estilo palladiano, uma sala de estar, dois jardins de inverno, duas salas de correspondências e uma sala de fumar. Além disso, também havia um grande salão de jantar decorado no estilo Luís XVI e uma churrasqueira. Ainda havia uma piscina coberta e um ginásio. Por volta de maio de 1912 ainda durante a construção, a Cunard acabou decidindo retirar os banhos turcos que haviam originalmente sido planejados e que estavam presentes em seus rivais da Classe Olympic.
Os passageiros da segunda classe tinham a sua disposição um salão de jantar, vários salões, um café com varanda para o mar e um ginásio, instalações únicas para esta classe em especial a bordo de um navio britânico. Já os passageiros de terceira classe também tinham acesso a várias áreas comuns e um convés de passeio coberto, além de três casas de banho. As cabines do Aquitania ofereciam grande conforto: a primeira classe tinha oito suítes de luxo nomeadas a partir de pintores famosos, com muitas outras cabines possuindo casas de banho próprias (algo ainda raro na época). Os alojamentos da segunda classe eram mais amplos do que a média, destinadas a acomodar dois, três e até quatro passageiros. As cabines da terceira classe eram menores do que outros navios do período, chegando a acomodar até seis pessoas.
Ao longo de seus 35 anos de carreira, o Aquitania passou várias por reformas que adicionaram ou removeram certas instalações. Por exemplo, um teatro e cinema foram construídos durante a reforma de 1932–33, enquanto os espaços da classe turística foram reorganizados na década de 1920 a fim de fornecerem maior conforto.
História Início de carreira thumb|left|300px|O Aquitania em 1914. O Aquitania partiu para sua viagem inaugural de Liverpool para Nova Iorque no dia 30 de maio de 1914 sob o comando do capitão William Thomas Turner, comodoro da Cunard Line e que no ano seguinte comandou o Lusitania quando este foi torpedeado por um submarino e afundou. O evento chamou atenção porque duas semanas antes o alemão SS Vaterland, o maior navio do mundo até então, tinha entrado em serviço. Sob essas condições a viagem do Aquitania foi pintada pela imprensa britânica como uma corrida de prestígio moral para o país. Entretanto, todo o evento acabou ofuscado pelo naufrágio do canadense RMS Empress of Ireland um dia antes após colidir com o norueguês SS Storstad no rio São Lourenço, perto do vilarejo de Rimouski, com mais de mil pessoas perdendo a vida. Mesmo assim, apesar de todo furor causado pelo desastre, nenhum passageiro cancelou de última hora sua viagem no Aquitania.