Abu Almondir Hixame ibne Maomé ibne Açaíbe Alcalbi (; Cufa, c. 737/8 — Cufa, 819 ou 821) foi um genealogista, historiador, antiquário e filólogo árabe. Considerado a maior autoridade da tradição clássica em genealogia árabe, exerceu profunda influência sobre a historiografia islâmica ao reunir e sistematizar informações sobre as tribos da Arábia, sua religião pré-islâmica, sua poesia e sua história. Filho do genealogista Maomé ibne Açaíbe Alcalbi, recebeu sua formação em Cufa e posteriormente estabeleceu-se em Bagdá, onde conquistou grande prestígio junto ao califa abássida Almadi . Compôs mais de 150 obras sobre genealogia, história, religião, literatura e filologia, embora apenas uma pequena parte delas tenha sobrevivido integralmente. Seus escritos, contudo, foram amplamente incorporados às obras de numerosos autores posteriores, tornando-se uma das principais bases da historiografia e da literatura genealógica islâmicas. Entre suas obras mais importantes destacam-se o , considerado a principal fonte da genealogia árabe clássica, e o , a mais importante obra preservada sobre a religião da Jailia e o culto aos ídolos na Arábia pré-islâmica. Embora tenha sido criticado por alguns autores sunitas em razão de suas posições religiosas e de aspectos de sua metodologia, sua autoridade permaneceu amplamente reconhecida tanto por contemporâneos quanto por estudiosos modernos, sendo considerado uma das figuras centrais na preservação da memória histórica e cultural dos antigos árabes.
Vida
Hixame nasceu provavelmente em Cufa por volta de 120 A.H. (737/738). Membro do ramo dos calbitas da confederação dos cudaaítas, também era conhecido como Ibne Alcalbi e Ibne Açaíbe. Recebeu sua formação inicial em Cufa com seu pai, Maomé ibne Açaíbe Alcalbi, genealogista, exegeta e historiador, estudando igualmente com outros eruditos da cidade. Posteriormente transferiu-se para Baguedade, onde consolidou sua reputação como genealogista, historiador e antiquário. Graças à vasta erudição que possuía, conquistou grande prestígio na corte do califa abássida Almadi , que frequentemente recorria aos seus conhecimentos. Segundo a Encyclopaedia of Islam, foi provavelmente durante esse reinado que permaneceu em Baguedade, sendo utilizado pelo califa em questões históricas e genealógicas relacionadas à contestação das pretensões omíadas na Alandalus. Após a morte de Almadi, continuou desfrutando de grande reputação entre os estudiosos e homens de governo. Faleceu em Cufa em 204 A.H. (819) ou, segundo outras tradições, em 206 A.H. (821), durante o califado de Almamune . Sua morte foi lamentada pelo próprio califa, testemunho do elevado prestígio intelectual de que desfrutava. Deixou mais de 150 obras, embora a maior parte delas tenha se perdido. Seu trabalho, entretanto, foi amplamente incorporado às obras de autores posteriores, entre eles Ibne Sade, Maomé ibne Habibe, Aljaiz, Albaladuri, Atabari, Ibne Duraide, Almaçudi, Abu Alfaraje de Ispaã, Iacute Alhamaui, Abede Alcadir Albaguedadi, Califa ibne Caiate e , muitos dos quais utilizaram extensamente seus escritos, nem sempre atribuindo-lhe explicitamente a autoria das informações.
Obra
A produção intelectual de Hixame ibne Alcalbi ultrapassou 150 obras, abrangendo genealogia, história, religião, literatura, filologia, poesia e antiguidades árabes. Embora a maior parte dessa produção tenha se perdido, seu conteúdo foi amplamente preservado por meio de citações e incorporações em obras de discípulos e historiadores posteriores, tornando-o uma das principais fontes da historiografia islâmica clássica. Segundo a Encyclopaedia of Islam, sua influência foi tão ampla que muitos autores utilizaram extensamente seus escritos sem indicar claramente a procedência das informações. Sua obra mais importante é o ("Compêndio das Genealogias"), o mais antigo tratado abrangente sobre a genealogia dos árabes conservado até a atualidade e a principal fonte utilizada pelos genealogistas, historiadores e autores de obras biográficas posteriores. A Encyclopaedia of Islam considera Hixame o mestre incontestado da genealogia árabe e observa que Ibne Hasme, em sua própria Jamhara, limitou-se em grande medida a difundir o trabalho de seu predecessor, frequentemente sem reconhecê-lo explicitamente. Em vida, Hixame era reconhecido como a principal autoridade em questões genealógicas, sendo consultado para solucionar disputas e arbitrar problemas relativos às linhagens tribais.
Outra obra fundamental é o ("Livro dos Ídolos"), considerada a fonte mais importante sobre a religião da Arábia pré-islâmica e o culto aos ídolos durante a Jailia. O livro tornou-se a principal referência sobre o tema para autores como Ibne Duraide, , Iacute Alhamaui e Abede Alcadir Albaguedadi, tendo sido traduzido para diversos idiomas modernos e objeto de numerosos estudos acadêmicos. Entre suas demais obras destacam-se , dedicado à genealogia e à história dos cavalos célebres da Arábia; , sobre os defeitos atribuídos às tribos árabes; , relativo aos becritas e taglibitas; , geralmente considerado uma continuação do Jamharat al-Nasab; e numerosas monografias sobre história tribal, batalhas, cidades, mercados, poesia e personagens da Arábia antiga. Também lhe são atribuídas as transmissões dos divãs de e , além do mais antigo tratado conhecido sobre os ("primeiros acontecimentos").
Recepção e legado
Hixame ibne Alcalbi destacou-se pelo rigor com que reunia e confrontava suas informações. Em suas obras, recorria não apenas às tradições orais, mas também a documentos escritos e a testemunhos de especialistas. Ao tratar da , por exemplo, utilizou o testemunho de seu pai, que havia participado do confronto, mas também o confrontou com o de outras testemunhas. Em diversas ocasiões chegou a transmitir os relatos de seu próprio pai por intermédio de outros narradores, demonstrando preocupação em distinguir as diferentes cadeias de transmissão. Suas pesquisas estenderam-se igualmente a fontes não árabes. Segundo a Encyclopaedia of Islam, consultou especialistas que tinham acesso a tradições bíblicas e palmirenas, manteve-se informado sobre descobertas arqueológicas no Iêmen, empregou um secretário chamado Jabala para traduzir textos em pálavi e examinou arquivos e tabuinhas pertencentes às comunidades cristãs de Hira. Embora parte de suas narrativas, sobretudo as referentes aos períodos mais remotos, apresente caráter lendário, a Encyclopaedia of Islam observa que isso decorre, em grande medida, da escassez de documentação escrita disponível para esses períodos, ressaltando que Hixame teve o mérito de registrar numerosas tradições orais que de outra forma teriam desaparecido.
Como seu pai, Hixame foi alvo de críticas por parte de alguns autores sunitas, motivadas tanto por divergências metodológicas quanto por rivalidades intelectuais e por suas simpatias em relação à família de Ali. Ainda assim, sua autoridade jamais deixou de ser reconhecida. Tanto admiradores quanto críticos recorreram amplamente às suas obras, que permaneceram como referência indispensável para o estudo das genealogias árabes, da religião pré-islâmica e da história antiga da Arábia. Entre os estudiosos modernos, Ignác Goldziher criticou sua credibilidade tomando literalmente algumas acusações formuladas pelos autores antigos, mas Theodor Nöldeke reavaliou essas críticas e restituiu sua reputação historiográfica. Desde então, a pesquisa moderna tem confirmado o papel central desempenhado por Hixame ibne Alcalbi na preservação da literatura e da tradição histórica árabes, considerando sua obra comparável à dos principais historiadores da Antiguidade oriental e clássica.
Bibliografia
Alcalbi Categoria:Naturais de Cufa Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Pessoas do Califado Abássida Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Árabes do século IX Categoria:Calbitas