alt=Na fotografia, indígenas caiabis aparecem em destaque, à frente de um vilarejo.|miniaturadaimagem|268x268px|"Indígenas caiabi" (SCHMIDT, Max. 1950)
O caiabi, também chamado de kayabí e kawaiwete, é uma língua indígena brasileira, falada pela etnia homônima. Pertence à família tupi-guarani, do tronco tupi. Está no ramo kawahib, que contém línguas como o apiaká e o juma. Ele é falado no Parque Indígena do Xingu, além de regiões no Rio dos Peixes e no Teles Pires.
Dentre os cauaíbes, suas línguas têm função importante de distinguir as diferentes etnias, construindo fundamentalmente a identidade cultural desses povos.
Atualmente, há cerca de mil falantes de kawaiwete. Ele se encontra em risco de extinção, portanto há um grande esforço para sua revitalização, o qual representa empenho à preservação da memória do seu povo em seus aspectos sociais, culturais e históricos. A língua ocupa papel relevante na construção da identidade cultural. Assim, existem projetos de pedagogia e cultura centrados nos kawaiwete, nos quais se exaltam seus costumes.
Etimologia A etimologia do nome "Caiabi" ("Kayabi", Kayabí"), o exônimo, teria origem em expedições de conquista do Brasil. Inicialmente, eram chamados de "Cajahí", que se alterou para "Cajabi" e, finalmente, chegou à forma atual. Na "língua geral" significaria "morador do mato". Tal forma é amplamente disseminada enquanto nome do povo e da língua. De acordo com Stuchi, tal denominação seria validada pelo uso dos próprios indígenas.
Von den Steinen menciona a palavra "Paruá," traduzido como "umbigo", "parente". Segundo Weiss, eles se autodenominam como "janerete", o qual seria traduzido como "nós, os verdadeiros". Ademais, é consenso o uso endônimo do termo "kawaiwete", que significaria "grande guerreiro."
Distribuição O kawaiwete é falado pelos caiabis, povo indígena presente no Parque Indígena do Xingu, MT, além do Rio Teles Pires, MT e PA. Também, o kawaiwete é falado pelos indígenas às margens do rio dos Peixes.
O Rio Teles Pires converge ao rio Tapajós, possibilitando o contato com os apiaká, outros cauaíbes, e os mundurukú. Eles mantêm intercâmbio cultural uns com os outros. A língua é essencial para a determinação da etnia. Por exemplo, pessoas que se casam com membros de outras tribos devem aprender a língua de seu parceiro para participarem da vida em comunidade na tribo.
Com a vinda dos seringueiros ao longo da história, o português tornou-se uma língua franca, que é usada tanto para a comunicação entre brancos e indígenas quanto para a comunicação entre moradores de aldeias diferentes, num contexto de múltiplas etnias.
Não existe grande variação diatópica do idioma, mas é interessante observar que, no Pará, há relativamente mais nasalização. +Tabela comparativa de palavrasKawaiweteApiakáMundurukúTraduçãotatatatárašásolãinerainuráǐdentejanunhandúįruáaranha Vale ressaltar que a língua mundurukú não pertence à família tupi-guarani, mas há proximidade geográfica entre os falantes de kawaiwete e mundurukú.
Fonologia De modo geral, as palavras em kawaiwete são oxítonas. O kawaiwete tem 12 vogais e 14 consoantes.
Consoantes Há duas consoantes que não existem em português: // e //. + Fonemas consonantais do kawaiweteBilabialLabiovelarLabiodentalAlveolarPós-AlveolarPalatalVelarGlotalPlosiva Africada()NasalFricativa()Aproximante LateralVibrante
Alguns autores atribuem o fone de fricativa bilabial [] a <f>, em vez de []. A consoante <g> é friccionada de certo modo, como [ɡ͡ɣ]. Ao fim de palavras, <t> se torna solto, formando [t̥]. Ao fim de palavras, <p> se torna solto, formando [p̊]. Já se registrou o fone africado [ts], mas sua existência ainda gera debate. Os estudos sobre a fonologia da língua caiabi divergem em certos aspectos fonêmicos, como a presença de fones africados e a pronúncia da letra <f>.
Vogais Em kawaiwete, há uma vogal que não existe em português, além da sua forma nasalizada – // e //. +Fonemas vocálicos orais do kawaiweteAnteriorCentralPosteriorAltas Baixas () É possível que a vogal baixa anterior seja pronunciada tanto fechada [] quanto aberta []. +Fonemas vocálicos nasais do kawaiweteAnteriorCentralPosteriorAltas Baixas
Ditongos Em kawaiwete, os ditongos são formados com semivogais equivalentes a // ou //. Quando a vogal é nasalizada, também ocorre nasalização na semivogal (// ou //). Fonotática Em kawaiwete, há cinco tipos de sílabas: consoante-vogal (C.V.), consoante-vogal-consoante (C.V.C.), vogal (V.), glotal-consoante-vogal (ʔC.V.) e glotal-consoante-vogal-consoante (ʔC.V.C.). Na sílaba inicial de palavras, qualquer consoante pode aparecer. No final de palavras, pode haver plosiva bilabial (/p/), alveolar (/t/) e velar surda (/k/), além de nasais (/m/, /n/, /ŋ/) e aproximantes (/w/, /j/). + Tipos de sílaba Estrutura silábica Palavra Pronúncia Tradução CV mokaruat /mɔ.ka.ru.at/ enfeitiçar jenosĩ /je.nɔ.sĩ/ estar com vergonha pytu'u/pɨ.tu.ʔu/descansarCVCmo'yt/mɔ.ʔɨt/colarjoponekwap/jɔ.pɔ.nɛk.wap/ultrapassaripek/i.pek/patoVũnay/ũ.na.ɨ/pretopopyo/pɔ.pɨ.ɔ/esticar'ai/ʔa.i/pomo-de-adãoʔCVkarupa'mĩ/ka.ɾu.pa.ʔmĩ/veadinho'g̃a/ʔŋa/ele'u'y'wi'i/ʔu.ʔɨ.ʔwi.ʔi/flechinha ʔCVCpi'rok/pi.ʔɾɔk/tirar couro
Morfofonêmica Em kawaiwete, ocorrem mudanças morfofonêmicas entre os morfemas constituintes das palavras, frequentemente. Observam-se oito tipos de alterações.
Lenição (enfraquecimento consonantal)
Quando uma oclusiva do morfema final é seguida de uma vogal, ela é enfraquecida. Também, existem casos em que a lenição acontece no início do morfema ou da palavra, entretanto eles não são aplicados como regra geral na língua.
+ Casos de enfraquecimento consonantal Caso Exemplo Pronúncia Tradução/p/ → /w/mutap + a → mutawa/mutap/ + /a/ → /mutawa/pirão de peixe/t/ → /ɾ/mo'yt + ete → mo'yrete/mɔ?ɨt/ + /ete/ → /mɔ?iɾete/colar verdadeiro/k/ → /g/ypek + -a → ypega/ɨpek/ + /-a/ → /ɨpega/pato/p/ → /w/jetyk + piaramũ → jetyk wiaramũ/jetɨk/ + /piaɾamũ/ → /jetɨk wiaɾamũ/buscar batatas/f/ → /w/waj + -fuku → waj wuku/waj/ + /-fuku/ → /waj wuku/rabo comprido/m/ → /w/-sĩ + -mukup → -sĩwukup/-sĩ/ + /-mukup/ → /-sĩwukup/esquentar a ponta/n/ → /ɾ/ywy + -nupã → -ywyrupã/ɨwɨ/ + /-nupã/ → /ɨwɨɾupã/bater no chão/t/ → /ɾ/mutawa + -tai → Mutawa rai./mutawa/ + /-tai/ → /mutawa ɾai/A mojica está apimentada./k/ → /ŋ/-nupy'ã + -ka → -nupy'ãg̃a/-nupɨʔã/ + /-ka/ → /-nupyʔãŋa/bater o joelho
Eliminação Quando há uma consoante na posição inicial da próxima palavra, o morfema que acaba em consoante tende a ser eliminado.
_C1 + C2_ → _C2_
Entretanto, quando existe uma oração dependente começando um período, seguida de uma conjunção, a consoante no começo da conjunção é excluída se o morfema da última palavra da oração subordinada acabar em consoante.
_C1 + C2_ → _C1_
O fonema /i/ cai quando ele inicia uma conjunção ou uma posposição precedida por uma vogal.
_V + i_ → _V_ + Casos de eliminação Caso Exemplo Pronúncia Tradução C1 + C2 → C2akutuk + je → Akutu je./akutuk/ + /je/ → /akutu je/Eu furo.pẽesak + te → Pẽesa te?/pẽesak/ + /te/ → /pẽesa te/Vocês veem?C1 + C2 → C1'g̃a kutuk + ramũ → 'g̃a kutugamu/ʔŋa kutuk/ + /ɾamũ/ → /ʔŋa kutugamũ/quando ele furou_V + _i_ → _V_ko + ipe → kope/kɔ/ + /ipe/ → /kɔpe/para a roça
Metátese Quando um morfema terminado em consoante é seguido por glotal-vogal, ele tende a ser incorporado entre a glotal e a vogal.
_C + ʔV_ → _ʔVC_ +Caso de metáteseExemploPronúnciaTradução'u'yp + -'i'i → 'u'y'wi'i/ʔuʔɨp/ + -ʔiʔi → /ʔuʔɨʔwiʔi/flecha pequenapit + 'ok → pi'rok/pit/ + /ʔɔk/ → /piʔɾɔk/tirar o couro
Nasalização Em ambiente nasal, algumas vogais orais e consoantes se tornam nasais.
C/V → C/V[+nasal] \N +Casos de nasalizaçãoCasoExemploPronúnciaTraduçãoV → V[+nasal] \Npanakũ + uu → panakũũũ/panakũ/ + /uu/ → /panakũũũ/cesto grande (para costas)C → C[+nasal] \Nsobradĩ + ipe → sobradĩme/sobɾadĩ/ + /ipe/ → /sobɾadĩme/para a aldeia Sobradinho
Dissimilação
Quando um morfema que tem vogal baixa anterior ou posterior recebe um sufixo o qual se possui a vogal central baixa, aquela tende a se tornar alta. /e/ + /a/ → /i/ /a/
/ɔ/ + /a/ → /u/ /a/ Quando um morfema tem a vogal posterior alta, uma semivogal velar ou uma consoante oclusiva velar labializada e possui um prefixo com a vogal posterior baixa, este tem tendência de se tornar central. /ɔ/ + /u/ → /a/ /u/
/ɔ/ + /w/ → /a/ /w/
/ɔ/ + /kʷ/ → /a/ /kʷ/ +Casos de dissimilaçãoCasoExemploPronúnciaTradução/e/ + /a/ → /i/ /a/-wewe + -aw → -wewiaw/-wewe/ + /-aw/ → /-wewiaw/voar/ɔ/ + /a/ → /u/ /a/aemono + -at → aemonuat/aemɔnɔ/ + /-at/ → /aemɔnuat/chefe/ɔ/ + /u/ → /a/ /u/-mo- + -fuk → mamuk/-mɔ-/ + /-fuk/ → /mamuk/fazer furar (causativo)/ɔ/ + /w/ → /a/ /w/o- + -wau → Awau./ɔ/ + /w/ → /awau/Ele vai./ɔ/ + /kʷ/ → /a/ /kʷ/-mo- + -kwap → -mag̃ap/-mɔ-/ + /-kʷap/ → /-maŋap/peneirar
Assimilação Quando o prefixo de um morfema que tem a vogal central baixa apresenta a vogal posterior baixa, a vogal do prefixo torna-se a vogal do radical.
/a/ + /ɔ/ → /ɔ/ /ɔ/ +Casos de assimilaçãoExemploPronúnciaTraduçãoa- + -o → Oo./a-/ + /-ɔ/ → /ɔɔ/Eu vou.sa- + -o'ok → sojo'ok/sa-/ + /-ɔ'ɔk/ → / sɔjɔ'ɔk/Separamo-nos.
Tonicidade Toda palavra formada por composição ou fixação é oxítona. Há mudança na tonicidade para que a última sílaba da nova palavra seja tônica. +Tonicidade em palavras compostasExemploPronúnciaTraduçãoeit + y → eiry/e'it/ + /ɨ/ → /e.i'rɨ/suco de mel'ok + ipe → 'ogipe/ʔɔk/ + /ipe/ → /ʔɔ.gi'pe/para casa
Ressilabificação Muda-se a divisão silábica quando o morfema de uma palavra termina em consoante e o próximo se inicia em vogal. Desse modo, só pode existir sílaba fechada no final de enunciado em kawaiwete. +Ressilabificação em palavras compostasExemploPronúnciaTraduçãokwat + ipe → kwaripe/kʷat/ + /i.pe/ → /kʷa.ri.pe/na estação da secamakajup + y → makajuwy/ma.ka.jup/ + /ɨ/ → /ma.ka.ju.wɨ/mingau de macaúba
Ortografia O alfabeto kawaiwete tem 20 letras. A escrita kawaiwete corresponde à pronúncia das palavras, portanto ela também preserva as características morfofonêmicas da língua. +LetraFonemaExemplo de pronúncia em portuguêsAa//casaEe// //elefante peleFf//farofaGg//galactoseG̃g̃//sing (inglês)Ii//hífenJj//meioKk//cabanaKw kw//quandoMm//maçãNn//narizOo//óperaPp//patoRr//arameSs//sapoTt//tatuUu//uvaWw//cauleYy//ywy (guarani)'//Pausa no meio de "ã-ã" Cada vogal apresenta um correspondente nasalizado, o qual é representado por <~>. Assim, existem <ã>, <ẽ>, <ĩ>, <õ>, <ũ> e <ỹ>.
Existem autores os quais colocam acento grave acima da segunda letra de ditongos orais.
Por não existir um órgão oficial da língua kawaiwete, variações ortográficas não só são esperadas, como também podem ser observadas em variadas pesquisas.
Gramática
Pronomes pessoais Em kawaiwete, os pronomes pessoais da terceira pessoa variam segundo o gênero do locutor, ou seja, eles indicam o gênero do remetente e do referente. +Pronomes pessoais (locutor masculino)Primeira pessoaSegunda pessoaTerceira pessoaSingularjeene'g̃a (masculino) ẽẽ (feminino)Pluraljane (inclusivo) ore (exclusivo)pẽ'g̃ã +Pronomes pessoais (locutor feminino)Primeira pessoaSegunda pessoaTerceira pessoaSingularjeenekĩã (masculino) kynã (feminino)Pluraljane (inclusivo) ore (exclusivo)pẽwã A primeira pessoa do plural pode ser compreendida de duas maneiras. Quando ela é inclusiva, contempla o interlocutor; quando é exclusiva, ele não se encontra referenciado.
Uma exceção relevante para a variação dos pronomes de acordo com o locutor é o discurso indireto. O pronome daquele o qual transmitiu a mensagem originalmente é mantido.
Pronomes interrogativos Em kawaiwete, frases interrogativas específicas são formadas por um pronome interrogativo, o qual ocupa a posição de destaque na oração, a primeira posição, e a partícula "te". O verbo varia no modo interrogativo. +Pronomes interrogativos em kawaiwetePronome interrogativoCircunstânciaTraduçãoExemploTradução do exemploma'apelocalonde