Na Cama com Madonna (; internacionalmente, In Bed with Madonna) é um documentário musical estadunidense de 1991, dirigido por Alek Keshishian, que acompanha Madonna durante a turnê Blond Ambition World Tour (1990). A obra alterna números musicais e momentos fora do palco, apresentando a artista em situações profissionais e pessoais ao longo da excursão, incluindo conflitos com autoridades, problemas de saúde, reencontros familiares e interações com pessoas próximas e celebridades. O projeto foi originalmente idealizado como um filme-concerto, mas Keshishian decidiu concentrar a narrativa nos bastidores ao perceber o potencial dramático do cotidiano da equipe. Madonna financiou a produção e também atuou como produtora executiva, enquanto o diretor adotou uma linguagem visual inspirada no cinéma vérité, filmando em preto e branco os momentos fora dos palcos e a cores as apresentações musicais.

Lançado de forma limitada em 10 de maio de 1991, Na Cama com Madonna foi exibido cinco dias depois fora de competição no Festival de Cannes e estreou mundialmente em 24 de maio. A recepção crítica foi, em sua maioria, favorável; destacando a franqueza da abordagem, os bastidores retratados e a presença de palco de Madonna, embora algumas avaliações tenham apontado certa artificialidade e excesso de controle na construção de sua figura pública. Por sua participação, a cantora foi indicada ao Framboesa de Ouro de Pior Atriz. Também foi bem-sucedido comercialmente, ao arrecadar cerca de 29 milhões de dólares nas bilheterias mundiais, frente a um orçamento de 4,5 milhões. Além disso, tornou-se o documentário de maior bilheteria de todos os tempos, até ser ultrapassado por Bowling for Columbine em 2002. Em 1992, Oliver Crumes, Kevin Stea e Gabriel Trupin, dançarinos da turnê que participaram do documentário, processaram Madonna e as produtoras Boy Toy Inc., Miramax e Propaganda Films, alegando "invasão de privacidade e exposição indevida"; o caso terminou em acordo extrajudicial em 1994.

Com o passar dos anos, Na Cama com Madonna consolidou-se como uma obra de forte legado cultural, sobretudo por sua importância para a visibilidade da comunidade LGBT e por influenciar a cultura das celebridades, reality shows e documentários musicais lançados subsequentemente. O longa-metragem passou a ser reconhecido como pioneiro por apresentar homens homossexuais de forma natural e visível para o grande público, foi ainda comparado a Paris Is Burning (1990) por tratar de temas ligados à identidade queer e ao estrelato. Na cultura popular, Na Cama com Madonna foi parodiado e referenciado em produções como o episódio "Rockumentary", da série Blossom, o mocumentário Medusa: Dare to Be Truthful, o esquete In Bed with French & Saunders e uma sátira apresentada no especial de Natal de The RuPaul Show.

Enredo Ambientado na intimidade dos bastidores da Blond Ambition World Tour, o documentário acompanha Madonna desde 6 de agosto de 1990, logo após o concerto final em Nice, quando, em um quarto de hotel, a artista relembra a turnê e reflete sobre o impacto de seu encerramento. Em seguida, a narrativa retorna a abril de 1990, ao início da excursão no Japão, onde a temporada de chuvas impõe mudanças inesperadas nos figurinos e já revela o desgaste físico e emocional da artista. Ao longo dessa primeira etapa, surgem problemas técnicos em apresentações nos Estados Unidos, encontros com familiares dos bailarinos e tensões nos bastidores, além de episódios envolvendo personalidades do meio artístico.

Na passagem pela América do Norte, a obra registra momentos decisivos da turnê. Em Toronto, agentes da polícia surgem para advertir a equipe e ameaçam prender Madonna por suposta obscenidade devido à simulação de masturbação em "Like a Virgin", mas a mesma se recusa a alterar o número. Em Detroit, cidade natal da artista, o tom da narrativa se torna mais íntimo ao apresentar o reencontro com o pai, Tony Ciccone, o reencontro com familiares e conhecidos da infância, a preocupação com o irmão Martin e a visita ao túmulo da mãe ao som de "Promise to Try". Paralelamente, os problemas de garganta se agravam, levando ao cancelamento de algumas apresentações e a um período de isolamento em Nova Iorque, enquanto os atritos com Warren Beatty se intensificam diante da presença constante das câmeras.

Durante a passagem pela Europa, última fase da turnê, a artista continua envolvida em situações controversas. Na Itália, o papa João Paulo II tenta impedir as apresentações, e uma das duas datas em Roma é cancelada. Em Madri, Sandra Bernhard surge entre as companhias mais próximas de Madonna, enquanto uma festa organizada por Pedro Almodóvar desperta o interesse de Madonna por Antonio Banderas, logo frustrado pela descoberta de que o ator é casado. À medida que a turnê chega ao fim, jogos de verdade ou desafio, revelações pessoais e despedidas entre Madonna, dançarinos e vocalistas de apoio antecedem o desfecho, concluído com uma montagem ao som de "Keep It Together" e pelo pedido para que Alek Keshishian interrompa a gravação.

Turnê

miniatura|esquerda|180px|Madonna apresentando "Open Your Heart" como a segunda faixa do repertório da Blond Ambition World Tour. A Blond Ambition World Tour foi a terceira turnê de Madonna, voltada à divulgação de Like a Prayer (1989), seu quarto álbum de estúdio, e de I'm Breathless (1990), trilha sonora de Dick Tracy. Em janeiro de 1989, a Pepsi-Cola anunciou que havia assinado um contrato de US$ 5 milhões com Madonna para a participação da artista e de sua nova faixa de trabalho, "Like a Prayer", em um comercial de televisão. Além disso, a Pepsi ficaria responsável por patrocinar a próxima turnê mundial da cantora, anunciada como Like a Prayer World Tour. Após o lançamento do videoclipe de "Like a Prayer", que apresentava uma igreja e símbolos católicos, como estigmas, cruzes em chamas, alusões à Ku Klux Klan e Madonna beijando um santo negro (Leon Robinson), grupos religiosos de várias partes do mundo, incluindo o Vaticano, manifestaram repúdio imediato, classificando o conteúdo como blasfemo e pedindo um boicote nacional contra subsidiárias da Pepsi e da PepsiCo. Em seguida, a empresa suspendeu a exibição do comercial e rescindiu seu contrato de patrocínio com Madonna. A Sire Records anunciou oficialmente a Blond Ambition World Tour em 16 de novembro de 1989.

Os espetáculos, com direção e coreografia de Vincent Paterson, foram divididos em cinco segmentos: Metropolis, inspirado pelo filme homônimo de 1927; Religious, tocando em temas religiosos; Dick Tracy, com características do longa-metragem de mesmo nome e de cabarés; Art Deco, inspirado pelos primeiros filmes de Hollywood e trabalhos de Tamara de Lempicka; e o bis, incluindo duas canções. A direção de arte ficou a cargo de Christopher Ciccone, irmão de Madonna, enquanto os figurinos foram criados pelo estilista Jean-Paul Gaultier. A turnê foi recebida com análises positivas de críticos de música e entretenimento, que destacaram a sua natureza teatral e figurinos, e foi agraciada com o prêmio de Produção Mais Criativa de Cenário no Pollstar Concert Industry Awards. Foi também bem sucedida comercialmente, arrecadando 62,7 milhões de dólares ao longo de 57 concertos.

Antecedentes e produção A direção do documentário ficou a cargo de Alek Keshishian, da Propaganda Films, que já havia dirigido videoclipes para Elton John e Bobby Brown. David Fincher, que já havia trabalhado com Madonna nos videoclipes de "Express Yourself", "Oh Father" e "Vogue", foi inicialmente escalado para o projeto, mas desistiu pouco antes do início da turnê. O interesse de Madonna em trabalhar com Keshishian surgiu após a artista assistir ao projeto de conclusão de curso do diretor em Harvard, um curta-metragem intitulado Wuthering Heights. De acordo com o autor J. Randy Taraborrelli, "seu instinto lhe dizia que aquele cineasta bonito, de cabelos longos e ideias inovadoras, tinha o perfil de artista descolado e talentoso necessário para dar ao longa-metragem o toque certo". Madonna convidou Keshishian para produzir um especial sobre a turnê para a HBO e seguiu com o diretor para o Japão, onde a excursão começou em abril de 1990. Inicialmente, com a intenção de fazer um filme-concerto em moldes mais convencionais, Keshishian alugou "tudo o que já havia sido feito no campo dos documentários musicais e dos filmes de concerto", mas decidiu não assistir a nenhum desses trabalhos, por concluir que queria algo diferente. Segundo o mesmo, os bastidores tinham algo de caótico e teatral, reminiscente do universo de Fellini, o que o levou a convencer Madonna a transformar o projeto em um filme propriamente dito, centrado nessa dinâmica e com algumas apresentações inseridas ao longo da narrativa. Acrescentando que, "quando percebi que aquilo podia resultar em algo mais ambicioso, muitos diziam a Madonna: 'Não seja louca. Veja o que aconteceu com Rattle and Hum e como foi um fracasso'. Mesmo assim, ela decidiu seguir o meu conselho, e não nos outros". Além de financiar o projeto, Madonna também atuou como produtora executiva. Em entrevista a James Kaplan, da Entertainment Weekly, a artista explicou: Senti que era algo que eu precisava fazer. Criei um vínculo muito forte com aquelas pessoas. Em muitos momentos, senti-me como irmã, mãe e filha delas, e também pensava que todos ali eram capazes de tudo. Sentia que, juntos, poderíamos fazer qualquer coisa no palco. A intensidade e a complexidade do espetáculo acabaram nos aproximando. Ao final, embora a ideia inicial fosse apenas documentar o espetáculo, quando comecei a assistir ao material gravado pensei: 'Isso é muito interessante. Há um filme aqui. Há algo aqui'.

Em entrevista ao Good Morning America, Madonna disse que sua principal intenção era "questionar a forma como tratamos certas figuras públicas, exigindo delas uma perfeição impossível. Nós as desumanizamos e passamos a agir como se não pudessem falhar ou cometer erros". Taraborrelli ressaltou que Madonna concedeu a Keshishian "a oportunidade de acompanhar de perto seu mundo e sua vida ao longo dos quatro meses da turnê". A fim de filmar Madonna e as pessoas ao redor com maior discrição, o diretor posicionava as câmeras atrás de espelhos unidirecionais, exigia que a equipe usasse roupas pretas o tempo todo e proibia qualquer interação com os personagens. Todas as noites, após as filmagens, registrava em um computador tudo o que havia acontecido ao longo do dia para manter o controle do material gravado. Enquanto as entrevistas com os dançarinos e com a equipe da turnê foram realizadas nas duas primeiras semanas no Japão, as apresentações foram filmadas durante os três espetáculos em Paris, em julho. Segundo Keshishian, com isso, foi possível definir com precisão a sequência das apresentações.

Os bastidores foram apresentados em preto e branco para lhes dar um "ar de cinéma vérité", enquanto as apresentações foram mantidas em cores. Keshishian explicou que "essa divisão lhe parecia interessante: a cor representava o artifício do espetáculo em contraste com a realidade do documentário e, ainda assim, uma se espelhava na outra". Segundo o diretor, essa escolha levou a New Line Cinema, então responsável pela distribuição, a abandonar o projeto. Com mais de 200 horas de material filmado, o diretor levou mais de um mês e meio para condensá-lo até chegar a uma duração razoável. Com mais de três horas de duração, a primeira versão foi considerada longa demais por Harvey Weinstein, executivo da Miramax, que obrigou Keshishian a encurtá-la. O Cemitério e Mausoléu Calvary, em Kawkawlin, Michigan, esteve entre as locações da produção. Entre as participações especiais estão Al Pacino, Mandy Patinkin, Olivia Newton-John, Antonio Banderas, Sandra Bernhard, Kevin Costner e Warren Beatty, com quem Madonna se relacionava na época. Segundo a cantora, Beatty "não levou o filme muito a sério durante as filmagens – achava que eu estava apenas fazendo um vídeo caseiro".

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