A bandeira de Lisboa constitui um dos símbolos oficiais do município de Lisboa. Historicamente, é também conhecida como bandeira de São Vicente, em referência ao santo padroeiro de Lisboa.

Existe sob a forma de bandeira de desfile e sob a forma de bandeira para içar em mastros e adriças. A bandeira de desfile é uma signa quadrada, sendo o campo gironado de branco e negro, carregado ao centro pelo brasão de Lisboa. As bandeiras de içar são retangulares, com uma proporção 2:3, tendo o mesmo ordenamento do campo da bandeira de desfile, mas podendo não incluir o brasão ao centro.PORTUGAL. Assembleia da República, "Lei n.º 53/91, de 7 de agosto - Regula a heráldica autárquica e das pessoas colectivas de utilidade pública administrativa", Diário da República nº 180, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1991PORTUGAL. Ministério do Interior - Direcção Geral de Administração Política e Civil, "Portaria nº 9468 - Designa a constituïção heráldica das armas, sêlo e bandeira da Câmara Municipal de Lisboa", Diário do Govêrno nº 48, Lisboa: Imprensa Nacional, 1940

Aparecendo já referida em documentos datados de 1385, é frequentemente indicada como uma das mais antigas bandeiras ainda hoje em uso na Europa. Contudo e ainda que esteja evidenciado o uso do branco e negro como cores simbólicas da cidade de Lisboa desde uma época remota, não há certeza de como seria o grafismo da bandeira então em uso. O modelo atual foi introduzido em 1921, como uma tentativa de reconstituição revivalista do que seria a bandeira medieval. A bandeira medieval de Lisboa representaria originalmente São Vicente (Vicente de Saragoça), patrono da cidade e como tal aparece ocasionalmente referida como "bandeira de São Vicente".MATOS, Francisco, "A Bandeira Municipal de Lisboa: introdução à vexilologia autárquica lisbonense", Cadernos do Arquivo Municipal n.º 5, Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 2001

Durante a reforma da heráldica municipal portuguesa, realizada no início do século XX, o formato gironado da Bandeira de Lisboa foi estabelecido como padrão para todas as bandeiras municipais das cidades de Portugal.

A bandeira de Ceuta é igual à de Lisboa, porque esta teria sido a primeira a ser arvorada naquela cidade, aquando da sua conquista pelos Portugueses.

História

Os municípios portugueses usaram símbolos heráldicos desde muito cedo, sendo, o mais antigo brasão municipal hoje conhecido, o do extinto concelho de Castelo Mendo, figurando num selo de um documento datado de 1202. A cidade de Lisboa terá também usado símbolos heráldicos desde uma época remota, sendo que se sabe que, já na primeira metade do século XIII, fazia uso de um brasão cujo ordenamento básico (embarcação acompanhada por dois corvos, simbolizando a transladação do corpo de S. Vicente para Lisboa) se manteve até à atualidade. O uso de bandeiras pelos municípios também ocorreu desde muito cedo, sendo as mesmas normalmente empregues pelas respetivas câmaras em atos cerimoniais ou como signas militares conduzidas pelas milícias locais.SEIXAS, Miguel Metelo de, Heráldica, representação do poder e memória da nação, Lisboa: Universidade Lusíada Editora, 2011

Origem da bandeira de Lisboa As mais antigas referências a uma bandeira da cidade de Lisboa aparecem em três cartas régias de D. João I, datadas de 7 a 8 de setembro de 1385, nas quais o mesmo incorpora várias vilas no termo de Lisboa. Na narração da preparação de Lisboa para fazer frente ao cerco castelhano de 1384, a Crónica de el-rei D. João I (escrita em 1443, por Fernão Lopes) refere a existência de bandeiras da cidade de Lisboa (acompanhadas por bandeiras de de S. Jorge, das armas do Reino e de alguns capitães) em muitas das setenta e sete torres das muralhas da cidade. A bandeira de Lisboa - referida como "bandeira de São Vicente", o santo padroeiro da cidade - aparece também mencionada descrição da tomada de Ceuta pelos Portugueses em 21 de agosto de 1415 - constante da Crónica de el-Rei D. João I, de Boa Memória (escrita em 1436 por Gomes Eanes de Zurara) - como tendo sido arvorada na torre de menagem do castelo da cidade norte africana. Nenhuma destas referências descreve contudo o desenho e outras características da bandeira.FERREIRA, Maria Ema Tarracha (seleção, introdução e notas), Crónicas de Fernão Lopes, Lisboa: Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1988 esquerda|miniaturadaimagem|Iluminura na «Crónica da tomada de Ceuta por D. João I, terceira parte, por Gomes Eanes de Zurara», que data dos séculos XV a XVI, semelhante à atual bandeira de Lisboa, bem como a bandeira e brasão de Ceuta. A primeira descrição iconográfica conhecida de bandeiras de Lisboa aparece no alvará de 3 de agosto de 1508, endereçado pelo rei D. Manuel I ao Senado da Câmara de Lisboa. O mesmo estabelece bandeiras para serem usadas em eventos protocolares, ordenando a elaboração de seis bandeiras quadradas, com entre 8 e 10 palmos (entre 176 e 220 centímetros) de lado, esquarteladas de carmesim e branco, douradas e ricas, franjadas de retrós ou cadarço, contendo as armas da cidade. Para além destas, o alvará determinava a elaboração de um estandarte com 1,5 panos de largura, de seda carmesim, também carregado com as armas de Lisboa, destinado ao batel do Senado da Câmara de Lisboa, o qual se destinava a transportar o respetivo presidente, vereadores e outros oficiais camarários, escoltando o Bergantim Real, nos eventos que incluíam um desembarque cerimonial do Rei em Lisboa. Uma nova descrição da bandeira de Lisboa aparece na narração da aclamação de D. Sebastião I como Rei de Portugal, ocorrida a 20 de janeiro de 1568, constante da Crónica de el-rei D. Sebastião (escrita por D. Manuel de Meneses no início do século XVI). Aqui, a bandeira usada na cerimónia é indicada como sendo feita de damasco branco, com uma barra de ouro, franjada do mesmo, afixada a uma haste dourada, tendo numa das faces pintadas as armas de Lisboa e na outra as armas reais.

Na aclamação de D. Sebastião I, a bandeira foi usada segundo o cerimonial estabelecido pelo Regimento da Câmara de Lisboa (outorgado por D. Manuel I a 30 de agosto de 1502 e conhecido como Livro Carmesim pela cor da sua capa), o qual determinava que - tanto nas aclamações como nos falecimentos reais - a bandeira de Lisboa seria levada pelo alferes da cidade, montado a cavalo e acompanhado pelos vereadores, em cortejo percorrendo as ruas da cidade, até ao Castelo de São Jorge, onde seria solenemente hasteada na respetiva torre de menagem.

As tradicionais cores branca e negra - simbólicas de Lisboa e constantes da sua atual bandeira - aparecem, pela primeira vez, referidas na narração do desfile náutico que acompanhou a princesa D. Joana de Áustria quando do seu desembarque em Lisboa em 1552, incluída na Crónica de el-rei D. Sebastião. O branco e negro são descritos como sendo as cores dos toldos de seda e de outras decorações dos bateis da Câmara de Lisboa presentes no cortejo, bem como dos librés dos respetivos remadores. Em referências posteriores, o cromatismo branco e negro vai continuando a aparecer regularmente associado à Câmara de Lisboa, constando de decorações festivas e do próprio traje oficial usado pelos vereadores e por outros oficiais camarários. O branco e negro aparecem assim claramente definidos como sendo as cores oficiais de Lisboa, pelo menos a partir de meados do século XVI. Não se conhece contudo qual a sua origem e tampouco existem referências expressas a constarem então nas bandeiras da cidade.

A bandeira após a implantação do regime liberal Até à implantação do regime liberal na primeira metade do século XIX, a bandeira de Lisboa ter-se-á mantido de cor carmesim, tendo de um lado as armas reais e do outro as armas da cidade. Este padrão era aliás seguido pela maioria das bandeiras dos concelhos portugueses da época, vindo a ser conotado com o antigo regime realista após a tomada do poder pelos liberais. Assim, após a entrada das tropas liberais em Lisboa, a 24 de julho de 1833, durante a Guerra Civil, a nova comissão municipal determina a elaboração de um novo estandarte, qual passa a ter o campo bipartido de damasco azul e branco (emulando a nova bandeira nacional estabelecida em 1830), mantendo as armas retiradas do anterior estandarte, bordadas a ouro fino. Este padrão será adotado também por numerosos outros municípios, alguns dos quais chegarão a manter as suas bandeiras assim ordenadas até final da década de 1920, portanto mesmo após a implantação da república e a adoção da bandeira verde-rubra em substituição da bicolor azul e branca. Este estandarte esteve presente nas cerimónias de aclamação do rei D. Pedro V, a 16 de setembro de 1855, sendo conduzido por um dos vereadores da Câmara Municipal de Lisboa, servindo de alferes da cidade. esquerda|miniaturadaimagem|A bandeira de Lisboa no carro alegórico da Sociedade de Geografia de Lisboa para as comemorações do tricentenário da morte de Luís de Camões em 1880.|312x312pxO estandarte elaborado em 1833 viria contudo a arder durante o incêndio que destruiu os paços do concelho, na noite de 19 de novembro de 1863. Como tal e a partir de 1865, surgem propostas para a elaboração de um novo, que no entanto não avançam. Só em 1871 e no âmbito da preparação da visita oficial do imperador D. Pedro II do Brasil - que iria ocorrer de fevereiro a março de 1872 - é que a Câmara Municipal de Lisboa determina a confeção de um novo estandarte, o qual é feito em seda branca. Por ocasião das comemorações do tricentenário da morte de Camões, em 1880, a Câmara determina a elaboração de uma nova bandeira para desfilar no cortejo cívico. Esta é feita em seda branca, com 1 m de largura por 1,39 m de comprimento, com cordões de seda e borlas de ouro, haste de madeira dourada de carvalho, com maçaneta e ponteira cruzetada metálicas douradas, tendo as armas da cidade, bordadas a ouro e prata, figurando em ambas as faces (portanto, já não incluindo as armas reais numa das faces).

Esta bandeira figurará em diversas cerimónias, incluindo nas comemorações dos centenários da morte do marquês de Pombal e do nascimento de Alexandre Herculano, bem como nas receções às visitas oficiais do rei Eduardo VII de Inglaterra, do rei Afonso XIII da Espanha, do imperador Guilherme II da Alemanha e do presidente Émile Loubet da França. A implantação da república a 5 de outubro de 1910, não leva a qualquer alteração da bandeira de Lisboa, cuja Câmara Municipal era aliás já governada pelo Partido Republicano Português desde as eleições de 1908. A mesma está presente nos funerais dos políticos republicanos Miguel Bombarda e Cândido dos Reis, realizados a 16 de outubro de 1910.

Surgimento da atual bandeira A primeira proposta para a alteração da bandeira, no sentido de incorporar as tradicionais cores branca e negra de Lisboa, viria a surgir na sessão de 29 de maio de 1919 da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, por iniciativa do vogal Amaro Joaquim Maria de Barros, com a justificação de se retomar o modelo de bandeira em uso quando da tomada de Ceuta em 1415, a qual seria alegadamente daquelas cores. esquerda|miniaturadaimagem|A bandeira de Lisboa adotada em 1920 a ser entregue ao Presidente da República, António José de Almeida, no dia 22 de setembro de 1921.