Agnes ou Inês de CourtenayNão confundir com outra Inês de Courtenay, filha de com Iolanda de Hainaut, casada em 1217 com , príncipe da Acaia. (1133 - 1184/1185) foi a primeira esposa do rei Amalrico I de Jerusalém e uma figura influente neste reino cruzado. Era filha do conde Joscelino II de Courtenay com sua esposa Beatriz (viúva de Guilherme, senhor de Saone), irmã do conde Joscelino III de Edessa, mãe do rei e da rainha Sibila de Jerusalém.
Família thumb|120px|left|Brasão de armas da família Courtenay, condes de Edessa
Desde 1118, a família Courtenay governou o Condado de Edessa, o estado cruzado do Levante mais a norte e a leste. Joscelino I de Courtenay chegou ao Médio Oriente na Cruzada de 1101 e, por serviços prestados ao seu primo direito Balduíno II de Jerusalém, dele recebeu o condado.
Joscelino II sucedeu ao seu pai em 1131, e tentou sem sucesso defender as suas extensas fronteiras contra os hostis vizinhos muçulmanos. Inês cresceu em Edessa até à tomada da cidade pelo atabei Zengui a 24 de dezembro de 1144. Joscelino II fugira para Turbessel, onde se manteve no controlo do restante condado a oeste do rio Eufrates.
Em cerca de 1147/8, Joscelino II casou a filha com Reinaldo de Marach, um dos seus vassalos. O senhorio de Marache pertencera previamente a um senhor chamado Balduíno, morto em novembro de 1146, durante uma tentativa frustrada de reconquista de Edessa. Uma vez que Reinaldo não seria parente de Balduíno, é bastante possível que o conde tenha oferecido a mão da sua filha, na época com cerca de 15 anos de idade, ao mesmo tempo que confiava o senhorio a Reinaldo.
Sem deixar descendência, Reinaldo de Marache morreria na batalha de Inabe a 29 de junho de 1149, juntamente com Raimundo de Antioquia. Noradine aproveitou esta vitória para tomar o resto dos territórios de Edessa e parte do principado de Antioquia. Joscelino seria capturado na reconquista muçulmana de Turbessel a 4 de maio de 1150, e morreria na prisão da cidadela de Alepo em 1159.Grousset 1935, pp. 293-4
Incapaz de assegurar a defesa dos seus domínios, em agosto de 1150 a condessa Beatriz vendeu o que restava do condado ao imperador bizantino Manuel I Comneno. Depois mudou-se com o tesouro da venda para Saone (actual Fortaleza de Saladino) no Principado de Antioquia, que tinha herdado do seu primeiro marido. Posteriormente mudar-se-ia para o Reino Latino de Jerusalém, juntamente com a sua família. Não existem registos de Beatriz, Inês e do jovem em Jerusalém antes de 1157.
thumb|Ilustração da batalha de Inabe na Passage outremer ()
Inês terá contraído noivado, e possivelmente casamento, com o irmão mais velho de Balião de Ibelin, Hugo, que acabaria por ser capturado em batalha. Em 1157, o então conde Amalrico I de Jafa e Ascalão, herdeiro aparente do seu irmão Balduíno III de Jerusalém, desposou-a após, segundo alguns relatos, a ter sequestrado contra a sua vontade. Deste casamento nasceram: Sibila (1159/1160-1190), rainha de Jerusalém de 1186 a 1190 com Guido de Lusinhão, sucedendo ao seu filho Balduíno V de Jerusalém Balduíno IV (1161–1185), sucessor do pai no trono de Jerusalém, governando de 1174 a 1185 Alice, morreu durante a infância
O patriarca latino de Jerusalém Foucher de Angoulême opunha-se a este matrimónio por motivos de consanguinidade, uma vez que ambos os noivos possuíam um trisavô em comum, Guido I de Montlhéry,Grousset 1935, p. 939 pelo que provavelmente só se casaram depois da morte do patriarca. Fixaram morada na corte real, onde a rainha Melisende, que fora testemunha do seu casamento, exerceu pontualmente a regência em nome do seu filho Balduíno III enquanto ele estava em campanha.
Anulação do casamento thumb|left|Coroação de Amalrico I de Jerusalém (iluminura da Historia de Guilherme de Tiro e continuação, , BNF)
Melisende foi vitimada por uma apoplexia em 1161, morrendo a 11 de setembro em Nablus, e no ano seguinte o rei Balduíno III morreu inesperadamente, sem filhos, deixando o Amalrico como herdeiro do trono.
É provável que se tenha temido que, caso Inês se tornasse rainha, o seu irmão Joscelino III, conde titular mas sem terras, sentisse apoios para elevar o seu estatuto no reino. É também possível que as objecções se baseassem em uma eventual bigamia de Inês que, segundo alguns cronistas e até historiadores modernos teria contraído matrimónio, não apenas noivado, com Hugo de Ibelin.
Esta hostilidade contra Inês foi provavelmente exagerada pelo cronista Guilherme de Tiro, a quem alguns anos mais tarde esta impediu que fosse nomeado para o cargo de patriarca latino de Jerusalém. Os escritores que continuaram a obra de Guilherme perpetuaram a fama imoral de Inês «não deveria haver tal rainha numa cidade tão santa como Jerusalém». Descrita como frívola, ambiciosa e intriguista, por outro lado Inês era um alvo fácil por não possuir valor político - o condado de Edessa do seu irmão estava firmemente em posse dos zênguidas.
Os principais nobres da Haute Cour (a corte do reino de Jerusalém) recusaram-se a apoiar a coroação de Amalrico a menos que este anulasse seu casamento com Inês. Amalrico concordou, com a ressalva de que os seus filhos, Balduíno e Sibila, permanecessem herdeiros legítimos e legais do trono.Grousset 1935, pp. 419-421 Adicionalmente, Inês manteria o seu título matrimonial de condessa, juntamente com uma parte dos lucros do Condado de Jafa e Ascalão. Assim que as negociações foram concluídas, o casamento foi anulado por motivos de consanguinidade.
Reinado de Amalrico I thumb|Iluminura do casamento de Amalrico I de Jerusalém com Maria Comnena
Apesar de a sua posição ter ficado assegurada no reino, foram tomadas disposições para Inês não ter influência na corte nem lugar na vida dos seus filhos: Balduíno foi educado por Guilherme de Tiro na corte e Sibila foi acolhida pela sua tia-avó Ioveta da Betânia no convento de São Lázaro. Em 1167, Amalrico fez uma importante aliança política com o Império Bizantino ao casar-se com a princesa Maria Comnena, sobrinha-neta do imperador . Inês casou-se com o seu anterior noivo (ou reuniu-se com o seu anterior esposo) Hugo de Ibelin em 1163, mas este morreria durante uma peregrinação a Santiago de Compostela em c. 1169.
Inês contraíu um quarto casamento em 1170, com Reginaldo de Sídon. Uma passagem confusa na crónica de Guilherme de Tiro levou alguns historiadores a afirmar que o pai deste teria anulado este matrimónio também por motivos de consanguinidade, mas historiadores modernos desacreditam esta informação - na verdade, o pai de Reginaldo já tinha falecido, e a passagem provavelmente refere-se ao casamento com Amalrico. Em outras passagens, Guilherme e documentos oficiais continuam a referi-la como esposa de Reginaldo. Em dezembro de 1179 o casal foi testemunha de um foral, no qual o seu nome surge como "Inês, Condessa de Sídon". Este casamento terá provavelmente durado quatorze anos, até à sua morte. Também os rumores de Inês ter tomado alguns amantes, devido ao apoio político que conferiu a várias personalidades do reino, serão provavelmente fruto da má relação da condessa com o principal cronista da sua época.
Reinado de Balduíno IV
Amalrico I morreu a 11 de julho de 1174, subindo ao trono Balduíno IV de Jerusalém - leproso, na menoridade e sem esposa nem descendência. Miles de Plancy, o primeiro regente e bailio do jovem rei, foi acusado de abusar do seu cargo, pelo que os nobres do reino exigiram a sua renúncia. Perante a sua recusa, foi assassinado no final do ano durante uma viagem de inspecção a São João de Acre e Raimundo III de Trípoli, com o apoio de Reginaldo de Sídon, esposo de Inês, e dos Ibelin, a família do seu primeiro noivo, foi nomeado pela Haute Cour para o substituir.
Durante este período, Inês voltou à corte e restabeleceu relações com o filho. Chegaria a acompanhá-lo ao conselho do reino e até em campanhas militares. Devido à doença do jovem rei, a rainha viúva Maria Comnena pretendia que a sucessão recaísse na sua filha Isabel, pelo que mantinha uma rivalidade com Inês. Mas de momento, sem influência na corte, retirou-se para Nablus.
Sibila voltou à corte assim que atingiu idade núbil, e em 1176 o rei casou-a com Guilherme de Monferrato, concedendo-lhes o Condado de Jafa e Ascalão, de que Inês recebia parte das rendas por legado de Amalrico I. Guilherme morreria em 1177, deixando Sibila grávida do futuro Balduíno V de Jerusalém.
Ainda em agosto de 1176, o conde da Flandres Filipe da Alsácia chegou em cruzada à Terra Santa, pretendendo casar as irmãs de Balduíno IV com vassalos seus. Advogava para isto que tinha mais direitos do que o regente Raimundo III de Trípoli, por ser o parente mais próximo do rei por via paterna: Filipe era neto de Fulque de Jerusalém, e por isso primo direito de Balduíno; Raimundo era sobrinho de Melisende de Jerusalém, e assim primo direito do pai de Balduíno. Mas a Haute Cour recusou-lhe este direito, com Balduíno de Ibelin chegando a insultá-lo publicamente - os Ibelin eram os partidários da rainha Maria Comnena, pelo que possivelmente terão usado a sua influência para assim tentar casar uma das irmãs do rei com o próprio Balduíno de Ibelin. Ofendido, o flamengo abandonou o reino, preferindo então lutar nas campanhas do Principado de Antioquia.
thumb|Guilherme de Tiro a escrever a sua Historia (tradução do francês antigo do , Biblioteca Nacional da França, Paris, MS 2631, f.1r)
Entretanto, Balduíno IV atingiu a maioridade aos 15 anos de idade, cessando a regência do conde de Trípoli. Inês foi uma figura influente na corte, apesar de não tanto quanto afirmaram alguns historiadores da época, influenciados por Guilherme de Tiro. Com dinares do tesouro real e o auxílio de Raimundo III de Trípoli, resgatou o seu irmão Joscelino III, que seria nomeado senescal do reino e casado com Inês de Milly, filha de Henrique de Milly, senhor de Petra.
Também sob a influência da rainha-mãe, o genro de Balduíno de Ibelin, Amalrico de Lusinhão, foi nomeado condestável do reino em 1179. Esta nomeação terá ocorrido possivelmente de modo a afastá-lo politicamente da família do seu sogro, apesar de a continuação da Historia de Guilherme de Tiro (com forte tendência política para os Ibelin) alegar que a motivação fora ele ser amante de Inês.
No ano seguinte, Balduíno encarregou a mãe de nomear o Patriarca Latino de Jerusalém - previamente Balduíno III também tinha delegado a responsabilidade pelas nomeações de cargos da Igreja do reino à rainha Melisende. O escolhido foi Heráclio, arcebispo de Cesareia, e Guilherme de Tiro foi preterido. Terá sido esta a causa da hostilidade do cronista para com a rainha; a continuação da sua Historia chegou a afirmar que Heráclio era também amante de Inês.
A atitude popular dos muçulmanos locais quanto a Inês e ao seu filho seria registada pelo viajante Ibn Jubair: o rei cristão era chamado al-khinzir (o porco, referência ao animal considerado impuro, provavelmente relacionada com a sua doença e a sua fé cristã) e sua mãe Inês al-khinzira (a porca).
Questão sucessória Em 1179 Balduíno IV começou a planear o casamento de Sibila com Hugo III da Borgonha, mas na Primavera de 1180 ainda não tinha feito uma decisão. Aliado a , na Páscoa marchou sobre Jerusalém para tentar forçar o rei a casar a irmã com um favorito seu, provavelmente Balduíno de Ibelin, irmão mais velho de Balião. Em resposta, Balduíno apressou-se a casá-la com Guido de Lusinhão, irmão mais novo do condestável Amalrico, e Raimundo voltou a Trípoli sem entrar no reino.
thumb|left|Noivado e casamento de Sibila de Jerusalém com Guido de Lusinhão (Historia de Guilherme de Tiro e continuação, )