Whatever Happened to the Man of Tomorrow? ( nas versões de 1991, 2003 e 2006, respectivamente) é uma clássica "história imaginária" de Superman escrita por Alan Moore. Desenhada por Curt Swan e arte-finalizada por George Pérez e Kurt Schaffenberger, foi publicada originalmente em duas partes, ambas lançadas em setembro de 1986 em Superman #423 e Action Comics #583, e propõe o que seria "a última história" do personagem, encerrando a narrativa estabelecida entre 1938 e 1986 e o trabalho do editor Julius Schwartz nas revistas.

Moore pretendia, com a trama, homenagear toda a mitologia até então construída com Superman, criando uma trama que sintetizasse tudo o que ele significava e que servisse como resolução para todos os elementos de seu enredo. Durante a história, Lois Lane narra, para um jornalista do Planeta Diário, os eventos que haviam transcorrido dez anos antes e que marcaram o fim da carreira de Superman após anos de combate ao crime: violentos e sucessivos ataques por parte de seus inimigos, a revelação pública de sua identidade secreta e a morte tanto de alguns de seus entes queridos quanto de supervilões.

Comummente citada como uma das melhores histórias do personagem, a trama já foi apontada por crítica e público como uma das mais memoráveis histórias em quadrinhos já publicadas e se tornou, ainda, uma referência sobre como "encerrar" uma revista e sua continuidade.

O termo "Homem do Amanhã" (Man of Tomorrow) é uma referência ao conceito de "Übermensch" citado em Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche. A obra do filósofo alemão foi uma das bases para a criação do personagem.

Antecedentes e contexto

A revista Action Comics #1, lançada em abril de 1938 pela DC Comics (então denominada "National Allied Publications"), marcou o início da publicação do personagem Superman, criado por Jerry Siegel e Joe ShusterJONES, p. 80-84 e, já naquele momento, as histórias do personagem se mostraram um sucesso, com a tiragem de 200 mil exemplares da revista esgotando-se rapidamente. A partir de sua quarta edição, Action já começaria a apresentar um significativo aumento em suas vendas, em comparação com os demais títulos da National: entre 1938 e 1939, já possuía uma tiragem de mais de 500 mil exemplares.

A popularidade do personagem seguiria aumentando, e, na década de 1940, cada exemplar de Action Comics vendia 900 mil cópias, uma tiragem à época superada apenas pela revista Superman, que vendia cerca de 1,25 milhão de exemplares por mês. No decorrer das décadas seguintes, o personagem passaria por significativas mudanças, e as tramas publicadas também evoluiriam, como um reflexo do cotidiano dos Estados Unidos: Se nas suas primeiras aparições Superman enfrentava criminosos comuns e políticos corruptos, com o tempo suas histórias passariam a ganhar um viés mais "extraordinário" com o surgimento dos primeiros "supervilões" a enfrentar o personagem. Com o surgimento do Comics Code Authority, em 1954, foram impostas uma série de regras que visavam a impedir que as histórias influenciassem negativamente as crianças americanas, e a necessidade de se criar histórias "mais leves" para a revista seria imperiosa na caracterização do personagem: os conceitos de "bom-mocismo" começariam a ser fortemente representados e os atos do personagem fariam com que ele fosse visto de forma pouco elogiosa como um "super-escoteiro".Charlie McCollum (26 de junho de 2006). "Times change, but Superman endures as an American cultural icon". The Mercury News, p. 4C. LifeStyle.

Com a publicação, na 123ª edição da revista The Flash, da história "Flash of Two Worlds", surgiria o conceito do "Multiverso DC", uma representação ficcional da interpretação da mecânica quântica que propõe a existência de universo paralelos. A partir da história, ficaria estabelecido que os personagens surgidos durante o período denominado "Era de Ouro dos Quadrinhos" (entre 1938 e 1955), bem como as histórias por eles protagonizadas, pertenceriam a um universo paralelo denominado Terra 2, distinto daquele em que ocorriam as histórias publicadas pela editora durante a década de 1960. Como as histórias de Superman vinham sendo publicadas ininterruptamente, era preciso esclarecer quais edições de Action Comics pertenceriam ao cânone estabelecido, e em 1969 ficou decidido que o personagem surgido em Action Comics #1 era Kal-L, o Superman da Terra 2 e somente as histórias publicadas durante a década de 1960 poderiam ser consideradas como protagonizadas pelo "Superman da Terra 1".

O "multiverso" acabaria se revelando um conceito excessivamente confuso: inúmeros universos paralelos foram surgindo nos anos seguintes, confundindo e afastando leitores. Frente a esta situação, a editora decidiu que era preciso "unificar" todas as publicações sob um único universo coeso e compartilhado. Mas, para poder renovar os personagens, era preciso encerrar tudo que vinha sendo publicado. Aproveitando que 1985 marcaria o 50.º aniversário da editora, a DC Comics decidiu lançar "Crise nas Infinitas Terras", uma minissérie em 12 edições que causaria a destruição de todas as "terras paralelas", estabelecendo uma nova, revitalizada história.

Produção

Com a conclusão do evento "Crise nas Infinitas Terras", a continuidade ficcional iniciada na década de 1960 seria encerrada, e a partir de outubro de 1986 até dezembro daquele ano, o único título protagonizado por Superman seria a minissérie The Man of Steel, escrita e desenhada por John Byrne, que fora contratado pela DC Comics para reformular o personagem, criando inclusive uma uma nova origem. A partir de The Man of Steel que seriam contadas as novas histórias do personagem, estabelecendo um novo cânone.MILLER, p.35-44

O editor Julius Schwartz, responsável pelas revistas do personagem desde a década de 1970, deixaria a função, e passou a buscar um roteirista para a sua última história no cargo. Sua intenção era fazer "a última história" do personagem. Inicialmente, Schwartz pretendia ter Jerry Siegel, cocriador do personagem e autor de suas primeiras histórias, como o roteirista, e embora este tenha se mostrado bastante entusiasmado com a ideia, não pode aceitar.

Schwartz, durante uma conversa com o escritor britânico Alan Moore - que à época escrevia a aclamada revista Swamp Thing - expôs seu problema, e Moore rapidamente se ofereceu, brincando que, se Schwartz contratasse outra pessoa, ele o assassinaria. Moore então, se debruçou sobre todos os elementos da mitologia do personagem, como a Supergirl, a Legião de Super-Heróis, a cidade engarrafada de Kandor, a amizade com Jimmy Olsen e Perry White, o triângulo amoroso com Lois Lane e Lana Lang e o relacionamento com Krypto, o Super-Cão, produzindo um roteiro com o objetivo de representar qual seria "história final" das revistas do personagem, encerrando tudo que havia sido escrito até então.Paul Kupperberg. "Sobre 'O Que Aconteceu com o Homem de Aço?'". Publicado em Grandes Clássicos DC, vol. 9: Alan Moore, p. 164. ISBN 85-7351-247-4. Acessado em 4 de junho de 2011.

Para desenhar a história, Schwartz afirmou nunca ter tido dúvida de quem contratar: Curt Swan que, durante a década de 1950 e até metade da década seguinte, foi o responsável pela arte da tira de jornal do personagem e continuaria nos anos seguintes a desenhar inúmeras histórias do personagem, desenhando-o de tal forma que chegou a ser apontado como "artista definitivo" do personagem.

Enredo Whatever Happened to the Man of Tomorrow? transcorre da seguinte forma: Parte 1: Superman #423 Quando um repórter entrevista Lois Lane, então casada com um homem chamado Jordan Elliot, para uma matéria sobre "os últimos dias de Superman", ela começa a explicar o que havia acontecido para que o herói desaparecesse, dez anos antes: Após muitos confrontos, Superman (e a cidade de Metrópolis) viviam dias relativamente tranquilos, com os quatro dos mais perigosos inimigos do personagem inativos. Brainiac - que, à época, já havia convertido todo o seu corpo numa estrutura robótica - havia sido danificado além do reparável, Lex Luthor estava desaparecido há anos, e Terraman e o Parasita haviam destruído um ao outro. Segundo a própria Lois, "parecia não haver mais contra quem lutar", então Superman passou a se dedicar à realização de pesquisas no espaço.MOORE, p. 167-168

E retornando de uma destas pesquisas que Superman encontra-se frente ao primeiro incidente: Metrópolis destruída, vítima não de um atentado à bomba, mas, surpreendentemente, de Bizarro - que até então era um ser bem-intencionado, mas dotado de um raciocínio reverso que o levava a fazer o contrário do que pretendia - e, quando Superman exige uma explicação, Bizarro diz que tudo era parte de um plano de seu "autodesenvolvimento" para se tornar a "duplicata imperfeita perfeita": já que Superman era um "super-herói" e salvava vidas, ele decidiu se tornar um vilão e matar; já que o planeta Krypton foi destruído e Super-Homem veio à Terra como um bebê, Bizarro decidiu destruir o Mundo Bizarro e vir a Terra como um adulto; e já que Superman estava vivo, Bizarro havia decidido se suicidar usando um pedaço de Kryptonita azul.MOORE, p. 169-171

Na continuidade até então estabelecida, Clark Kent havia deixado de ser um repórter do Planeta Diário e havia se tornado âncora de um telejornal ao lado de Lana Lang. Aproveitando-se disso, os vilões Mestre dos Brinquedos e Galhofeiro expõem a identidade secreta de Superman ao vivo: duas caixas são enviadas ao estúdio minutos antes do início da exibição do programa daquela noite. De uma saem brinquedos automatizados que começam a destruir as instalações. Todos os presentes buscam se afastar da linha de fogo, mas Kent é atingido diretamente, e é revelada a sua invulnerabilidade: apenas suas roupas haviam sido atingidas, revelando que sob o terno estava o uniforme azul e vermelho. Lana se espanta com a descoberta, e os vilões, através de um dos bonecos, revelam suas identidades e como haviam descoberto o segredo: através de Pete Ross, amigo de infância de Kent em Smallville, e cujo cadáver estava dentro da segunda caixa. Superman rastreia as ondas de rádio da transmissão e encontra o esconderijo dos dois.MOORE, p. 171-176

Durante o enterro de Ross, Superman revela sua preocupação:

thumb|O Polo Norte, local onde foi construída a Fortaleza da Solidão.

Enquanto Superman abandona a identidade de Clark Kent,MOORE, p. 176 Lex Luthor procurava no Ártico os restos de Brainiac, destruídos em Action Comics #545, para estudá-los. Quando o crânio robótico de Brainiac revela-se ainda senciente, ataca Luthor, dominando-o mentalmente e controlando seu corpo.MOORE, p. 177-179 O híbrido Luthor-Brainiac então sequestra o Homem de Kryptonita a fim de executar sua vingança contra Superman.MOORE, p. 184