thumb|upright=1.4|Pérsia no início do Grande Jogo em 1814 upright=1.4|thumb|Ásia Central, cerca de 1848 O Grande Jogo é um termo usado para definir o conflito e a rivalidade estratégica entre o Império Britânico e o Império Russo pela supremacia na Ásia Central.Também chamado de Torneio das Trevas (, Turniry Teney) na Russia. O Grande Jogo é um período clássico geralmente considerado como decorrendo entre o Tratado Russo-Persa de 1813 até à Convenção Anglo-Russa de 1907. A fase menos intensa se ​​seguiu à Revolução Bolchevique de 1917. Após a Segunda Guerra Mundial, no período pós-colonial, o termo continuou a ser utilizado para descrever as maquinações geopolíticas das grandes potências e potências regionais, visto que disputavam o poder geopolítico e influência na região.

O termo "O Grande Jogo" é geralmente atribuído a Arthur Conolly (1807-1842), um oficial de inteligência da Sexta Cavalaria Ligeira de Bengala da Companhia Britânica das Índias Orientais. O termo foi introduzido junto do grande público pelo romancista britânico Rudyard Kipling na sua novela Kim (1901).Morgan, Gerald. “Myth and Reality in the Great Game” Asian Affairs 4:1 (1973) 55-65.

Origem e âmbito No início do cerca de 2000 milhas separavam a Índia britânica e as regiões periféricas da Rússia Czarista. Muito do território na Ásia Central estava ainda por mapear. As cidades de Bucara, Quiva, Merv, Cocande e Tasquente eram virtualmente desconhecidas pelos estrangeiros. Uma vez que a expansão russa começou a ameaçar colidir com o crescente domínio britânico no subcontinente indiano, os dois grandes impérios entraram num subtil jogo de exploração, espionagem e diplomacia na região. Houve sempre ameaça de conflito, mas nunca ocorreu uma guerra direta entre as partes. O centro da atividade foi o Afeganistão.

O termo "Grande Jogo" não tinha correspondente em russo nem na historiografia soviética. A única prova do interesse russo em desafiar o Raj britânico foi a marcha indiana do imperador Paulo (1801), uma aventura quixotesca russo-francesa que chegou ao mar de Aral, a cerca de mil milhas do Passo Khyber. Mesmo assim, criou algum incômodo em Londres e fez recear por uma guerra entre a Grã-Bretanha e a Rússia.

Embora o Grande Jogo seja usado quase sempre como referência ao conflito entre interesses da Grã-Bretanha e da Rússia no Afeganistão, também havia intensa rivalidade na Pérsia e (mais tarde) no Tibete. A Grã-Bretanha estava alarmada com a expansão russa na Transcaucásia às custas da Pérsia. O Tratado de Gulistan (1813) e o Tratado de Turkmanchai (1826) resultaram em ganhos territoriais substanciais para o Czar. Para conter a expansão russa, os britânicos levaram a cabo a tarefa de reorganizar o obsoleto exército persa, transformado-o numa força armada competente. Houve uma série de crises diplomáticas entre Pérsia e Rússia, até certo grau instigadas pela embaixada britânica em Teerã. Uma delas resultou até no assassinato do embaixador russo, Alexander Griboyedov.

No início do , o Irã do Norte tinha-se tornado praticamente um protetorado do Império Russo. Em certa altura da revolução constitucional persa, o coronel (cossaco) Vladimir Liakhov governou Teerã num governo militar com poderes ditatoriais. O centro do Grande Jogo mudou consideravelmente para leste. Os britânicos ficaram impressionados pelas expedições semimilitares de Nikolai Przhevalsky, Pyotr Kozlov, e outros exploradores russos que desbravaram as vastas extensões de Zungária e Sinquião. Houve um grande receio de que a Rússia anexasse esta parte remota do Império Qing. Assim, a Grã-Bretanha montou uma pequena expedição ao Tibete, retirando o Dalai Lama de Lhasa em 1904.

Avanço russo na Ásia Central Desde o , a Rússia entrou em relações com os príncipes locais da região da Ásia Central situada à leste do Mar Cáspio. Só no foi, porém, chamada a atenção dos russos para estas planícies semidesérticas aos pés da serra do Turquestão, onde se criavam bovinos e bicho-de-seda e se cultivava o fumo e cânhamo; nas serras estavam as afamadas minas de ouro.

A partir de 1834, o governo russo cuidou da ocupação do litoral oriental do Cáspio, fazendo em seguida a malograda tentativa contra o Canato de Quiva (1839). A ação militar russa havia sido destinada a assegurar as comunicações entre o forte de Oremburgo (no rio Ural) e o forte de Omsk na região ocupada pelos cossacos. No entanto, esta entrada da Sibéria se achava sob frequentes incursões dos nômades agressivos.

Esta tentativa russa despertou a atenção da Inglaterra, já que seus domínios indianos e o Afeganistão se encontravam nas vizinhanças dos canatos de Quiva, Bucara e Cocande.

thumb|upright=1.4|As fronteiras dos territórios da Rússia imperial de Quiva, Bucara e Cocande no período de 1902-1903

A Guerra da Crimeia fez a Rússia adiar um pouco sua penetração planejada para consolidar suas fronteiras siberianas no sul (nesse momento, os russos já tinham em mãos o Cazaquistão). Cresciam, porém, as necessidades russas de algodão, linho e outros recursos do Turquestão para suas fábricas. Daí haverem recomeçado em 1865 as tentativas russas com a ocupação ou conquista de Tasquente (1865), de Bokara (1866) e da velha cidade imperial de Samarkanda, capital de Tamerlão e antigo centro intelectual da Ásia Central (1868); Quiva cairia em 1873, seguida por Cocande em 1876. Finalmente, o General Skobelev tomou de assalto a fortaleza de Geok Tepe no Turcomenistão, enquanto o oásis de Merv era ocupado em 1884.

A expansão russa apoiou-se na ideologia do pan-eslavismo, ou seja, o desejo de união de todos os povos eslavos em um só Estado. Entretanto, o ideal do pan-eslavismo conduziu a outros caminhos: em sua expansão territorial pela Ásia a Rússia colonizou várias nacionalidades. Para assegurar a posse e o controle de seu imenso território e facilitar o povoamento, a Rússia construiu a Ferrovia Transcaucasiana (1883-1886), que, partindo de Moscou, atinge o Turquestão e se prolonga até o mar Cáspio, e a Ferrovia Transiberiana (1891-1904), que parte de Moscou, atravessa a Sibéria Ocidental e Oriental e termina em Vladivostok, no litoral do oceano Pacífico, depois de vencer uma distância de

A partir de 1873, a Rússia iniciou tentativas de expansão em direção à Pérsia (atual Irã) e o Afeganistão. Os russos queriam um acesso ao Oceano Indico, através do Afeganistão; a Inglaterra desejava transformá-lo em Estado-tampão, para proteger a Índia do expansionismo russo.

Por fim, a Rússia Soviética substituiu os canatos e emirados sob a soberania russa e redistribuiu sobre as bases nacionais os territórios do Turquestão em cinco Repúblicas Socialistas Soviéticas (1924): Casaquistão, Uzbequistão, Quirguistão, Turcomenistão e Tadjiquistão.

Rivalidade russo-britânica no Afeganistão thumb|Caricatura política representando o Emir afegão Sher Ali com seus "amigos": o Urso da Rússia e o Leão da Grã-Bretanha (1878) Do ponto de vista britânico, a expansão do Império Russo na Ásia Central ameaçava destruir a "joia da coroa" do Império Britânico, a Índia britânica. Os ingleses temiam que as tropas do czar fossem dominar os canatos da Ásia Central (Quiva, Bucara, Cocande) um após o outro. O Emirado do Afeganistão poderia, então, tornar-se um ponto de preparo para uma invasão russa da Índia.

Foi com essas ideias em mente que, em 1838, os britânicos lançaram a Primeira Guerra Anglo-Afegã e tentaram impor um regime fantoche no Afeganistão sob Shuja Shah. O regime teve vida curta e mostrou-se insustentável, sem apoio militar britânico. Em 1842, multidões atacavam os britânicos pelas ruas de Cabul e a guarnição britânica foi forçada a abandonar a cidade devido aos constantes ataques de civis.

A retirada do exército britânico consistiu em cerca de 4 500 soldados (dos quais apenas 690 eram europeus) e 12 000 do pessoal de apoio. Durante uma série de ataques dos guerreiros afegãos, todos os europeus, exceto um, William Brydon, foram mortos na marcha de volta para a Índia; alguns soldados indianos também sobreviveram e atravessaram a Índia posteriormente.Gandamak at britishbattles.com Os britânicos limitaram as suas ambições no Afeganistão após esta humilhante retirada de Cabul.

Após a rebelião indiana de 1857, os sucessivos governos britânicos viram o Afeganistão como um estado-tampão. Os russos, liderados por Konstantin Kaufman, Mikhail Skobelev e Mikhail Chernyayev, continuaram a avançar firmemente em direção ao sul pela Ásia Central para o Afeganistão, e em 1865, Tasquente foi formalmente anexada.

Samarkand tornou-se parte do Império Russo em 1868, e a independência de Bucara foi praticamente arrancada em um tratado de paz no mesmo ano. O controle russo foi então alargado até a margem norte do Rio Amu Darya.

Em uma carta à Rainha Vitória, o primeiro-ministro Benjamin Disraeli propôs "limpar a Ásia Central dos moscovitas e conduzi-los para o Cáspio".Mahajan, Sneh, British Foreign Policy, 1874–1914, p. 53 Introduziu a Lei dos Títulos Reais de 1876, que acrescentou a Rainha Vitória o título de "Imperatriz da Índia", pondo-a ao mesmo nível que o imperador russo.

Depois que a Grande Crise do Oriente estourou, os russos enviaram uma missão diplomática sem ser convidada a Cabul em 1878, a Grã-Bretanha exigiu que o governante do Afeganistão, Xer Ali Cã, aceitasse uma missão diplomática britânica. A missão retornou, e em retaliação uma força de 40.000 homens foi enviada através da fronteira - iniciando a Segunda Guerra Anglo-Afegã. A segunda guerra foi quase tão desastrosa como a primeira para os britânicos, e até 1881, eles se retiraram outra vez de Cabul. A conclusão da guerra deixou Abderramão Cã no trono, que concordou em deixar que os britânicos controlassem a política externa do Afeganistão, enquanto consolidou sua posição no trono. Ele conseguiu reprimir as rebeliões internas com implacável eficiência e trouxe grande parte do país sob o controle central.

Em 1884, o expansionismo russo provocou outra crise - o Incidente de Panjdeh - quando tomaram o oásis de Merv. Os russos reivindicaram todo o território do antigo governante e lutaram com as tropas afegãs ao longo do oásis de Panjdeh. Na iminência de uma guerra entre as duas grandes potências, os britânicos decidiram aceitar a possessão russa do território norte de Amu Darya como um fato consumado.

Sem qualquer opinião afegã sobre o assunto, entre 1885 e 1888, a Comissão Conjunta Fronteira Anglo-Russa aprovou que os russos abandonariam o território mais afastado capturado em seu avanço, mas manteriam Panjdeh. O acordo delineou uma fronteira permanente afegã no norte do Amu Darya, com a perda de uma grande quantidade de território, especialmente em torno de Panjdeh.International Boundary Study of the Afghanistan-USSR Boundary (1983) by the US Bureau of Intelligence and Research